Sempre Foi Você

Carrie Elks · Capítulo 21 de 29

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Sempre Foi Você

Capítulo 20

 

15 de junho de 2010

 

Era um pouco constrangedor – e um tanto preocupante – Hanna não ter notado que havia

alguma coisa errada, até dois dias antes. Ela estava sentada no jardim de Tom, assistindo-o

perder a batalha contra uma churrasqueira a gás e tentando não rir, quando sentiu o primeiro

chute. Natalie viu como Hanna cobriu a barriga com mãos protetoras e pronunciou na hora:

– Você está grávida.

Elas tiveram uma longa discussão sobre a possibilidade de menstruar estando grávida,

seguida por uma corrida enlouquecida para encontrar uma farmácia aberta num domingo.

Natalie por fim voltou com três testes – cada um de uma marca –, uma sacola cheia de

vitaminas pré-natais e uma caixa de lenços para as lágrimas que ela sabia que viriam.

Agora elas estavam no carro de Tom, indo ao prestigioso Portland Hospital, no qual Tom

tinha marcado um ultrassom para ela. Apesar dos protestos de Hanna, ele dissera-lhe que ela

merecia os melhores cuidados, e tinha pagado pela primeira consulta.

– Já contou pra ele? – Tom perguntou enquanto o carro passava ao lado do Regent’s Park. A

grama estava coberta de corpos meio nus, desesperados para aproveitar a breve onda de calor

em Londres. Hanna se perguntou se o tempo em Nova York também estaria agradável.

– Ainda não – ela admitiu, abanando o rosto com a mão. Apesar do ar-condicionado

barulhento, ainda estava abafado no interior do carro, e ela não conseguia se refrescar de jeito

nenhum. – Quero ter a prova antes de ligar pra ele.

Ela estava temendo aquela conversa. Hanna tinha visões de Richard pulando no primeiro

avião e girando-a no ar numa declaração de amor. E se não fosse assim? Fazia quatro meses

desde que ela o vira pela última vez, e que ela o fizera prometer não contatá-la até que

estivesse pronto. Ela sentia que estaria quebrando o acordo se forçasse as coisas.

Ela não tinha ouvido nada dele – nem uma palavra – e estava evitando os Larsen por medo

de que ele fosse ficar com Meredith de vez. Esperar já era difícil; uma rejeição seria cem

vezes mais dolorosa.

– Três testes de gravidez não são prova suficiente? – Tom perguntou. Hanna viu a covinha

sobre o queixo dele tremer. – Você já devia ter contado pra ele.

– E se ele não quiser? – ela expressou seu maior medo. Dizer em voz alta não a fez se sentir

melhor.

– Não é escolha dele – Tom respondeu. Ele pegou a mão dela e esfregou o dedão sobre sua

palma. – E se ele não quiser, você sabe que sempre estarei aqui.

Ela sentiu um aperto no coração. Tom era bom demais com ela às vezes – e aquela

definitivamente era uma daquelas ocasiões.

O carro entrou no estacionamento particular do hospital. Do lado de fora, alguns fotógrafos estavam encostados nas paredes, esperando a próxima celebridade emergir.

– Tem certeza que quer entrar comigo? E se alguém te visse?

Se os paparazzi o vissem, ambos acabariam nas páginas dos jornais. O Portland Hospital

era o lugar preferido para partos de celebridades e os fotógrafos frequentemente ficavam do

lado de fora, esperando conseguir uma exclusiva.

– Ninguém vai me ver. Arranjei uma vaga perto da porta dos fundos, é só entrar e sair – ele

tirou algo do bolso. – Enfim, trouxe meu gorro.

Ela riu enquanto ele colocava o gorro preto de lã sobre os cachos loiros. Ele sempre sabia

como dissipar a tensão, fosse pedindo-a em casamento quando descobrira que estava grávida

– ao que ela respondeu não –, fosse colocando um gorro de inverno no meio do dia mais

quente dos últimos cinquenta anos. Hanna estava tão agradecida por tê-lo por perto.

O dinheiro de Tom falava – e tinha muito a dizer. A vaga deles era o melhor lugar no

estacionamento, e assim que entraram pela porta dos fundos, ela foi levada direto para a sala

de exames. Não houve espera ou formulários para preencher. Apenas algumas assinaturas e

ela já estava deitada na maca, com a blusa erguida e os jeans abaixados, enquanto um gel frio

era espalhado sobre a barriga.

– Vocês devem estar tão animados – a médica disse. Hanna sentiu-se corar com a inferência

e olhou para Tom. Ele não parecia nem um pouco perturbado.

– Estamos – ele piscou para Hanna, e ela tentou sorrir de volta.

– Bem, vou dar uma olhada e ver se está tudo bem, e então viro o monitor e mostro pra você

o que podemos ver – a voz da médica era calma e reconfortante, mas Hanna ainda sentia

medo. – Você acha que está de quatro meses, certo?

– Acho que sim.

– Bem, não vamos ver muita coisa, mas vou tentar mostrar o melhor pra vocês.

Hanna olhou para a barriga brilhante por causa do gel, e se perguntou como não tinha

suspeitado de nada. A protuberância parecia óbvia agora, com sua barriga se erguendo da

pélvis num pequeno arco.

Tom inclinou-se e pegou a mão dela. Ele parecia mais nervoso que Hanna, enquanto a

médica silenciosamente passava o aparelho pela sua pele. Hanna apertou a mão dele de volta,

dando-lhe um sorriso reconfortante para tentar acalmá-lo.

A médica virou-se e sorriu para ambos.

– Certo, parece que está tudo bem.

Deus, aquelas palavras eram perfeitas. Hanna não sabia que o bebê existia até dois dias

atrás, mas de repente seu mundo girava em torno de um ser menor que um abacate.

E, então, ela viu o monitor.

Seu queixo caiu ao mirar a imagem verde e preta. Lágrimas arderam em seus olhos enquanto

olhava a tela, e via o contorno minúsculo de um bebê. Ela não tinha esperado ver muito mais

que uma mancha, mas podia identificar uma cabeça, pernas e pequenos bracinhos se mexendo

à medida que a médica movia o aparelho pela sua barriga.

– Jesus – Tom sussurrou. Hanna virou-se e viu lágrimas escorrendo do rosto dele. A

garganta dela estava seca, e embora estivesse com a boca aberta, não conseguia falar.

Era um bebê. O bebê dela – dela e de Richard, e era tudo que ela queria. Nada no mundo

importava mais do que o pequeno ser crescendo dentro dela.

– O bebê parece estar perfeitamente saudável, e tem cerca de dez centímetros. Coloquei sua data provável de parto como três de novembro, mas como você não sabe a data da última

menstruação, é só uma estimativa.

– Você vai ter um bebê antes do Natal! – a animação de Tom era contagiante e Hanna estava

sorrindo loucamente. Já podia imaginar uma criancinha numa fantasia de Papai Noel, fofa,

quentinha e cercada de amor.

– Vou tirar algumas fotos pra vocês agora – a médica segurou o aparelho e apertou um botão

no teclado, os lábios virados para baixo em concentração. – Parece que o bebê não quer

posar. Ele ou ela é um pouco rebelde.

Uma pontada de orgulho aqueceu o coração de Hanna, e ela queria se abraçar de felicidade.

Estava grávida de um bebê saudável, lindo e rebelde, e em cinco meses seria mãe.

Mãe.

– Ele é tão lindo – Tom aproximou-se de modo que sua cabeça ficou ao lado da de Hanna, e

ambos encararam o monitor. O bebê moveu o braço outra vez, como se estivesse acenando.

– Ela – Hanna corrigiu, incapaz de desviar os olhos. Cinco meses parecia tanto tempo. Ela

começou a fazer uma lista mental de tarefas: mudar de casa, construir um quarto de bebê e

comprar um monte de equipamentos inúteis que ela nunca usaria.

– Certo, vou encaminhá-la para outra consulta. O obstetra vai querer vê-la semana que vem,

e eu farei mais alguns exames na vigésima semana – ela limpou a barriga de Hanna. Quando se

sentou e arrumou as roupas, a médica entregou as fotos para Tom, que as aceitou avidamente.

– Aí estão, papai. As primeiras da sua coleção.

Tom riu e não se deu ao trabalho de corrigi-la, fazendo Hanna se perguntar se ele já estava

se sentindo um tanto possessivo em relação ao filho dela. Ela não tinha certeza se isso era

bom ou não, e não queria complicar as coisas com Richard mais do que já eram difíceis.

Em seguida, pensou melhor. Se Richard se recusasse a ajudá-la, talvez fosse uma boa ideia

ter Tom ao seu lado. Ela não queria enfrentar aquilo sozinha, e ele parecia encantado com o

fato de ela estar grávida. Não era algo romântico entre eles; eles eram apenas amigos.

– Tom, você não pode dizer nada a Ruby até eu falar com Richard, tudo bem? – a última

coisa que ela queria era que os Larsen descobrissem antes que ela contasse para o pai.

– Minha boca é um túmulo. Mas você sabe que vou encomendar uma minicamiseta do Fatal

Limits pro seu filho, não é?

Ela riu.

– Esse bebê vai ser a criança mais descolada da rua com você como padrinho.

– Sério? Vou ser pai?

O entusiasmo dele a fez perder o fôlego. Eram as palavras certas, mas vindas da boca

errada.

– Padrinho – ela corrigiu, mas as palavras não pareceram reduzir o entusiasmo dele. – Você

pode mimar a criança e levar ele ou ela para tomar a primeira bebida.

– Posso fazer isso em breve?

– Só se for uma garrafa de leite – Hanna deixou que ele pegasse a mão dela enquanto saíam

da sala. – Enquanto isso, aceito massagens e refeições caseiras.

– Combinado – ele piscou e ela se permitiu sentir uma centelha de esperança. Se Tom

estava animado desse jeito, talvez Richard também ficasse.

 

***

Hanna não retornou ao escritório após a consulta. Ela precisava se acalmar, considerar as

implicações e se preparar para fazer a ligação. Pretendia ligar no fim da tarde, horário de

almoço em Nova York, quando teria uma chance de encontrar Richard livre.

Andou de um lado para o outro no flat, incapaz de se concentrar em alguma coisa, ou se

sentar tempo o suficiente para deixar o medo tomar conta. Na cozinha, limpou o fogão, embora

ele já estivesse brilhando, foi para o quarto e organizou suas blusas por ordem de cor.

Qualquer coisa para não ter que pensar.

Às cinco da tarde vieram e passaram. Ela estava protelando, dizendo a si mesma que ligar

para ele às cinco em ponto era cedo demais e que ele provavelmente estaria em reunião.

Quando os ponteiros do relógio da cozinha apontaram cinco e dez, ela engoliu com força e

quis ter pedido a Tom para ficar com ela. Aquilo era a coisa mais difícil que ela já tivera que

fazer na vida.

Às cinco e quinze, sentiu um pequeno chute ao barriga. Até o bebê estava ficando cansado

daquela enrolação, e Hanna esfregou a barriga, sem saber se estava tentando tranquilizar o

filho não nascido ou ela mesma. Ela devia a verdade ao bebê. E também a Richard.

Desbloqueou o celular e abriu os contatos. Pressionando o nome de Richard, apertou o

botão verde de chamada e viu a ligação completar antes de colocar o celular na orelha.

Um toque, dois, três. Cada segundo era uma eternidade, e a náusea no estômago de Hanna

subiu até fechar sua garganta.

– Alô? – era uma voz feminina. Não era o que ela estava esperando.

Respirou fundo.

– Posso falar com Richard, por favor?

– Quem está ligando?

– Hanna Vincent.

Houve uma longa pausa. Ela estava prestes a repetir quando a voz do outro lado da linha

respondeu.

– Hanna, aqui é a mãe de Richard, não sei se você se lembra de mim.

– Sim, me lembro, sra. Maxwell – como ela poderia esquecer?

– Ele não está disponível agora. Está com a noiva.

– Realmente preciso falar com ele, é importante – Hanna surpreendeu-se com sua

veemência.

– Não acho que qualquer coisa seja tão importante quanto a saúde de Meredith – Caroline

respondeu, ríspida. – Disseram que ela vai ficar numa cadeira de rodas para o resto da vida.

A garota está paralisada, Hanna. Seja o que for dizer, não se incomode, só vai causar mais dor

a ele – ela hesitou por um tempo, como que para permitir que suas palavras fossem

absorvidas, e então acrescentou: – Não ligue de novo.

Hanna congelou. Por um momento, não respirou, não conseguia nem ouvir as batidas do seu

coração. A realidade desabou sobre ela como um muro, e a certeza que ela sentia antes a

abandonou. Não podia ser verdade, podia? Quando viu Richard pela última vez, ele estava

esperançoso de que Meredith fosse andar outra vez. Como ele deveria ter sofrido ao saber que

ela não poderia e que ele precisaria ficar ao seu lado.

Ela queria ver as notícias por si própria, então abriu o laptop e digitou o nome de Meredith

num site de busca. Os detalhes do acidente surgiram na tela. Não havia nada além do relatório

inicial em fevereiro. Hanna sentiu o coração quebrar quando se lembrou da loira vibrante e alegre e depois imaginou-a confinada a uma cadeira de rodas pelo resto da vida.

Como ela podia contar a Richard que estava tendo um bebê, quando ele era tão necessário a

Meredith? Se contasse agora, será que ele abandonaria a noiva e viria ajudá-la? Será que ela

poderia olhá-lo nos olhos e respeitá-lo se ele fizesse isso? Poderia colocá-lo na posição de

ter que escolher entre a saúde da noiva e estar com o filho?

Ela sabia que não.

Uma hora ele a odiaria – e talvez o bebê – por fazê-lo escolher. Ele era um homem bom,

talvez generoso demais, e ela sabia que seus instintos lhe diriam para ficar com Meredith.

Tudo que ela tinha que fazer era lembrar de como ele havia abandonado os próprios sonhos

para cuidar da Maxwell Enterprises depois da morte de Leon.

Ela desligou sem uma palavra, colocando a mão sobre o coração e sentindo as batidas

contra a palma. Seu corpo inteiro tremia enquanto ela pressionava outros botões no telefone e

o erguia outra vez, imediatamente se acalmando ao ouvir a voz de Tom.

– Preciso sair de Londres até o nascimento do bebê.

Dessa vez ela não estava fugindo. Estava se afastando, pondo os outros em primeiro lugar.

Embora partisse seu coração saber que teria que se afastar da sua família adotiva, ela também

sabia que não poderia ver os Larsen. Se eles contassem a Richard a verdade sobre o bebê, o

coração dele ficaria em pedaços.