Sempre Foi Você

Carrie Elks · Capítulo 11 de 29

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Sempre Foi Você

Capítulo 10

 

2 de fevereiro de 2004

 

– Parece que temos nossos momentos mais românticos em aeroportos – Hanna enfiou o

rosto na camisa de Richard, os olhos úmidos misturando-se com o rímel e deixando uma

mancha de tinta no algodão branco.

– Nem todos – ele disse, trazendo os lábios aos dela. Ele pressionou-os com suavidade,

enxugando as lágrimas ao redor dos olhos dela. – Ontem à noite foi bastante romântico.

Hanna riu.

– Você está confundindo romance e sexo. Os dois não estão necessariamente interligados.

– Com a gente, estão sim.

Ele beijou-a de novo, dessa vez sem se conter, e os joelhos dela começaram a tremer com a

investida. O fato de que estavam fazendo aquilo no aeroporto de Heathrow não importava. A

cada poucas semanas, eles tinham que enfrentar aquela despedida de novo, e não se tornava

mais fácil à medida que o tempo passava. A cada vez, ela achava mais difícil se lembrar

exatamente o motivo de relutar tanto em mudar-se para Nova York.

Então algo a trazia de volta à realidade. Como aquela vez que ele formalmente a

apresentara à mãe, e Hanna tinha sido recebida com uma frieza clara. Naqueles momentos, ela

percebia que não tinha nascido para a vida em Manhattan. A única parte de Nova York que

queria por perto era Richard.

Os beijos dele estavam ficando mais exigentes, e ela sentiu-o deixar a mala cair e envolver

sua cintura. Ele enfiou os dedos na pele macia enquanto a apertava sobre sua camiseta preta,

passando os lábios da boca para o pescoço. A cabeça dela caiu para trás, dando-lhe acesso à

pele sensível da seu pescoço.

– Se não tomarmos cuidado vou dar uma de Justin em você – ele murmurou. Na noite

anterior, eles tinham assistido ao Super Bowl e rido quando Justin Timberlake puxou o top de

Janet Jackson, revelando um mamilo.

– Se não parar de me beijar aí, vou deixar que faça isso.

– Sabe, nunca assisti futebol no meio da noite antes, mas tem suas vantagens – a sensação

do sorriso dele contra sua pele revelou-lhe que Richard estava se lembrando de como eles

tinham inventado o próprio entretenimento no intervalo do jogo. Entretenimento que não

envolveu piercings de mamilo.

– Você vai se atrasar – ela ainda estava sem fôlego.

– Eu sei – as mãos dele desceram para os quadris de Hanna, movendo-se para trás do seu

corpo enquanto ela o sentia responder ao abraço. Ela precisou de cada grama de força de

vontade que tinha para o empurrar para trás.

– Você vai demorar um século pra passar pela segurança – ela indicou a longa fila de viajantes, dando voltas no aeroporto. – A American Airlines não vai te esperar se você chegar

atrasado.

Richard deu um risinho e ela estreitou os olhos, fazendo um gesto com as mãos para afastá-

lo.

– Ligo pra você do lounge, ok? – ele deu um beijo no nariz dela.

– E da pista, e do aeroporto, e do carro, e do seu apartamento… – ela provocou.

Ele inclinou-se e beijou-a mais uma vez.

– Te vejo em um mês, combinado?

– Estou contando as horas.

– Não tem que contar nada. Venha comigo – ele dizia aquilo toda vez. – Não posso.

– Não existe “não posso”, querida. Só “não vou”.

– Então fique em Londres – ela estava sorrindo atrás das lágrimas, a familiaridade da

conversa de algum modo a reconfortando.

– Eu gostaria…

– Mas não pode – ela terminou a frase por ele e beijou seu rosto mais uma vez. – A gente

arranja um jeito.

– Vamos ter que arranjar, porque isso está me matando – ele abaixou-se para apanhar a

mala, notando a mancha de rímel na camisa pela primeira vez. Suas sobrancelhas ergueram-se

enquanto ele lançava um olhar recriminador a Hanna.

– O quê? – ela tentou parecer inocente, mas não conseguiu conter um sorriso. – Eu estava

triste, não posso?

– Me lembre de te comprar uns lenços da próxima vez – ele a olhava com uma expressão

gentil.

– Estou indo agora – ela começou a se afastar, acenando brevemente, os olhos nunca

deixando os dele.

– Sem um beijo de despedida?

– O que você acha que estávamos fazendo na última meia hora? – ela franziu as

sobrancelhas com irritação fingida, movendo-se alguns passos para trás.

– Aquilo foi só aquecimento. Agora eu quero o último beijo de despedida.

 

***

 

Na noite seguinte, Hanna saiu correndo dos escritórios da Music Train na Wardour Street e

emergiu no úmido ar do Soho. Por estar perto do West End de Londres, a rua estava sempre

lotada de pessoas, e ela as seguiu até a Oxford Street, entrando na estação de metrô junto com

os passageiros usuais voltando do trabalho. Quando pisou na escada, sentiu o telefone vibrar,

e tirou-o do bolso do jeans para ler o texto.

 

Já disse hoje que sinto sua falta?

 

Ela digitou uma resposta apressada.

 

Estou cinco horas na frente, Larsen! Eu ganho o jogo.

 

Hanna entrou no metrô e saiu na estação Putney Bridge, sentindo o ar frio da noite. Sua

respiração formava nuvens de vapor à sua frente enquanto ela se apressava pelas ruas a caminho do apartamento da mãe. Parecia que elas não se viam há uma vida; ou Hanna estava

assistindo a shows, ou Diana estava ocupada organizando um evento. Elas tinham combinado

de se encontrar aquela noite para pôr a conversa em dia.

A mãe aguardava-a na porta quando ela chegou, com um grande sorriso no rosto. Ela puxou

Hanna e envolveu-a num abraço apertado.

– Ai, querida, é tão bom ver você.

– Você também, não acredito que faz tanto tempo. A gente mora na mesma cidade, pelo amor

de Deus.

– Você tem estado ocupada com o trabalho e Richard – Diana piscou, puxando-a para dentro

e fechando a porta atrás delas. Assim que Hanna entrou no flat, sentiu uma sensação familiar

de calma. Tudo naquele lugar a fazia sentir-se em casa.

– Pedi bife com douchi pra você – Diana anunciou, entrando na pequena cozinha. – Quer

torrada de camarão?

– O papa é católico? – Hanna gritou de volta, erguendo-se e seguindo a mãe para oferecer

ajuda. Diana deu-lhe um olhar incisivo, movendo as mãos para expulsá-la até Hanna voltar

para a sala de estar.

– Como vai o trabalho? – Diana perguntou, a voz ecoando de leve no chão de azulejos da

cozinha.

– Ótimo. Passei o dia no estúdio com uma banda que está gravando seu segundo álbum. Vai

ser um disco conceitual e eles passaram a maior parte do dia tocando as músicas na ordem pra

eu poder entender a narrativa.

– Acho que não entendi uma palavra disso – o rosto de Diana era uma máscara de confusão.

– Eles estão tentando contar uma história com cada música. Começa com um rap sobre um

cara perdendo mil libras, daí um monte de coisa acontece até que, na última música, ele

encontra o dinheiro atrás da tevê.

– Parece fascinante. Quando posso ouvir?

Hanna gargalhou. Diana era fã dos clássicos – clássico entendido por Abba, Elton John e

Cliff Richard.

– Vai sair em abril. Eu compro um pra você.

– Mal posso esperar – Diana disse, sarcástica, carregando duas bandejas para a sala e

passando uma para Hanna, junto com os hashis.

– Você não está com fome? – Hanna notou o prato de Diana. Só uma pequena porção de

arroz e uma ainda menor de frango tinham sido colocadas sobre a porcelana branca. Olhando

para a mãe, Hanna percebeu que o rosto dela estava ossudo. – Mãe, pelo amor de Deus,

quanto peso você perdeu?

Ela não conseguia acreditar que não tinha percebido assim que entrara pela porta, mas

Diana sempre parecia igual para ela – pequena, perfeitamente proporcional, talvez um pouco

mais pesada nos quadris que no peito. Sempre que Hanna pensava nela, imaginava a mãe com

cerca de trinta e cinco anos, ainda usando roupas dos anos 1990, seu rosto sem rugas sorrindo

feliz com as últimas escapadas da filha.

Olhando-a agora, Hanna podia ver que seu rosto estava cheio de rugas, a pele esticada

sobre os ossos. As olheiras estavam mais escuras e marcadas que de costume.

Diana baixou os olhos para o prato, mordendo o lábio inferior num gesto familiar. Hanna

viu uma lágrima escapar do olho esquerdo da mãe, cair no prato e oscilar ao encostar na superfície de porcelana.

– Mãe, o que está acontecendo? Está me deixando preocupada agora – Hanna pousou o

prato na mesa de canto e ergueu-se, fazendo o mesmo com a bandeja de Diana. Ajoelhando-se

no chão ao lado da mãe, ela pegou as duas mãos dela nas suas e apertou-as, pedindo à mãe

que olhasse para ela.

– Estive no hospital hoje. Não quero que você entre em pânico e sei que vai ser um choque,

mas eles encontraram um caroço no meu peito e vão fazer uma biópsia.

O mundo desabou sob Hanna, deixando-a atordoada, enquanto sua mente tentava, sem

sucesso, encontrar o sentido das palavras. Ela balançou a cabeça, e o movimento piorou a

sensação súbita de náusea.

– Eu disse para não entrar em pânico. Ainda não – Diana inclinou-se e abraçou-a. – Eles

têm quase certeza de que é câncer, mas precisam fazer vários testes e outras coisas antes de

me darem um diagnóstico.

– Por que você não me contou isso antes? – uma onda de raiva subiu pelo peito de Hanna.

Ela não sabia por que exatamente estava brava; se era o fato de a mãe não ter compartilhado

aquilo, o fato de o câncer ter invadido o corpo dela, ou pela vida em geral. Ela agarrou-se à

emoção, preferindo-a à sensação de desespero que sentira um instante atrás.

– Não queria preocupá-la até saber com certeza que havia alguma coisa errada. Seria

horrível vê-la toda nervosa desse jeito e depois descobrir que o caroço era benigno, ou pior,

só imaginação minha.

– Eles falaram o que você pode fazer, quais os tratamentos? Queria ter ido ao hospital com

você hoje – passar o dia ouvindo um cara cantando sobre perder dinheiro era um péssimo

substituto a apoiar a mãe em sua hora de necessidade.

– Querida, tenho outra consulta na quinta. Espero que me digam algo mais concreto – Diana

apertou-a uma última vez. – Agora coma seu jantar antes que esfrie.