Sempre Foi Você
Capítulo 1
31 de dezembro de 1999
A mala já deveria ter aparecido. Ela olhou a esteira de bagagem passar por ela, carregando
malas de todos os tipos. Talvez sua surrada mala marrom estivesse com vergonha de ser vista
entre as Louis Vuitton e Henk.
Hanna conhecia a sensação.
Ela estava roendo as unhas de novo. Elas já estavam comidas, e o esmalte preto que tinha
passado apenas dois dias atrás já estava descascando. Sua madrasta não conseguia entender
por que ela não optava por uma francesinha “muito mais elegante”, e por que ela não ia
regularmente ao salão. Por fim, vendo sua mala descer pela esteira, Hanna tentou passar por
uma cansada mãe de dois filhos à sua frente. A mulher segurava uma criança pequena em um
braço, a outra estava movendo um carrinho ritmicamente para a frente e para trás, como se
ninasse um bebê.
– Com licença – murmurou Hanna, inclinando-se para apanhar a alça da mala. Ela
endireitou o corpo enquanto a puxava até o chão cinza de ladrilhos. Estava pesada, cheia de
equipamentos de esqui e casacos de inverno. Ela mal tivera tempo de usá-los.
Hanna não devia estar viajando hoje. Ela devia estar no chalé de seu pai em Val D’Isere,
junto com a madrasta e as meias-irmãs de onze anos. Mas o pai estava decepcionado com ela
desde o início. A primeira vez que a olhara bem, tinha torcido o nariz de desgosto.
– Você fez alguma coisa diferente com o cabelo? – o olhar dele estava cheio de decepção
raivosa.
Hanna tentara disfarçar um sorriso em resposta ao eufemismo da frase dele. Desde a última
vez que o vira ela tinha se tornado gótica. Tingiu o cabelo de um ruivo escuro e mudou a
maquiagem. Agora tinha a pele pálida e os lábios escuros. Completava o visual com uma saia
preta esvoaçante e um espartilho preto apertado.
A lembrança da expressão furiosa de Philip enquanto examinava seu novo estilo fez os
lábios de Hanna se curvarem em regozijo. Ela ergueu a mala para um carrinho de bagagem, e o
peso deixou seus movimentos desajeitados.
Philip estivera quase apoplético com seu novo estilo, e Olivia tinha decretado que Hanna
deveria ficar dentro do chalé o tempo todo, temendo que um dos amigos deles pudessem vê-la.
Hanna deveria ser o segredinho deles durante a semana. Mas depois de dois dias lendo e se
empanturrando de chocolate, ela estava entediada.
Ela descobrira que Philip, Olivia e suas irmãs estavam planejando passar o ano-novo na
casa de campo de um amigo, a cerca de oitenta quilômetros de Val D’Isere – e ela não estava
convidada. Uma briga enorme se seguiu, o que resultou no banimento de Hanna do chalé e a
colocou no próximo voo para Londres (um gasto considerável para Philip).
Ela jurou para si mesma que, agora que tinha quase dezoito anos, nunca mais se submeteria
à tortura de outro feriado alpino. Se seu pai queria passar tempo com a filha mais velha – e, na
mente de Hanna, isso não era uma certeza –, então teria que ir a Londres para vê-la.
Hanna e a mãe eram “pobres de Londres”. Em qualquer outra parte do país teriam vivido
confortavelmente, numa casa de tamanho razoável com jardim e garagem. Mas a renda de
Diana com planejamento de festas lhes permitia pagar apenas um flat apertado de dois quartos
perto de Putney. Desde o momento em que fugira do casamento com Philip Vincent e da
sociedade de Manhattan, Diana recusara todo o dinheiro vindo dele. Não se importava que ele
comprasse coisas para Hanna, mas não aceitava um único centavo para si mesma.
Quando Hanna chegou em casa no fim da tarde, estava escuro lá fora. A rua estava
iluminada pelo suave brilho laranja dos postes, ladeada por casas vitorianas com varandas de
tijolos vermelhos e ornamentadas, com acabamento descascando e paredes decrépitas. Hanna
amava a fachada requintada daquelas varandas antigamente grandiosas, com seus pórticos
brancos e caminhos de azulejos pretos e brancos – elas faziam um contraste nítido com o
barulho e a modernidade da vida londrina.
Ela vasculhou a bolsa em busca das chaves, sabendo que Diana estivera fora o dia todo,
organizando a festa anual dos Larsen. Embora Hanna nunca os tivesse conhecido, sabia que
eles estavam entre os melhores clientes de sua mãe. O réveillon era sempre a noite mais
atarefada do ano. E o fato de ser a entrada do ano dois mil só deixava as coisas piores.
Hanna não estava no flat nem dois minutos quando o telefone começou a tocar. Uma olhada
para o visor mostrou que já havia três mensagens na secretária eletrônica. Alguém obviamente
estava com pressa para falar com ela ou Diana. Ela sinceramente esperava que não fosse o
pai.
– Alô?
– Hanna? Graças a Deus você está em casa! Está tudo bem? O voo foi bom? – Diana quase
não parou para tomar fôlego. – Querida, três das meninas pegaram aquele vírus de inverno e
estão vomitando. Preciso que você coloque um uniforme e venha me ajudar. A festa vai ser um
desastre! – ela abaixou a voz para a última frase, e Hanna se perguntou quem mais estava no
cômodo com ela.
– Certo, me dê o endereço – Hanna apoiou o telefone entre a orelha e o ombro enquanto
pegava um pedaço de papel.
– Cheyne Walk, número cinco. Em Chelsea. Pegue um táxi e eu pago depois. Ah, e Hanna…
– a voz de Diana baixou mais uma oitava.
– … você pode maneirar no visual? – Hanna recitou, sabendo exatamente o que a mãe ia
dizer.
Depois de tomar um banho, remover o esmalte e suavizar a maquiagem, Hanna conseguiu
encontrar um táxi livre. Seu cabelo ruivo-escuro estava preso num coque apertado, e os
cosméticos em seu rosto eram suaves e mal perceptíveis. Ela estava usando um uniforme
típico de garçonete: saia preta curta com uma camisa branca simples.
Quando chegou à casa, bateu a aldrava pesada de bronze na elegante porta preta algumas
vezes. Um homem de uniforme abriu. Ela não o reconheceu, então não podia ser um dos
empregados de Diana. Os Larsen eram ricos o bastante para manter empregados em tempo
integral.
Quando entrou, o esplendor a fez perder o fôlego. O saguão se abria para os três andares da casa, com uma escada de mármore subindo numa curva para o segundo andar. Bem no meio do
chão ornado de azulejos estava a maior árvore de Natal que ela já vira. Luzes brancas
discretas brilhavam até a estrela no topo. Devia ter pelo menos seis metros.
– Viu algo que gostou? – a voz arrastada, com sotaque americano, era muito irritante. Ela
virou a cabeça e viu um jovem ao pé da escada. Sua calça jeans larga e escura pendia quase
obscenamente de seus quadris estreitos. Ele usava uma camiseta preta apertada, em que se
podia ler Columbia em letras azuis.
O rosto dele… Deus, o rosto dele! O maxilar era largo, os lábios carnudos, o nariz reto e os
olhos verdes-musgo. A testa lisa era emoldurada por cabelos castanho-claros cuidadosamente
penteados. Ele se parecia com todos os engomadinhos de Manhattan que ela já tivera o azar de
conhecer.
Ela inspirou rapidamente, olhando o garoto-Columbia direto nos olhos.
– Não muito. Só estava me perguntando se Charlie Brown estava sentindo falta de sua
árvore de Natal.
Hanna virou-se e foi até a cozinha, mal ouvindo a risada dele enquanto se afastava. Ela
mordeu o sorriso que estava ameaçando escapar dos seus lábios.
A noite tinha acabado de ficar interessante.
Sua mãe estava no meio da cozinha, com uma colher em uma mão e um walkie-talkie na
outra. Aquela não era uma típica cozinha requintada de carvalho e granito. Essa era toda de
aço inoxidável com fornos profissionais; o tipo de cozinha que qualquer chef mataria para ter.
Era difícil imaginar alguém usando o fogão de dez bocas só para cozinhar um ovo.
– Hanna, querida, é tão bom ver você – Diana contornou a ilha central e jogou os braços ao
redor da filha. Ela relaxou no abraço da mãe, apertando os olhos enquanto sentia a
infelicidade e o estresse dos últimos dias evaporar.
Ela sentira falta da mãe.
– É bom ver você também.
– Estou tentada a ligar pro seu pai e dizer o que penso dele. Não acredito que ele tratou
você desse jeito, aquele imbecil arrogante, filho da…
– Mãe, não tem problema – Hanna abriu um sorriso encabulado para ela. – Acho que o
discurso que fiz provavelmente foi o bastante para nós duas. Só quero esquecer isso agora.
– Diana, querida, precisa de ajuda com alguma coisa? – uma voz suave veio da porta da
cozinha. Hanna virou-se e viu uma mulher baixinha sorrindo para elas. Seu rosto em formato
de coração era emoldurado por delicados cachos castanhos.
– Acho que temos tudo sob controle – Diana respondeu. Hanna podia ver os dedos dela
cruzados atrás das costas enquanto falava. – Claire Larsen, gostaria de apresentar minha filha,
Hanna Vincent.
Claire deu um passo à frente, com os braços abertos enquanto cumprimentava Hanna,
puxando-a para um beijo no rosto.
– Hanna, é um prazer conhecê-la. Ouvi tanto sobre você. E, claro, também conheço seu pai
e a mulher dele.
Hanna fez uma careta com a menção de Philip e Olivia antes de rapidamente controlar a
expressão.
– É um prazer conhecê-la.
Ela sorriu para a mulher à sua frente. Era pelo menos dez centímetros mais baixa, mesmo usando caros sapatos de salto.
– Que sotaque bonito você tem! E adorei seu cabelo. A cor é tão interessante.
Normalmente, quando alguém dizia que algo em Hanna era “interessante”, era um insulto
disfarçado. Olivia parecia usar bastante essa palavra sempre que Hanna estava por perto. Mas
o tom de voz de Claire levava Hanna a acreditar que estava sendo sincera.
– Obrigada.
– E preciso apresentá-la à minha família depois. Meu marido, Steven, vai achar você
fascinante. Acho que ele é um fã enrustido de Marilyn Manson. E Ruby e Richard
simplesmente vão adorar você.
Claire não parava de elogiá-la. Hanna afastou-se da sua anfitriã americana. Não estava
acostumada a ser tratada com tanta gentileza.
– Richard e Ruby? – perguntou.
– Ruby é minha filha. Tem dez anos e estuda na St. Nicholas.
Hanna assentiu. Fazia sentido: a St. Nicholas era uma escola cara de Londres. Ela
suspeitava que Ruby Larsen seria tão mimada e irritante quanto suas meias-irmãs.
– E Richard é o filho do meu marido, do seu primeiro casamento. Está no último ano na
Columbia. Vou sentir falta quando ele voltar para Nova York – o sorriso de Claire vacilou
enquanto ela continuava. – Meu filho, Nathan, está em algum lugar dos Andes tentando “se
encontrar”.
– Que descuidado da parte dele se perder num lugar tão remoto – Hanna respondeu, fazendo
Claire rir.
– Tão parecida com sua mãe – Claire pôs as mãos nas bochechas de Hanna num gesto
surpreendentemente íntimo antes de se afastar. – Não se esqueça de falar comigo hoje à noite.
Vai ser uma pausa bem-vinda de todas aquelas camisas engomadas.
– Trago um enroladinho de salsicha pra você – Hanna piscou para Claire, e então se virou
para a mãe perguntando o que precisava ser feito.
Entre a mãe amigável, o filho bonito e engomadinho e o pai amante de Marilyn Manson,
Hanna pensou que poderia gostar daquela família.
***
Richard Larsen aceitou outra taça de champanhe do garçom enquanto abria caminho pela
festa lotada. A taça estava fria, e gotas geladas de água escorreram por seus dedos onde ele a
segurava. Tomando um gole, ele deu uma olhada rápida no salão em busca de alguém –
qualquer pessoa – interessante para conversar.
Ele estava usando seu terno de sempre, com uma camisa branca feita sob medida e uma
gravata preta. O terno caía como uma luva, e o paletó se assentava suavemente sobre seus
ombros largos. As calças tinham o tamanho perfeito para sua cintura estreita. Ele tinha o físico
de alguém que praticava diversos esportes.
Desde que chegara a Londres, tinha conseguido agir como um jovem de vinte anos pela
primeira vez em muito tempo. Usava jeans, camisetas e moletons sem que uma única
sobrancelha se erguesse. Frequentava pubs, bebia cerveja e flertava com garotas bonitas, a
maioria das quais sua mãe consideraria muito abaixo da sua condição social.
Infelizmente, esse tipo de festa o lembrava um pouco demais sua casa, sua mãe e os amigos dela da alta sociedade.
Vendo o pai e Claire num canto do salão, ele se acotovelou entre a multidão de convidados
para alcançá-los. Enquanto andava, ouvia trechos de conversas.
– Claro, John está de plantão para quando o bug do milênio atacar…
– Mal posso esperar o rio de fogo! Bob Geldof é tipo um Gandalf contemporâneo…
Ele não entendia nada daquelas conversas. Já achava difícil decifrar o sotaque, imagine
compreender o que exatamente os ingleses diziam.
– Richard – Claire o viu quando ele estava a um metro deles. Richard aproximou-se e
beijou a madrasta no rosto. Ela cheirava a lavanda e rosas, e pousou uma mão sobre a lapela
dele. – Sempre fica tão bonito de terno. E parece tão mais velho.
– E você está espetacular como sempre, Claire – ele respondeu. Ela alisou o vestido e abriu
um sorriso enorme.
– Seu sedutor. Está cada dia mais parecido com seu pai.
Com sua visão periférica, ele avistou alguém se aproximando deles. Quem quer que fosse,
estava usando preto e branco. Imaginou que fosse alguém da equipe do buffet.
– Posso oferecer uma chipolata Cumberland em massa choux, com mel e mostarda? –
Richard reconheceu a garota. Ele a vira no salão mais cedo, e era difícil não reparar no seu
cabelo escuro e pele pálida.
– Parece um enroladinho de salsicha pra mim – Claire sorriu para a garota. Elas pareciam
íntimas demais para uma garçonete e sua empregadora. – Hanna Vincent, este é meu marido,
Steven Larsen, e meu enteado, Richard.
– Ouvi muito sobre você, Hanna – o pai dele falou primeiro. – Claire acha que eu devia
fazer reverência ao conhecer você.
As sobrancelhas de Richard se uniram em confusão. Como raios eles conheciam essa
garota? Ela não parecia o tipo de pessoa que frequentava festas como aquela. Ela era pura
energia concentrada, aparentemente sem filtro verbal.
– Talvez eu faça reverência pra você – Hanna sorriu.
– Gostaria disso. Acho que nunca ganhei reverência de uma moça bonita como você –
Steven era todo sorrisos e charme natural. Seu flerte inocente fez Hanna corar. Richard olhou-
a fascinado enquanto o sangue subia ao rosto dela, fazendo sua pele brilhar.
Hanna voltou-se para Claire.
– Quanto champanhe ele já bebeu?
Ela também sofria o mal da modéstia excessiva dos ingleses. E Richard queria vê-la
envergonhada outra vez.
– Hanna Vincent, é um prazer conhecê-la – ele tomou sua mão e a ergueu aos lábios,
esperando um tremor, um suspiro. Qualquer coisa.
Nada. Ela só o encarou, com seus olhos brilhando, divertidos, enquanto ele soltava sua
mão.
– Idem, garoto-Columbia. Quase não te reconheci de black tie. Te faz parecer mais velho.
Garoto-Columbia? O terno o fazia parecer mais velho? Por que o pai ganhava olhares
tímidos e rosto corado e ele recebia respostas ácidas?
– Bem, garota gótica, peço desculpas por atordoá-la com meu vestuário – ele arrastou as
palavras de propósito, sabendo que sarcasmo era a forma mais baixa de humor.
Hanna voltou-se para lançar-lhe um sorriso.
– Foi um prazer conhecer todos vocês. Tenho que encher o resto dos seus convidados de
entranhas de porco enfiadas em salgadinhos – disse isso e saiu, dirigindo-se a um grupo no
outro canto do salão. Richard observou-a se afastar, admirando o modo como sua saia preta
apertada se aderia à bunda redonda.
Steven tinha erguido uma sobrancelha. Havia uma expressão especulativa em seu rosto
bonito enquanto encarava o filho. Richard não disse nada, só balançou a cabeça e sorriu.
Depois que bateu a meia-noite e eles cantaram “Auld Lang Syne”, Richard saiu para o
saguão, pensando em ir para a cama. Então viu Hanna sentada no topo das escadas, ao lado de
uma figura pequena que se parecia muito com sua irmã.
Ele e Ruby eram próximos, apesar de morarem em países diferentes. Richard se preocupava
constantemente com ela. Ela não era uma garota de dez anos típica, que adorava coisas cor-
de-rosa e fazer compras. Era peculiar e engraçada, lia livros como se não houvesse amanhã, e
amava desenhar tudo o que visse pela frente. Era diferente, e isso a tornava um alvo. Ele sabia
que ela odiava a escola e o desprezo das outras meninas. Mesmo aqui, em Londres, ela era
tratada como uma espécie de pária.
Subindo as escadas em silêncio, ele decidiu espiar a conversa, antes de chamar a atenção
delas para sua presença. Pelo que podia ouvir, era Ruby quem mais falava. Isso era incomum.
– … não, eu meio que gostava das Spice Girls. Mas odeio a Britney Spears, e a Christina
Aguilera é terrível. Quer dizer, elas foram Mouseketeers, pelo amor de Deus.
– O que é Mouseketeers? – o tom de Hanna era gentil e alegre. Mais alguns passos e ele
poderia ver o rosto dela.
– Do Show do Mickey Mouse. Eles fazem umas danças estúpidas, e esquetes e coisas
assim. É tão idiota – a voz de Ruby era baixa, como se ela soubesse que não deveria estar fora
da cama conversando com uma desconhecida no topo da escadaria de mármore.
– Parece o Inferno na Terra. Graças a Deus você saiu dos Estados Unidos enquanto podia.
Ruby riu.
– Prefiro Nine Inch Nails. Trent Reznor é o cara.
Dessa vez, Hanna riu também.
– Não acredito que uma menina de dez anos gosta de Nine Inch Nails. É culpa do seu pai.
Claire me disse que ele é um grande fã de Marilyn Manson.
– Ah, meu Deus. Não, não, não. Ele fica se confundindo entre Marilyn Manson e Marilyn
Monroe. Ele é fã da loira, não do cantor. É tão constrangedor.
Richard gargalhou com as palavras de Ruby. Steven sempre tentava se manter atualizado
com as últimas tendências, e normalmente fazia um papelão. Não que se importasse; a
habilidade de rir de si mesmo era uma das melhores qualidades do pai.
– É você, Richard? Está espiando de novo? – a voz de Ruby soou com clareza.
Ele subiu os últimos degraus, vendo a irmã sentada ao lado de Hanna, encostada nela
enquanto conversavam. As pernas de Hanna estavam dobradas, os joelhos contra o peito. Era
difícil não encarar as panturrilhas dela.
Hanna ergueu os olhos para ele.
– Você pegou a gente. Agora você vai ser um bom garoto-Columbia e manter segredo ou
vamos ter que amordaçá-lo?
Richard ficou tentado a responder com um comentário obsceno, mas mordeu a língua,
lembrando que a irmã estava ali.
– O que está fazendo aqui em cima, tampinha? Achei que você não queria vir à festa – ele
abriu um sorriso indulgente para Ruby. – Se soubesse que ela queria participar, teria ficado
feliz em ser seu acompanhante.
– Queria ver a celebração à meia-noite. Seria péssimo se alguém me perguntasse o que eu
estava fazendo quando o novo milênio chegou e eu dissesse que estava escondida na minha
cama, toda antissocial.
Richard fez uma careta. Às vezes ela era adulta demais, e percebia coisas demais. Ele
odiava que ela se sentisse uma aberração.
– Mas estou com sono agora – Ruby continuou. – Hanna, me leva pra cama? – ela levantou
os braços, parecendo uma criança de novo.
– Deixa eu te ajudar, Hanna – ele disse, gostando subitamente de como o nome dela soava
na sua língua. Ele se virou para Ruby e pegou-a nos braços. – Sua carruagem a aguarda,
princesa.
Ruby riu enquanto ele a carregava ao longo do corredor, erguendo uma mão à boca para
abafar o som, de modo que os convidados lá embaixo não percebessem sua presença. Hanna
seguiu logo atrás deles, deixando Richard consciente da sua presença.
Sentindo-se dócil, Ruby encostou a cabeça no ombro do irmão mais velho.
– Obrigada, Richard. Você é um ótimo irmão mais velho.
– Melhor que Nathan?
Richard carregou Ruby até o quarto dela, contorcendo-se suavemente para fazer as pernas
dela passarem pela porta.
– Nathan não é um irmão, é um animal. Toda vez que me vê, ele me joga no ar. Sempre fico
com medo que não vá me pegar – a voz de Ruby estava arrastada de sono.
Ele colocou-a na cama e a cobriu. Hanna estava de pé, na porta, observando-os. Sorrindo
para ela, ele podia sentir surgirem pequenas rugas ao redor dos olhos. Quando ela devolveu o
sorriso, com os cantos de seus lábios carnudos curvando-se para cima, ele sentiu algo desabar
em seu estômago.
– Bem, tampinha, prometo que sempre estarei aqui pra te pegar – Richard sussurrou,
beijando a testa da irmã. Ruby já estava dormindo, sua respiração suave saindo num ritmo
tranquilo.
– Sua irmã é um doce – Hanna disse, quando ele a encontrou na porta. – É o oposto das
minhas irmãs más. Você tem sorte.
– Você tem irmãs?
– Meias-irmãs – ela respondeu. – Gosto de me lembrar que só somos meio parentes. Elas
são o demônio encarnado em gêmeas de onze anos. Já acham que sou inferior a elas
socialmente.
– Parecem adoráveis – ele arrastou a fala outra vez. Algo brilhou nos olhos de Hanna.
– São ótimas. Podemos trocar, se você quiser – isso o fez sorrir. As irmãs dela pareciam
exatamente o tipo de criança que tratariam Ruby como lixo.
– O que você está fazendo aqui em cima, aliás? Não deveria estar enfiando canapés na
garganta de convidados indefesos?
Era engraçado como ele se sentia leve, lá em cima com Hanna, longe da festa e da multidão.
– Estou numa pausa. Tenho… – Hanna olhou o relógio. – Quinze minutos ainda.
– Nossa, tantas coisas que você poderia fazer com esses quinze minutos… possibilidades infinitas – ele sorriu, deixando o corpo roçar contra o dela enquanto saíam no corredor. –
Gostaria de ir pro meu quarto?
– Deus do céu! Você não perde tempo, né? – Hanna exclamou, fazendo Richard reexaminar
o que tinha dito exatamente.
– Ah, merda, não quis dizer isso – ele torceu as mãos, nervoso. – Sério, não era uma
cantada. Não que você não seja bonita ou algo assim. O que quis dizer foi… tenho um
PlayStation, um Tony Hawk, e dois controles com nossos nomes neles. Quer se juntar a mim? –
ele estava corado agora, chocado com a própria obtusidade e com a resposta dela.
– Nesse caso, como posso recusar? Mas já te aviso que sou completamente inútil em jogos.
Enquanto Richard montava o PlayStation no quarto, Hanna foi examinar sua estante,
observando os CDs como se estivesse tentando descobrir de que tipo de música ele gostava.
Ele sorriu quando viu a testa dela franzida de perplexidade. Seu gosto era eclético; era difícil
categorizá-lo quando os CDs iam de Puccini a Prodigy.
– Você tem umas coisas legais. Nem quero saber quanto vale essa coleção – ela passou os
dedos sobre as lombadas plásticas dos CDs. Richard suprimiu um sorriso, decidindo que seria
tolo contar a ela que essa era só uma pequena parte da sua coleção e que ele tinha milhares de
outros CDs em Manhattan.
– Quer ir primeiro? – os olhos deles se encontraram. Ele sentou no tapete, encostando as
costas contra a cama e dobrando as pernas. Hanna foi até ele e sentou-se ao seu lado,
abanando a cabeça para recusar o controle oferecido.
– Vai você primeiro, eu assisto e aprendo.
Três manobras aéreas, dois saltos mortais e uma derrapagem depois, e seu “medidor
especial” estava completo. Ele fez mais algumas manobras especiais, exibindo-se um pouco
para Hanna.
– Você faz parecer tão fácil – ela reclamou.
– Tudo é fácil quando você sabe como fazer. Eu não durmo bem, então pratico bastante. Sua
vez.
Hanna pegou o controle e olhou para a tela da tevê com uma determinação sombria. O
skatista se moveu lentamente sobre o corrimão antes de cair da beirada. Tentando de novo, ela
franziu a testa em frustração quando a mesma coisa aconteceu.
– Sou péssima nisso – ela se queixou, encarando a tela.
– Vem cá, vou te ajudar – Richard fez um gesto para o chão, indicando onde Hanna deveria
se sentar. Ele ficou quase chocado quando ela engatinhou até ele, acomodando-se entre suas
pernas e encostando as costas contra seu peito. Envolvendo-a com os braços, ele colocou os
dedos sobre os dela enquanto ela segurava o controle, e lhe mostrou quais botões apertar para
fazer um salto aéreo.
A sensação das costas dela esfregando-se contra seu peito e da bunda dela contorcendo-se
contra sua virilha o deixou instantaneamente duro. Sua ereção pressionava a coluna dela. Com
apenas duas finas camadas de tecido entre a pele deles, ele tinha certeza de que ela conseguia
sentir.
Hanna virou-se com uma expressão divertida. Ela levantou uma sobrancelha trocista.
– Você gosta mesmo desse jogo, hein.
– Não leve pro lado pessoal. Fico duro só de assistir National Geographic.
Ela gargalhou, balançando a cabeça. As mãos dele ainda estavam sobre as dela, e ele mostrou como ela podia combinar um salto aéreo com uma derrapagem.
– Nossa! Ganhei pontos especiais. Sou o cara. O. Cara. – Hanna se contorceu de felicidade
por ter conseguido algo além de uma queda. Quando ela se moveu, seu corpo esfregou-se
contra a ereção dele, fazendo-o estremecer com o prazer doloroso que o movimento causava.
Olhando para o relógio, Richard ficou quase aliviado ao ver que a pausa dela tinha
terminado.