Sempre Foi Você
Capítulo 22
12 de maio de 2012
O avião pousou no aeroporto de Nova York no início da tarde. A aterrissagem foi brusca o
bastante para revirar o estômago já embrulhado de Hanna. Pela primeira vez em todas as suas
viagens, ela estava distintamente ciente da própria mortalidade. Medo do que aconteceria com
Matty se ela morresse atormentava os pensamentos dela.
O que é mais um motivo para contar para Richard, a parte sarcástica do seu cérebro a
informou. Hanna reprimiu o pensamento.
Até sua alma estava contra ela.
Ela não tinha se dado ao trabalho de levar bagagens. O voo de retorno seria no dia seguinte,
e uma mala de mão era suficiente para uma noite. Produtos de higiene, maquiagem e uma troca
de roupa eram tudo o que ela precisava antes de pisar na França outra vez.
A fila na imigração estava se movendo depressa. Cada passo até a cabine de vidro a
deixava mais próxima de contar a Richard as novidades mais chocantes da vida dele, e Hanna
sentia a necessidade de enrolar, protelar. Ela brincou com o passaporte azul-escuro,
imaginando se teria sido melhor usar o europeu. A fila estava muito mais longa do outro lado
da sala.
Fechando os olhos, lembrou-se de como Ruby a tinha abraçado antes de ela sair da vila em
Nice. Suas palavras de incentivo, sussurradas em seu ouvido, conseguiram plantar uma
semente de esperança de que eventualmente Richard a perdoaria por ter fugido outra vez. Ela
ainda não tivera tempo de cultivar aquela semente, fazendo-a se transformar em qualquer tipo
de planta. Hanna só esperava não matá-la.
– Você esteve fora do país por algum tempo, senhora? – o funcionário da imigração estava
digitando no computador com a mão direita enquanto olhava o passaporte de Hanna aberto na
esquerda.
– Eu tenho dupla nacionalidade. Estou morando na Europa.
– E pretende ficar por muito tempo? – ele olhou-a com desconfiança.
– Só até amanhã. Vou encontrar um amigo.
O homem fechou o passaporte e devolveu-o.
– Espero que tenha uma boa estada, senhora – os olhos dele já estavam no próximo
passageiro. Hanna apanhou a mala e atravessou a barreira. Ela podia sentir o tempo correndo
como a contagem regressiva na véspera de ano-novo. A ideia a animou e assustou ao mesmo
tempo.
Ela passou direto pela esteira de bagagens, dirigindo-se à porta que levava ao terminal
principal. O ar-condicionado fez sua pele pipocar em arrepios, mas considerando o sol
entrando pelas janelas de vidro do terminal, era um belo dia de primavera.
Enquanto esperava na fila do táxi, ela ensaiou a conversa em sua mente. Diga o mais cedo
possível, ela disse a si mesma, se ficar enrolando ele vai te expulsar ou te matar. A notícia
de que ele tinha um filho era como um band-aid, e para o bem de Richard, ela precisava
removê-lo rápido. Ela podia lidar com a ferida depois. Tirar aos poucos não evitaria a
tristeza, de qualquer jeito.
Não importava o que dissesse, aquilo iria doer.
Quando chegou à frente da fila, Hanna entrou num táxi amarelo, pondo a mala ao seu lado.
O banco preto de vinil estava frio, e os olhos dela cruzaram com os do motorista no espelho
retrovisor.
– Para onde?
– Distrito financeiro. Esquina da Pine e Nassau.
– Maxwell Enterprises? – o motorista quis confirmar.
– Isso, exato – Hanna rezava para que Ruby tivesse conseguido um passe de segurança,
como prometera. Se ela tivesse que ligar para Lisa para conseguir um, Hanna sentia que
poderia simplesmente sair correndo.
Felizmente, o trajeto foi longo. As ruas eram um caos de carros e caminhões, fumaça saindo
furiosamente dos escapamentos enquanto os veículos continuavam parados. Hanna reclinou-se
no assento e ouviu a música saindo do estéreo do carro, permitindo que seu ritmo regular
acalmasse as batidas do coração. Parecia que os táxis tinham sido renovados desde que
estivera ali pela última vez. Havia uma tela mostrando a exata localização deles,
ocasionalmente interrompida por anúncios de empresas locais. O lento progresso do
automóvel podia ser visto ao seguir o pontinho vermelho que piscava indicando a posição
deles nas ruas.
Eram três da tarde quando o táxi parou na Pine. Hanna deu trinta dólares ao motorista,
dizendo para ele ficar com o troco, e abriu a porta para sair. Os sons não pareceram tão
dissonantes como costumavam – talvez o ano que passara ali a tivesse deixado imune à
cacofonia. O aroma familiar de gases de escapamentos e barracas de comida atingiram seu
nariz de um modo delicioso.
Sua confiança parecia ter retornado. Ela ficava deslocada entre os ternos cinzas nos seus
jeans apertados e camiseta preta, mas em vez de se sentir inferior, aquilo a fez sorrir um
pouco, lembrando-a de que seu trabalho parecia muito mais satisfatório e permitia-lhe ficar
em casa com o filho. Em comparação, aqueles executivos pareciam-lhe prisioneiros; os
uniformes podiam ser muito mais elegantes e feitos sob medida, mas eles estavam tão
encarcerados quanto um assassino em San Quentin.
Passar pela segurança foi surpreendentemente fácil. Seu nome estava na lista e um passe já
tinha sido impresso para ela. Hanna prendeu-o na cintura e entrou no banheiro, precisando se
olhar uma última vez antes de subir ao escritório dele.
Quando emergiu – com a maquiagem retocada e o cabelo penteado – dirigiu-se aos
elevadores no canto do saguão. Estivera ali algumas vezes antes, quando ainda namorava
Richard, antes da morte da mãe, e algumas vezes depois, quando estava morando em
Manhattan. Contudo, daquela vez, parecia diferente. As paredes aparentavam estar mais
próximas, o elevador mais agourento. Talvez tivesse sido ela que tivesse mudado, não o
prédio.
Hesitando fora da porta do escritório, ela respirou fundo para reunir coragem. Endireitando os ombros, abriu a maçaneta, assumindo uma expressão neutra e ilegível.
Então, ela entrou.
– Hanna? – o rosto de Lisa indicava sua confusão. Os outros dois administradores na sala
ergueram os olhos, parando de digitar por um momento enquanto seus rostos revelavam o
interesse nela. Eles deviam ser novos; Hanna não os reconhecia.
– Olá, Lisa. Como vai? – ela sempre tinha gostado da assistente de Richard.
– Bem, obrigada. E você?
Hanna tentou sorrir.
– Também. Richard está disponível?
– Ele tem reuniões a tarde inteira. Não acho que esteja esperando você – a resposta de Lisa
foi educada, como sempre. Sua expressão indicava que sentia muito.
– Tenho um horário às três e meia. Ruby marcou para mim.
– Ah, isso explica. Vou dizer a ele que você está aqui.
Hanna queria dar meia-volta e sair correndo para o aeroporto. Será que estava pronta para
aquilo? Não o via há tanto tempo. Tudo sobre a situação fazia seus nervos formigarem. A leve
sensação de náusea no seu estômago intensificou-se. Se ela não tomasse cuidado, vomitaria.
Você está no controle, lembrou-se. Conte para ele, espere que absorva a notícia e saia.
Ela não entraria em pânico, não perderia o controle. Hanna manteve a respiração regular,
mesmo quando o coração começou a acelerar. A última coisa que precisava era desmaiar no
escritório dele.
– Você pode entrar – a voz de Lisa trouxe-a de volta ao presente.
– Posso deixar minha mala aqui? – Hanna indicou a pequena mala. Lisa pegou-a com um
sorriso e fez um gesto para a porta de Richard.
Era agora.
Ela estava pronta? Estaria algum dia? A única coisa que sabia era que devia a verdade a
Richard, e a Matty também. Então teria que lidar com a reação dele. Pondo um pé na frente do
outro, atravessou a entrada até chegar à porta, os olhos acariciando o conhecido carvalho
escuro enquanto estendia a mão.
Hanna abriu a porta, as dobradiças chiando levemente sob a pressão. A sala tinha sido
redecorada em algum momento nos últimos dois anos; as paredes cor creme tinham sido
repintadas num branco mais pálido e a mobília substituída por peças com linhas mais simples
e modernas. Ela ficou triste ao perceber que a vida continuara sem ela. Como Richard reagiria
quando descobrisse como a vida tinha continuado sem ele?
– O que você está fazendo aqui?
Richard estava encostado em sua escrivaninha, os calcanhares e os braços cruzados. A
jaqueta do terno estava pendurada num gancho atrás dele. Embora ela tentasse não olhar, não
podia não examinar todo o seu corpo, dos pés à cabeça.
Richard tinha ganhado um pouco de massa muscular desde a última vez que ela o vira. O
algodão fino de sua camisa estava grudado em seus bíceps, passando por seu abdômen liso até
ser enfiado dentro da calça social. Seus quadris ainda eram magros e estreitos, e ela fechou os
olhos tentando não se lembrar da sensação deles entre suas coxas, quando ele se movia dentro
dela, respirando suavemente em sua orelha, enquanto ela gemia e…
Balançou a cabeça. Ela não estava lá, naquele escritório grande e revestido de madeira só
para relembrar o passado, por mais agradável que pudesse ser. Ela tinha voado até ali, a quase cinco mil quilômetros de distância, para contar a ele o que ele merecia saber.
Um riso nervoso ameaçou escapar quando ela considerou o melodrama ridículo da situação.
A versão mais jovem dela, com dezessete anos, estaria revirando os olhos, indignada ao
perceber que ela aos 29 anos tinha conseguido transformar uma vida aparentemente
promissora numa novela mexicana.
Ela ergueu os olhos para ele, olhando para seus lábios, que estavam cerrados de raiva. Os
olhos dele haviam se estreitado sob as sobrancelhas, e seu nariz reto e perfeito estava
levemente torcido em resposta à sua presença.
O desprezo que ele sentia por ela irradiava do seu corpo.
Hanna tentou manter a respiração regular, lembrando-se de que, embora estivesse no
escritório dele, na cobertura do prédio dele, esse era o momento dela.
Ela estava no controle.
Se ele a via com desprezo agora, só Deus sabia como se sentiria depois de ouvir o que ela
tinha a dizer. Ele tinha sido parte da sua vida por tanto tempo – como amigo, confidente, até
amante –, mas nunca antes tivera o poder de destruí-la.
– Por mais agradável que seja vê-la – ele disse com a voz arrastada, deixando
perfeitamente claro que tê-la no seu escritório era qualquer coisa menos agradável –, tenho
uma reunião em cinco minutos. O que você quer, exatamente?
Ele não tinha ideia, mas era agora. Hora de ela abrir a boca e contar a ele o que ele
precisava ouvir. De repente, seus braços ficaram pesados e seus dedos tremeram – uma
manifestação física do seu nervosismo. O riso foi substituído por algo mais perturbador
quando ela tentou respirar fundo e formar as palavras que tinha viajado toda aquela distância
para dizer.
Umedeceu os lábios. Viu o olhar dele descer para sua boca, seus olhos escuros observando-
a enquanto ela mordia o lábio inferior.
– Richard – a voz dela estava surpreendentemente forte. Ela podia fazer isso. Podia contar a
verdade para ele, e então ir embora dali.
Voltar para um avião.
Voltar para casa.
Voltar para ele.
– Richard, nós tivemos um bebê.
O silêncio que se seguiu era palpável. Hanna podia quase sentir a confusão dele enquanto
via as expressões que se sucediam com rapidez em seu rosto. Ela tinha feito o que viera fazer
– contar a verdade –, e agora estava se preparando para a reação.
Richard continuou congelado. Ela se perguntou se deveria repetir, e arrastou os pés,
querendo se mover na direção dele, chegar perto o bastante para tocá-lo.
Aquele tipo de pensamento era perigoso.
– Nós tivemos um bebê? – ele repetiu. Hanna percebeu o erro. No seu desespero de falar as
notícias, ela não tinha escolhido bem as palavras.
– Nós temos um bebê. Bem, ele está maior agora, mas foi um bebê. Uma vez – droga, ela
estava balbuciando agora, revelando seu nervosismo. Ela precisou se esforçar para encontrar
os olhos dele. E estremeceu quando viu a raiva e a confusão radiando deles.
– Que merda está acontecendo? – ele franziu as sobrancelhas, linhas profundas emergindo
na testa enquanto tentava compreender a notícia. – Não entendo o que você está dizendo.
Ela percebeu que precisava mostrar uma prova para ele, em vez de tentar explicar. Suas
mãos estavam tremendo outra vez, mas ela conseguiu se controlar o bastante para tirar o
celular do bolso, tentando controlar os dedos enquanto acessava as fotos.
– Quando saí de Nova York em 2010, eu estava grávida. Eu não sabia na época, na verdade
fiquei sem saber por alguns meses, mas na última vez em que estivemos juntos, nós fizemos um
bebê – as últimas palavras fizeram-na pausar. Ela ainda achava aquele fato incrível.
– E você tem certeza de que ele é meu?
A questão era legítima, mas doeu mesmo assim.
– Totalmente.
O silêncio momentâneo era como uma parede entre eles. Hanna se perguntou se conseguiria
quebrá-lo algum dia. Ela decidiu continuar, dar-lhe todas as informações e sair dali. Ela
queria segurar Matty nos braços agora. Precisava da presença dele para se acalmar.
– O nome dele é Matthew, e nasceu no dia 12 de novembro. Ele tem dezoito meses – ela
moveu-se para mostrar a Richard uma foto no iPhone dela, escolhendo uma que ela tirara
alguns dias atrás. Matty estava de pé na sala de estar de Tom, segurando uma bola que ele
tentava jogar para Ruby. Sua alegria por brincar com a tia estava evidente em seu rostinho, e
ele mordia o lábio em concentração.
– Esse é ele? – a voz de Richard estava morta. – Meu filho?
Hanna assentiu, o nó na garganta impedindo que dissesse qualquer coisa. Ela tinha sonhado
com aquele momento tantas vezes, e a falta de emoção dele a estava matando. Então, um
segundo depois, quando viu o rosto de Richard se contorcer de raiva, ela desejou que a
impassibilidade retornasse.
– Preciso sair dessa sala. Fique aqui – ele disse nervoso, não lhe dando opção. Escancarou
a porta que levava à recepção e saiu. Quando a bateu atrás de si, ela ouviu a fechadura virar.
Ele a trancara lá dentro.
Não confiava nela nem um pouco. Estava tão certo de que ela fugiria que sentiu que
precisava trancá-la.
Ou talvez estivesse tentando protegê-la. Um instante depois, ela ouviu algo ser lançado na
recepção e a vibração da sua voz quando ele gritou, seguida pelo tom mais gentil de Lisa,
murmurando alguma coisa.
Hanna foi até o sofá de couro marrom escuro ao lado da ampla janela e sentou-se, digitando
no iPhone que ainda segurava.
Contei pra ele.
Ela enviou a mensagem para Ruby.
Depois de alguns segundos, Ruby enviou uma resposta.
Como ele reagiu à notícia?
Me trancou no escritório dele.
Você está bem? Ele está bem?
Deus abençoe Ruby. Ela sempre apoiava tanto o irmão como Hanna.
Ele saiu. Estou bem. Acho que ele está jogando os móveis pela sala.
Alguns minutos depois, Hanna ouviu a fechadura se abrir, e o rosto de Lisa apareceu quando
a assistente abriu a porta.
– Como você está, Hanna?
Hanna tentou não sorrir. Todo mundo estava fazendo a ela a questão que deviam perguntar
para Richard. Ela estava bem. Um pouco abalada, mas bem.
– Richard está bem?
– Um pouco bravo. Não é problema meu, mas acho que entendi a situação. Falei para ele
tomar um pouco de ar e voltar quando estiver mais calmo – atrás de Lisa, Hanna podia ver o
estrago no chão, onde Richard tinha jogado canetas e outros equipamentos do escritório. –
Gostaria de uma bebida enquanto espera por ele?
– Adoraria um copo d’água, obrigada – ela não tinha percebido como a boca estava seca
até Lisa ter oferecido. O confronto tinha sugado toda a umidade dela.
Richard levou mais de vinte minutos para voltar. Enquanto esperava, Hanna mandou
algumas mensagens para Ruby, descobrindo que Richard tinha ligado para a irmã e parecia
mais calmo. Mesmo assim, Hanna ficou tensa quando a porta se abriu, com medo de qual lado
de Richard estava prestes a ver.
– Desculpe por ter te trancado – as primeiras palavras dele a acalmaram. – Precisava sair
daqui antes de fazer algum estrago.
– Sou eu quem precisa pedir desculpa.
Richard ignorou o arrependimento dela.
– Pedi para Lisa nos colocar no primeiro voo para a França. Saímos hoje à noite.
– Tenho um voo amanhã… – ela começou a protestar, mas Richard fez um gesto de negação.
– Está feito. Enquanto espero minha bagagem, você pode me dar algumas respostas – ele
aproximou-se dela, sentando-se na cadeira de couro à sua frente. Na luz brilhante do sol da
tarde, as feições dele pareciam mais nítidas, e Hanna sentiu a estranha vontade de passar um
dedo pelo maxilar dele.
– É claro.
Richard reclinou-se, passando as mãos pelo cabelo.
– Por que não me contou? Foi vingança por eu ter ficado com Meredith até ela ficar melhor?
Porque isso é baixo demais – as palavras saíram todas juntas, e Hanna sentiu cada uma
perfurar seu coração.
Ela balançou a cabeça rapidamente.
– Queria contar pra você. Não sabia de nada até estar grávida de quatro meses. Assim que
peguei o exame, liguei pra você – ela virou o copo de água. – Sua mãe atendeu, e me disse que
Meredith ficaria presa a uma cadeira de rodas para o resto da vida, e que você estava
cuidando dela.
A mão de Richard ainda estava no cabelo, agora puxando em vez de alisar. Ela resistiu à
vontade de abaixar o braço dele.
– Minha mãe disse o quê? – a voz dele era puro gelo.
– Que Meredith nunca andaria de novo, que ficaria presa numa cadeira de rodas para
sempre.
O silêncio que se seguiu era pesado. Richard demorou um tempo para cortá-lo.
– Por que ela diria isso?
Hanna sentia que o coração estava sendo apertado por um torno. Ela estava morrendo de
medo de que ele acreditasse em Caroline e não nela. E por que não faria isso?
– Não sei – ela balançou a cabeça –, mas acreditei nela. – Hanna queria voltar no tempo, reviver aquela conversa e fazer questões mais pontuais a Caroline. Mas ela estava tão
emocional, ainda em choque pela descoberta da gravidez, desesperada para falar com Richard
e contar as novidades. Caroline tinha tirado proveito disso e impediu-a antes mesmo que ela
começasse.
– Você não sabe – a voz dele tinha adquirido aquele tom outra vez. Ela estava tendo
dificuldade em ler suas expressões. Seu rosto era uma máscara e ela queria agarrá-lo e
sacudi-lo até conseguir uma reação. – Então por que não me ligou de novo?
Hanna umedeceu os lábios.
– Porque, se eu dissesse que estava grávida, você teria deixado Meredith. Eu não podia
fazer isso com ela, nem com você. Achei que ela estava paralisada e precisava de você. Eu
sabia que o partiria em dois se tivesse que escolher entre nós.
– Era mentira – a expressão estoica dele foi dominada pela emoção. – Minha mãe mentiu.
– Ela não sabia que eu estava grávida – a voz de Hanna falhou, e lágrimas arderam em seus
olhos. – Eu devia ter contado pra você.
Ele levantou-se e começou a andar de um lado para o outro sobre o chão de madeira escura.
– Não consigo nem explicar como me sinto agora. Estou furioso com minha mãe e com
você, e até com Ruby, por ter conhecido meu filho antes de mim. Se você não fosse a mãe do
meu filho, eu provavelmente ia querer matá-la.
Hanna começou a tremer outra vez. O humor dele estava oscilando de um extremo a outro, e
ela podia entender o porquê. Se descobrisse que tinha um filho dezoito meses após o
nascimento dele, ela estaria furiosa também. Para não dizer confusa e assustada.
Ela olhou para Richard.
– Você disse que tinha questões. Mais de uma?
– Qual o nome completo dele?
Isso vai doer, ela pensou.
– Matthew Richard Vincent.
– Você deu meu nome para ele?
– Não podia dar seu sobrenome, então dei o primeiro nome. Matthew significa presente de
Deus – ela deixou um suspiro escapar dos lábios. – E ele realmente é um presente, Richard.
– Ele é saudável? Feliz? – ele disparava as palavras como balas.
Ela sentiu um aperto no coração. Mesmo no maior turbilhão de emoções de sua vida, ele
estava perguntando sobre o bem-estar de outras pessoas. Ela tentou reprimir o amor que sentia
por ele, que estava ameaçando escapar dela.
– Ele é perfeitamente saudável. Tomou todas as vacinas. Houve algumas quedas e
machucados, mas nada sério – ela tentou sorrir através das lágrimas. – É a criança mais feliz
que eu já vi. Está sempre sorrindo e adora brincar. Quando entro em casa depois que estive
fora, ele abre o sorriso mais doce e lindo – agora que tinha começado a falar do filho, ela não
conseguia parar. – E é tão inteligente. Já sabe várias palavras e começou a andar antes de
completar um ano. Você vai amá-lo.
A expressão maravilhada de Richard indicava que ele já amava.
– Preciso vê-lo – a voz dele falhou. – Não acredito que isso está acontecendo.
Hanna queria estender a mão e tocá-lo. Aquele turbilhão de emoções estava fazendo efeito
sobre Richard. Ela estava desesperada para ajudá-lo.
– Sinto muito. Queria que você estivesse lá quando ele nasceu.
– Foi um parto fácil? – ele parou de andar e sentou-se de novo. Dessa vez, ao lado dela, o
que deu a Hanna uma centelha de esperança.
– Foi como se ele estivesse me rasgando em duas, mas valeu toda a dor. No momento que o
puseram nos meus braços, eu sabia que faria tudo de novo sem pensar duas vezes.
– Você tem fotos de quando ele era bebê?
– Todas de quando era recém-nascido estão num álbum em casa, na França. Tenho algumas
de quando começou a engatinhar – ela passou pelas fotos no celular e mostrou-as a Richard.
Ele viu todas, os olhos brilhando enquanto observava o filho.
– Ele é lindo – Richard sussurrou.
– Mal posso esperar pra você o conhecer.
– Ruby me deixou ouvi-lo no telefone. Ele disse seu nome.
Hanna engoliu, o sorriso eclipsado pelas lágrimas quando pensou em Matty. Ela sentia tanta
saudade dele que até doía. Seus braços sentiam a ausência dele. Ela enxugou o rosto molhado.
– Ele é um menino tão esperto.
A porta abriu e Lisa enfiou a cabeça para dentro.
– Jack está aqui com a bagagem. Já quer descer?
– Sim – a resposta de Richard foi imediata. Ele foi até a mesa e desligou o computador,
pegando o laptop junto com alguns documentos. Enquanto fechava a maleta, virou-se para
Hanna. – Você tem wi-fi na sua casa, na França?
Hanna assentiu, perguntando-se por quanto tempo Richard pretendia ficar. Então começou a
se preocupar com as intenções dele. Ele não podia ficar na França para sempre. Será que
tentaria tirar Matty dela? Ele tinha todo o direito de pedir guarda conjunta, e por mais que isso
fosse quebrar seu coração, Hanna não poderia recusar.
Ela pensou que poderia simplesmente contar a verdade e voltar para a França. Imaginou que
sua vida continuaria a mesma, só melhorada pelo fato de que Matty conheceria o pai. Porém,
se a vida era complicada antes, não era nada comparada com o que o futuro traria.
Richard atravessou a recepção e apanhou a mala dela, passando-a sobre seu ombro. Hanna
o seguiu, o coração ainda acelerado enquanto pensava sobre o futuro. Parte dela estava
animada porque veria Matty em menos de um dia. A outra parte estava com tanto medo que
não conseguia respirar.
Ela ainda não sabia se o pior tinha passado.