Sempre Foi Você

Carrie Elks · Capítulo 15 de 29

Páginas do PDF

Sempre Foi Você

Capítulo 14

 

4 de março de 2006

 

– Você tem certeza de que quer fazer isso? – Richard olhou o meio-irmão diretamente nos

olhos, procurando sinais de hesitação. Daniel levou a taça à boca com mãos trêmulas, os

lábios contraindo-se quando engoliu. No último ano, seus tiques nervosos tinham aumentado, e

agora Richard não sabia quais movimentos eram intencionais e quais não eram.

– Não quero fazer mais parte disso, não consigo nem entrar no prédio. Porra, não consigo

nem estar em Manhattan sem ter um ataque de pânico – a batofobia de Daniel tinha começado

de repente, depois que ele saíra da reabilitação e tentara ficar limpo. Na primeira vez em que

tinha tentado entrar no saguão da Maxwell Enterprises, desabara e foi levado embora de

ambulância.

Era quase impossível viver em Manhattan quando se tinha pavor de prédios altos.

– O que você vai fazer com todo esse dinheiro? – Richard perguntou.

– Vou encontrar um lugar com prédios baixos e sol o ano inteiro – Daniel abriu um sorriso

sutil.

– Isso reduz suas possibilidades – Richard tinha que se lembrar que o meio-irmão tinha

quase vinte e três anos. Eles tinham combinado de se encontrar no Stone Creek Inn, em East

Quogue, não muito longe da casa que Daniel herdara do pai, nos Hamptons. Ele ficava lá de

vez em quando, preferindo o lugar às viagens terríveis a Manhattan, embora tivesse colocado

a residência à venda também, junto com sua parte da empresa.

Durante o resto do tempo, Daniel ia de um lugar a outro, ficando com amigos e conhecidos

por mais tempo do que era bem-vindo. O consumo de drogas parecia intermitente, embora ele

já tivesse tido uma passagem pela reabilitação naquele ano.

– Quero viajar um pouco primeiro, ver o que tem por aí. Nem tenho certeza de que quero

morar nos Estados Unidos.

– O que sua namorada pensa disso? – Richard não conseguia se lembrar do nome dela. Elas

mudavam a cada mês e eram bastante intercambiáveis: loiras, altas e felizes em aceitar os

presentes que Daniel lhes dava.

– Terminei com Marie. Ela começou a falar sobre anéis de noivado e comprar uma casa –

Daniel estremeceu. – De repente, vi minha vida passar diante dos meus olhos.

Richard permaneceu em silêncio, tentando não pensar em como, devido à decisão de

Daniel, o filho que terminaria como Leon Maxwell seria ele, Richard.

A salada de abacate estava bem temperada, e eles terminaram os pratos rapidamente.

Daniel pegou um pãozinho e passou manteiga nele antes de enfiá-lo na boca.

– Falando em ex-namoradas, você teve alguma notícia de Hanna?

Dessa vez foi Richard quem tomou um grande gole de vinho antes de pôr a taça de volta sobre a toalha branca.

– Ruby me disse que ela ainda está viajando.

Não era mentira, mas não era todo verdade também.

– Ela entra em contato com você?

– Não.

– Talvez eu a encontre nas minhas viagens – Daniel ergueu os olhos para a garçonete

enquanto ela servia os pratos principais, os olhos brilhando com a visão do bife. – Seria legal.

Richard tossiu, quase cuspindo o vinho. Ele não sabia se as lágrimas que subiram aos olhos

eram por quase ter engasgado ou pela irritação.

– O mundo é meio grande, Daniel. Tenho certeza de que seria como encontrar uma agulha

num palheiro – ele não conseguiu esconder o sarcasmo na voz.

– Mas seria legal, sinto falta dela. Era uma das poucas pessoas que eu gostava de ver

quando estava preso na reabilitação.

– Ela te visitou duas, três vezes no máximo. Eu estava lá toda semana – o canto da boca de

Richard curvou-se para cima um pouquinho.

– Ela era memorável. E costumava me mandar e-mails.

O risoto de lagosta transformou-se em cinzas na boca de Richard. Ele lembrava-se dos e-

mails, e das mensagens, e das cartas, e dos presentes. Para não mencionar os encontros

físicos.

– Tenho quase certeza de que ela não está passando o tempo num antro de drogas em

Marrakesh.

– Atingi um ponto delicado? – a faca de Daniel caiu no chão com um som alto e metálico,

quando o braço dele deu um espasmo violento. Ele reclinou-se na cadeira e respirou fundo

enquanto a garçonete buscava outra, e indicou para que ela servisse o resto do vinho tinto em

sua taça já vazia.

Richard deu de ombros e terminou o risoto, cuidadosamente colocando os talheres no prato

vazio.

– Não importa. De qualquer jeito, estamos aqui para falar dos seus planos. Preciso saber

para onde você quer que eu envie o dinheiro. Assim que seu advogado nos der os papéis

assinados na segunda, a gente faz a transferência.

– Só ponha na minha conta.

– Não acho que seja uma boa ideia. Você sabe quanto dinheiro vai ganhar?

– Não sou um idiota, Richard. Tenho um consultor financeiro.

Foi a vez de Richard dar um sorriso irônico. Talvez Daniel ficasse bem, no fim das contas.