Sempre Foi Você

Carrie Elks · Capítulo 5 de 29

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Sempre Foi Você

Capítulo 4

 

4 de dezembro de 2000

 

Depois de tudo o que acontecera no ano anterior, Hanna não conseguia acreditar que tinha

concordado em visitar seu pai em Nova York. Ele ligara para ela em novembro, sugerindo

uma mudança na rotina deles. Nenhum dos dois estava muito animado para se encontrar em Val

D’Isere no Natal. Dentro de poucas horas, ele fez com que sua secretária comprasse para

Hanna uma passagem para Nova York. Esse turbilhão pegou-a de surpresa. Ela estava

estupefata demais para pensar em uma desculpa, mas se permitiu um pequeno sorriso quando

imaginou a reação da madrasta com a sua visita.

Ela queria ver algumas bandas enquanto estivesse na cidade americana, e essa ideia tornou

a viagem mais suportável. A cena musical de Nova York era quente, e ela estava ansiosa para

sentir um pouco daquele calor. Desde que tinha entrado na revista da universidade em outubro,

Hanna era a repórter de rock do jornal. Entre um artigo e outro, ela dava um jeito de assistir às

aulas e fazer seus trabalhos. Nos últimos meses, ela estivera bastante ocupada.

E foi assim que Hanna descobriu seu primeiro amor: o jornalismo cultural.

Não que ela se considerasse uma jornalista naquele momento, sentada no banco de trás do

carro que o pai enviara para buscá-la. Ali, ela se sentia mais como uma garotinha sendo

levada para a sala do diretor porque fizera algo errado.

– Chegamos, srta. Vincent – a voz do motorista trouxe-a de volta ao presente. Ele

estacionou na frente do escritório do pai dela, perto de Wall Street. Ela franziu a testa,

surpresa. Fazia muito tempo desde que viera visitar o pai em Nova York, pelo menos cinco

anos. Em apenas uma ocasião ele a levara para seu escritório.

– Meu pai quer que eu fique aqui? – ela podia ouvir a confusão em sua própria voz. Só

Deus sabia o que motorista estaria pensando.

– Sim, enquanto eu levo suas malas para casa. Dê seu nome na recepção, e eles avisarão

seu pai que você está aqui.

Hanna assentiu, movendo-se para a porta e abrindo a maçaneta. Ela não queria esperar o

motorista sair do carro e abrir a porta para ela.

– Bem, obrigada.

– Sem problemas, srta. Vincent. Bem-vinda à Nova York.

Bem-vinda mesmo. Assim que abriu a porta do carro, as orelhas de Hanna foram atacadas

pelo barulho das ruas. O ronco dos motores pontuava o ar junto do gritar das buzinas. O som

de um compactador de asfalto a alguns quarteirões de distância fazia coro ao zumbido

constante de vozes, quando ela se viu subitamente cercada por pessoas caminhando pela

calçada. As paisagens e os sons de Londres pareciam meros sussurros comparados com

aquilo. A altura dos prédios e a sensação de claustrofobia que eles lhe davam enquanto caminhava tiraram seu fôlego.

À sua esquerda, as torres gêmeas do World Trade Center erguiam-se sobre o distrito

financeiro, como duas sentinelas de guarda sobre o porto de Nova York. Hanna não conseguia

evitar ficar impressionada pela sua estatura. Ela decidiu, naquele instante, que faria uma visita

ao mirante em algum momento durante a viagem. A vista do oceano Atlântico de um lado e de

Manhattan do outro devia ser impressionante dali de cima.

Desviando o olhar, ela andou cinco metros até o prédio de escritórios da empresa de que

seu pai era sócio. Quando chegou à recepção, deu ao segurança seu nome e esperou que

alguém viesse buscá-la. O saguão gritava dinheiro, o chão de mármore brilhava, como se

fosse constantemente polido por um exército invisível, e todos os móveis eram de alta

qualidade.

– Hanna?

Ela ficou chocada ao ver que seu pai tinha vindo encontrá-la pessoalmente. Tinha certeza

que enviaria um dos seus empregados, talvez um estagiário ou algo assim.

– Oi, pai – ela deixou-se ser abraçada. O cabelo cinza escuro dele estava perfeitamente

penteado, como sempre, e ele usava um terno feito sob medida.

– Como foi a viagem? Você está bem?

Eles passaram pela catraca de segurança e foram até a área dos elevadores. Quando o

elevador chegou, Philip apertou o botão do quarto andar. A Vincent-Jones preenchia todo o

andar, com os melhores escritórios ocupados pelo pai e seu parceiro.

– Foi tudo bem. Foi bom viajar de primeira classe. Obrigada pela passagem.

– De nada. Só preciso fazer algumas ligações, e então podemos comer alguma coisa.

Eles alcançaram a mesa da secretária. A loira lá sentada olhou para Hanna com interesse.

Hanna imaginou que ela provavelmente estava tentando entender como aquela garota de

dezoito anos, usando jeans rasgados, camiseta de banda e uma jaqueta preta amassada podia

ter alguma relação com Philip Vincent.

Era algo que Hanna se perguntava com frequência.

– Quer alguma coisa, srta. Vincent? Café ou algo para comer?

– Não, obrigada. Só vou esperar meu pai.

Dez minutos depois, ele saiu do escritório, jogando um elegante casaco de lã preto sobre os

ombros.

– Não volto mais hoje, Grace – ele disse à secretária quando passou pela mesa. – Se surgir

algo urgente, me ligue no celular. Senão, vejo os e-mails à noite.

– Claro, sr. Vincent. Tenha uma boa-noite. Boa noite, srta. Vincent – Grace deu um pequeno

aceno quando Hanna se levantou para sair com o pai.

Tudo aquilo estava ficando um tanto surreal. Para começar, ele tinha convidado Hanna para

ficar em sua casa em Nova York, o que não fazia havia anos. E saíra mais cedo do trabalho só

para passar um tempo com ela. Ela tinha certeza que ele nunca fizera aquilo antes.

Qualquer um podia imaginar que ele estava se sentindo culpado.

– Pensei que podíamos jantar cedo, depois te levo pra casa e você pode pôr a conversa em

dia com Olivia e suas irmãs.

Ah, que alegria.

– Boa ideia – Hanna sorriu para o pai pela primeira vez em dois anos. – Mas não estou

vestida para o jantar.

– Vamos a uma lanchonete.

– Nesse caso, você não está vestido para o jantar – talvez aquela paz pudesse durar mais

que cinco minutos. Hanna ainda duvidava.

– Não se preocupe. Metade de Wall Street vai estar lá.

– Ok – ela mordeu a língua para não perguntar quem era ele e o que tinha feito com seu pai.

Não queria fazer nada que estragasse o momento.

Quando se sentaram, Philip pediu um sanduíche Reuben e Hanna optou por um hambúrguer.

Enquanto experimentavam as bebidas, ela tentou ardorosamente encontrar algum assunto

neutro sobre o que conversar com o pai. Por sorte, ele fez isso primeiro.

– Esse lugar é meu segredinho. Olivia me mataria se me visse aqui. Ela acha que

“lanchonete” é um código para “jantar de colesterol” – Philip engoliu uma mordida do

sanduíche, bebendo um gole de cerveja por cima.

– Bem, acho que você vai ter que me subornar pra eu ficar em silêncio, então – ela ainda se

sentia estranha, sentada com o pai, tendo uma conversa adulta. Sua boca estava quase doendo

de vontade de perguntar por que ele estava fazendo aquilo.

– Te dou meu cartão de crédito da Saks da Quinta Avenida. Funciona com todas as outras

mulheres da minha vida.

– Não tem problema. Não acho que a Saks vai ter o tipo de roupa que eu uso, de qualquer

jeito – ela resmungou, começando a rasgar o guardanapo que tinha posto no colo.

Os olhos de Philip se suavizaram quando viram sua expressão triste.

– Nunca te disse como sinto muito sobre o que aconteceu ano passado. Sei que Olivia e eu

não te tratamos como deveríamos, e sei que negligencio você às vezes. Não vou falar sobre

todos os motivos pelos quais isso é complicado pra mim, e com certeza não vou falar sobre

como as coisas têm sido difíceis entre mim e sua mãe. Mas vou tentar, certo? Vou fazer o

máximo para ser um pai melhor.

Hanna não conseguia encará-lo diretamente.

– Certo.

Ela olhou para o hambúrguer, levou-o à boca e deu uma grande mordida, feliz por ter uma

distração. Não importava o que seu pai dissesse ou tentasse fazer – sempre haveria uma parte

dela que duvidaria dele. Hanna não sabia se aquilo um dia poderia mudar.

 

***

 

No seu segundo dia em Nova York, ela foi até a Universidade de Columbia para tomar um

café com Richard Larsen. Desde outubro, eles vinham trocando e-mails com regularidade.

Quando tinha dito a Richard que viria a Manhattan, ele sugeriu que se encontrassem.

Era um dia claro e gélido, e Hanna decidiu subir à acrópole acadêmica de Morningside

Heights. Ao chegar lá, viu Richard sentado nos degraus, com um casaco de lã azul abotoado

até o pescoço e um cachecol listrado. Hanna parou por um instante, sentindo-se subitamente

tímida. Deveria abraçá-lo, ou ele estava esperando um beijo pretensioso na bochecha? Talvez

um aperto de mão fosse suficiente.

Quando a avistou, o rosto dele irrompeu em um enorme sorriso. Todo o constrangimento

sumiu da mente de Hanna e ela correu até ele, jogando os braços ao seu redor.

– Meu Deus, é tão bom ver você!

Richard a abraçou forte.

– É ótimo ver você também.

– Obrigada por me encontrar. Estou tão feliz de ver um rosto amigo.

– Ia sugerir que a gente ficasse por aqui, mas está frio demais. Que tal um café na

lanchonete? – jogando um braço ao redor dos ombros dela, ele a puxou para si quando eles

começaram a andar. – Tem uma cafeteria na biblioteca, mas achei que você fosse gostar mais

do restaurante do Tom.

– Por quê? – Hanna perguntou.

– Você vai ver – enquanto eles desciam a rua, Richard começou a cantarolar alguma coisa

tão baixinho que Hanna não conseguiu identificar a música.

Assim que eles viraram a esquina na Broadway, ela percebeu o que ele estava cantando.

– Ei! É a Tom’s Diner, daquele vídeo de Suzanne Vega – os cantos da boca de Hanna se

curvaram para cima quando ela avistou a fachada de pedra e vidro. – Adoro aquela música.

Richard tomou sua mão e a levou para dentro. O calor da lanchonete contrastava com o ar

gélido lá de fora.

– Sabe, é a segunda vez em dois dias que estou numa lanchonete.

– Bem-vinda a Nova York.

– Gostariam de uma bebida? – a garçonete perguntou, colocando guardanapos na mesa.

Richard olhou para a mulher.

– Um café pra mim.

– Dois, por favor – Hanna acrescentou, observando a garçonete se encaminhar até a

cafeteira.

– Então, como vai a visita? – Richard perguntou.

– Tudo bem, por enquanto. Estamos ambos tentando ao máximo não antagonizar um com o

outro. Mas é mais fácil falar do que fazer, às vezes.

– Por quê?

Hanna encostou-se no banco e tomou um gole de café. O líquido quente aqueceu sua boca e

ela franziu a testa em concentração.

– Acho que estamos pisando em ovos. Não estamos sendo nós mesmos para não irritar um

ao outro. E então, quando eu falo alguma coisa que revela quem sou de verdade, é como se ele

voltasse ao seu estado típico. Ontem à noite eu disse que queria ver uma banda na quinta-feira

para escrever um artigo para o jornal e ele já começou a gritar. Disse que eu sou menor de

idade, que não posso ser vista num lugar em que se vende bebidas alcoólicas e que não tenho

um acompanhante, então não tenho permissão pra ir.

– Mas você vai de qualquer jeito?

– Claro que vou – Hanna olhou diretamente para ele. – Tem essa banda nova que estou

morrendo de vontade de ver. Eles sempre tocam no Mercury Lounge. Podem ser a próxima

grande descoberta.

– Até entendo a preocupação do seu pai. Provavelmente não é seguro para uma garota de

dezoito anos ficar andando por Manhattan à noite.

– Fico andando até tarde da noite toda hora em casa – Hanna deu de ombros.

– Não é a mesma coisa – Richard olhou-a por sobre a xícara de café, o vapor subindo até

obscurecer seu rosto. – Uma cidadezinha na Inglaterra não é exatamente Gotham City.

– Bem, Bruce Wayne, acho que vou arriscar – seu tom de voz indicava que estava decidida.

– E se eu fosse com você?

– Faria isso? – ela pôs a xícara de café vazia sobre a mesa e o examinou. Tudo sobre ele

indicava dinheiro, da camiseta azul abotoada estilo Oxford, aberta no pescoço, revelando os

pelos do peito, à calça estilo marinheiro. Ela se perguntou se ele tinha ideia de como

pareceria deslocado no Mercury Lounge.

Mas, por dentro, ela deu de ombros. Era um risco que aceitaria se significasse poder ir ao

show e manter o pai feliz.

– Claro. Acho que nunca fui lá antes – ele falava como se a oferta não fosse nada demais.

– Então o que devo fazer em troca? – o rosto dela ficou quente assim que as palavras

escaparam dos seus lábios. Ela não tinha pretendido soar tão provocativa.

Richard quase cuspiu o café.

Ela olhou-o com olhos estreitados.

– Estou oferecendo, como sua amiga, uma oportunidade de você receber algo em troca. Não

vejo o que tem de engraçado nisso.

Ele aproveitou a oportunidade para considerar.

– Nesse caso, deixe eu te levar pra jantar antes que você vá embora. Você me mostra seu

mundo e eu mostro o meu pra você.

– Ok, Henry Higgins, combinado. Faça o seu melhor.

 

***

 

Richard observou enquanto Hanna convencia um segurança a deixá-la entrar no Mercury

Lounge, apesar de não ter uma carteira de identidade e ser menor de idade. Não tinha como

não ficar impressionado com o modo como ela enganou os caras com brincadeiras, sorrisos

doces e com a história de ser uma jornalista inglesa.

– Você vem? – virou-se para Richard, o rosto corado de frio e os olhos brilhando sob as

luzes da entrada.

– Claro.

Seguindo Hanna até a área principal da boate, todos os seus sentidos foram atacados pela

atmosfera – a cacofonia da plateia, o cheiro de fumaça no ar, a sensação do chão grudando nas

solas dos sapatos. Ele podia sentir a animação no local enquanto a multidão de pessoas se

movia pelo espaço, esperando a banda subir ao palco. Devia haver pelo menos trezentas

pessoas apertadas lá dentro.

– Qual o nome da banda mesmo? – Richard perguntou. Hanna tomou sua mão para puxá-lo

mais para a frente.

– The Strokes. São uma banda de garagem de cinco membros. Está todo mundo falando

deles.

Três membros da banda subiram no palco e houve gritos e aplausos da plateia. Richard já

podia antecipar que suas orelhas estariam zumbindo até o fim da noite. Sua camiseta estava

começando a ficar molhada. O calor úmido do local estava fazendo até o cabelo de Hanna

ficar um pouco frisado. Ficava bem nela.

Olhando para o palco, suas sobrancelhas se ergueram em surpresa e ele se inclinou para

sussurrar na orelha de Hanna.

– Sabe, reconheço pelo menos dois daqueles caras.

Hanna voltou-se para ele imediatamente e Richard abriu um sorriso orgulhoso.

– Sério? – ela olhava-o com desconfiança.

– Sério, reconheço eles de Dwight. São definitivamente caras da escola preparatória.

– Pra você ver como até garotos de escola preparatória podem ser salvos. Então, quando

você vai começar sua banda?

Richard riu baixinho, tomando um gole de cerveja. Hanna olhou-o com inveja. Sem carteira

de identidade, ela só podia tomar refrigerante.

– Se me ouvisse cantando, você não precisaria perguntar.

Enquanto conversavam, a banda se movimentava no palco, fazendo checagens de última

hora.

– Então, o que você pretende fazer depois de se formar? – Hanna perguntou.

– Eu e uns amigos pretendemos nos mudar para a Califórnia. Tenho uns planos com um

amigo de abrir uma empresa on-line.

Outro membro da banda entrou no palco ao som de aplausos. Richard esperou o barulho

diminuir antes de continuar. Porém qualquer palavra sua foi abafada pelos acordes iniciais da

primeira música. A plateia começou a se mover, forçando-os mais para perto do palco. Não

havia como resistir à onda que os empurrava para a frente, e Richard olhou para Hanna com

preocupação, temendo que ela fosse pisoteada no movimento.

Olhando para ele, ela abriu um sorriso largo.

– Não é fantástico?

O rosto dela estava corado, e seus lábios, encorpados e brilhantes. Ela não estava usando

muita maquiagem – um contraste com a Hanna que ele conhecera quase um ano atrás –, e

mesmo assim estava linda. Ele notou alguns caras olhando-a enquanto ela abria caminho pela

plateia. Era difícil evitar um sorriso convencido ao ver a decepção deles quando percebiam

que ela estava com ele.

Ele tinha que admitir que a banda era boa. Quando começaram a próxima música, era como

se tivessem jogado um feitiço sobre a plateia, encantando-a e fazendo-a cantar junto e dançar

freneticamente ao ritmo da música.

As pessoas atrás deles ainda estavam se movendo para a frente, separando Richard e

Hanna, empurrando-os em direção aos lados do palco. Ele tomou a mão dela, puxando-a para

perto e passando os braços ao seu redor para mantê-la segura.

Ele não conseguia decidir onde pôr as mãos. A cintura dela parecia familiar demais, sexual

demais. Se ele segurasse seus quadris e a sentisse contra ele, tinha certeza que perderia a

cabeça. Por fim, escolheu os braços dela, que lhe pareceram neutros, tentando manter o tecido

da camiseta dela entre suas mãos e a pele de Hanna. Mas ela estava se movendo demais,

esfregando seu corpo no dele à medida que se mexia no ritmo da música. Ele deu meio-passo

para trás, removendo a virilha da zona de perigo. Não queria ser acusado de gostar demais

daquela banda.

Hanna virou a cabeça e tentou gritar algo para ele. O barulho da música e os gritos da

plateia abafaram suas palavras.

– O quê? – duas linhas se formaram entre as sobrancelhas dele enquanto tentava se

concentrar na boca dela.

– Eu disse que essa é a minha preferida.

– Como se chama? – eles ainda estavam apenas lendo os lábios um do outro. Tentar vocalizar as palavras teria sido inútil.

– “Last Nite” – ela olhou para a frente de novo quando os guitarristas tocaram o riff, o som

discordante dos acordes do baixista contrastando com as notas melódicas da guitarra

principal. O vocalista abriu a boca, sua voz um eco profundo enquanto seus lábios se moviam

próximo ao microfone, os olhos fechados enquanto cantava as palavras.

A plateia estava indo à loucura, o ritmo rápido da música fazendo-os pular todos juntos.

Quem tivesse o azar de não participar estava entrando em pânico, sentindo-se prestes a ser

esmagado pelo movimento. Richard moveu os braços até apertar a cintura de Hanna. Não se

importava mais com a reação do seu corpo ao dela, só queria mantê-la em segurança.

Hanna encostou-se contra seu peito, e suas mãos apertaram os braços dele enquanto eles se

moviam juntos, abandonando-se à vontade da plateia.

Era eletrizante.

Depois do show, Hanna tentou conseguir alguns minutos a sós com a banda. Era óbvio que

eles estavam próximos de conseguir contrato com uma gravadora, e os outros jornalistas na

boate também queriam um momento com eles.

– Podemos ir? – Richard olhou para o relógio. Era quase meia-noite. Quando tinha pegado

Hanna em casa, prometera ao pai dela que eles não voltariam muito tarde.

– Acho que sim – ela ainda estava contaminada pela atmosfera estimulante do show. Ele

podia senti-la tremendo ao seu lado.

– Acho que não preciso perguntar se gostou deles.

– Simplesmente adorei! Mal posso esperar pra escrever sobre eles. Só espero que o artigo

não pareça muito audacioso – ela disse. Eles saíram do bar quente e abafado para a noite fria.

Parando subitamente, ambos notaram a mudança assim que puseram os pés na calçada.

Enquanto assistiam ao show, Nova York tinha se transformado num paraíso de inverno.

As ruas e os carros estavam cobertos por uma camada macia e fofa de neve brilhante. A

única mancha na paisagem pálida referia-se às pegadas negras das pessoas que tinham saído

do show.

– Está nevando! – a expressão de Hanna iluminou-se, e ela abriu um sorriso largo enquanto

olhava o céu e via os grandes flocos flutuando até o chão. – Ah, meu Deus, Richard, olhe!

Ela o fazia se lembrar de Ruby com aquela animação infantil. Hanna deu uma volta em torno

de si mesma, a cabeça erguida para o céu. Ele ficou olhando enquanto ela abria a boca e

estendia a língua para tentar capturar um floco de neve.

– Eu notei – ele disse, sarcástico. Uma vida de invernos nova-iorquinos o tinha deixado

imune aos prazeres de uma tempestade de neve.

– Não está animado? Podemos fazer bonecos e anjos de neve. Podem até cancelar suas

aulas amanhã por causa da neve. Tudo não fica muito melhor com a palavra neve?

– Como soterrado pela neve ou cegado pela neve?

Hanna revirou os olhos.

– É igual estar na cidade mais linda do mundo, como Ebenezer Scrooge. Cadê seu

entusiasmo?

Ela afastou-se dele, passando as mãos sobre a neve que tinha caído na parede ao lado da

boate.

– Desculpe decepcioná-la. Talvez o Fantasma do Natal Passado me ajude a corrigir meu

comportamento.

– Talvez uma bola de neve ajude? – a mira dela era magnífica. A bola fria atingiu-o bem no

queixo, explodindo com o impacto, e os flocos gelados escorreram pelo pescoço de Richard.

Ele correu até ela, apanhando um pouco de neve da parede enquanto se aproximava.

– Não! – ela gritou, tentando correr enquanto ele se aproximava com ar ameaçador, mas só

conseguiu escorregar na calçada congelada. – Por favor!

– Não foi você quem disse que tudo ficava melhor com neve? – ele estava puxando a gola

da camiseta dela, tentando enfiar seu punhado de neve ali. Ela se contorcia, protestava e

implorava.

– Não estava falando sério, não faça isso! – a voz dela era uma mistura de pânico e riso.

Ela agarrou o pulso de Richard, afastando a mão dele do seu peito e tentando fazê-lo soltar a

neve.

De repente, eles estavam próximos um do outro. Próximos demais. Ele percebeu que a

maior parte do seu corpo estava em contato com o dela. Ela tinha erguido a cabeça para olhar

para ele, o rosto corado de frio, os lábios rosados e semiabertos. Os olhos dela capturaram os

dele. Richard imaginou o que ela faria se ele se inclinasse e pressionasse sua boca contra a

dela.

Então balançou a cabeça, percebendo como estava sendo idiota. Ela era mais nova que ele

e morava a milhares de quilômetros de distância. Pensar nela como mais que uma amiga era

uma péssima ideia.

– Vamos, vou deixar você em casa – ele abriu um sorriso rápido, dando um passo para trás

para abrir um pouco de espaço entre eles.

Ela pareceu confusa por um momento, então se endireitou e sacudiu a neve do cabelo.

– Certo.

 

***

 

Depois de deixar Hanna no apartamento do pai, Richard decidiu dormir em casa, na cidade,

em vez de ir até seu dormitório. As luzes ainda estavam acesas na casa dos Maxwell; tanto

Leon como Caroline eram notívagos e raramente iam para a cama antes das primeiras horas da

madrugada. Sua mãe podia se dar ao luxo de ficar na cama até tarde, e Leon dormia pouco.

– Richard, querido! Que ótima surpresa! – sua mãe pôs a taça de cristal em uma mesa de

canto. Erguendo-se da cadeira, foi até ele e ofereceu o rosto. Ele inclinou a cabeça para beijá-

la. – Não estava esperando você.

– Eu estava na região. Pensei que podia dormir em casa.

Quando o soltou do abraço, Caroline encarou-o com mais atenção.

– O que é que você está usando, querido? Onde estava?

– Estava vendo uma banda num bar, no Lower East Side.

– Por quê? Com quem?

– Hanna Vincent.

– Eu conheço os pais dela? – sempre a mesma questão.

– Ela é filha de Philip Vincent.

Caroline olhou-o com confusão, a testa franzida.

– Mas as filhas dele têm nove ou dez anos, querido.

Richard riu alto quando se imaginou levando as irmãs de Hanna ao Mercury Lounge.

– A outra filha dele, do primeiro casamento – ele foi até o armário de bebidas e se serviu

de whisky. Tinha a sensação de que seria uma longa noite.

– Aí está uma mulher que não soube como se comportar. Pobre Philip, ela foi um

constrangimento para ele – o tom da voz de Caroline estava cheio de desprezo, deixando seus

sentimentos em relação à mãe de Hanna perfeitamente claros.

– Você a conhecia bem? – Richard perguntou, cético. Sua mãe parecia “conhecer” todo

mundo.

– Fazíamos parte de alguns comitês juntas. Ela sempre chegava atrasada, ou nem aparecia.

E as roupas que usava, meu Deus, eram tão impróprias.

Richard tomou outro gole de whisky, sem saber exatamente o que dizer à mãe. Agora ela

tinha se empolgado no discurso e ele se deixou cair no sofá, decidindo que, se tinha que ouvir

uma ladainha daquelas, pelo menos ficaria confortável.

– Então, como é a filha? Parece mais com Philip ou Diana? – ela perguntou.

Não havia o que fazer a não ser engolir todo o whisky restante. Richard virou a cabeça para

trás e deixou o fluido âmbar queimar enquanto descia pela garganta.

– Não sei se parece com qualquer um dos dois. Ela é original – ele quebrou a cabeça

pensando em um jeito sutil de distrair a mãe. Não estava gostando do rumo da conversa. –

Onde está Leon?

– Ele e Daniel saíram para jantar. Leon queria um momento com o filho. Daniel está tendo

problemas na escola.

– Problemas? – Richard aproveitou a tangente que a mãe tinha lhe dado.

– Ele anda matando aulas. Suas notas nunca estiveram tão baixas. Será preciso muito

investimento para ele entrar em Columbia.

Investimento significava suborno. Leon Maxwell geralmente conseguia o que desejava,

mesmo se tivesse que molhar algumas mãos primeiro. Richard só ficava aliviado por sua

entrada em Columbia não ter exigido tal serviço do padrasto.

Não que ele estivesse surpreso de ouvir sobre os problemas de Daniel; o garoto era um

desastre ambulante. Tinha um considerável problema com drogas e um saldo bancário

gigantesco. Com acesso ilimitado a tanto dinheiro, a única intervenção que Richard podia ver

funcionando seria privá-lo totalmente dos fundos do pai.

– Henry Jones nos convidou para seu casamento em outubro. Você vai estar por aqui?

Richard suspirou. Eles já haviam tido aquela conversa dezenas de vezes, mas cada vez que

ele tentava explicar a situação para Caroline, ela o interrompia, dizendo que não queria ouvir.

– Planejo já estar morando em São Francisco em outubro.

O modo como ela apertou os lábios o fez querer revirar os olhos.

– Leon realmente gostaria que você se juntasse a ele na Maxwell Enterprises. Você tem um

emprego garantido lá, e talvez possa assumir o comando um dia – a voz dela era ríspida, seu

tom desaprovador.

– A Maxwell Enterprises é toda de Daniel. Você sabe que eu não tenho interesse nenhum em

trabalhar lá – Richard lutou contra a vontade de sacudir a mãe até que ela entendesse. – John e

eu temos tudo combinado. Vamos nos mudar em setembro.