Sempre Foi Você
Capítulo 12
9 de fevereiro de 2005
As paredes bege eram iluminadas pelo sol da tarde, cortado pelos galhos de uma árvore no
jardim; a luz atravessava a janela e entrava no quarto de Diana. Hanna estava sentada em uma
poltrona ao lado da cama da mãe, observando o corpo magro dela e seu peito subindo e
descendo com o ritmo do sono. Seus lábios secos soltavam um chiado a cada dez segundos
quando ela exalava.
O ano anterior fora um declínio lento; às vezes, o gradiente estivera tão baixo que Hanna
pensara que ela estava realmente melhorando. O diagnóstico de câncer de mama em estágio
avançado não a desesperara no início. Então, o tratamento se complicara por causa da
metástase, e quando o câncer se espalhou, elas começaram a ouvir palavras como controle de
dor, meses, talvez semanas e, finalmente, dignidade. Qualquer esperança que Hanna tivera foi
completamente esvaziada, como uma bexiga de aniversário deixada fora de casa no frio.
Eles tinham concordado em transferir Diana para uma casa de repouso na semana anterior,
quando ficou claro que era só uma questão de tempo. Nem Hanna nem Diana queriam passar
aqueles últimos dias num ambiente estéril de hospital, e a casa St Luke’s – uma mansão
georgiana elegante com jardins – oferecia um tipo diferente de morte. Hanna poderia ficar com
Diana por quanto tempo quisesse, e elas poderiam caminhar pelos jardins e ver as primeiras
flores da primavera nascendo entre a grama. Diana poderia morrer sem alarde e sem o barulho
constante de monitores de hospital.
– Ela está dormindo? – Hanna ergueu os olhos para Claire Larsen, parada na porta.
Surgiram linhas ao redor dos seus olhos quando ela sorriu, vendo Hanna toda desgrenhada.
– Por um bom tempo, talvez acorde em breve – Hanna levantou-se, percebendo que as
pernas tinham adormecido devido ao jeito como ela estivera sentada. Suas costas doíam
também. Ela alongou-se e tentou despertar o corpo.
– Como ela está? – Claire entrou no quarto, carregando uma bolsa Hermes em uma mão e
um gravador na outra. Era uma combinação estranha.
– Ela dormiu a maior parte do dia, mas ontem estava lúcida. Tivemos uma conversa ótima.
O que é isso? – Hanna apontou para o pequeno aparelho de gravação na mão de Claire.
– Nada – Claire escondeu a mão atrás das costas.
Hanna olhou-a com curiosidade.
– O que vocês duas estão aprontando?
Claire deu uma risada baixa e discreta que pareceu ecoar pelas paredes. Diana nem se
mexeu em resposta ao som.
– Quando fala assim, parece que somos hooligans adolescentes, Hanna. É segredo. Prometi
não contar.
– Pode contar pra mim. Eu não vou dizer nada.
– Se contar pra você, terei que te matar, querida. Pare de fazer perguntas.
– Tudo bem, ela tem compartilhado suas palavras de sabedoria comigo também. Ontem ela
passou horas me contando sobre sua vida, e como tem pouquíssimos arrependimentos – Hanna
franziu a testa ao se lembrar da conversa.
Elas estavam sentadas no jardim de inverno aquecido, com vista para o gramado.
– Você foi a melhor coisa que aconteceu comigo, minha querida – a voz de Diana era fraca,
cada palavra pontuada pela respiração dificultosa. – Eu fui muita sortuda de ter você na minha
vida. Sou grata por ter criado você para este mundo. Você é minha obra-prima.
Hanna sorriu, constrangida com o exagero da mãe.
– Soou um pouco exagerado, mas eu captei – voltando o olhar, ela viu uma enfermeira trazer
uma bandeja com chá e água, que deixou na mesa perto delas.
Diana continuou, envolvida em suas memórias. – Quando me casei com Phillip, estava tão
apaixonada que mal conseguia pensar direito – ela apontou o copo d’água, e Hanna segurou
para que ela tomasse um gole de canudinho. – Eu tinha certeza de que o amor podia conquistar
o mundo – Diana fechou os olhos como se estivesse recordando sua história em Nova York.
Hanna, aflita por mais informações, cobrou: – Mas não podia?
– Não, não podia. Eu não devia ter me casado com ele, querida. Eu sabia que não queria
viver em Nova York, e sabia que odiaria ser esposa de um banqueiro. Mas realmente pensei
que ter muito amor seria suficiente.
Hanna piscou, sentindo lágrimas sob as pálpebras. A mãe nunca falou sobre seu
relacionamento com Phillip; na verdade, ela raramente falava do ex-marido. Hanna não tinha
certeza se a mãe fazia isso para poupá-la dos fatos, ou se era porque as feridas do passado
doíam – Hanna passou a deduzir melhor a presença dessa dor.
Diana conseguiu respirar controladamente. – Eu queria ter sido capaz de fazer tudo para o
seu bem, porque eu nunca, nunca, me arrependi de ter você. Eu sei que o seu relacionamento
com seu pai nunca foi fácil. Eu assumo a culpa por isso.
– Não! – Hanna protestou segurando a mão da mãe. Sua pele estava fria, parecendo papel.
– Teria sido pior se eu tivesse continuado ali, sofrendo tudo o que você sofreu.
Ela olhou para a mãe, que observava através da janela os pássaros pousando nos galhos nus
da árvore. Eles mergulhavam e pousavam em duplas antes de alçar voo novamente para outro
galho mais alto. As pequenas asas agitavam-se enquanto voavam.
– Eu quebrei o coração do seu pai, transformei ele em um cínico amargo. Tudo culpa minha.
Eu devia ter usado meu amor para deixá-lo ir antes que as coisas tivessem piorado – uma
lágrima escorreu pelo rosto da mãe, deixando um rastro brilhante na sua pele castigada. Hanna
simplesmente sentou-se e segurou a mão de Diana, querendo que as próprias lágrimas
secassem.
Limpando o nariz com um lenço, Hanna tentou controlar suas emoções. Havia tanta coisa
que elas precisavam dizer uma à outra ao longo dos próximos dias. Elas tinham tão pouco
tempo. Cada segundo que passava era um lembrete de que logo ela estaria sozinha, e Diana
seria apenas uma memória. Ela decidiu guardar as palavras da mãe e refletir sobre elas depois
– pensar nisso agora a levaria às lágrimas, e ela não estava pronta para isso.
***
Sono era um conforto raro naqueles dias. Hanna passava a maior parte da noite
perseguindo-o e a maior parte do dia desejando-o. Naquela noite, conseguiu adormecer um
pouco depois das quatro. Algumas horas depois, foi acordada por um movimento no colchão.
Estava tão sonolenta que levou alguns segundos para perceber que Richard estava deitado ao
seu lado, ainda usando terno e gravata, a cabeça apoiada no travesseiro enquanto a olhava.
– Oi – a voz dele era um sussurro. Ela abriu os olhos e encarou-o.
– Desculpe por não encontrar você no aeroporto…
– Não diga nada, você precisa dormir – ele pousou um dedo de leve sobre os lábios dela.
Hanna beijou-o, encarando seu rosto enquanto ele devolvia o olhar, sem conseguir disfarçar a
preocupação quando viu a figura magra e a expressão tensa dela. – Meu pai me pegou, até
conseguimos tomar café da manhã antes de ele me deixar.
– Que gostoso.
– Ele te mandou um abraço. Querem que a gente vá jantar com eles amanhã, se você estiver
a fim.
– Não sei, talvez tenha que ficar com minha mãe.
Ele puxou-a para perto até que o corpo dela estivesse sobre o dele. Hanna passou uma
perna por cima da coxa, e estendeu o braço sobre o peito dele. Fechou os olhos e acomodou-
se no tecido do terno, sentindo o aroma de lã misturado com sândalo da colônia dele.
– A gente resolve depois, ok? – as palavras eram reconfortantes. Ela fechou os olhos e
submeteu-se à sua cadência suave. – A gente faz o que você quiser, e eu os aviso depois. Não
importa, nada disso importa.s
Ela podia sentir a respiração dele, seu peito suavemente subindo e descendo, fazendo a
cabeça dela se mover para cima e para baixo. Sem pensar, abriu os botões do terno e apoiou a
orelha contra o tecido fino da camisa até ouvir o coração dele martelando contra o peito. O
calor do seu corpo atravessou o algodão, aquecendo o rosto dela e despertando sentimentos
que ela vinha suprimindo havia semanas.
Erguendo a cabeça, ela moveu-se até que o rosto estivesse ao lado do dele, os olhos tão
próximos que era impossível olhá-lo diretamente sem que tudo ficasse desfocado. O peito
dela estava pressionado contra ele. A necessidade de sentir mais atingiu o corpo dela como
uma bola de canhão.
De repente, aquilo não era mais o bastante.
O beijo não foi suave. Foi duro e intenso, e pegou-o de surpresa. Ela sentiu as pálpebras
dele no seu rosto quando ele abriu os olhos e a encarou, tentando entender o que ela estava
fazendo. Nos últimos meses, sempre que estavam juntos, ela não conseguira fazer nada além
de segurá-lo, dar beijos suaves e abraços carinhosos. Sexo estivera fora de questão.
Mas agora, ela podia sentir o corpo inteiro formigando enquanto empurrava a língua contra
os lábios dele, dançando sobre sua pele, até que Richard abriu a boca e deslizou a língua
contra a dela. Ele beijou-a de volta e ambos ficaram sem fôlego. Ela não se afastou. Em vez
disso, pôs as mãos ao redor da cabeça dele e puxou-o para perto até sentir os pulmões
começarem a queimar.
Foi Richard quem interrompeu o beijo, sem fôlego para falar. Ele ficou corado de vergonha
quando olhou para baixo e viu sua ereção encostada no quadril dela.
– Desculpe – ele mal conseguia encará-la nos olhos enquanto falava, fixando-os num ponto
do papel de parede azul acima do ombro dela.
Hanna silenciosamente pôs uma mão sob o queixo dele, ajeitando a posição do seu rosto até
que os olhos deles se encontrassem. Ela o viu morder o lábio, com uma expressão confusa no
rosto. Quando teve certeza de que ele estava olhando para ela, inclinou-se outra vez, passando
os lábios de leve sobre os dele, aumentando a pressão até sentir o desespero saindo de cada
poro.
Suas mãos foram para a camisa dele, puxando-a para fora da calça. Ela pousou uma mão
sobre sua barriga. O toque gentil contra o abdômen não ajudou a reduzir a reação dele, e ele
estava quase dolorosamente duro.
Ela abriu a camisa dele e puxou sua calça para baixo, tirando o próprio pijama, com as
mãos tremendo. Seu coração bateu acelerado quando sentiu a pele contra a dele, a resposta ao
corpo nu dele era visceral e intensa.
– Tem certeza? Sinto que estou forçando você – Richard sussurrou.
Hanna puxou-o para cima dela, colocando as mãos ao redor dele enquanto tentava alinhar
seus corpos.
– É o contrário – ela fechou os olhos quando sentiu ele penetrá-la, deslizando até estar
inteiramente dentro dela. – Preciso disso, Richard. Preciso de você, não pare, por favor.