Sempre Foi Você

Carrie Elks · Capítulo 14 de 29

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Sempre Foi Você

Capítulo 13

 

3 de julho de 2005

 

Hanna usava seu desespero como um cobertor de ferro a cobrir seu corpo; ele a

reconfortava e lhe causava dor em medidas iguais, e era de algum modo tranquilizante em sua

tristeza implacável. Como o sol que nascia de manhã, ela podia contar com a companhia dele

durante o dia. Mas à noite, quando se enrolava em sua cama de infância, deixava a dor

consumi-la até que gritos abafados subiam à garganta. Hanna apertava as mãos com os punhos

fechados, como se pudesse de alguma maneira lutar contra a angústia.

Era uma batalha que ela não conseguia ganhar.

Durante o primeiro mês após a morte de Diana, pareceu correto e normal que ela estivesse

de luto pela mãe, e ela não pensou duas vezes sobre o modo como se sentia. Richard retornara

a Nova York uma semana depois do funeral, implorando para que ela fosse com ele, mas as

lembranças de Diana e a necessidade de resolver algumas questões pendentes ancoravam

Hanna a Londres. Durante a separação deles, ela se sentira progressivamente mais sozinha,

incapaz de responder às ligações ou aos e-mails sem desmoronar, e encontrando desculpas

para impedi-lo de vir visitá-la. Ela queria superar a depressão sozinha, sem que ele

descobrisse o quanto ela se sentia mal.

Contudo, à medida que o tempo passava e os bulbos floridos da primavera davam lugar ao

calor do verão, a tristeza continuava igual. Ela só deixava a casa pelos motivos mais urgentes,

e mesmo assim se via correndo de volta assim que podia.

Em junho, atingiu seu ponto mais baixo. Recusava todos os convites, e deu todas as

desculpas possíveis para não se encontrar com os Larsen ou falar com Richard. Estar com eles

lembrava-a de tudo que havia perdido, e a inveja que sentia, sempre que via a família unida, a

consumia. Ela se odiava por sentir-se daquele jeito.

No trabalho, recebera uma advertência por atrasos e faltas. A cada palavra que o editor

dizia, ela assentia e concordava; estava apática, indiferente e nada profissional, e a opinião

ruim que ele tinha dela só comprovava a opinião igualmente ruim que ela tinha de si mesma.

Eram onze da manhã de um domingo, e ela ainda estava meio adormecida, o cabelo fosco e

ensebado. O pijama que usava há dez dias precisava ser lavado com urgência. As batidas na

porta soaram através da sua tristeza como as batidas de uma bateria, e ela não tinha energia

suficiente para se arrastar da cama e abrir para quem quer que fosse.

Então os gritos começaram.

– Sei que você está aí, Hanna, abra a porta! – a voz transpôs o corredor e invadiu seu

quarto, e ela fechou os olhos na esperança de que a pessoa desistisse e fosse embora. Assim

que se acomodou de volta no travesseiro macio, ouviu uma chave virar na fechadura, e uma

batida quando a porta atingiu a parede.

Claramente, ela tinha companhia.

Ela podia ouvir passos enquanto o visitante atravessava a sala, tornando-se mais altos à

medida que a pessoa se aproximava do quarto. Um sentimento de resignação passou por ela

quando percebeu que teria que enfrentar quem quer que fosse, e tentar expulsá-lo do

apartamento o mais rápido possível. Eles não entendiam que ela queria ficar sozinha?

– Deus, está fedendo aqui dentro – Ruby torceu o nariz ao entrar no quarto, imediatamente

olhando para Hanna e a encontrando enrolada em lençóis que não eram trocados há três

semanas.

– Vá embora, Ruby – até para si mesma, sua voz parecia monótona e cansada.

– Não vou a lugar nenhum. Terminei minha última prova, tenho todo o tempo do mundo para

fazê-la entrar no chuveiro – Ruby foi até a janela e escancarou as cortinas. Um pouco de

poeira caiu do tecido para o chão.

Hanna piscou algumas vezes, tentando ajustar os olhos à luz da manhã. Ruby estava

franzindo a testa, e sua expressão normalmente calma parecia agitada, aumentando a ansiedade

de Hanna.

– Só quero dormir. Estou tão cansada – Hanna fechou os olhos.

– Hanna, estamos tão preocupados com você. Você nunca liga pro Richard, não vem mais

visitar a mamãe e o papai. Não me mandou uma única mensagem pra saber como vão as

minhas provas. Nem parece você mesma.

Hanna mordeu o lábio para deter uma resposta, porque queria dizer a Ruby que não se

importava nem um pouco sobre como os Larsen estavam se sentindo ou que eles nunca tinham

notícias dela. Ela era como um estranho no ninho, envenenando a família feliz com sua tristeza

e inveja, e eles estavam melhores sem ela.

Ela estava tão brava por não ter mais uma mãe para confortá-la ou amá-la.

– Estou bem, Ruby. Um pouco cansada, um pouco emocional, mas nada com que não possa

lidar – Hanna puxou os lençóis para cima, cobrindo seu rosto completamente. Ruby tinha

razão, o cheiro no quarto estava terrível.

– Você não está bem – os olhos de Ruby estavam ficando úmidos, e a voz dela refletia seus

sentimentos. – Não está nada bem. Deixe-me ajudá-la, Hanna, por favor.

– Só preciso fechar os olhos. Vou estar melhor amanhã.

– Você procurou um psicólogo, pelo menos?

– Não tem porquê. Sei o que há de errado comigo, só não consigo me importar.

– Por que não liga pro Richard? Ele está ficando louco de preocupação – o rosto de Ruby

começou a desmoronar; ela puxou as bochechas para dentro e mordeu o interior da boca.

– Não sei o que dizer – Hanna sussurrou. Toda noite, ela dormia com o nome dele nos

lábios, e acordava nas primeiras horas da manhã seguinte com a imagem dele apertando seu

coração como um torno.

– Ele te ama, Hanna. Está fora de si.

– Ele está melhor sem mim. Eu só vou deprimi-lo também – ela deixou a cabeça cair de

volta no travesseiro e fechou os olhos.

– Deixe-o vir visitá-la, ele está desesperado.

– Não posso – as lágrimas que vinham tão facilmente naqueles dias começaram a vazar dos

olhos dela. Hanna apertou os olhos como se pudesse, de alguma forma, prendê-las.

Durante os cinco meses de noites de insônia, ela passara muito tempo pensando sobre seu relacionamento, e ainda não conseguia ver um futuro possível para eles. Eles tinham passado

algum tempo juntos – sempre quando ele vinha vê-la por um fim de semana roubado –, mas

não era o suficiente para resolver os dilemas dela. Ela nunca se adaptaria à vida dele em

Nova York, não importava o quanto tentasse mudar e se acostumar.

Eles estavam num impasse; as coisas só podiam piorar a partir dali. Ela não queria viver

em Nova York, e ele não podia viver em Londres. Um deles teria que quebrar o ciclo.

Ela não sabia se era forte o bastante.

 

***

 

Duas semanas depois, ela estava fechando a última caixa quando a campainha indicou a

chegada da empresa de mudança. Hanna teve uma surpresa agradável ao ver que eles estavam

quinze minutos adiantados, e abriu a porta para deixá-los entrar.

Ela sentiu o estômago revirar assim que viu Richard apoiado no batente, passando uma mão

pelo cabelo. O terno dele estava tão amassado que parecia que ele tinha dormido vestindo-o.

Ele provavelmente tinha.

– O que você está fazendo aqui?

Richard irrompeu pela porta.

– Que merda é essa? – o tom dele era suave, mas as palavras eram duras, e ela estremeceu

quando o ouviu falar. – Você tentou terminar comigo numa carta?

– Não sabia como dizer…

– Que tal ligar? Ou esperar que eu viesse vê-la? Uma porra de uma carta? – o rosto dele

estava vermelho. Ele ergueu o papel e começou a rasgá-lo. – Que merda você estava

pensando…? – a voz dele sumiu quando olhou ao redor da sala, notando as caixas pela

primeira vez. – Você está de mudança?

Hanna balançou a cabeça lentamente.

Parando na frente dela, Richard estendeu uma mão para tocar seu rosto, e ela deu um passo

para trás.

– O que está acontecendo? – a voz dele estava baixa demais.

– Estou deixando Londres. Vou viajar.

– Então por que não me disse? Ia só desaparecer?

– Escrevi uma carta – ela sentia-se nauseada, e tentou forçar o corpo a se acalmar. Não

podia deixá-lo ver que estava desmoronando.

– Outra merda de carta? – a voz dele falhou. – Não faça isso, querida, por favor.

Deus, ela ia chorar ou vomitar, ou talvez os dois. Ela correu para o banheiro, batendo a

porta e trancando-a rapidamente. Por um longo tempo, ficou ajoelhada no chão frio, a cabeça

inclinada sobre a privada, o corpo tendo espasmos. Suas mãos tremiam enquanto se apoiava

no vaso.

Quando emergiu, ele estava de pé na sala, o celular na mão, gritando ordens no aparelho.

Ele devia ter deixado a companhia de mudança entrar – havia homens por todos os lados,

usando macacão e carregando caixas e mobília para fora até uma van estacionada no meio da

rua.

Hanna observou-os manobrar a cama e o colchão para fora da sala. Mais que tudo, queria

voltar para o quarto e enterrar-se sob as cobertas, e colocar a si mesma num armazém junto com seus pertences.

Richard seguia todos os seus movimentos, em pé no meio da sala, com a expressão séria, os

olhos verdes encarando-a. Era angustiante.

– Tenho um voo de Heathrow amanhã – ela deixou escapar, só para quebrar o silêncio dele.

– Pra onde você vai?

– Sydney.

– Vou te visitar.

– Não! – a resposta dela foi firme. – Preciso fazer isso sozinha.

– Não posso concordar com isso – toda a raiva sumiu da voz dele. Hanna percebeu que,

apesar de estar mergulhada no desespero, seria ela que teria que ser forte.

– Eu não consigo.

A voz dele era quase um sussurro.

– Você é muito mais do que pensa. Isso não vai acabar nunca.

Hanna foi até ele e passou os braços ao redor da sua cintura, encostando o rosto no peito

dele, sem discernir qual dos dois estava tremendo mais. Inclinando o queixo para olhá-lo,

Hanna viu lágrimas escorrendo pelo rosto dele, iguais às que corriam pelo dela, e ergueu-se

na ponta dos pés para beijar os lábios dele.

Caindo de volta na sola dos pés, afastou-se e pegou a bolsa, passando a alça sobre o ombro

enquanto se dirigia para a porta.

Não podia olhar para ele de novo, sabendo que sua expressão a faria mudar de ideia. Em

vez disso, fechou os olhos, pôs a mão na maçaneta e esperou que o rangido da porta parasse

para ter certeza de que ele a ouviria.

– Sinto muito, Richard.