Sempre Foi Você
Capítulo 19
9 de fevereiro de 2010
Hanna não sabia como tinha acabado a noite, sentada no canto de um bar sujo, servindo-se
dos restos de uma garrafa de vinho. Sua taça estava bem usada, manchada de batom, com
marcas de dedos e gotas vermelhas na beirada. Ela fez um sinal para o barman trazer outra,
pensando que podia muito bem terminar o dia como havia começado.
Completamente acabada.
Ela nem tinha percebido o significado da data até estar no metrô, erguendo-se com a ponta
do pé para agarrar um apoio e não voar para cima de outro passageiro. O homem ao seu lado
estava lendo o The New York Times, dobrado para não perturbar ninguém, e foi então que os
olhos dela tinham caído sobre os números no canto da página.
Fazia anos desde a última vez que ela tivera um ataque de pânico, mas Hanna reconheceu os
sintomas imediatamente. Seu coração acelerou, sua respiração tornou-se superficial, e ela
sentiu que estava prestes a desabar e convulsionar no chão empoeirado do trem. Parecia o
pior lugar do mundo para se ter uma convulsão. Essa ideia era o único fio de sanidade que
podia agarrar antes que o metrô chegasse à próxima parada.
Ela nem se importou em saber onde estava, só saiu correndo assim que as portas se
abriram. Saiu da plataforma e entrou em pânico outra vez, quando o bilhete não abriu a
cancela, de primeira. Suas mãos estavam tremendo, a náusea revirava seu estômago; ela só
tinha se afastado alguns passos da saída quando se curvou e manchou o chão com os restos do
seu café da manhã.
O rush da manhã continuou ao redor dela. As pessoas entrando na estação mantiveram
distância, imaginando que ainda estava bêbada da noite anterior ou que era algum tipo de
louca, murmurando consigo mesma enquanto se encostava na parede suja. Ela era só uma
pequena inconveniência – que eles provavelmente esqueceram quando entraram no trem.
Apenas mais uma entre os milhares de excêntricos que povoavam a grande cidade.
Em momentos como aquele, Hanna queria estar em Londres. Ela poderia ter ligado para
Natalie ou Tom, talvez pegado um táxi até a casa de Claire e se jogar nos braços dela. Claire
teria lhe dado chá e abraços até que Hanna tivesse chorado tudo que tinha para chorar,
devidamente preparada para enfrentar o dia.
Em vez disso, ela estava isolada lá, em Manhattan, com um celular cheio de números de
colegas de trabalho e conhecidos, mas nenhum amigo com quem conversar ou pedir ajuda.
Ninguém que entendia exatamente por que esse dia era tão difícil para ela.
O tempo passou mais rápido do que ela imaginou ser possível. Café da manhã numa
lanchonete e horas em uma livraria foram seguidas por um jantar antecipado no canto de um
bar sujo, no Soho. Como tinha chegado lá ela não sabia, mas se sentia mais em casa naquela parte da cidade do que em qualquer outra.
Ela passou as últimas horas da noite se afogando numa taça de vinho e rejeitando os caras
que achavam que ela seria uma conquista fácil. Mesmo no seu estado inebriado, a última coisa
que queria fazer era tentar esquecer sua mãe com uma transa sem significado.
E aqui estava ela, fechando o ciclo, pensando sobre os últimos cinco anos e como ela tinha
fodido completamente sua vida. Olhou para o relógio tentando descobrir – através da névoa
do álcool – que horas seriam em Londres. Era tarde demais para ligar para Claire ou Ruby.
Ambas já estariam confortáveis e quentinhas em suas camas.
Restava apenas outro número. Ela discou antes de pensar, como se tivesse deixado todo o
bom senso no fundo da última garrafa. Só precisou esperar dois toques antes de ele atender.
– Hanna? – a voz dele era suave e calorosa, com uma nota de preocupação.
– Richard – ela tomou outro gole de vinho. – Só queria ligar pra dizer como sinto muito…
– Você está bem?
Ela podia ouvir vozes ao fundo. Hanna mordeu o lábio e se perguntou se tinha interrompido
alguma coisa, talvez afastado Richard de um jantar com Meredith.
– O jeito como deixei você depois da morte da minha mãe. Não devia ter sumido sem
explicar por quê. Pensei nisso o dia inteiro, e…
– Deus, eu nem tinha percebido que dia é hoje. Sinto muito… – ele parecia agitado, e ela
podia visualizá-lo passando a mão no cabelo grosso. Agora ele era provavelmente a única
outra pessoa pensando sobre o dia da morte da sua mãe, cinco anos atrás.
Ela riu sem humor.
– Eu não devia ter ligado. Sei que você está com Meredith agora, e estou muito feliz por
vocês terem se encontrado. Você merece ser feliz – as palavras saíam arrastadas da boca dela.
– Você andou bebendo?
– Um pouquinho. Mas vou deixá-lo voltar pra sua noite.
– Você está em casa? – ele perguntou.
– Estou num bar.
– Sozinha?
– É.
– Merda – ele xingou baixinho. – Vou mandar Jack levá-la pra casa. Onde você está?
Ela olhou ao redor procurando o nome do bar, não encontrando nada do lado de dentro.
Então olhou para baixo, viu o apoio de copo e sorriu.
– Murphy’s. No Soho.
– Não saia daí – as palavras eram uma ordem, e ela levou muito a sério. Não queria nem
mais uma gota do clarete na garrafa à sua frente. Tudo o que desejava era o calor do seu
edredom e o esquecimento purificador do sono.
Ela ficou um pouco mais sóbria durante os quinze minutos de espera. O bartender trouxe a
conta e um copo d’água e ela o bebeu de uma vez, esperando limpar seu organismo do álcool.
Daí, ele entrou no bar, carregando um casaco de lã preto sobre o braço.
– Richard! – assim que o viu, ela pulou de susto. – Achei que fosse mandar Jack.
– Decidi vir com ele – ele respondeu em voz baixa, os olhos examinando o rosto dela com
preocupação. – Foi uma boa desculpa pra sair mais cedo do jantar.
Ele parecia cansado. Na pouca luz do bar, ela podia ver linhas ao redor dos seus olhos,
secas e profundas. Hanna mordeu o lábio, percebendo que ele só estava sendo gentil.
– Meredith está com você? – ela engoliu com força. Saber que ele estava com outra mulher
era uma coisa, ver os dois juntos quando ela estava num ponto abaixo era outra.
– Ela está visitando os pais. Era só eu e trezentos e cinquenta membros da elite nova-
iorquina – ele fez uma careta. – Então acredite, você me fez um favor – ele pegou o casaco
dela do gancho ao lado da cabine. – Agora deixe-me levá-la pra casa.
Hanna ergueu-se e se virou, colocando os braços nas mangas enquanto ele segurava o
casaco, permitindo que ele o acomodasse sobre seus ombros. Ele manteve as mãos nela por
um tempo um pouco longo demais.
***
Soltando um pouco de ar, Richard virou-se e ajudou-a a fechar os botões grandes do
casaco. Não era como ele tinha imaginado terminar a noite. Tinha planejado um jantar
agradável e civilizado, talvez seguido por um whisky ou dois, e então dormiria cedo. Em vez
disso, estava ali. Seu corpo estava eletrizado, como se vê-la o revivesse. Seus nervos o
apunhalavam como milhares de pequenas agulhas.
Ele hesitou um pouco antes de pegar a mão de Hanna. Mas então viu dois dos caras no bar
olhando-a com decepção em seus rostos, e sentiu a necessidade de marcar território – mesmo
que ela não fosse dele.
– Você realmente não precisa fazer isso – ela murmurou, tropeçando no próprio sapato. Ele
tentou reprimir uma risada, que saiu abafada, fazendo-a olhar para ele indignada. – Isso é
engraçado pra você?
– Um pouco – ele admitiu, colocando o braço sobre os ombros dela para levá-la até a porta.
Ela ficava virando para a direita, como um carro cuja direção estava um pouco desalinhada. –
Vou tentar me conter.
– Que bom, porque não quero bater em você.
– Em qual de nós dois você vai bater?
– Nos dois – ela resmungou, tentando desanuviar a visão.
Ela tropeçou nele outra vez e Richard a segurou, decidindo não apontar o óbvio. Quando
chegaram ao carro, ela estava com sono, e enfiou a cabeça na jaqueta dele, sua voz lânguida
enquanto continuava a falar um monte de bobagens.
– Você se lembra de quando a gente se conheceu? – ela perguntou. – Você estava todo
elegante no seu terno, e eu era um desastre.
– Não é assim que eu me lembro – ele estava murmurando no cabelo dela, inspirando o
aroma do xampu. – Você estava supersexy naquele uniforme de garçonete – lembranças do
cabelo preto e olhos maquiados assaltaram os sentidos dele. – Mal podia esperar pra te
mostrar meu PlayStation.
Ela riu, e então deu um soluço.
– Isso é uma metáfora?
– Não tenho certeza – ele admitiu, passando o braço ao redor dela e esfregando o braço
dela com o dedo.
– Me lembro de ter ficado impressionada com seu… ardor.
Jack parou o carro. Mesmo às onze da noite de uma terça-feira, o trânsito estava intenso.
Richard se perguntou se Hanna conseguiria ficar acordada durante o trajeto.
– Vou considerar isso um elogio.
– Deveria mesmo.
O silêncio preencheu o carro, e Richard deixou a cabeça cair para trás, pensando no que
fazer em seguida. Ele queria ter certeza de que ela chegaria bem ao apartamento. Ele sabia que
aquele dia, entre todos, era muito difícil para ela. Se pudesse colocá-la na cama e ver que
estava dormindo, sentiria-se melhor. Tentou conter a raiva que sentia de si mesmo e dos
amigos dela por deixá-la enfrentar aquilo sozinha.
Vinte minutos depois, Jack estacionou fora do prédio dela, no Upper East Side. Hanna
estava tão quieta que ele pensou que ela tivesse adormecido. Mas assim que o carro parou, ela
ergueu a cabeça e olhou para ele.
– Obrigada pela carona.
Ele ficou confuso por um momento, então percebeu que ela pretendia entrar sem ele. Por
algum motivo, ele não podia aceitar aquilo.
– Entro com você pra ver se você está segura.
Ela riu.
– Acho que os drogados e assassinos já foram pra casa. A coisa mais assustadora vai ser a
sra. Van Kemp encarando meus sapatos com desprezo e me falando que estou rebaixando o
nível do prédio de novo.
– Faça isso por mim.
Ela assentiu rapidamente, e se atrapalhou tentando soltar o cinto de segurança. Ele mordeu o
lábio para não rir, inclinando-se para soltá-lo para ela.
– Pare de rir de mim – ela deu um tapinha de leve no braço dele. – Não é engraçado.
Ele passara tempo o suficiente no apartamento do pai para conhecer o porteiro, e deu um
aceno para ele enquanto praticamente carregava Hanna até o elevador. Através do grosso
casaco de inverno, ela parecia magra e vulnerável, e ele se perguntou se protegê-la era só uma
reação natural ao seu tamanho. Talvez, como acontecia com Ruby, ele quisesse afastá-la do
mundo e mantê-la a salvo.
A ideia animou-o, e ele pegou a chave na bolsa dela e enfiou-a na fechadura. Acendendo as
luzes com uma mão, apoiou Hanna com a outra, o braço ao redor da cintura dela. Ela chutou os
sapatos para longe, que caíram no chão com um baque.
– Quer investigar o apartamento pra ter certeza de que Ted Bundy não está escondido na
máquina de lavar? – um brilho divertido passou em seus olhos.
Ele abriu um sorrisinho antes de tirar o casaco dela e pendurá-lo no armário do corredor.
– A coisa mais assustadora com que você tem que se preocupar é a ressaca que vai ter
amanhã de manhã.
Ele foi até a cozinha e pegou um copo alto do armário, encheu de água, levou ao quarto de
hóspedes e colocou no criado-mudo.
– Onde você guarda os analgésicos? – ele perguntou, tentando não olhar enquanto ela
soltava o cabelo, que caiu sobre os ombros. – Vou pegar uns pra você e depois vou embora.
Ela piscou no espelho, o olhar cruzando com o dele.
– No armário, em cima da pia.
Richard entrou no banheiro, surpreso com a falta de cosméticos e produtos de beleza. Ele
apanhou o frasco de ibuprofeno e levou até a cama.
Hanna estava sentada sobre as cobertas, a cabeça apoiada na cabeceira. Ele abriu o frasco, tirou dois comprimidos e colocou gentilmente na boca dela. Erguendo o copo aos seus lábios,
incentivou-a a beber, incapaz de não passar uma mão no cabelo dela enquanto ela engolia.
– Isso é tão bom – os olhos dela se fecharam, enquanto ele acariciava sua cabeça. – Você
não pode ficar um pouquinho?
– Você precisa dormir – ele pôs a mão atrás dela e abaixou seu zíper. O gesto pareceu
íntimo demais, e ele tentou reprimir sua reação à proximidade. – Vai se sentir melhor depois
de uma boa noite de sono.
– Você é tão gentil – a voz dela era só um sussurro, e ela aproximou-se dele, enfiando a
cabeça no espaço entre seu ombro e pescoço. – E cheira tão bem. Você sempre cheirava bem,
até de manhã. É uma das coisas que mais sinto falta.
– Sente falta do meu cheiro? – ele tentou transformar a frase numa piada, mas ela começou a
tirar o vestido.
Ele ficou imediatamente duro.
– Feche os olhos, preciso me trocar – a ordem era bastante fraca, e veio tarde demais.
Porém, ele obedeceu ao pedido, apertando as unhas nas palmas das mãos, tentando se impedir
de tocá-la. Se visse o arco macio e pálido dos seios dela, estaria perdido.
A cama ondulou enquanto ela tentava se livrar das roupas. Ele ficou tão imóvel quanto
podia, lutando contra a vontade implacável de abrir os olhos. Será que ela ainda era como ele
se lembrava, com pele macia e curvas suaves? Será que os últimos cinco anos tinham-na
mudado no exterior, além de no interior?
Ele nunca tinha pensado que seria o tipo de homem que trairia. Estava noivo de uma mulher
que confiava nele, e queria merecer aquela confiança. Os pensamentos rodopiando na sua
cabeça eram completamente indefensáveis, e ele se sentia um merda.
– Estou decente – Hanna deitou-se na cama, o cabelo espalhado sobre o travesseiro branco.
– Obrigada por tudo.
– De nada – mesmo enquanto falava, ele podia ver que ela estava começando a adormecer,
as pálpebras agitando-se e seu rosto assumindo uma expressão tranquila. Ele estendeu a mão e
tirou o cabelo dos olhos dela, sentindo a pele macia com os dedos. Ela suspirou suavemente, e
ele ficou ainda mais duro enquanto encarava os lábios ruborizados e inchados dela.
Só um gostinho.
Ele inclinou-se e roçou os lábios na boca dela, e sua respiração suave banhou a pele dele.
Hanna abriu os olhos e encarou-o. Então passou os braços ao redor do seu pescoço e puxou-o
para um beijo feroz. Cada centímetro dele despertou, o prazer percorrendo todo o corpo.
Ao mover a mão pelo corpo dela e passar os dedos contra um seio até ela começar a gemer,
ele se permitiu sentir a emoção mais assustadora de todas.
Esperança.
***
Era como se tudo no quarto explodisse em Tecnicolor, deixando-a sóbria mais rápido que
um balde de água gelada. No momento em que os lábios dele tocaram nos dela, Hanna sabia
que chegara àquele ponto sem volta. Ele era o sol e ela estava em órbita, girando ao seu redor,
atraída por ele. Tudo nele a fazia queimar.
O colchão afundou quando ele se alinhou sobre ela, e Hanna girou os quadris, sentindo a ereção dele em sua barriga. Ele passou os dedos de leve pelo lado do seu corpo, com toques
suaves e gentis, fazendo os mamilos dela endurecerem e suas coxas ficarem úmidas.
– Hanna… – ele exalou contra a bochecha dela. Ela mordeu o lábio e tentou não responder.
Tentou distraí-lo mexendo os quadris outra vez.
Pareceu funcionar.
– Me deixe… – ele não esperou a permissão dela, erguendo a blusa até o pescoço,
revelando seus seios. Enquanto ele a olhava, umedecendo a boca com a língua, Hanna sentiu a
ereção dele tremendo contra ela outra vez. Os dedos dele encontraram seus mamilos, e ela
sentiu o prazer indo direto para sua virilha.
Seu monólogo interior começou a distraí-la. O medo de que eles fossem de fato fazer aquilo
foi rapidamente substituído pelo medo de que não fossem. No fundo, ela sabia que era errado,
mas reprimiu o pensamento, enterrando-o sobre a necessidade intensa que ardia em seus
nervos.
Era difícil olhar para ele. Hanna não sabia o que veria lá, nem tinha certeza do que gostaria
de ver. Desespero, talvez. Ou uma necessidade refletindo a dela? O que ela temia era
arrependimento, tristeza ou pena, e sabia que se visse qualquer uma dessas coisas, choraria.
Ela não queria chorar. Sentia-se bem demais para lágrimas ou arrependimento. Ela tinha
esperado tanto tempo para sentir a boca dele chupando seus mamilos, umedecendo-os
gentilmente antes de raspar os dentes na pele dela…
Ela precisava mandar sua mente calar a boca.
Sentindo os medos dela, Richard pôs uma mão em seu queixo, erguendo seu rosto até que
ela o encarasse. Quando seus olhos cor de chocolate encontraram os olhos verdes dele, ela
soube que estava completamente errada.
Eles brilhavam ferozmente, estreitos e escuros, e o modo como ele a olhava deixou-a sem
fôlego.
– Eu preciso… – assim como Richard, ela não conseguiu terminar a frase. Mas não
precisou. As mãos dele foram para trás dela, puxando seus shorts para baixo até que
descessem pelas pernas, deixando-a exposta e desesperada. O ar frio encontrou sua pele
úmida, fazendo-a se erguer um pouco da cama, criando fricção em um vácuo. Suas coxas
estavam sensíveis quando ele as tocou, separando-as delicadamente.
Aquilo era bom demais.
Os dedos dele acariciaram a pele úmida do interior das coxas dela. Ele a tocou até ela estar
mais exposta do que nunca, deslizando contra ela, e então, empurrou até que o corpo dela se
rendeu, convidando-o. Ela gemeu, um suspiro baixo e suplicante, flexionando os quadris até
que os dedos dele estivessem dentro dela.
Richard desceu por seu corpo, os lábios encontrando seu centro, a língua forte sobre ela,
fazendo-a se mexer no ritmo dos seus movimentos. A tontura na cabeça dela não tinha nada a
ver com o vinho, mas tudo a ver com as sensações que ele estava criando. Hanna queria tocá-
lo e deixou as mãos caírem na cabeça dele, enfiando os dedos em seus cabelos, puxando até
ouvi-lo gemer.
Os olhos de Hanna se arregalaram e sua boca se abriu, e ela soltou um som que ficava entre
um grito e um soluço. Richard colocou um terceiro dedo dentro dela quando ela começou a se
contrair, intensificando a sensação de prazer até que seus joelhos começaram a tremer.
Ela estava tão perto.
Assim que ele retirou os dedos, ela se sentiu vazia. A perna dele deslizou sobre a dela, o
joelho dele tocando sua panturrilha. Hanna começou a mexer com os botões dele, os dedos
escorregando como os de uma criança animada abrindo um presente de aniversário. Quando
conseguiu, abriu o zíper e abaixou sua calça até que Richard entendeu a mensagem e se
movimentou para ajudá-la.
Richard terminou a tarefa, empurrando a calça para baixo, e ela acompanhou o movimento
com as mãos. Acariciou a pele dele, sentindo os músculos duros das coxas alongados sobre a
pele tesa.
– Tire a blusa – ele se ajoelhou na cama, puxando a blusa dela. Hanna tirou-a e jogou no
chão em seu desespero para estar nua. Os joelhos dele estavam dos lados das suas pernas,
mantendo-a presa, tornando difícil não encarar o contorno da ereção dele através da cueca.
Ela traçou uma linha até os testículos dele. Richard ficou ainda mais duro, a ereção
emergindo, e Hanna viu uma pequena gota se formar lá. Ela se inclinou para chupá-la, e um
gemido abafado escapou dos lábios dele. Ela repetiu o movimento, passando a parte plana da
língua contra ele e então torcendo-a, beijando e chupando-o, usando as mãos para abaixar a
cueca dele.
Richard pôs as mãos atrás da cabeça dela, encorajando seus lábios num ritmo estável.
Arrastando a língua na base dele, ela subiu, chupando, beijando, sentindo o gosto.
– Pare – ele segurou a cabeça dela, e, pela primeira vez, ela ergueu os olhos e encontrou os
dele. Seus lábios ainda estavam ao seu redor. A boca dele estava inchada, brilhando, aberta
enquanto ele respirava por ela. – Quero estar dentro de você.
As palavras atingiram-na como uma dose de heroína. Hanna jogou a cabeça para trás, vendo
a ereção dele saltar contra os músculos definidos da barriga, então agarrou a cueca,
desesperada para tirá-la de vez.
– Deite – ele pôs uma palma no ombro dela, empurrando-a de costas sobre o colchão, os
lençóis macios sob suas costas. Jogando a cueca para longe, Richard acomodou-se sobre ela,
colocou as mãos do lado de sua cabeça para que ela não pudesse se mover, encurralada como
um animal.
Ela estava molhada demais. Os quadris dele empurraram suas coxas enquanto ele se
alinhava, parando por um longo momento antes de penetrá-la.
– Richard… – as palavras eram pouco mais do que um suspiro.
Ele beijou-a de novo, e ela podia sentir o próprio gosto nos lábios dele. Os quadris dele se
mexeram e ele recuou, esfregando-se nela como um arco contra um violino. Ela apertou os
olhos e tentou manter sua resposta sob controle.
– Abra os olhos. Quero te ver – os movimentos de Richard eram firmes, mas as palavras
não. Era perfeito tê-lo entre as coxas, e Hanna envolveu as pernas ao redor dele com mais
força, apertando os calcanhares nas suas costas e puxando-o para mais perto.
Ela estava se afogando. Não sabia se ele a salvaria ou a empurraria para baixo.
– Você está perto? – a respiração de Richard estava ficando mais superficial, seus
movimentos erráticos, e ela sabia que ele estava próximo. Hanna abriu a boca, mas as
palavras foram abafadas pela sensação de um dedo esfregando-a, fazendo círculos pequenos e
deliciosos, extraindo seu prazer como um artista.
Ela deu um grito, enterrando a cabeça no pescoço dele, sentindo o suor dele nos lábios. Os
quadris dele batiam contra ela, os gemidos dela abafados na pele dele, o corpo se contraindo.
Os gemidos dele aumentaram enquanto ela ofegava na sua orelha, e mesmo se não
conseguisse senti-lo pulsando dentro dela, Hanna saberia que ele estava gozando pela
mudança em sua respiração. Ele xingou baixinho quando teve o orgasmo, e ela sentiu outro
espasmo, esfregando-se nele enquanto se agarravam um ao outro, escravos da sensação.
E por fim, acabou.
Ela apertou as coxas úmidas ao redor dos quadris dele enquanto o corpo pesado dele caía
sobre ela. A respiração ofegante de Richard tornou-se mais longa e superficial. Ambos
retomavam a consciência. A realidade atingiu-os como uma bomba.
Deitada nua sob o homem pelo qual ela ainda era apaixonada, ainda duro dentro dela,
Hanna sabia que devia estar horrível. Seu cabelo estava desgrenhado contra o branco do
travesseiro, sua maquiagem manchada depois de um dia de choro e uma noite de bebedeira.
Ele ergueu os quadris e saiu dela, e Hanna deixou a cabeça cair contra o colchão enquanto
encarava o lustre de prata e vidro sobre a cama, deixando a luz das lâmpadas queimar suas
retinas. Mesmo com os olhos fechados ela podia vê-las, como um fantasma do que podia ter
sido.
– Hanna, eu… – ele soava tão desconfortável quanto ela se sentia, gaguejando as
consoantes e alongando as vogais.
Ela piscou algumas vezes, as imagens gravadas em seus olhos, indo do preto ao branco,
fazendo seus olhos arderem. Richard caiu ao lado dela. Ela o viu erguer uma mão e então
parar no meio do gesto.
– Não – a voz dela estava baixa e rouca. Ela engoliu com força, sentindo como a garganta
estava seca. Queria trazê-lo para seus braços.
– Desculpe. Eu não tinha o direito de tirar proveito de você.
– Não tirou, eu também queria – ela mordeu o lábio com força. A dor era boa.
Richard deitou de costas, jogando um braço sobre o rosto e cobrindo os olhos. Ela se
permitiu olhar o corpo dele, os olhos percorrendo do pescoço até a pele tesa e delineada do
abdômen. Apenas alguns segundos atrás, aquele corpo estivera pressionado contra o ela,
criando um fogo enquanto pele se esfregava contra pele.
Agora ela estava tremendo.
– Vem cá – ele puxou-a para perto e ela fechou os olhos. Queria que ele fosse embora, mas
estava desesperada para que ficasse. Saber que ele estava tão perto e tão longe ao mesmo
tempo doía demais, uma sensação só amortecida pela rendição doce do sono.
Em vez de pensar, ela se submeteu ao chamado da sereia. A necessidade de esquecimento
mais forte do que nunca.
***
Quando acordou na manhã seguinte, Hanna tentou fingir que tinha sido apenas um sonho
induzido pelo álcool. Mas a dor entre as pernas era real, e ela não tinha que se tocar para
encontrar evidências das atividades da noite anterior. Bastava inalar o aroma de Richard para
se lembrar do que acontecera em detalhes nítidos.
Ela ergueu a mão e passou os dedos no cabelo, seu progresso interrompido pelos nós
criados pelo sexo e pelos sonhos inquietos. A luz do dia atravessou as cortinas grossas,
deslizando sobre o batente.
– Não queria acordá-la – a voz dele era suave e seu toque era firme, quando ele se sentou
na cama ao lado dela. Ele estava vestido, usando apenas a calça e a camisa branca da noite
anterior.
– Está de saída?
– Tenho uma reunião às sete que não posso cancelar – havia uma nota de arrependimento
nas palavras. Então ele se inclinou e encostou os lábios na testa dela, deixando uma trilha
gelada na sua pele.
– Ah – ela franziu a testa, tentando pensar em uma resposta adequada. Era como se seu
cérebro ainda não tivesse percebido que ela já estava acordada.
– Podemos nos encontrar hoje à noite? – a boca dele roçava sua pele. – Precisamos
conversar.
Ela mordeu o lábio inferior, a realidade da situação pegando-a de surpresa. Havia tanta
coisa a dizer. Ela não sabia por onde começar.
– Tenho entrevistas o dia todo. Estarei livre às seis.
– Entrevistas? – ele franziu as sobrancelhas. Ela estendeu um dedo para alisá-las. Só esse
toque foi suficiente para excitá-lo.
– Para o meu substituto… hora errada, não é?
A história da vida deles.
– Eu te pego às seis. Não tome nenhuma decisão precipitada.
– Por que não? – as palavras não ditas eram como uma ferida que ela queria cutucar e fazer
sangrar.
– Porque quero você aqui comigo.
– Não costumo trair, Richard, e você também não – mas eles mentiam. Ambos traíram na
noite anterior.
Os músculos faciais dele contraíram-se quando ele a olhou. Na meia-luz da manhã, a pele
dele parecia morna e bronzeada. Ela queria beijar todo o seu corpo.
– Quando Meredith voltar semana que vem, vou terminar com ela.
E assim, foi como se o coração dela tivesse ganhado asas e saído do seu peito. Embora
bem-vindas, as palavras dele foram uma surpresa. Em somente um dia, ela tinha passado de
não ter nada a possivelmente ter tudo.
Eles estavam tão perto.
– Ok – ela sussurrou e sentou-se, os lençóis caindo do corpo para revelar seu peito nu. A
tensão no rosto de Richard ficou mais forte, e ela rapidamente agarrou os lençóis e puxou-os
até os ombros.
– Quero muito tocar você – ele confessou, as mãos fechadas em punhos como se estivesse
se reprimindo. – Mas fiz tudo errado até agora.
– Richard…
– Não, deixe-me falar. Você sabe que eu te amo, sempre te amei, e você merece ser a
primeira na minha vida. Eu não devia ter dormido com você enquanto ainda estou com ela.
– Você estava bêbado. Nós dois estávamos.
– Isso não é desculpa – ele estava agitado agora, passando os dedos longos pelos cabelos. –
Quero tentar consertar tudo isso, fazer as coisas direito. Podemos ser só amigos até semana
que vem?
Hanna suspirou, um alívio inundando seu peito.
– Parece ótimo.
***
Levou o dia todo, mas Hanna encontrou o homem certo para o trabalho. Como ela, Paul
Spence tinha uma carreira no jornalismo cultural, e seu conhecimento da cena musical de
Nova York rivalizava com o dela com sua natureza enciclopédica. Ela ficou até um pouco
triste porque não trabalharia ao lado dele em Nova York. Eles se deram bem desde o início, e
ela passou metade da entrevista fazendo perguntas sobre shows que ele vira há pouco e
discutindo amigavelmente sobre os méritos de bandas diversas.
– Foi um prazer conhecer você, Paul – ela disse, quando o elevador chegou. – Entro em
contato em breve.
Assim que ele entrou no elevador, ela voltou para o escritório e colocou o casaco, animada
por faltar apenas meia hora para ver Richard outra vez.
Como ela aguentou ficar longe dele por tanto tempo? Como um escultor, ele tinha
transformado a argila cinza da vida dela em algo lindo. Ela se sentia tão viva.
Eram seis e cinco quando o celular dela tocou, e ela tentou não sorrir quando ouviu os
acordes dissonantes de “Last Nite”, dos Strokes, tocando na sua bolsa. Richard tinha
reprogramado o celular dela enquanto ela dormia. Ela apreciou o toque de humor em meio à
seriedade da situação.
– Alô?
– Hanna? – ele parecia ofegante. Sob o timbre da sua voz, ela podia ouvir os sons
familiares da cidade: o ronco dos motores, as buzinas e o barulho constante das sirenes de
polícia.
– Você está na rua? – ela não se deu ao trabalho de disfarçar seu entusiasmo. Estava feliz
demais.
– Querida, houve uma mudança de planos.
– Ah, é? – a animação vazou dela como a areia de uma ampulheta quebrada. – Você ainda
vem me pegar?
– Meredith sofreu um acidente – a voz dele era monótona. Hanna franziu a testa por um
momento, tentando pensar em algo para dizer, uma palavra reconfortante, uma frase
tranquilizadora. Mas a única coisa em sua mente era pânico, puro e cego.
– Vou encontrá-la agora. Parece que foi feio – a voz dele falhou e Hanna quis poder tocá-lo.
Suas mãos fecharam-se ao redor do ar da sua decepção, um substituto pobre para o corpo
dele.
– Não sei o que dizer. Sinto muito.
– Ligo pra você quando souber mais. Me dê um pouco de tempo, ok?
Ela respirou fundo, deixando o oxigênio encher seus pulmões, segurando-o no peito até que
a necessidade ardente de exalar controlou sua mente. Soltando o ar de uma vez, ela, por fim,
se acalmou o bastante para responder.
– Concentre-se em Meredith. Depois me avise como ela está.
– Amo você – as palavras foram ditas com desespero. Hanna tentou se agarrar a elas, como
uma criança apanhando uma bolha que dançava pelo ar. Ela temia que, quando abrisse a mão,
a perderia.
– Também te amo – não havia mais nada a dizer. A mente dela estava explodindo com as
coisas que queria confessar a ele, mas elas teriam que esperar. Por ora, ela tinha que deixá-lo
ir. Ele ainda pertencia a Meredith. Até que rompesse esse laço, era ela, Hanna, a intrusa.
A culpa que ela tinha suprimido o dia todo estava crescendo em sua mente, e ela se
perguntou se o acidente seria um julgamento divino ou só azar.
Hanna começou a suspeitar que era um pouco de ambos.
***
Na semana seguinte, Hanna estava saindo do escritório, apertando o casaco para bloquear o
vento. Já estava ficando escuro; o céu estava nublado e cinza, e embora o tempo estivesse
seco, o ar cheirava a neve. Ela sentiria saudades dos extremos altos e baixos de morar ali – o
calor abafado do verão e os laranjas brilhantes do outono. Londres era uma cidade linda – e a
que ela mais adorava –, mas Manhattan tinha sido um caso de amor alucinado.
O vento estava batendo forte na Second Avenue e ela virou a gola do casaco para cima,
arrependendo-se de ter deixado o cachecol no escritório. Havia um sedan preto estacionado e
um vapor cinza saindo do escapamento. Ela olhou com interesse quando a porta traseira se
abriu.
– Hanna.
Richard saiu do carro, pondo os pés na calçada, e ela moveu-se em sua direção. Ele parecia
tão exausto; sua pele estava pálida, seu cabelo desgrenhado, e ela queria jogar os braços ao
seu redor e puxá-lo para perto dela.
– Achei que ainda estaria com Meredith.
Na semana desde que Hanna o vira pela última vez, eles só tinham falado ao telefone
algumas vezes. A maior parte dos dias de Richard consistia em sentar com a noiva, resolver
questões do seguro dela, e tomar as providências para que fosse transferida para Nova York.
Talvez fosse por esse motivo que ele estava ali.
– Estou entrevistando enfermeiras – a voz dele tinha o mesmo tom monótono que ela vinha
ouvindo a semana inteira. Era como se ele estivesse tentando não sentir nada. – Meredith vem
de helicóptero amanhã.
– Como ela está? – era uma questão estúpida. Estavam ambos parados lá, contendo-se para
não se tocarem. A única coisa que os impedia era a saúde de Meredith.
– Ainda não consegue se movimentar muito bem, mas os médicos dizem para termos calma.
Disseram que, com terapia intensiva, há esperança de que ela possa andar em pouco tempo.
– Que bom – o vento batia no rosto dela, fazendo-a corar. Um floco de neve solitário caiu
na frente dos olhos dela. O grosso torrão dançou no ar sem pressa de atingir o chão.
– Espero que sim – ele parecia tão desconfortável quanto ela. A neve começou a cair
pesadamente. Ele limpou a garganta, dando uma olhada no teto do prédio dela, e ela se
lembrou de que ele era o dono do imóvel. Era tão estranho como tudo na sua vida levava a
ele.
– Vou embora semana que vem – não poder tocá-lo era uma agonia na alma dela. – Mas não
quero ir.
Ele estava agitado, e Hanna podia ver seus olhos brilhando enquanto ele tentava calcular
algo em sua mente.
– Por que você não vem pra cá logo?
Ela estava nos braços dele antes que ele terminasse a frase. Não parecia suficiente só
abraçá-lo; ela queria entrar dentro dele até que fossem uma única pessoa.
– Tudo isso é uma merda – ela olhou para ele, e os olhos de Richard estavam úmidos
também.
– Tenho que ajudar Meredith a se recuperar. Ela não pode morar sozinha ainda, precisa de
supervisão constante – ele passou os dedos pelo cabelo de Hanna. – Mas quando ela estiver
melhor, vou contar tudo. Então vou pegar o primeiro voo para Londres.
Ela abaixou a cabeça e encostou no peito dele. O casaco de Richard estava levemente
úmido da neve e ela podia ver gotas se agarrando às fibras de lã. Aquelas palavras eram mais
do que ela tinha esperado; eram quase uma promessa de um futuro que podia ser deles. Mas a
ideia de enfrentar meses de dor e dúvidas era demais para suportar.
– Amo você – ela correu os dedos pela pele fria do rosto dele. Então parou por alguns
segundos, tentando encontrar as palavras certas. – Mas não podemos continuar um caso
emocional enquanto você está noivo de outra mulher. Já estive do outro lado dessa história e
me sentiria terrível se machucasse outra pessoa desse jeito.
Ele soltou-a um pouco.
– Eu sei, eu sou um bosta.
Ela tentou sorrir.
– Não é! As circunstâncias podiam ser melhores. Pelo menos não vamos ficar tentados a
nos ver.
– Eles inventaram um negócio chamado avião…
– Você sabe o que eu quero dizer. Enquanto ainda estiver com Meredith, precisamos parar
com isso. Me encontre quando as coisas estiverem melhores pra você. Ainda moro no mesmo
lugar, e sei que você tem meu celular.
– Pode levar meses.
– Eu estarei lá.
Em pé, na frente dela, ele ergueu seu queixo com um dedo e abaixou a cabeça até encostar a
testa na dela.
– Promete? – ele estava tão perto, e ela estava se perdendo no verde dos seus olhos.
Precisou de toda sua força de vontade para não beijá-lo.
– Prometo.