Sempre Foi Você

Carrie Elks · Capítulo 29 de 29

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Sempre Foi Você

Epílogo

 

27 de agosto de 2021

 

– Mãe! – um grito veio do bosque ao lado do palco. Hanna virou a cabeça e procurou a

fonte do grito. Ela viu Lily sair correndo da sombra das árvores, seu rostinho de sete anos

contorcido com justa indignação. – Matty disse que meninas não podem subir em árvores!

Hanna viu Lily aproximar-se com as mãos nos quadris, o cabelo como se tivesse sido

arrastada de costas por uma sebe. As roupas dela estavam cobertas com a evidência

avermelhada da terra.

– Ele disse? – a voz de Hanna estava baixa, mas ela podia ver Matty espreitando nas

sombras. Como Hanna, ele estaria mordendo o lábio, temendo as consequências de suas

ações.

Lily estava tentando conter as lágrimas. Hanna sabia que eram de raiva, e não de tristeza, e

aquilo a deixava contente.

– E todo mundo sabe que eu consigo subir mais alto do que todos eles – Lily fez um gesto

desdenhoso, referindo-se a Matty e ao seu primo, Nathan Junior.

– Tente ignorá-los, querida – Hanna puxou Lily para perto, envolvendo-a com os braços. –

Eles estão com inveja, e talvez um pouco preocupados com sua segurança.

– Eu não estava subindo tão alto, mamãe – Lily bufou. – Eu queria ver dentro do ninho do

pássaro.

Hanna apertou os olhos e tentou não pensar no perigo que a filha estava correndo. Ela

queria que as crianças crescessem com uma dose saudável de natureza, sabendo que o mundo

era delas para explorar. Mas era difícil estabelecer limites e impedi-los de levar as coisas

longe demais.

Lily abraçou a mãe antes de se afastar e correr de volta para a floresta, onde, sem dúvida,

azucrinaria os primos até que admitissem que ela era a melhor escaladora. Hanna viu Matty

aproximar-se dela, uma careta no rosto.

– O pai mandou notícias? – ele olhou para baixo, mas Hanna sabia que estava mordendo o

lábio outra vez.

– Ainda não, querido – ela estendeu uma mão e apertou o ombro dele. Matty era seu filho

mais sensível e o mais próximo de Richard. Eles eram dois homens num mar de meninas, e

eles se apoiavam um no outro. Quando Richard viajava, Matty era como uma alma perdida,

contando as horas até o retorno do pai.

– Ele vai voltar a tempo? – Matty ergueu os olhos para ela e Hanna podia ver a trepidação

neles. Ela sentiu um aperto no coração por ele.

– Querido, quando seu pai diz que vai estar em algum lugar, ele aparece. A não ser que haja

uma catástrofe ou algo que o impeça fisicamente. Ele nunca quebra uma promessa.

Ele olhou para ela, seu rostinho de dez anos brilhando com esperança.

– Quero muito que ele venha.

Hanna puxou-o para perto.

– Eu sei, querido. E ele quer vir também. Ele só falava disso quando ligou ontem – ela

abriu um sorriso para ele. – Mas, de qualquer modo, você precisa parar de provocar sua irmã.

Está deixando-a louca.

– Ela que me deixa louco – ele reclamou. – Ela fica sempre atrás de mim e NJ – Nathan

Junior e Matty eram inseparáveis, apesar de haver dois anos de diferença entre os primos.

Hanna gostava de ver os filhos cercados pela família, como peixes nadando em um mar de

amor.

– Preciso que seja um homenzinho hoje, Matt – ela sabia que ele odiava o apelido, embora

ele sempre fosse ser Matty para ela. – Sem o papai aqui, preciso da ajuda de todos vocês para

organizar o show.

Ela olhou ao redor do acampamento, maravilhada com quanta coisa tinham realizado ao

longo dos anos. De uma ideia de Richard, o Acampamento de Verão Memorial Leon Maxwell

tinha crescido para incluir não só as crianças afetadas pelo 11 de setembro, mas também

crianças negligenciadas e pobres por todo os Estados Unidos. Hanna tinha trabalhado a

semana inteira com as cento e cinquenta crianças para organizar um show, e a apresentação

começaria em menos de três horas.

O campo já estava cheio de espectadores, sentados em toalhas e fazendo piquenique,

esperando o show começar.

– Eu ajudo, mamãe – Matty enfiou a cabeça no ombro dela, e ela lembrou-se de como ele

tinha crescido. Como o pai, ele era alto e parecia ter muito mais do que seus dez anos.

– Obrigada – ela sussurrou no cabelo dele.

– Acha mesmo que o papai vai voltar a tempo de me ouvir tocar? – ele perguntou de novo.

Richard estava viajando havia duas semanas, trabalhando com a Fundação Maxwell para

ajudar crianças pobres na África Ocidental. Ele pretendera chegar em casa no dia anterior,

mas reuniões de emergência com chefes locais tinham atrasado sua partida.

– Ele estará aqui – Hanna não precisou pensar duas vezes. Nos últimos oito anos de

casamento, ele nunca a decepcionara. Com certeza não decepcionaria os próprios filhos.

– Então tá – Matty ficou um pouco mais relaxado. Ela o viu correr até o palco, onde Tom

estava trabalhando com um grupo de roadies, tentando montar o sistema de som em seus altos

padrões. Tom abaixou-se e sussurrou algo no ouvido de Matty, e Hanna pôs a mão no peito

enquanto os via conectar os cabos. Tom mostrava ao afilhado onde cada um deveria entrar.

– Parece que está tudo se ajeitando – uma voz alegre à sua esquerda fez Hanna se virar.

Claire estava atrás dela, segurando Molly, adormecida, em seus braços. Molly tinha o dedão

na boca e o chupava com voracidade. Hanna estendeu uma mão para tocar seu cabelo macio.

Com dois anos, ela era o bebê da família, e todos a mimavam.

– Vou ficar feliz quando começar – Hanna admitiu. – As crianças estão todas agitadas.

– É importante para elas que as pessoas venham assisti-las. A maioria nunca se apresentou

em público antes.

Hanna assentiu, tentando engolir as lágrimas quando pensou em quão negligenciadas

algumas daquelas crianças eram. Apenas uma semana do ano não era suficiente para fazer a

diferença, e aquilo a deixava furiosa. Ela olhou para o lago, onde Sean Flynn, o diretor do acampamento, tinha organizado uma série de jogos para distrair as crianças da apresentação

iminente.

– Você e Richard fizeram coisas maravilhosas desde que reformaram a Fundação Maxwell

– Claire esfregou o braço de Hanna. – Estou tão orgulhosa de vocês dois.

– Obrigada – Hanna sentiu um nó na garganta. – Não podíamos ter feito tudo isso sem você.

Era verdade. Claire tinha trabalhado tão duro quanto eles para angariar fundos, organizando

bailes e jantares de caridade em Nova York. Todas as coisas das quais Hanna tinha

naturalmente fugido.

– Vou levar Molly para tirar sua soneca – Claire apontou uma cabana que servia de

escritório, onde Hanna tinha erigido um berço de viagem no início do verão. Hanna assentiu e

agradeceu Claire, e ela dirigiu-se para lá.

Claire e Steven tinham se mudado para os Estados Unidos alguns anos antes. Eles eram um

apoio enorme para Richard e Hanna, assim como para o resto da família deles. Nathan e Lucy

tinham se estabelecido em Connecticut, e embora Tom ainda viajasse muito em turnês, ele e

Ruby viviam em Nova York.

A cidade que Hanna tinha odiado boa parte da vida de repente tornara-se seu lar.

Ela ainda amava Londres, é claro, e eles levavam as crianças para lá com frequência,

ficando na linda casa que tinham comprado em Putney. Mas ela não sentia mais o desejo e o

desespero de sair de Nova York. Embora vivessem em Connecticut agora, ela sempre viajava

para Manhattan para reuniões ou para fazer compras.

– Mãe, mãe, olha quem está aqui! – Lily veio correndo das árvores de novo, apontando o

dedo na direção do estacionamento. – É o tio Treme!

– Lily Larsen! – Hanna repreendeu. – Já disse pra você não chamá-lo assim.

Por seus tiques estranhos e a incapacidade de manter as mãos paradas, as crianças deram

aquele apelido para Daniel Maxwell. Hanna não gostava nada isso, no entanto.

– Ele disse que gosta – Lily replicou, seu cabelo ruivo voando para todos os lados quando

ela mudou de direção e correu para o tio, jogando-se nos braços trêmulos dele.

Daniel colocou o braço ao redor de Lily e eles foram até Hanna. Um sorriso surgiu no rosto

dele quando abraçou as duas.

– Sentimos sua falta – desde que tinham comprado a casa em Connecticut em 2013, Daniel

tinha virado um visitante regular, ficando meses a cada visita, morando no pequeno chalé nos

fundos do terreno para ter um pouco de privacidade. Ela se acostumou a tê-lo por perto, e

quando ele ia embora – o que fazia pelo menos quatro ou cinco vezes por ano –, ela odiava

ver o chalé vazio. No fundo, ele ainda era um viajante, e ela suspeitou que o espectro dos seus

vícios ainda não havia sido vencido. Mas ele era um membro querido e amado por toda a

família.

– Senti falta de vocês também – ele apertou a cintura dela. – Notícias de Richard?

– Ele deve chegar logo – ela respondeu. – O voo deve pousar às três. Matty não se aguenta

de preocupação.

– Ele está preparado para seu grande dia? – Daniel perguntou, franzindo as sobrancelhas.

Matty tocava bateria desde que tinha seis anos e Tom ofereceu a ele a vaga de baterista para a

primeira música do Fatal Limits. Seu nervosismo vinha crescendo a cada dia.

– Ele está morrendo de medo – Hanna confessou. – Se Richard não chegar logo, não sei o

que vai fazer.

– Vou falar com ele – Danny já estava atravessando o gramado, arrastando a perna direita

enquanto andava. Ele era uma figura estranha: parecia um garoto, embora tivesse quase

quarenta anos. Ela estava feliz por ele estar ali, junto com Tom, para apoiar Matty.

Verificando o relógio, ela decidiu juntar-se a eles no palco. Estava pronta para começar a

checagem de som, precisando se certificar de que estava tudo indo conforme o planejado. Os

bastidores eram uma colmeia em atividade, enquanto todo mundo tentava verificar se as

preparações de último minuto estavam completas. Desde a eletricidade e o som até a

iluminação, tudo tinha sido planejado para funcionar sem erros.

– Hanna – Tom sussurrou, envolvendo o braço dela com a mão. – Você tem um minuto?

Ela olhou para as próprias roupas. Tinha cerca de meia hora para tomar banho e pôr o

vestido que tinha pendurado no escritório. Os shorts velhos e a camiseta de banda que estava

usando não eram exatamente adequados para cumprimentar os doadores.

– Claro – ela se permitiu ser arrastada para o lado do palco.

– Matty está se recusando a tocar. Ele está sofrendo de um caso sério de medo do palco – o

rosto de Tom revelava sua compaixão.

Hanna sentiu um aperto no coração. Ela sabia como aquele dia era importante para seu

menino, como ele estava animado para tocar ao lado do seu herói. Saber que a ansiedade

estava impedindo-o de realizar seu sonho quebrou seu coração.

– Eu falo com ele.

Tom passou a mão no rosto dela. Eles compartilhavam o privilégio de serem casados com

um Larsen, e a amizade familiar dos dois manteve-se ao longo dos anos. Ele e Ruby estavam

nomeados no testamento dela como guardiões das crianças, caso algo acontecesse com ela e

Richard.

Hanna encontrou Matty sentado sob um tronco, abraçando os joelhos enquanto se balançava

num ritmo silencioso. Ela imaginou que ele estava ouvindo música em sua cabeça; ele estava

constantemente cantando ou batucando. Mesmo aos dez anos, a música era sua vida.

Ele era como ela naquele ponto.

Ela sentou-se ao lado dele, imitando sua posição. Ele olhou-a com os olhos brilhando de

lágrimas.

– Ei, querido – ela cutucou-o com o cotovelo. Não queria perguntar o que estava errado.

Sabia por experiência própria que era melhor deixá-lo contar voluntariamente.

Matty grunhiu e pôs a cabeça entre os joelhos. Ele continuou a se balançar e ela passou um

braço por sobre seus ombros, ajeitando-se no chão até que eles estivessem próximos.

Eles ficaram sentados em silêncio e ela fechou os olhos, desejando poder absorver todos os

seus medos e tirá-los dele. Ela odiava aquela parte de ser mãe: ver o filho sentir dor e medo e

não ser capaz de fazê-los desaparecer.

– Não quero tocar – a voz dele estava baixa quando enfim falou.

– Não quer? – ela perguntou.

– Estou com medo – ele disse, como se aquilo fosse um crime.

– Do que você está com medo, querido?

Matty brincou com uma mecha do cabelo. Ele esfregou-a entre os dedos, deixando-a cair

sobre o ombro.

– Estou com medo de parecer bobo. E se não conseguir seguir o ritmo da música? E se todo

mundo rir de mim e achar que eu sou um imbecil?

Aquele não era o momento de repreendê-lo pela linguagem.

– Você praticou aquela música até saber de cor – ela lembrou. – Não acho que esqueceria o

ritmo.

Matty bufou.

– Não quero decepcionar você nem o papai.

Ela fechou os olhos, abaixando a cabeça até que seu rosto estivesse apoiado no cabelo dele.

Ela inalou profundamente. Ele ainda tinha um cheiro suave e doce, como quando era seu bebê.

– Matthew, prometo que você não vai nos decepcionar. Já estou tão orgulhosa que você

quer tentar subir no palco. Mesmo se errasse o ritmo, eu estaria na primeira fileira com um

enorme sorriso no rosto – ela inclinou o rosto dele para que olhasse para ela. – Você é meu

filho. Eu me orgulho de tudo que faz.

Um cacho de cabelo castanho caiu sobre a testa dele, e Hanna teve que se conter para não

tirá-lo da frente do seu rosto.

– Você acha mesmo que o pai vai chegar a tempo? – o lábio dele tremeu.

– Acho mesmo – ela apertou o ombro dele, entendendo qual era seu medo real: não que

fosse errar, mas que Richard não estivesse lá para vê-lo. – Se ele estivesse atrasado, enviaria

uma mensagem pra gente de algum jeito.

Um sorriso sutil apareceu nos lábios de Matty.

– Tá bom. Vou tocar – ele colocou-se de pé, chutando a poeira enquanto se afastava. Ela

observou-o ir embora, querendo que ele não crescesse tão rápido.

Os últimos minutos passaram depressa. Ela ajudou os roadies a montar os instrumentos e

supervisionou a equipe enquanto terminavam de ligar o equipamento elétrico. Quando estava

finalmente pronta para se vestir para a noite, notou um cabo solto a meio-caminho da tela.

Hanna olhou ao redor, tentando ver se havia algum eletricista por perto, mas todos tinham

ido beber alguma coisa. Ela sabia que, se esperasse a volta deles, seria tarde demais. Então

pegou a escada velha de metal e subiu nela, estendendo o braço para reconectar os cabos

dependurados.

– Deus, você fica sexy nesses shorts.

Ela abaixou os olhos e viu Richard ao pé da escada. Ele estava usando uma camisa branca

lisa enfiada em uma calça azul-marinho, os olhos protegidos por óculos escuros. Sua roupa

elegante a fez se sentir completamente desalinhada.

– Richard! – ela desceu depressa, pulando dos últimos degraus para os braços abertos dele.

Ele segurou-a por baixo, enfiando os dedos no jeans cortado enquanto ela envolvia as pernas

ao redor da cintura dele. Então virou-se e empurrou-a contra a tela, esfregando os quadris nas

coxas dela enquanto descia a boca para a dela.

– Senti sua falta, querida – a respiração dele estava quente contra a pele dela.

Hanna moveu os lábios junto aos dele, sentindo a língua dele dentro da sua boca. Ele a

deslizou contra a sua, a suavidade contrastando com o aperto forte das suas mãos. Ela perdeu

o fôlego com a reação que ele tirava dela.

– Senti sua falta também – ela respirou quando ele se afastou. – Muito.

Ele soltou-a, deixando seus pés pisarem de volta no chão.

– Como foi na Namíbia? – ela perguntou.

– Conseguimos fazer o acordo para construir a escola – sua expressão revelou a Hanna

como ele estava aliviado. – Eles devem começar semana que vem.

– Isso é incrível – ela deu um passo à frente e beijou-o com força. – Não consigo acreditar

que você os convenceu.

Ele passou uma mão pelo seu cabelo.

– Exigiu muita negociação. Foi bom ter meu pai comigo. Eles acharam, por causa do cabelo

branco, que ele estava no controle.

Hanna não queria deixar Richard ir embora. Ele estivera viajando havia duas semanas e ela

sentia sua falta na cama, nos seus braços. Mas sabia que as crianças estavam tão desesperadas

para vê-lo quanto ela.

– Você já falou com Matty? Ele estava morrendo de medo de que você não chegaria a

tempo.

– Sim, eu o vi com Tom. Parecia tranquilíssimo.

Hanna sorriu. Matty estava tão desesperado para agradar o pai que estava tentando não

mostrar fraqueza. Felizmente, ela estava lá para contar a verdade para Richard.

– Ele estava sofrendo de medo do palco, mas acho que vai ficar bem agora.

– E como estão as minhas garotas? – ele passou um braço ao redor dos ombros de Hanna.

Ela inclinou-se ao seu toque.

– Lily está com Nathan e os meninos, protestando contra as injustiças do mundo, e Molly

está tirando uma soneca – Hanna verificou o relógio. – Falando nisso, é hora de acordá-la e de

eu vestir algo mais apropriado.

Richard examinou-a com olhos famintos.

– Qual o problema com o que você está usando?

Ela riu.

– Uma camiseta velha e shorts mostrando metade da minha bunda provavelmente não vão

agradar alguns dos nossos doadores – eles já estavam quase nas cabanas que formavam o

centro administrativo.

– Foda-se os doadores – Richard sussurrou na orelha dela. Ele abaixou a mão para apertar

sua bunda, enfiando os dedos sob o jeans e acariciando a pele nua.

Antes de entrarem no escritório onde Claire estava sentada, pacientemente cuidando da

neta, Hanna aproveitou a oportunidade para beijar o marido até que ele ficasse sem fôlego.

E ele beijou-a de volta com a mesma intensidade.

 

***

 

Depois de se vestir, Hanna carregou Molly para o campo. A menina de dois anos estava

alerta e contente, seus cachos batendo contra as bochechas macias enquanto elas andavam.

Hanna adorava aqueles momentos com a filha mais nova. Ela fora um bebê muito esperado,

nascida depois de dois abortos espontâneos e um parto que pareceu durar para sempre.

Depois da montanha-russa de emoções a que submeteram toda a família, Hanna e Richard

decidiram que ela seria seu último bebê.

O que não impedia Hanna de querer outros.

Ela encontrou Lily e Richard sentados com um grupo de doadores. Todos estavam

encarando com expressões fascinadas enquanto sua filha de sete anos exaltava as virtudes da

escola que a Fundação Maxwell estava construindo na Namíbia. Hanna se perguntou quanto

tempo levaria até que Lily exigisse ver o prédio por si mesma.

Steven e Claire estavam sentados em cadeiras de jardim, e Lucy tinha disposto uma toalha

ao seu lado. Ela estava alimentando sua ninhada com sanduíches, embora Nathan parecesse

comer mais do que o resto da família junto.

Ruby estava atrás do palco, vendo Tom e a banda brincarem com Matty, tentando fazer com

que o menino esquecesse o nervosismo. Hanna foi até lá cumprimentá-la, e Molly estendeu a

mão para a tia, que a girou em seus braços, soprando em seu rostinho gorducho.

– Ei, Molly-Moo. Teve uma boa soneca? – Ruby olhou para Hanna. – Jesus, ela se parece

mais com Richard a cada dia.

– Garota sortuda – Hanna murmurou. – E como você está se sentindo?

Ruby tinha entrado no segundo trimestre, embora sua barriga ainda escondesse as

evidências da gravidez. Ela equilibrou Molly no quadril e sorriu, enquanto esfregava a barriga

com a outra mão.

– Muito melhor. Tom disse que está feliz por ver que eu consigo ficar acordada depois das

seis. Ele estava começando a achar que eu tinha algum distúrbio de sono.

Hanna estendeu a mão e esfregou o braço de Ruby. Ela ainda se sentia maternal em relação

à amiga, apesar de Ruby já ter quase trinta anos. Ela sempre seria sua irmãzinha, a garota que

tinha medo de ir à escola. Hanna ficara tão animada quando Ruby e Tom finalmente decidiram

tentar ter um bebê e levemente divertida quando Ruby conseguiu engravidar no primeiro mês.

Tom já estava deixando todos loucos com a discussão sobre nomes e qual seria a melhor

opção, berço ou cesto.

– Não se esqueça de descansar. Pense que você está guardando para o futuro – Hanna disse,

irônica. Ela não se lembrava da última vez que conseguira ter uma noite de sono ininterrupta.

Se não era Molly que acordava chorando, Lily tinha um pesadelo ou Matty não conseguia

dormir. Não que ela se arrependesse de um único momento, mas ela não podia deixar de

sonhar com uma cama arrumadinha e oito horas de sono ininterruptas.

– Pode deixar – Ruby sorriu e passou uma Molly agitada de volta para Hanna. – Parece que

os meninos estão prontos – ela indicou a banda, que estava em círculo, os braços ao redor uns

dos outros. Matty parecia incongruente em meio ao grupo, seus bracinhos ao lado dos braços

musculosos deles.

– Richard pegou um lugar pra gente na primeira fileira – Hanna e Ruby contornaram o

palco, passando pela multidão de pessoas reunidas para o show. Richard e Lily estavam com

Nathan, enquanto o resto do clã Larsen tinha ido para as arquibancadas. Os olhos dele

brilharam quando ele viu Hanna, e ele estendeu uma mão para puxar Molly e ela para os seus

braços.

– Com que música eles vão começar? – ele tinha que falar alto para ser ouvido sobre o

barulho da plateia.

– Ele não disse – Hanna respondeu. – Está mantendo segredo.

Richard inclinou-se para sussurrar algo para Ruby, encostando os lábios no rosto dela. A

expressão dela iluminou-se, lembrando Hanna de como Ruby adorava seu irmão mais velho.

Antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, os membros do Fatal Limits entraram no

palco. Tom guiou-os e bateu nas costas de Matty enquanto ele subia no lugar do baterista. Ela

observou-o girar as baquetas, jogá-las no ar e pegá-las, fazendo Molly gritar de alegria ao ver

o irmão se divertindo.

Tom foi até o microfone.

– Oi, pessoal – a plateia aplaudiu loucamente. – Gostaria de agradecer todos vocês por

estarem aqui para ver essas crianças talentosas apresentarem um show incrível – ele parou

enquanto os aplausos continuavam. – Vamos começar a noite com algumas músicas. Não

tocamos juntos há algum tempo, então nos perdoem se errarmos algumas notas.

Hanna sorriu. O Fatal Limits tinha se separado havia mais de cinco anos, mas os membros

tinham concordado em se juntar para aquele evento de caridade. Mais uma coisa pela qual ela

precisava agradecer Tom.

– Para a nossa primeira música, gostaria de apresentar um amigo meu. Esse é Matt Larsen,

nosso baterista e meu afilhado preferido – ele piscou para Matty, que sorriu de volta, tímido.

Hanna e Richard aplaudiram alto, fazendo Molly pôr as mãos nas orelhas.

– Pode começar, Matt? – ele chamou. Matty ergueu as baquetas, o rosto revelando sua

concentração enquanto silenciosamente contava as batidas. Ele começou num ritmo lento,

indicando a Robert, na guitarra, quando entrar, e todos começaram a gritar quando perceberam

qual era a música com que eles iriam começar.

Hanna sentiu lágrimas nos olhos quando viu o filho tocar a música que Tom havia escrito

para ele. “Dear Matty” tinha sido hit número 1 para o Fatal Limits no ano do nascimento de

Matty, bem antes de Hanna contar a Richard sobre o filho. Era surreal ver o menino

acompanhar a banda de Tom enquanto eles tocavam “Dear Matty”.

Ela não conseguia tirar os olhos dele. Richard apertou sua mão e pegou Molly dos seus

braços. O sal ardia em seus olhos enquanto uma sensação de orgulho a dominava. Matty

parecia um profissional, nunca errando o ritmo, sempre liderando a música. Ela mordeu o

lábio para conter o fluxo das lágrimas.

– Ele é fantástico – Richard sussurrou no ouvido dela, e ela só conseguiu assentir. Sua

habilidade de falar parecia ter sido engolida pelas emoções que passavam pelo seu corpo.

Estar lá com Richard e suas meninas enquanto assistiam à primeira apresentação do filho era

absolutamente perfeito. Ela não poderia pedir por mais nada.

 

***

 

O show durou duas horas, e Hanna chorou mais de uma vez vendo as crianças do

acampamento se dedicarem completamente às apresentações. Muitas vinham de lares pobres e

nunca tinham ido ao teatro ou a um show, mas pareciam profissionais. Mesmo as que sentiam

medo conseguiram superá-lo e dar passos temerosos pelo palco.

Quando o evento chegou ao fim e eles agradeciam aos doadores, Molly estava adormecida

nos braços de Richard. Sua cabecinha tinha caído no ombro dele enquanto eles andavam para

o acampamento, sua boca movendo-se suavemente à medida que ela respirava. Doía o coração

de Hanna ver o marido segurando o último bebê deles, deixando-a com vontade de ter mais.

Ele era um pai incrível para todos eles.

– Claire disse que fica com as crianças hoje – Richard sussurrou. – Ela acha que você

merece uma folga.

Hanna olhou-o, confusa.

– Está planejando alguma coisa?

– Só um pouco de tempo a sós com minha esposa – ele piscou, entrando no grande chalé

familiar que eles tinham construído alguns anos antes. – Talvez você possa colocar aqueles shorts de novo.

Ela riu.

– Eles são a coisa mais horrível que eu já usei. Acho que cortei uma calça eu mesma alguns

anos atrás.

– São a coisa mais sexy que você já usou – ele colocou Molly no berço, cobrindo seu corpo

adormecido com um cobertor. – Não consigo parar de pensar em como eles ficavam em você.

– Metade da minha bunda estava pra fora.

– Exatamente – ele a puxou para perto e encostou os lábios na sua testa. – É como eu mais

gosto de você, com sua camiseta de banda e seu cabelo voando ao vento enquanto ouve uma

banda tocar. Me lembra de quando vi você pela primeira vez.

Os dedos dele pousaram nos braços nus dela, e seu corpo reagia ao toque.

– Talvez você devesse sempre usar terno. É como eu me lembro de você.

– A equipe do hotel acharia que somos loucos – ele passou os dedos pelo cabelo dela. –

Você de shorts rasgados e eu de terno. Vou parecer seu amante coroa.

Hanna sorriu.

– Parece ótimo. Você paga pelo jantar e eu pago você de outro jeito – ela ergueu-se na ponta

dos pés para pressionar os lábios nos dele. Ela sentiu-o enrijecer contra sua barriga, e seu

próprio corpo contraiu-se com desejo.

– Gosto do jeito como você negocia – ele murmurou antes de beijá-la com força. Sua língua

entrou na boca dela, deslizando contra a sua. Por vários segundos eles continuaram a se mover

um contra o outro, as mãos explorando enquanto retomavam a intimidade. Hanna sentiu a mão

dele apertá-la por trás e puxá-la para perto, sua ereção pulsando contra ela.

– Vão pro quarto – Nathan reclamou quando entrou no chalé. – Jesus, pelo jeito como vocês

se comportam, quem vê pensa que são recém-casados.

– Não enche. Não vejo minha mulher há duas semanas – Richard riu, a cabeça no cabelo

dela. – E tenho um quarto, então obrigado pela sugestão.

Nathan parou no meio do caminho.

– Vocês vão pra um hotel?

– Nem pense nisso. Pedi para Claire primeiro – Richard avisou.

– Não seria muito difícil para eles cuidar das crianças. Lucy e eu poderíamos nos juntar a

vocês lá.

Hanna começou a rir baixinho quando sentiu a irritação de Richard. A noite romântica deles

estava se tornando uma reunião familiar. Ela deixou o marido bufar por um momento antes de

falar.

– Nathan, se nos deixar sozinhos, eu cuido das crianças pra você no próximo fim de semana.

Assim você pode planejar algo legal pra Lucy e você.

Nathan olhou-a, coçando o queixo. Ele estreitou os olhos enquanto considerava suas

opções.

– Você cuida deles por duas noites? Sexta e sábado? – ele perguntou.

Hanna assentiu.

– E nem precisa ter pressa pra voltar no domingo.

– Combinado – um sorriso largo abriu-se no rosto dele. – Mal posso esperar pra contar pra

Lucy. Nem me lembro da última vez que ficamos a sós.

– Nem eu – Richard respondeu secamente, virando-se para Hanna. – Vamos nos despedir de Matt e Lily, querida?

 

***

 

Passava da meia-noite quando eles chegaram ao hotel, e o restaurante já tinha fechado. Eles

pediram serviço de quarto, e devoraram os hambúrgueres e batatas fritas sentados nos roupões

de cortesia do hotel, os pés de Hanna descansando sobre o colo de Richard enquanto eles

conversavam.

– Prometi às crianças que voltaríamos para o café da manhã – Richard admitiu,

programando o alarme no telefone. – Temos seis horas e vinte e sete minutos para ficarmos a

sós.

– Fico feliz por você ter tudo planejado – Hanna respondeu. – Odiaria perder esses vinte e

sete minutos.

– Dá pra fazer muita coisa em vinte e sete minutos – Richard protestou, esfregando os dedos

gentilmente nos pés dela.

– Dá mesmo! – ela começou a rir. Ele moveu as mãos pelas pernas dela, parando para

acariciar suas panturrilhas, os dedos deliciando-se com a sensação da pele macia dela. Ele

sentira falta daquilo; estar a sós com ela, fazendo um ao outro rir. Fazendo outras coisas.

– Lily diz que não aguenta mais esse mundo controlado por homens. Ela pretende se

candidatar a presidente quando fizer dezoito anos – Richard olhou para ela enquanto falava. –

Aparentemente deveria haver leis contra meninos provocarem meninas.

– Ela estava irritada porque NJ e Matty disseram que ela não podia subir em árvores.

Richard puxou-a para perto, erguendo os quadris até que ela estivesse sentada no seu colo,

os joelhos dos lados das pernas dele.

– Ela é como você. Lembro como você era rebelde quando nos conhecemos. Eu ficava duro

só de olhá-la.

Hanna inclinou-se e envolveu o pescoço dele, movimentando-se no seu colo.

– Você ficou duro quando agarrou minha bunda.

– Sempre fico duro quando agarro sua bunda, querida.

Ele ergueu-se um pouco para que ela sentisse a evidência entre as coxas. Ele gostava

daquilo: das provocações gentis, de tocar e beijar. Quando eles estavam separados, ele

constantemente pensava nela. Ficar com ela lhe trazia paz.

– Você vai fazer algo quanto a isso? – ela provocou. O sorriso no seu rosto revelava seu

divertimento.

– Não tenho certeza. Sinto que pulamos toda uma etapa no nosso relacionamento. Talvez a

gente devesse tentar dar uns amassos como dois adolescentes – ele flexionou os músculos e

esfregou-se contra ela de novo, fazendo-a gemer. Não havia nada entre eles exceto a roupa

íntima, seus roupões abertos pelos toques frenéticos.

– Vá em frente nos amassos – Hanna lambeu uma trilha da orelha ao pescoço dele. – É um

pouco tarde pra mim. Já estou molhada.

Richard riu. Ele reclinou a cabeça enquanto ela corria os lábios pelo seu pescoço.

– Acho que posso cuidar disso.

– Gosto de como você é flexível – ela esfregou-se nele. Richard agarrou seus quadris,

segurando-a contra ele. Ele não estava brincando sobre se esfregar nela; já estava quase no limite.

– Aprendi que uma boa negociação leva a um resultado que satisfaz todas as partes – ele

piscou e inclinou o queixo dela para cima, capturando sua boca. Ela enfiou as mãos dentro do

roupão dele, o tecido felpudo caindo dos seus ombros e expondo seu peito. Ela inclinou a

cabeça para chupar o mamilo dele, e a sensação foi direto para seu pau.

– Podemos terminar a conversa agora? – ele perguntou.

– É você quem tem mais de quarenta anos, querido. Se acha que suas costas aguentam sexo

no sofá, não serei eu a negar – ela tirou o próprio roupão, ficando nua exceto pelos shorts. Ele

sentiu água na boca ao ver o corpo dela; a pele macia, os seios grandes e os quadris

ondulantes. Ele não sabia o que atacar primeiro.

Ele escolheu os seios. Passou as mãos por eles antes de empurrá-la de costas no sofá, o

cabelo dela espalhando-se pelo tecido escuro. Ele rolou-a até que ela estivesse deitada no seu

roupão, imaginando que o tecido macio seria preferível ao couro duro.

– Sabe, você tem menos de um ano até chegar ao grande quatro ponto zero – ele roçou os

lábios pelo pescoço dela. – Daí não vai poder rir de mim.

– Eu sempre vou poder rir de… ah…

Ele envolveu o mamilo com os lábios e chupou, conseguindo silenciá-la. Ela arqueou as

costas, erguendo-se para a boca dele, e ele pôs uma mão na sua coluna para apoiá-la.

Deus, ele amava aquela mulher. Eles se conheciam havia mais de vinte anos, estavam

casados há oito, e tinham filhos lindos que ambos adoravam. Mas ele nunca se cansava dela,

não importava onde estivessem. Ele queria todas as partes dela. A garota rebelde que não

aceitava desaforo de ninguém. A mãe amorosa que adorava o chão em que andavam seus

filhos. A esposa linda que gostava de provocá-lo e que sempre respondia à altura.

– Na próxima vez que fizermos isso, você vai usar esses shorts – ele rosnou, finalmente

deslizando a língua nela.

– Sim, sim – ela concordou.

– Eu vou arrancá-los e enfiar meus dedos em você, e sentir você se contrair enquanto te

chupo – ele estava pulsando agora. Tinha vontade de tomá-la com força, até que a cabeça dela

batesse contra o braço do sofá com cada movimento.

– Vou cortar todas as calças jeans que tenho – ela avisou.

– Faça isso, querida.

Ele deitou o corpo sobre ela, sentindo a pele deles se unir até que se moviam juntos, uma

sensação dominadora de paz o arrebatava. Depois de duas semanas sem a família, sem a

mulher que adorava, ele finalmente estava em casa.

E ele adorava cada minuto.

Agradecimentos

 

Fran, Kate e Meredith, vocês três estavam lá desde o começo, e agradeço muito a vocês por

toda a ajuda com essa história. Obrigada também a Meire e Flavia; seu apoio generoso e fé em

mim foram incríveis. Realmente não estaria aqui sem vocês duas. Jennifer H, obrigada por seu

trabalho duro neste livro, foi ótimo fazer uma nova amiga. Lucia V, seu apoio inabalável, tanto

em mensagens quanto em blogs, sempre alegra o meu dia.

Obrigada a toda a minha família, que aguentou uma esposa/mãe/filha/irmã que desaparecia

por horas, sempre vista pela última vez inclinada sobre um laptop digitando furtivamente.

Espero que esse livro prove que eu realmente estava escrevendo, não só surfando pela estrada

da informação. Embora tenha que admitir que faço isso também.

Aos meus amigos virtuais e aos membros do grupo do Facebook “Fix You”, vocês colocam

um sorriso no meu rosto toda manhã e o mantêm lá ao longo do dia. Eu não poderia fazer isso

sem vocês. Obrigada por sempre estarem lá. Eu queria poder nomear todos, mas isso daria

outro capítulo. Então, quero que saibam que estou falando de todos vocês.

Finalmente, obrigada a você por comprar este livro. Espero que tenha gostado dele, e se

gostou, deixe uma resenha no GoodReads e na Amazon. É incrivelmente útil para mim, e

espero que ajude outras pessoas a encontrarem essa história.

Você terminou Sempre Foi Você

Carrie Elks

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