Sempre Foi Você
Capítulo 2
19 de julho de 2000
Hanna puxou o colete fino. O material ficou grudado em sua pele por um momento antes de
se soltar, permitindo que o ar fresco circulasse por sua pele úmida. Mesmo para julho, o
tempo estava quente além do normal; as roupas góticas pesadas que ela tinha posto na mala
continuavam dobradas com cuidado e esquecidas, como uma tia solteira numa despedida de
solteiro.
Ruby Larsen estava deitada numa rede ao seu lado. Elas estavam lendo Harry Potter e o
cálice de fogo em voz alta uma para a outra. Tinham comprado o livro numa pequena livraria
na cidade no dia anterior.
– Você acha que Hermione gostaria de mim se a gente se conhecesse? – Ruby perguntou,
passando o livro para Hanna.
– Como não gostaria? Ela adoraria você. Você é inteligente, engraçada, e acabaria com os
meninos na aula de Poções.
Elas estavam no chalé de campo dos Larsen no oeste da Inglaterra havia uma semana.
Claire Larsen tinha pedido a Hanna que aceitasse o emprego de companheira de Ruby durante
o verão, enquanto ela viajava aos Estados Unidos para cuidar da mãe doente. Hanna havia
concordado de imediato. Era melhor do que trabalhar num supermercado.
– Às vezes eu queria ir pra Hogwarts. As pessoas parecem tão mais gentis que na St.
Nicholas – Ruby disse, brincando com as lantejoulas prateadas da sua camiseta.
– Tem gente má em todo lugar, Ruby. Pense em como Draco Malfoy era um imbecil com
Harry – Hanna respondeu, melancólica. – Enfim, você está de férias da escola. Não devíamos
pensar sobre aulas, uniformes ou lição de casa. Era pra estarmos nos di-ver-tin-do.
– Você não tem que pensar em escola nunca mais – Ruby reclamou. – Tem tanta sorte.
Hanna deixou a cabeça cair na rede, lembrando-se do último dia de escola. Depois de uma
longa primavera de provas, trabalhos e pesadelos sobre as leituras obrigatórias, era um alívio
poder finalmente respirar sem se perguntar como arranjaria tempo para sua próxima
monografia.
Ela vinha sendo a babá de Ruby desde que elas se conheceram no ano-novo. Não parecia
trabalho – embora ela sempre ficasse grata pelo dinheiro – porque as duas sempre conseguiam
se divertir. Hanna gostava de passar o tempo com Claire e Steven também; apenas oito meses
depois daquele primeiro encontro, era como se os Larsen fossem sua segunda família.
– A época da escola era pra ser “os melhores dias da sua vida”.
– Acho que nós duas sabemos que isso é uma mentira – Ruby disse, chutando a rede de
Hanna e fazendo-a balançar selvagemente.
A distância, elas ouviram as portas francesas baterem. Hanna ergueu os olhos e viu um jovem loiro e alto vindo na direção delas. Cobrindo os olhos com a mão, ela pôde ver que era
Tom McLean, acenando com um pedaço de papel em sua mão grande e bronzeada.
– Oi, Tom – Ruby gritou, caindo da rede e correndo para bater na palma que ele levantara.
Ele era neto de Mary, a faxineira deles. Estava sempre no chalé fazendo pequenos trabalhos.
Hanna suspeitava que Ruby tinha uma quedinha pelo adolescente loiro.
– Oi, Rubizinha. Como vai? – ele piscou para a garota e então ergueu os olhos para Hanna,
os lábios se abrindo num sorriso lento e preguiçoso.
– Você parece um pouco confortável demais agora.
Com isso, ele estendeu a mão e agarrou o braço de Hanna, pegando-a facilmente enquanto
ela escorregava da rede. O livro caiu no chão.
– Tom! – ela gritou, irritada. – Me solte! E se estragou meu livro, vai pagar com a vida! –
ela bateu no braço dele, fazendo um som bastante audível.
– Ei! Cuidado com o braço da guitarra. Ainda não pus no seguro – ele a olhou com uma
expressão de falsa indignação. – Só vim convidar as moças mais bonitas da cidade para o
nosso show hoje à noite.
Hanna pegou o panfleto da mão dele.
– É num pub, Tom. Não posso levar Ruby a um pub. Os pais dela me matariam.
No mesmo instante, Ruby exclamou:
– Podemos ir? Por favor? Nunca vi uma banda ao vivo!
– Várias crianças estarão lá. Pelo menos cinco dos meus sobrinhos e sobrinhas vão. Vamos,
até te pago uma Coca – Tom fez sua melhor expressão de cachorrinho carente.
– Com uma oferta dessas, como podemos recusar? – Hanna disse secamente, e uma
expressão de alegria apareceu no rosto de Ruby.
Pelo menos ela conseguiria deixar alguém feliz.
***
O pub lotado ecoava ao som de acordes destoantes e vocais profundos. No palco, Tom
olhou na direção delas e sorriu diretamente para Hanna. Ela se viu mordendo o lábio num
esforço para não sorrir de volta. Não tinha certeza de como se sentia com a atenção que ele
estava dando a ela. Desde o momento em que se conheceram, Tom flertava com ela
abertamente. Disse como adorava o estilo dela. Hanna revirou os olhos. Quando ele a
convidou para beber alguma coisa, ela usou Ruby como desculpa para recusar a oferta. Agora,
cercado por groupies locais e alguns caçadores de talentos de gravadoras, parecia que ele só
tinha olhos para ela.
– Quer outra Coca? – Hanna perguntou.
– Sim, por favor. Pode me trazer um canudinho também? – o sotaque americano de Ruby
soava estranhamente deslocado num pub inglês do interior.
– É claro, princesa – Hanna fez uma cortesia, dirigiu-se ao bar e fez o pedido. Quando
voltou, a banda estava tocando um cover de “Yellow”, do Coldplay. Tom começou a tocar os
acordes suaves da introdução na sua guitarra, inclinando-se para o microfone, com seus
brilhantes olhos azuis firmes nos de Hanna.
Sua voz era profunda e rouca, perfeita para a música. Ela viu seu cabelo cor de areia cair
sobre seus olhos, e seus lábios se curvarem num sorriso. Algumas cabeças na plateia se viraram para seguir o olhar intenso dele; alguns ficaram surpresos quando o viram observando
uma garota baixa no canto com sua jovem amiga.
Ruby, sem notar o olhar óbvio dele, continuou tomando sua Coca.
– Essa é nossa última música. Gostaria de dedicá-la a uma garota linda com o sorriso
perfeito. Essa é pra Hanna.
Ela sentiu o rosto ficar quente quando o sangue subiu para suas bochechas. Tom deu um
sorriso rápido e então piscou quando a viu corar.
– Você e Ruby sempre frequentam pubs? – a atenção de Hanna foi atraída pela voz profunda
à sua esquerda. Cuspindo sua sidra com a surpresa, ela ergueu os olhos com horror enquanto
Richard Larsen vinha em sua direção.
– Richard! – Ruby pulou do banco, quase derrubando o resto da Coca em sua pressa de
abraçá-lo.
Enquanto abraçava a irmã com força, os olhos dele encontraram os de Hanna.
Ela se ergueu, pondo as mãos nos quadris, e o observou pela primeira vez desde o ano-
novo. Ele estava elegante em uma calça preta feita sob medida, as mangas da sua camisa azul-
pálido enroladas até os cotovelos. Ela tentou não olhar muito de perto seus antebraços
musculosos; a pele se estendia sobre tendões tesos, coberta por uma camada de pelos escuros.
Ele parecia deslocado no pub, em meio aos jeans, bermudas e camisetas de banda. Como
um Renoir pendurado em uma parede de grafites obscenos.
– Não encontrei vocês no chalé, então liguei pra Mary McLean. Ela me disse que seu neto
tinha convidado você pra um encontro – Richard torceu o nariz quando terminou a frase.
– Não sabia que você estava vindo para a Inglaterra – ela decidiu ignorar o comentário
sobre o encontro.
– Estou na Europa há alguns dias. Estou trabalhando pro meu padrasto durante o verão. Ele
tem uns negócios em Paris – Richard sorriu pela primeira vez. Seu sorriso torto a lembrou de
como havia gostado dele no ano-novo.
– Devia ter ligado pra gente. E se não estivéssemos aqui?
– São só duas horas de trem, Hanna.
O modo como ele disse seu nome a fez sentir-se aquecida por dentro. Ela olhou para o
palco no canto do pub, percebendo que Tom olhava para eles com a testa franzida de
curiosidade.
– Trouxe um presente pra mim? – Ruby estava pulando pra cima e pra baixo de animação.
Seu entusiasmo fez Hanna sorrir.
– Pelo menos ela não é materialista – Richard sussurrou para ela, sarcástico. – Odiaria
pensar que só me ama pelo meu dinheiro.
Ruby sorriu e agarrou-se à camisa do irmão com seus dedos melados.
– Sabe que amo você. Então, o que trouxe pra mim?
– Te mostro quando voltarmos pro chalé, maninha – ele respondeu, voltando-se para Hanna.
– Está pronta pra ir?
– Vou avisar ao Tom que estamos indo – ignorando as sobrancelhas franzidas de Richard,
Hanna o deixou com a irmã e foi até Tom, pronta para se despedir. O rosto dele se iluminou
com um sorriso.
– O que achou? – ele a puxou para perto, colocando a mão na sua cintura com um gesto de
posse. A familiaridade a desconcertou, especialmente porque podia sentir um par de olhos estreitados observando cada um de seus movimentos.
– Você estava ótimo! Ruby e eu amamos as músicas – ela disse, afastando-se. – Mas temos
que ir pra casa agora.
– Tão cedo? Quem é aquele cara?
– O irmão de Ruby.
– Ah – o sorriso de Tom se desfez.
– Ele veio ver Ruby – ela disse depressa.
O sorriso de Tom retornou quase instantaneamente.
– Quer dizer que tem uma babá disponível agora?
– Eu sou a babá, lembra? – Hanna respondeu, seca.
– Que pena. Acho que vou ter que acampar embaixo da sua janela e fazer serenatas de amor
– ele piscou para ela.
– Fique à vontade, eu uso protetores de ouvido. Mas tenho certeza de que os gatos vão
gostar.
– Está pronta, Hanna? – Richard e Ruby juntaram-se a eles.
Hanna podia sentir o calor subir ao seu rosto outra vez.
– Richard, este é Tom McLean. Ele é da banda – e ela era ridícula. Meu Deus, podia soar
mais idiota?
– É um prazer conhecê-lo – Richard apertou a mão de Tom com firmeza. Para dois caras de
idade próxima, suas diferenças não podiam ser mais gritantes. Ao lado do cantor desalinhado
de cabelo desgrenhado, Richard parecia mais velho e muito mais sofisticado. Areia demais
pro caminhãozinho dela.
– Podemos ir? – Ruby puxou a manga dela, desesperada para chegar em casa e abrir o
presente prometido.
– Ok, estamos indo – Hanna tentou esconder uma risada do desespero da garota, mas não
conseguiu.
Tom inclinou-se para beijar sua bochecha bem na hora em que Hanna virou a cabeça para
ele. Ainda estava no meio da risada, e sua boca aberta encontrou a dele. Ela o sentiu inspirar
rispidamente com o toque. O sangue subiu à boca dela, e ela sentiu a boca dele começar a se
mover lentamente contra a dela, a ponta da sua língua deixando uma linha úmida ao longo dos
lábios dela.
Ela se afastou com rapidez, o rosto aquecendo de humilhação quando viu Richard erguer
uma sobrancelha para ela, seus lábios estreitando-se numa linha fina e reta.
A noite ficava cada vez melhor.
***
Durante cinco dias, Richard se juntou à rotina delas, lendo em voz alta enquanto elas
terminavam Harry Potter e escolhendo seu personagem preferido enquanto elas encenavam
trechos do livro. Sem o terno e a gravata, Richard Larsen parecia outra pessoa.
À noite, depois de pôr Ruby na cama, eles se sentavam juntos e assistiam tevê. Um
programa novo tinha começado em um dos canais, algum tipo de reality show. Dez pessoas
eram forçadas a viver juntas numa casa trancada. Hanna achou fascinante.
– Não é muito como 1984, na verdade, é? – Richard se perguntou, oferecendo outro cookie de chocolate do pacote que estavam compartilhando. – Quer dizer, o Grande Irmão faria com
que eles fizessem continência e jurassem lealdade a ele. Não deixaria que ficassem deitados
no jardim, conversando com as galinhas.
Quando os comerciais começaram, Hanna foi até a cozinha. Abriu a geladeira e pegou duas
garrafas de Becks, tirando as tampas com um abridor de garrafa enquanto voltava para a sala.
Quando olhou para Richard, notou que os olhos dele tinham escurecido quase
imperceptivelmente quando ele encarou as pernas nuas dela. A intensidade do olhar a fez
perder o fôlego.
Com a rotina de pôr Ruby na cama, um programa de tevê preferido e o compartilhamento de
cerveja e cookies, eles estavam se tornando a paródia de um velho casal…
Tirando a parte do sexo.
***
Na última noite de Richard no chalé, eles decidiram ir ao vilarejo comprar o jantar num
restaurante de peixe e batatas fritas. O ar noturno estava agradável e perfumado quando eles se
sentaram na grama, comendo a última ceia direto do papel-manteiga. Ruby estava sentada nos
degraus de concreto do Memorial de Guerra, jogando batatas para pombas toda vez que elas
desciam tentando roubar comida dos seus dedos. Eles viram o sol se pôr com os dedos
cobertos de vinagre, sal e gordura.
Uma gota de ketchup caiu no canto da boca de Hanna. Richard inclinou-se para limpá-la
com o dedão. Ele sentiu uma vontade súbita de mover o dedo um pouco para a esquerda e
enfiá-lo na boca macia dela, só para ver qual era a sensação. Em vez disso, pôs o dedo nos
próprios lábios e lambeu o molho. Hanna o encarou com sua boca em formato de rosa
levemente aberta, e ele podia ver um pedaço da sua língua logo atrás dos lábios.
– Está deixando seu cabelo crescer com a cor natural?
– Estou tentando me reinventar pra faculdade. Quero encontrar um visual mais roqueiro.
Gótico é tão século passado.
Richard riu do entusiasmo idealista dela, da crença de que era possível se reinventar
simplesmente com uma mudança na cor do cabelo. Não era tão fácil assim.
– Roqueiro? – ele olhou para ela, cético.
– Sim, estou cansada de só usar preto. Até eu preciso de um pouco de cor de vez em
quando.
– Bem, estou ansioso para conhecer a nova Hanna Vincent. Talvez você possa me mandar
uma foto.
– Talvez você possa ir pro inferno, seu pervertido – ela respondeu, batendo com o ombro
no dele. Richard bateu de volta e ela escorregou do banco de madeira, caindo na grama dura e
seca com um baque surdo. Sua expressão indignada o fez gargalhar.
Na manhã seguinte, Richard saiu cedo do chalé para pegar o primeiro voo para Nova York.
O avião estava lotado, mas a família Maxwell sempre viajava de primeira classe. Mesmo que
Richard fosse um Larsen, seu padrasto não deixaria que ele viajasse de outra forma.
Um Lincoln preto o aguardava no portão de chegada. O motorista pegou as bagagens e
Richard o seguiu até o estacionamento. Ele sentou-se no banco de trás enquanto o motorista se
preparava para enfrentar o trânsito de Nova York. Levou mais de uma hora até eles estacionarem na frente da casa de pedras marrons.
Ele estava de volta ao lar, embora essa fosse uma palavra estranha para descrever o lugar.
O interior da casa era muito limpo, muito austero. Muito parecido com sua mãe. Mas, de todos
os lugares do mundo, esse era o que deveria ser considerado seu lar. Afinal, Richard tinha
passado a maior parte dos últimos quinze anos ali.
Assim que entrou na casa, ele foi para a cozinha, na qual podia ouvir Consuela cantando
enquanto limpava o chão. Ela trabalhava para os Maxwell havia muito tempo e já morava na
casa bem antes de Richard e sua mãe se mudarem para lá.
– Ricardo – um sorriso iluminou o rosto dela. – Você está em casa. Venha aqui e me dê um
beijo.
Ele a ergueu e a girou enquanto ela batia nos seus braços, tentando fazer com que ele a
soltasse.
– Onde está todo mundo? – ele perguntou, colocando-a no chão.
– Sua mãe está com os Hampton. E Daniel teve que ir trabalhar com o pai. Ele não está
muito feliz com isso também.
Daniel era o meio-irmão de dezessete anos de Richard, o único filho e herdeiro de Leon
Maxwell. Com um império multibilionário englobando de imóveis a serviços de consultoria
financeira, Leon Maxwell tinha uma vasta gama de investimentos em todas as partes do
mundo.
Richard contornou Consuela e pegou um pão ainda quente da bandeja. Ela deu um tapinha
em sua mão.
– Temos convidados hoje? – ele perguntou, mordendo o pão.
– O sr. Maxwell convidou os Brooke para jantar com você.
– Às oito?
– Sim, senhor – quando falava com ele, o “senhor” sempre era acompanhado por um sorriso
brincalhão. Era diferente de quando tratava Leon ou Daniel assim.
– Bem, nesse caso, estarei no meu quarto, dormindo pra curar o enjoo da viagem – Richard
piscou e saiu da cozinha.
Quando subiu, não ficou surpreso ao ver que seu quarto estava mais limpo e mais cheiroso
do que quando o deixara mais de uma semana atrás. Consuela tinha realizado a missão com
garra durante a ausência dele. Jogando a mala num canto e tirando os sapatos, ele se deitou em
cima do edredom, fechando os olhos assim que sua cabeça atingiu o travesseiro.