Sempre Foi Você

Carrie Elks · Capítulo 7 de 29

Páginas do PDF

Sempre Foi Você

Capítulo 6

 

3 de setembro de 2001

 

Ela imaginou que ainda era cedo pela luz que atravessava as cortinas finas que cobriam as

janelas. Fechou os olhos, sua mente procurando voltar ao sono enquanto os dedos insistentes

de Josh começaram a acariciar os seios dela, fazendo seu corpo acordar, mesmo que seu

cérebro ainda estivesse adormecido.

– Hmm – Hanna recusava-se a abrir os olhos completamente. Os lábios dele envolveram um

mamilo, a língua umedecendo-o e os dentes raspando de leve enquanto ela se enrijecia em

resposta ao toque.

– Acordei você?

– Ainda estou dormindo – ela sorriu, sabendo que tinha se entregado com a resposta.

– Finja que é só um sonho, então, um sonho muito agradável – a boca dele estava se

movendo para baixo e instantes depois ela apertava os lençóis, com seu corpo respondendo ao

toque.

Por mais agradável que fosse, definitivamente não era um sonho.

Eles tinham passado o verão juntos, viajando pela Inglaterra e assistindo a diferentes shows

e festivais de música. No final de agosto, tinham voltado a Londres, onde Josh conseguira um

emprego no The Guardian como jornalista trainee.

– Tenho que levantar, querida. Preciso estar no escritório às oito – Josh beijou seu pescoço.

– Estou acompanhando um cara que está visitando umas fazendas, e tentando escrever um

artigo sobre febre aftosa.

– Está usando botas Wellington? Posso te chamar de cowboy? – Hanna sorriu, pensando em

Josh chafurdando-se em lama e entrevistando fazendeiros sobre suas experiências com a febre

aftosa. A doença tinha assolado fazendas por todo o país, culminando em um abatimento em

massa de animais. Até Hanna tinha chorado quando vira as imagens de pilhas enormes de

carcaças sendo queimadas. Tinha sido difícil esquecê-las por um bom tempo.

– Não, e não. Mas pode fazer safadezas comigo quando eu chegar em casa à noite. Quais

seus planos para hoje?

– É o primeiro dia de aula de Ruby. Prometi que a levaria até lá com Richard.

Assim que disse o nome dele, os lábios de Josh contorceram-se numa careta. Quando Hanna

os tinha apresentado no sábado anterior, eles pareceram se alimentar com uma antipatia

instantânea um pelo outro. A situação tinha sido bem constrangedora.

– O que vai fazer no resto do dia?

Hanna leu entre as linhas. Ele estava perguntando se ela passaria o resto do dia com

Richard. Ela engoliu com força, sabendo o quanto queria passar um tempo com o amigo.

Desde que chegara na Inglaterra, ele estava de ótimo humor. Sempre sorrindo e fazendo piadas, e constantemente provocando Hanna, esperando incitar uma das suas respostas

sarcásticas.

– Não tenho certeza. Enviaram a lista de leituras do ano que vem, então acho que vou pegar

uns livros. E prometi pra minha mãe que passaria lá pra tomar um chá.

– Que horas você vai estar em casa? – seu tom foi ríspido, e a testa dele ficou ainda mais

franzida.

Hanna amava o fato de ele estar com ciúmes, e amava ainda mais que ele se referisse ao flat

apertado como a casa dela. Sentindo-se amorosa, lançou o lençol para longe e correu até ele,

jogando os braços ao seu redor enquanto sentia o corpo nu contra o dele, as gotas da pele dele

umedecendo sua pele.

– Quando você me quiser.

Ele agarrou-a e apertou-a contra si. Ela pôde sentir o movimento revelador da toalha

enquanto ele reagia ao seu toque.

– Quero você sempre, é esse o problema. Mas um de nós precisa trabalhar para pagar as

contas, então estarei em casa às oito.

– Está certo, querido. Vou passar suas camisas, deixar seu jantar no forno, e pôr as crianças

na cama. Gostaria do seu cachimbo e pantufas também?

– Foda-se o cachimbo e as pantufas.

– Prefiro que você me foda.

– Não se preocupe, farei isso.

 

***

 

Quando Hanna entrou na casa dos Larsen, pôde ouvir Ruby dando gritinhos lá em cima no

quarto.

– Hanna, você veio! Ruby vai ficar tão feliz! – Claire Larsen entrou no salão vinda da

cozinha, as mãos na orelha enquanto punha um pequeno brinco de pérola. – Como você pode

ouvir, não faltam gritos por aqui hoje.

– Ela está animada? – Hanna perguntou.

– Muito, especialmente porque os dois irmãos vão acompanhá-la. E sua amiga preferida, é

claro – Claire deu uma piscadinha para Hanna.

– Nathan está aqui? – Hanna não tinha conhecido Nathan Larsen, o filho de Claire, embora

tivesse ouvido histórias sobre sua altura gigante, sua personalidade relaxada, e sua habilidade

de jogar Ruby para cima.

– Sim, ele chegou ontem. Infelizmente não teve chance de se barbear ainda, então parece um

selvagem dos Andes.

– Hanna! – Ruby disse quando a viu, descendo as escadas de mármore e correndo ao seu

encontro.

– Oi, Ruby! – Hanna abraçou-a ao pé das escadas e apertou-a com força, fazendo a garota

dar outro gritinho feliz. – Deixe-me ver você – empurrando Ruby para trás, Hanna analisou a

saia xadrez, a blusa branca e a gravata perfeitamente amarrada no pescoço. – Está linda. Vai

arrasar com essa roupa.

Ruby riu.

– Todo mundo vai usar o mesmo uniforme. Não acho que vou impressionar muito.

– Então essa é a famosa Hanna?

Ela ouviu uma voz alta atrás de si. Não tinha percebido ninguém descendo as escadas, e se

virou.

Nathan era ainda maior do que ela tinha imaginado. Não era tanto sua altura – embora ele

fosse bem mais alto que ela –, mas o tamanho mesmo. Era robusto, e o cabelo e a barba o

faziam parecer ter mais que vinte e quatro anos.

– Oi – ela deu um sorriso de boca fechada, sentindo-se tímida sob o escrutínio dele.

– Ei, você é tão bonita quanto Richard disse – Nathan abraçou-a, sua barba áspera raspando

o rosto dela. Ele lhe deu um beijo rápido no canto da boca. – Mais bonita, na verdade.

– Vou contar pra sua namorada – Ruby cantarolou. O rosto de Hanna ficou corado com as

palavras e a ameaça de Ruby de falar com a namorada dele. Ela não sabia para onde olhar.

Erguendo os olhos para a escada, ela viu Richard nos degraus encarando suas pernas nuas.

– Oi.

Richard sorriu, então agarrou Ruby e girou-a no ar. Ruby começou a gritar outra vez, o som

ecoando pelas paredes.

– Me solta!

– E se eu te passar pro Nathan?

– Não, não! Hanna, me salva!

Hanna correu e tentou tirar Ruby dos braços dele.

– Põe ela no chão, seu monstro!

Os quatro pegaram o metrô para a escola de Ruby. Eram um grupo diversificado, Nathan

parecendo algum tipo de vagabundo, Ruby toda arrumada em seu uniforme novo, Richard

engomadinho e delicioso de jeans e camiseta. Olhando para si, Hanna percebeu que seus

shorts e colete apertado não ajudavam o grupo a parecer menos estranho. Ela notou alguns

passageiros encarando-os enquanto eles riam alto.

– Quando você vai pra São Francisco? – Hanna perguntou a Richard. O trem parou no túnel

de repente. As luzes piscando e a escuridão intermitente fizeram Ruby inspirar de susto.

– Na próxima terça. O voo de Londres é essa sexta, o que me dá três dias para arrumar as

malas.

– Está animado? – o trem estremeceu antes de começar a se mover e ganhar velocidade. A

força do movimento fez Hanna perder o equilíbrio e cair direto contra Richard.

Imediatamente, ele pôs os braços ao seu redor, e ela se viu abraçada nele.

– Você está bem? Caiu com força.

Ela respirou fundo, tentando controlar o coração acelerado.

– Estou bem – ela assentiu, para enfatizar.

O trem parou na plataforma. Como sempre, foi um esforço sair, e os quatro tiveram que

abrir caminho por uma multidão de passageiros que tentava entrar no vagão ao mesmo tempo.

Não havia educação na hora do rush. Era cada um por si.

Nathan estava logo atrás de Ruby, protegendo-a com o corpo enquanto eles se moviam para

a frente e pisavam na plataforma. Richard estava na frente de Hanna, e ficava olhando para

trás para se certificar de que ela estava bem. Depois de alguns segundos, ele pôs a mão para

trás e tomou a dela, puxando-a consigo numa tentativa de mantê-los juntos.

Até as mãos dele eram perfeitas. Sua palma era quente e macia, e os dedos longos e

elegantes envolviam os dela perfeitamente. As unhas estavam cortadas curtas, com uma meia-lua branca nas pontas. As unhas dela eram quebradas e mordidas. Ela desistira havia muito

tempo de tentar esmaltá-las.

Quando chegaram no topo das escadas rolantes, enfiaram os bilhetes na máquina, passaram

pelas barreiras de metal e emergiram no mundo lá fora. Ruby estivera em silêncio desde que

eles tinham saído da plataforma, e Hanna começou a se preocupar. Ela estava pulsando de

nervosismo: seu rosto empalidecera e seus lábios estavam apertados numa linha fina.

– Você está bem? – Hanna inclinou-se para sussurrar na orelha de Ruby, tentando não deixar

Richard ou Nathan ouvir. – Não tem problema se ficar ansiosa, sabe. Todo mundo já passou

por isso, e prometo que seus irmãos estavam tão preocupados quanto você quando começaram

o ensino médio.

– Nathan não – Ruby sussurrou de volta. – Ele bateu num professor no segundo dia de aula.

No fim da semana, já estava suspenso.

Hanna mordeu a boca para não rir. O Nathan que ela conhecera hoje era como um gigante

gentil. Ela não conseguia imaginá-lo batendo em alguém, muito menos em um professor.

– Por que ele fez isso?

– O professor estava gritando com uma menina que ele gostava. Ele me disse que perdeu a

cabeça.

– Espero que tenha valido a pena.

– Nathan parece achar que sim. Era a namorada dele.

Hanna nunca tinha conhecido Lucy, mas Ruby lhe mostrara algumas fotos, e Hanna tinha se

sentido desinteressante e desleixada em comparação com a loira alta e bonita.

– Chegamos, maninha.

Ruby parou de repente, olhando para o prédio grande de tijolos e estuque branco, cercado

por muros por todos os lados e por uma cerca viva. Seus joelhos tremiam, e Hanna pegou a

mão dela.

Quando se agachou, o rosto de Hanna ficou na mesma altura que o de Ruby. Ainda

segurando a mão da menina, ela acariciou o rosto dela com a outra.

– Ruby, vai ficar tudo bem. Você consegue. Quando chegar em casa hoje à noite, aposto que

vai estar sorrindo.

A expressão de Ruby desmanchou-se, e lágrimas encheram seus olhos.

– Acho que não consigo – a voz dela estava fininha. Hanna desejou com todas as forças

poder entrar na escola no lugar dela.

– Você é mais forte do que imagina. Lembra como Harry estava assustado no primeiro dia

em Hogwarts?

– E então ele conheceu Malfoy e Snape – Ruby respondeu.

– Mas ele conheceu Roni e Hermione também. E Neville Longbottom, não se esqueça dele.

– Como alguém poderia esquecer um nome desses?

Hanna observou Ruby atravessar lentamente o portão principal, sem se virar para trás uma

única vez. Quando se voltou, Richard estava com a testa franzida. Até Nathan parecia um

pouco perturbado.

– Querem tomar um café? – Hanna sugeriu, tentando encontrar um jeito de animar a todos.

– Combinei de encontrar uns amigos hoje, mas vão vocês – Nathan inclinou-se e apertou o

ombro de Hanna de leve. – Foi um prazer conhecê-la, Hanna. O modo como você cuida de

Ruby é ótimo.

– Ela é uma criança fácil de amar.

– Alguém deveria dizer isso pra ela – Nathan concordou, então deu um tapa nas costas de

Richard antes de se virar e caminhar de volta para a estação de metrô.

Hanna virou-se para Richard.

– Café? – ela perguntou de novo, com uma voz gentil.

Richard olhou para ela.

– Boa ideia – Hanna podia ver que o bom humor dele estava voltando, e seus lábios

curvaram-se num sorriso torto.

Ela lembrou a si mesma de que era só um café. Eles sentariam um na frente do outro e

conversariam sobre amenidades enquanto experimentariam café morno – bastante medíocre –

de uma xícara lascada e velha. Não significava nada; seriam apenas dois amigos passando

tempo juntos. Ela não ficaria olhando para ele e se perguntando se ele ainda gostava dela. Não

ficaria imaginando que ele colocaria a boca perto da dela outra vez, como fizera naquela noite

de neve em Nova York.

Ela não faria muitas coisas.

Contar a Josh sobre o café era uma delas.

 

***

 

Eles estavam descansando perto da estátua de Peter Pan, no Kensington Gardens,

envolvidos pelo ar quente do verão. Richard estava deitado, a cabeça apoiada na jaqueta

enrolada. Hanna estava encostada nele, o rosto apoiado em seu peito. Uma garrafa vazia de

vinho caro estava jogada perto deles. Os dois sentiam-se um pouco bêbados.

– Ruby vai chegar em casa daqui a pouco – ele murmurou, a mão enrolada no cabelo dela,

brincando com os fios soltos.

– Hmm – os olhos de Hanna continuaram fechados. Ele podia sentir um ponto úmido na sua

camiseta, onde a boca dela estava.

– Você está babando em mim? – ele ergueu a cabeça para olhar melhor.

– Eu não babo – de súbito, ela estava desperta, virando a cabeça para olhá-lo nos olhos,

discretamente limpando a boca com as costas das mãos. Richard riu do gesto revelador.

– Vamos, admita que eu faço você salivar.

– Sua modéstia está me assustando – Hanna mordeu os lábios para evitar um sorriso antes

de mostrar a língua e lamber a camiseta dele. – Mas se vai me acusar de algo que não fiz,

então vou fazer de qualquer jeito.

Notando a expressão que surgiu no rosto dele, ela pulou, agarrou a bolsa e saiu correndo

pela grama. Passou pela estátua no meio do jardim e se dirigiu às árvores que os cercavam.

Agarrando o casaco, Richard correu atrás dela, alcançando-a com passos longos e rápidos

antes que ela atingisse o primeiro carvalho.

– Você não tem nenhuma chance – ele riu. Envolvendo a cintura de Hanna, ele a puxou

contra si. Podia sentir a barriga macia dela subindo e descendo junto com a respiração

pesada.

Hanna tentou se contorcer contra ele, arranhando seus braços, procurando escapar. Ele se

manteve firme, contendo o corpo dela nos seus braços e impedindo todas as tentativas de fuga.

A respiração dela por fim se acalmou. Ele podia sentir o próprio coração se tranquilizar depois dos movimentos inesperados.

Eles voltaram para pegar o lixo, jogaram tudo numa lixeira próxima, e começaram a longa

caminhada pelo parque. Eram quase três da tarde, e embora Nathan fosse buscar Ruby na

escola, Richard prometera estar esperando assim que eles chegassem.

– Então, como vão as coisas com Josh? – ele perguntou. Eles tinham chegado à lagoa, e

seguiram o caminho que a circundava até se tornar o rio Serpentine.

Vendo um sorriso surgir no rosto de Hanna, ele sentiu o estômago se contrair com a

felicidade dela. Richard tentou entender por que a afeição óbvia que ela tinha pelo namorado

incitava uma reação tão forte nele. Eles tinham concordado em ser amigos. Por que ele estava

com ciúmes?

– Ele está bem. Nós estamos bem. Vai ser estranho não tê-lo comigo na universidade esse

ano.

A dor no estômago diminuiu.

– Por que ele não vai estar lá?

– Ele se formou em julho. Foi contratado como jornalista trainee aqui no The Guardian, e

se mudou para um flat em Earl’s Court.

– Vocês vão ficar juntos?

– Sim, claro. São só uns cento e poucos quilômetros de distância. Podemos nos ver nos

finais de semana e feriados.

Os carvalhos projetavam sombras sobre a calçada larga e pavimentada ao longo do

Serpentine. Eles tiveram que desviar para evitar um garoto de patins correndo no meio do

concreto, determinado a adquirir tanta velocidade quanto possível. Na beira da água, patos

marrons e cisnes elegantemente pálidos esperavam as legiões de crianças londrinas, que

vinham alimentá-los, todos os dias.

Richard puxou Hanna para perto, colocando o braço nos ombros dela em um gesto

amigável. Ela passou o braço ao redor da cintura dele.

– Vou sentir sua falta quando você for para a Califórnia. Você vem pro Natal? – a voz dela

estava suave.

– Não sei quando volto pra Londres. Nem pra Nova York, na verdade. Se Chris e eu

quisermos fazer esse negócio decolar, acho que estaremos trabalhando demais para sair de

São Francisco por qualquer período de tempo.

– Me explica de novo o que vocês estão planejando.

– Já ouviu falar do Friends Reunited? – ele decidiu começar com o básico, ajudando-a a

entender o conceito.

– Sim, minha mãe entrou em contato com alguns amigos de escola nesse site.

– Então, Chris e eu queremos usar o mesmo conceito, mas torná-lo mais amplo e mais

moderno. A ideia é não só encontrar velhos amigos, mas se manter em contato com os atuais,

conversar, deixar que saibam o que você anda fazendo. Talvez até jogar com eles, esse tipo de

coisa.

– Por que você faria isso se pode simplesmente pegar o telefone e ligar pra eles?

– Porque desse jeito você pode se manter em contato com centenas de amigos de uma vez.

Com um clique, pode contar pra todo mundo que você conhece o que anda acontecendo na sua

vida. Por exemplo, você quer dizer a eles que se formou, então tem que ligar e mandar um e-

mail, uma carta, ou confiar no boca a boca. Com o nosso site, poderia escrever uma linha falando que se formou, e todos os seus amigos a leriam de uma vez. Você gastaria menos de

um minuto contando as novidades e poderia passar o resto do dia lendo Jane Austen, ou

qualquer coisa que você queira fazer.

– Hmm. Não consigo ver por que eu iria querer fazer isso.

– Você já pensou alguma vez que iria querer um celular?

– Um o quê?

– Você sabe o que é um celular, não sabe? – Richard perguntou, incrédulo, tirando o Nokia

8250 do bolso e mostrando-o para ela.

– Ah! Um telefone móvel? – Hanna pegou o aparelho dele, olhando para o visor cromático.

– Uau, esse é bonito.

Richard balançou a cabeça.

– Como estava dizendo, embora você possa não ter pensado que precisaria de um telefone

móvel – ele enfatizou as últimas palavras –, agora todo mundo ou tem um, ou quer um, e eles

estão mudando o modo como nos comunicamos. Vai acontecer a mesma coisa com sites como

o nosso. Estamos satisfazendo uma necessidade que nem sabíamos que tínhamos. É assim que

surgem as inovações.

– Bem, digo pra você se sentir a necessidade de contar a centenas de conhecidos que

comprei pão. Até lá, não vou fazer nenhum julgamento – Hanna sorriu, como se estivesse

gostando de provocá-lo, e Richard percebeu que ele estava gostando também.

– Esperarei uma desculpa extremamente pública e virtual. Talvez você possa rastejar um

pouco também.

– Consigo babar, ajuda em algo?

– É, eu notei.

Eles tinham chegado no Hyde Park. Hanna enfiou as mãos nos bolsos dos shorts.

– É melhor você voltar. Ruby não vai ficar feliz se não estiver lá quando ela chegar em

casa. Foi ótimo ver você de novo.

– Você também. Vou sentir sua falta.

– Não parece que vai ter tempo de sentir minha falta.

– Arranjarei tempo.

– Então não deixe de me mandar um e-mail. Ou me convidar pro seu site. Ainda estou

disposta a rastejar pelo seu perdão.

Richard riu, passando as mãos pelo cabelo e olhando para o rosto sorridente dela.

– Mal posso esperar.

– Sério, boa sorte com isso. E não desapareça – Hanna tirou as mãos dos bolsos e jogou os

braços ao redor dele, puxando-o para perto para um abraço rápido antes de soltá-lo e afastar-

se.

Ele inclinou-se e roçou os lábios contra a pele macia do rosto dela, respirando fundo por

um momento. Hanna virou-se e desceu as escadas da estação de metrô. No topo das escadas,

Richard observou-a descer até que não pudesse mais vê-la. Tocando os lábios de leve, ele

virou e dirigiu-se para Chelsea.