Sempre Foi Você
Capítulo 3
5 de outubro de 2000
– Então, Hanna Vincent, qual é seu AVU? – Josh Chambers, editor da revista estudantil,
inclinou-se na sua cadeira giratória surrada, tirando o lápis que havia posto atrás da orelha
segundos atrás, batendo-o contra os dentes e observando-a.
Hanna franziu a testa. Que diabos era AVU? Ela se perguntou se era algum termo
jornalístico que deveria saber. Não queria parecer burra e admitir que não conhecia
praticamente nada sobre o trabalho em um jornal.
Ela se candidatara para a posição não remunerada na redação da revista da universidade,
assim que tinha chegado em Nottingham, na semana anterior. Agora, estava sendo entrevistada
pelo editor superinteligente e já estava se sentindo ridícula.
– O que quero saber, Hanna, é qual é o seu Argumento de Venda Único. O que a torna
especial? O que você tem que os outros candidatos não têm?
Ele obviamente tinha ficado com pena dela. Pelo jeito, o olhar de confusão ajudava em
alguma coisa, no fim das contas. Pena que não funcionava tão bem com a família dela.
– Bem, Josh Chambers – permitiu-se um pequeno sorriso ao usar o nome completo dele, do
mesmo modo que ele tinha feito. – Tenho muitos pontos de venda. Trabalho duro. Sou
determinada e nunca aceito não como resposta.
– Você e todo mundo com quem falei hoje. Isso não a torna única. Só a torna desesperada –
Josh balançou a cabeça, dando um sorrisinho com a resposta dela. Ele era atraente, com seu
cabelo loiro escuro, maxilar forte e barba por fazer. Tinha o visual geek-chic perfeito, com
seus óculos de aro de tartaruga pretos escorregando pelo nariz. Embora estivesse no último
ano de Jornalismo, para Hanna ele parecia ser muito mais velho que ela.
Com o canto do olho, ela avistou um pôster grande na parede, que anunciava um show na
semana seguinte. Ela virou a cabeça, sorrindo ao reconhecer o homem posando na frente do
pôster. Ele estava usando uma camisa preta apertada, seu cabelo desgrenhado voando para
todos os lados enquanto tocava sua guitarra.
– Eu conheço Tom McLean do Fatal Limits – ela indicou a foto na parede anunciando a
banda como o show principal. – Posso conseguir uma entrevista com eles.
Josh inclinou-se, a curiosidade atiçada pela primeira vez naquela manhã.
– Está brincando comigo?
– Não! – Hanna riu da expressão dele. – Sério, conheci ele nesse verão. Eles acabaram de
conseguir um contrato com uma gravadora independente. Posso ligar pra ele agora, se você
quiser.
Josh ainda a olhava com interesse, o lápis firmemente preso entre os dentes.
– Ok. Vamos fazer um acordo: se você conseguir uma entrevista com o Fatal Limits e se escrever um artigo decente, te dou um mês de teste – o sorriso dele era genuíno.
– Obrigada! – Hanna estava incrédula, mal acreditando que, dentre quase cem candidatos,
ela tinha ganhado um teste. Ela queria fazer uma dancinha de comemoração.
– Mas aviso desde já que sou um chefe exigente. Já fiz homens feitos chorarem com minhas
edições. Não aceito desaforo, e se você está atrás de trabalho fácil, esse não é o lugar certo.
– Não estou atrás de nada fácil, obrigada – Hanna respondeu incisiva, devolvendo o olhar
dele com um igualmente intenso. – E homens bem maiores que você tentaram, e não
conseguiram, me fazer chorar.
– Vou encarar isso como um desafio, então.
– Por favor.
Josh estendeu a mão e apertou a de Hanna. Ele a sacudiu algumas vezes, como que para
fechar o negócio.
– Aguardo ansiosamente para trabalhar com você, Hanna Vincent.
– Por favor, me chame de Hanna. Vincent é meu sobrenome. É estranho quando você me
chama assim.
– Ok, então estou ansioso para trabalhar com você, Hanna – ele esperou um momento. –
Sem Vincent.
– Não podia resistir, podia? – ela balançou a cabeça.
– Você acha que é irresistível? – a sobrancelha dele ergueu-se.
– Não tanto quanto você me acha.
Josh tirou os óculos, colocando-os à sua direita, na escrivaninha. Passando uma mão pelo
cabelo, ele se inclinou para a frente, até que seu rosto estivesse a alguns centímetros do de
Hanna.
– Está tentando seduzir, Hanna Vincent? – ele estava tão perto que ela podia sentir a
respiração dele na sua pele.
– Se tem que perguntar, a resposta é não. Se eu estivesse te seduzindo, você saberia.
– Então aguardo ansiosamente para saber.
– Espere sentado – ela ergueu-se da cadeira, apanhando o currículo e o portfólio. –
Obrigada pela oferta. Vou ficar feliz quando publicar meu primeiro artigo.
Soando mais confiante do que se sentia, ela fez um aceno rápido para Josh e saiu para a sala
principal do jornal. Fechando a porta atrás de si, suspirou aliviada. Ela não tinha certeza se
sentia-se atraída por Josh Chambers… ou se queria matá-lo.
***
Quando voltou ao dormitório, havia um pequeno pacote marrom enfiado na caixa do correio
ao lado da sua porta. Ao puxá-lo, viu que era de Nova York. O formulário da alfândega fixado
na parte de trás tinha sido manchado na chuva, deixando a escrita ilegível.
Ela se perguntou o que afinal seu pai estava fazendo ao lhe enviar livros. Parte dela mal
podia esperar para ver que presente inapropriado ele havia mandado dessa vez. Ela supôs
que, pelo menos, deveria dar algum crédito a ele por ter se lembrado dela.
Já dentro do quarto, começou a abrir o pacote. Assim que rasgou o papel marrom, sua boca
se abriu de surpresa. O livro não estava limpo e novo. Tinha aquele odor único de poeira que
apenas livros antigos possuem. Capa dura com uma sobrecapa verde-musgo. Estava extremamente bem preservado para a idade. As grandes letras brancas na capa não deixaram
dúvidas de que o presente não era de Philip Vincent.
Era 1984, de George Orwell.
Quando Hanna abriu a capa, leu as palavras “primeira edição” escritas a lápis na página de
rosto.
Um envelope caiu dentre as páginas, aterrissando suavemente em sua colcha branca
bordada. Ela sentiu o coração bater mais rápido quando o apanhou, colocando o dedo na fenda
da beirada e movendo-o ao longo do envelope para abri-lo. Tirando de dentro um papel de
carta elegante, ela o abriu e começou a ler.
27 de setembro de 2000
Querida Hanna,
O começo da sua carreira universitária é algo que vale a pena comemorar, mas, como
Thomas Carlyle disse, “A maior universidade de todas é sua coleção de livros”. Assim que
li isso, não pude deixar de pensar em você. Obrigado, não só por sua gentileza com Ruby
durante o verão, mas também por entreter o solitário – e eventualmente irritante – Grande
Irmão dela.
Se a nova Hanna Vincent é tão interessante quanto a antiga, aguardo ansiosamente para
ver você de novo em breve.
Seu,
Richard
Ela encarou a carta por um tempo. Era curta, só um bilhete, na verdade, mas ela não pôde
evitar se sentir um pouco emocionada pelo gesto. Ele comprara um livro para ela – uma
primeira edição, ainda por cima. Não era o tipo de coisa que se encontrava em um sebo
qualquer.
Além disso, ele a chamara de interessante. Por algum motivo, ela gostou daquilo. Gostou
muito daquilo. O jeito que os Larsen tinham de atribuir aquela palavra a ela estava fazendo
Hanna mudar de ideia sobre sua conotação negativa. Pela primeira vez, ela estava gostando de
ser interessante, de ser diferente.
Depois de passar dez minutos se perguntando como agradecê-lo, decidiu ir à sala de
computadores no porão do alojamento e enviar um e-mail.
De: HMVincent@Nottingham.ac.uk
Para: RSLarsen@Columbia.edu
Assunto: Grande Irmão
Querido Richard,
Uau, muito obrigada pelo presente impressionante. Nunca tive uma primeira
edição de nada antes, então estou animada para começar essa nova coleção.
Provavelmente tenho um longo caminho a percorrer antes de ter algo próximo da
“universidade de livros” de Thomas Carlyle, mas a gente precisa começar de algum
lugar, certo?
No entanto, estou levemente apreensiva com o fato de você ter me mandado um
livro que basicamente me diz que o Grande Irmão está me observando. Devo ficar
preocupada?
Hanna
PS: Meu quarto é o 101.
Ela clicou no ícone “enviar” e se encostou na cadeira, decidindo procurar na internet quanto
exatamente valia uma primeira edição de 1984.
Dentro de poucos instantes, desejou não ter feito isso. De jeito nenhum ela poderia manter
aquele livro consigo. Valia mais que todas as suas coisas juntas. E mais um pouco ainda.
Bem no momento em que ela estava considerando devolver o presente, o alerta de novo e-
mail tocou.
De: RSLarsen@Columbia.edu
Para: HMVincent@Nottingham.ac.uk Assunto: Observando você?
Hanna,
O prazer é meu. E, sobre a sua questão, depende muito do que você
anda fazendo.
Richard
PS: O quarto 101 contém seu maior medo?
Ela sorriu ao ler a mensagem, extremamente feliz por ele ter respondido tão rápido. Olhou o
relógio. Eram quatro da tarde no Reino Unido, o que significava que eram onze da manhã em
Nova York. Imaginou que ele estava ou na biblioteca ou em casa, em sua escrivaninha,
trabalhando no laptop. Depois de morder as unhas por um tempo, decidiu responder.
De: HMVincent@Nottingham.ac.uk
Para: RSLarsen@Columbia.edu
Assunto: Meu pior pesadelo
Richard,
Como você leu Harry Potter, suspeito que já sabe qual é meu maior pesadelo. Mas
como não posso dizer o nome dele, digo em vez disso que estou dividindo o quarto
com uma amazona francesa de 1,90 m que fuma como uma chaminé. Não tenho dúvida
que um certo alguém com o nome começando com V morreria de medo dela. Sei que eu
morro.
Hanna
De: RSLarsen@Columbia.edu
Para: HMVincent@Nottingham.ac.uk Assunto: Constrangedor…
Hanna,
Estou tentando manter minha reputação e não deixar ninguém saber que passei as
férias de verão lendo livros infantis. Podemos manter isso entre nós?
Quando o próximo livro sai, aliás? Posso pegar o seu emprestado?
Richard
De: HMVincent@Nottingham.ac.uk
Para: RSLarsen@Columbia.edu
Assunto: Envergonhado… você?
Richard,
É sempre triste quando um garoto rico de Manhattan como você não pode se dar ao
luxo de comprar um livro. Vou ponderar a questão enquanto como a última novidade
do refeitório. Acho que teremos algo especial hoje – caçarola de atum com uma
porção de espinafre cozido. Pensarei em você enquanto estiver mastigando.
Hanna
PS: Existe uma coisa chamada biblioteca…
De: RSLarsen@Columbia.edu
Para: HMVincent@Nottingham.ac.uk Assunto: Prefiro ler o seu
Sério.
Richard
bjs
Hanna sorriu com o beijo no último e-mail enquanto terminava a sessão. No fim das contas,
aquele estava sendo um dia bom… um dia muito, muito bom.
***
Na sexta-feira seguinte, Hanna estava nos bastidores da sala de concertos da universidade,
abrindo caminho entre os corredores lotados de bandas de rock, comediantes e outros artistas,
todos brigando por um espaço nos camarins.
Por ser a banda principal, a Fatal Limits tinha um camarim próprio, separado do resto dos
artistas. Hanna conseguiu se enfiar lá dentro e pôde ver que pelo menos um membro da banda
estava se aproveitando do fato de ter um séquito de groupies.
Um sussurro ao lado da sua orelha fez um arrepio percorrer sua espinha.
– Desde que assinamos contrato, o resto da banda parece ter se transformado em animais.
Ela se virou e viu Tom McLean bem atrás dela. Ele lhe deu um sorriso torto e a puxou para
seus braços, suas mãos apertando a cintura dela enquanto ele a abraçava.
Nos dois meses desde que haviam se visto pela última vez, a vida de Tom tinha dado um
giro de 180 graus para o melhor. A Fatal Limits tinha fechado contrato com uma pequena
gravadora independente, que estava trabalhando duro para aumentar a reputação da banda. O primeiro passo do plano era enviá-los em uma turnê pelas universidades britânicas, para
estabelecer uma base forte de fãs entre os estudantes e, então lançar o álbum já com um
público preexistente.
– Olhe só pra você, Tom – Hanna puxou o cabelo dele, notando o corte moderno; seus
cachos cor de areia ainda caíam um pouco sobre a testa, mas de algum modo pareciam mais
arrumados. – Não acredito que está virando o Chris Martin.
Tom a abraçou mais forte. O rosto dele tocava o dela, e ele murmurou na sua orelha:
– Se comparar a gente com o Coldplay no seu artigo, faço você comer a revista.
– Se você insistir em tocar “Yellow”, não terei escolha.
– Se eu insistir em tocar “Yellow”, você vai se derreter aos meus pés, como da última vez.
Hanna afastou-se de Tom, olhando para ele com as sobrancelhas levantadas.
– Sério? Você acha que eu fiquei impressionada com um cover do Coldplay?
– Não acho que tenha ficado impressionada com minha voz. Suspeito que tenha sido meu
corpo.
Hanna começou a rir e bateu no braço dele.
– Cuidado com o braço da guitarra!
– Ainda não fez um seguro? – ela estendeu a mão e esfregou o bíceps dele, surpresa ao
encontrá-lo bem definido. Tom obviamente estava frequentando academia.
– Estou tomando as providências. Aparentemente, Keith Richards fez um seguro de três
milhões para o braço dele.
– Bem, Keith Richards é um idiota. E provavelmente tem um pau pequeno também.
– Você vai ficar feliz em saber que eu não sofro desse problema. Talvez eu possa te mostrar
mais tarde…
– Talvez você possa manter o zíper fechado, ou achar uma groupie interessada – Hanna o
empurrou, pegando seu bloco de notas. – A entrevista começa agora, então se quiser continuar
sendo um cretino, fique à vontade. – Ela piscou para ele saber que só estava brincando. O
flerte era automático; ele não podia evitar agir assim com toda garota com quem falava. Era
parte do seu charme natural.
– Ok, Lester Bangs, podemos fazer toda essa coisa de sexo mais tarde. Qual é sua primeira
pergunta? – Tom abriu um sorriso lento e casual. Parecia que estava se divertindo.
Hanna revirou os olhos, puxando uma caneta do bolso enquanto virava a página do bloco.
– Minha primeira pergunta, Tom McLean, vocalista da banda em ascensão Fatal Limits, é:
quando você se tornou um babaca?