Sempre Foi Você
Capítulo 15
20 de janeiro de 2007
A varanda tinha sido decorada com bexigas e serpentinas, como um arco-íris um tanto
estranho e extravagante. O nome de Ruby estava escrito em cima da porta em letras rosas.
Hanna parou ao pé da escada, paralisada pelo nervosismo, apertando uma sacola de presente
roxa estampada. Uma música baixa saía da casa, e luzes de discoteca brilhavam na janela,
indicando que a comemoração estava começando.
Ela não tinha certeza se conseguiria fazer aquilo.
Tom tinha prometido que estaria lá a noite toda e não sairia do lado dela em nenhum
momento. Ele já tinha chegado, pois concordara em tocar para Ruby e precisava montar o
equipamento. Hanna sabia que só ficaria sozinha por alguns minutos antes de estar sob a
proteção dele.
Mas somente minutos já seriam o suficiente. Ela não via Claire ou Steven desde que voltara
para Londres em novembro, e estava morrendo de medo do que eles poderiam dizer.
– Você vai entrar ou o quê? – Ruby abriu a porta, impaciente. – Está parada aí há horas.
Hanna sorriu e subiu as escadas correndo.
– Feliz aniversário, querida – ela jogou os braços ao redor de Ruby e apertou-a firme.
– Estou tão feliz que você está aqui. Estava com medo de que não viesse.
– E perder o show do Tom? Mal posso esperar pra vê-la gritar como fã enlouquecida – o
rosto de Ruby ficou corado.
– Não sou uma fã enlouquecida, só acho que ele é um bom cantor.
– É claro que é – Hanna deu uma piscadinha e entregou o presente para Ruby. – Não mostre
isso para Claire ou Steven. Eu queria te dar algo bonito pra usar na cama.
– É sexy?
– Não! – foi a vez de Hanna corar. – Mas é bonito e sofisticado, apropriado para uma
jovem dama. Não sei se seus pais entenderiam.
Quando entrou no saguão, uma sensação de familiaridade passou por ela. Era como entrar
num sonho meio vago. Tudo parecia igual.
– Tom me disse pra levá-la direto até ele. Ele montou as coisas no porão – Ruby agarrou a
mão de Hanna e puxou-a para as escadas que levavam ao subsolo. – Ele vai começar o show
em meia hora.
– Ele disse o que vai tocar? – Hanna perguntou, imaginando se poderia fazer um post no
blog sobre aquilo depois.
– Não, quer que seja surpresa.
Elas chegaram ao pé das escadas, e Hanna podia ouvir Tom dedilhando a guitarra Les Paul.
Assim que entraram, Tom ergueu os olhos através dos cílios dourados e abriu um grande sorriso para ela.
– Ei!
– Oi – ela se sentia como uma criança que tinha acabado de encontrar seu cobertorzinho. De
repente, conseguia respirar de novo.
– Você contou pra ela? – ele virou-se para Ruby, a testa levemente franzida.
– Ainda não, achei melhor contarmos aqui.
– Contar o quê? – Hanna perguntou, sentindo uma apreensão súbita.
– Mamãe e papai querem te ver – Ruby disse depressa, voltando-se para Tom quando
percebeu que tinha revelado o segredo.
– Agora? – de algum modo, ela tinha achado que teria tempo antes de vê-los. Estava
completamente despreparada para a reação deles à sua reaparição na vida de Ruby.
Tom levantou-se da cadeira e cuidadosamente colocou a guitarra no apoio. Então foi até
elas e jogou os braços ao redor das duas.
– Vai ficar tudo bem. Você teria que vê-los em algum momento.
– Mas não estou pronta. Não sei o que dizer… – “desculpe” não parecia suficiente.
– É o lugar perfeito para encontrá-los de novo. É uma festa, você não consegue nem ouvir
seu pensamento.
Hanna deu um passo para trás e afundou-se no sofá xadrez, o coração acelerado com a ideia
de que teria que explicar a Claire por que havia desaparecido da vida deles. Na terapia, ela
aprendera que esse era um passo necessário para reconstruir seus relacionamentos e reabrir o
diálogo. Mas agora estava hesitante, querendo adiar o inevitável. Não sabia se conseguiria
suportar a rejeição ou o olhar de desprezo que estava fadada a encontrar nos olhos deles.
– Eles já sabem que estou aqui? – fazia meses que ela não tinha um ataque de pânico, mas
reconheceu os sinais imediatamente. Precisava controlar a respiração e se concentrar em tirar
os pensamentos negativos da mente. Meu Deus, por que tinha parado de tomar os remédios?
– Eu disse que você estaria aqui daqui a pouco. Eles já viram Tom…
– Eles estão felizes por você ter vindo, não precisa se preocupar – Tom acrescentou.
– Não foi você que abandonou o filho deles – Hanna lembrou. – Claro que estão felizes em
ver você.
– A gente sabe que você não estava bem, Hanna – Ruby acariciou o cabelo dela. Quando é
que elas tinham trocado de papéis? – Você não era você mesma, mas está melhor agora.
Richard não guardou rancor, e meus pais também não.
Fechando os olhos, ela se lembrou de que nada ia machucá-la; ela ficaria bem. Repetiu o
mantra que o psicólogo lhe havia ensinado: meu coração ainda está batendo, estou
respirando, posso fazer isso. Ela inspirou ar pelo nariz e expeliu pela boca, gradualmente
reduzindo a quantidade de ar inspirada até o coração bater num ritmo lento e regular.
– Estou bem – ela tentou abrir um sorriso tranquilizador. – Não tenho um desses faz bastante
tempo.
Ruby parecia assustada, mordendo o lábio inferior enquanto a encarava com olhos
escancarados.
– Eu posso falar para eles ficarem longe, Hanna. Você não precisa encontrá-los.
Hanna virou-se no sofá para olhar Ruby diretamente.
– Vou ficar bem – sua voz estava mais forte e, ela esperava, encorajadora. – Preciso ver
seus pais em algum momento. Afinal, somos praticamente uma família.
Ela mal tinha terminado de falar quando Ruby lançou os braços ao redor dela e enfiou o
rosto no seu pescoço.
– Estou tão feliz que você voltou de vez! Senti tanta saudade.
– Senti saudade de você também – os olhos de Hanna começaram a marejar enquanto ela
abraçava Ruby de volta. – Muito mesmo.
***
Claire estava na cozinha quando Hanna finalmente teve coragem de ir ao seu encontro. Era
como se o tempo tivesse voltado sete anos e Hanna fosse adolescente outra vez; insegura
sobre si mesma e seu papel na vida, sentindo-se inferior em relação à rica família Larsen e à
confiança social deles.
A ausência de Richard era como uma faca no peito. Em toda parte havia lembretes do que
ela tivera e perdera. Um amor descartado tão estupidamente. Mais do que nunca, ela queria
voltar no tempo e ser aquela garota outra vez, a garota que tinha rido com os Larsen e ajudado
a mãe em festas.
– Oi.
Claire virou-se, sua expressão neutra transformando-se num enorme sorriso. Ela pôs a mão
sobre o coração.
– Ah, Hanna! Não acredito que você está aqui!
Deixando cair o guardanapo que tinha nas mãos, ela contornou o balcão e foi até a porta,
envolvendo Hanna num abraço.
Hanna ficou congelada no início, surpresa com o entusiasmo da recepção de Claire. Um
instante depois, no entanto, abraçou-a de volta, enterrando a cabeça nos ombros da mulher e
sentindo as primeiras lágrimas quentes escaparem dos olhos. Ela não conseguia se lembrar da
última vez que a tinham abraçado daquele jeito, e aquilo era um lembrete nítido do que ela
tinha perdido. Não apenas Diana – embora a morte da mãe tivesse sido terrível –, mas
Richard também.
Um momento passou antes que ela levantasse a cabeça do ombro de Claire, enxugando as
lágrimas do rosto. Claire pousou as mãos nos braços dela e deu um passo para trás, olhando-a
com um sorriso triste nos lábios.
– Senti muitas saudades. Nunca mais fuja desse jeito de novo.
A advertência fez Hanna sorrir atrás das lágrimas. Claire puxou-a para dentro da cozinha,
fechando a porta para que tivessem um pouco de privacidade e alguma proteção da música
que vinha do sistema de som.
– Sinto muito, Claire – Hanna mordeu o lábio para não começar a chorar outra vez. – Não
sei em que estava pensando. Ou talvez não estivesse pensando.
– Você estava de luto por sua mãe, não foi culpa sua. Sei que precisava de espaço, mas
rezei todos os dias para que voltasse pra casa.
– Como uma filha pródiga? – Hanna tentou brincar, mas os soluços eram reveladores.
– Como um membro amado da família, Hanna, e você é muito amada. Espero que saiba
disso.
– Eu estava com tanto medo que você me odiasse por ter fugido.
– Nunca poderia odiá-la – Claire também estava chorando agora. Lágrimas cinzas de rímel
deixavam marcas no rosto. Ambas precisariam retocar a maquiagem antes de sair em público outra vez. – Nem se quisesse teria conseguido culpá-la. Você estava tão triste e deprimida,
tentando encontrar algo que não sabia o que era. Espero que tenha conseguido alcançar um
pouco de paz na Austrália.
Hanna fechou os olhos e pensou sobre seu tempo em Sydney. Primeiro tinha ficado perdida,
percebendo que a tristeza da qual estivera fugindo a seguira até o outro lado do mundo. Tinha
sido um alerta nítido, que a atingira profundamente. Mas, aos poucos, ela conseguira sair
daquele abismo de desespero. Não fora rápido nem fácil, e ela caíra mais vezes do que
conseguia se lembrar, mas uma hora foi finalmente capaz de emergir na luz clara do dia.
– Estou trabalhando na parte de encontrar paz – ela admitiu, irônica – mas é mais fácil falar
do que fazer.
– Por que não me conta sobre seu novo emprego? Ruby disse que tem algo a ver com blogs,
seja o que for um blog…
Pela primeira vez um sorriso genuíno apareceu no rosto de Hanna, iluminando seus olhos
enquanto ela começava a falar.
– Uma colega começou um site de resenhas de música, que ela quer expandir para incluir
outras coisas também. Sou a editora de música, o que é fantástico, e mesmo que seja só eu por
enquanto, estou recrutando alguns freelancers para ajudar.
Claire apenas a olhou, um sorriso puxando o canto dos lábios.
– Você fica tão animada quando fala sobre seu trabalho, é lindo de ver.
– Era a única coisa me mantendo sã – Hanna admitiu. – Quando todo o resto estava se
despedaçando, era algo em que eu podia me apoiar.
– Você podia ter se apoiado na gente também – a voz de Claire estava baixa. – Quero que se
lembre disso, caso se sinta mal daquele jeito outra vez.
O nervosismo voltou quando Hanna percebeu quanto sua rejeição devia tê-los machucado.
Se Claire estava se sentindo tão mal, o que ela tinha feito com Richard?
– Vou me lembrar – as pernas dela tremiam, e ela apoiou-se no balcão da cozinha para não
cair. – Obrigada por ser tão gentil…
Ela foi interrompida pela porta sendo aberta subitamente e o som da música invadindo a
cozinha. Ambas viraram-se e viram Steven, usando uma calça cinza e um suéter azul, o cabelo
loiro caindo sobre a testa.
– Aí está você! Acho que Ruby está pronta para a gente no porão – Steven sorriu para
Claire antes de notar que havia mais alguém lá. – Ah, desculpe, não queria interrom…
Ele parou de falar assim que os olhos caíram sobre Hanna, e sua boca abriu em surpresa.
– Olhe, Steven, Hanna veio para a festa, como tinha prometido a Ruby.
Hanna olhou para Steven e viu um homem dilacerado por suas emoções. Era como se parte
dele quisesse celebrar o retorno dela, mas outra ainda estivesse brava por ela ter sumido. Ela
não sabia qual lado ganharia.
– Oi, Steven.
– Hanna – a resposta foi curta.
Do canto do olho, ela podia ver Claire gesticulando para ele, embora não desse para ver o
que ela estava tentando sinalizar. Steven ergueu as sobrancelhas e deu um aceno breve.
– Como vai?
– Estou bem, obrigada – ela soava tão desconfortável e falsa, não era à toa que ele a estava
encarando.
– Você nos deixou preocupados por um tempo, especialmente Richard.
– Steven! – o tom de Claire continha um aviso.
– Não tem problema, Claire, ele tem razão. Como está Richard?
Steven aproximou-se e parou na frente de Hanna; ele era tão alto a ponto dela se sentir
intimidada. Ele se parecia tanto com Richard no modo como se portava e como falava que era
doloroso tanto quanto reconfortante.
– Não vou mentir, Hanna, foi bem difícil para ele – ele falava devagar, como se estivesse
deliberadamente tentando se controlar. – Por um tempo ficou tão deprimido quanto você, mas
está bem melhor agora. Parece ter superado e aceitado que você não vai voltar.
As palavras tiniram em sua mente como uma lata chutada num beco. Era tarde demais. No
seu esforço de salvar a si mesma, tinha destruído seu relacionamento e qualquer respeito que
Richard tinha por ela. Sentindo novas lágrimas surgirem nos olhos, ela apertou-os outra vez,
lembrando-se de que aquela deveria ser uma ocasião alegre. Era o aniversário da sua melhor
amiga, e ela faria o máximo para comemorar.