Sempre Foi Você

Carrie Elks · Capítulo 17 de 29

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Sempre Foi Você

Capítulo 16

 

12 de março de 2008

 

Hanna estava atrasada de propósito, enlouquecendo Tom com sua procrastinação ao entrar

de volta na casa. Primeiro, tinha que verificar se tinha desligado o aquecimento. Depois, quis

se certificar de que havia tirado a chapinha de cabelo da tomada. Finalmente, voltou para ver

se tinha ligado o alarme antirroubo, depois de tê-lo desligado nas últimas duas vezes.

Ela sabia que estava adiando o inevitável, mas isso não era um grande consolo.

– Tem certeza de que quer fazer isso? – Tom tomou a mão dela, mantendo a outra firme na

direção enquanto esperava dentro do carro, fora do apartamento dela.

– Na verdade, não – Hanna engoliu uma sensação de náusea, lembrando-se de que já tinha

enfrentado coisas muito piores do que aquilo.

– Não temos que ficar muito tempo. Vamos ver a cerimônia, beber o álcool de graça, e daí

voltamos pra cidade e fazemos uma festa a dois.

Hanna sorriu. Ultimamente, as festas deles resumiam-se a tomar uma xícara de chá

assistindo ao noticiário. Alguns dias, sentia que tinha muito mais do que seus vinte e seis anos.

– Não vou decepcionar os Larsen, Tom. Eu prometi uma celebridade no casamento deles, e

eles vão ter uma.

As palavras fizeram Tom dar uma olhada no espelho retrovisor. O SUV preto habitual

estava seguindo-os, dirigido pelo chefe de segurança. Hanna tinha se divertido muito quando

conheceu Damon pela primeira vez, e sempre ficava citando frases de O Guarda-costas para

ele. Seu maior desejo era ver Damon carregar Tom para longe de alguma possível ameaça.

Aquilo faria o seu dia.

– Eles querem que eu tire a atenção deles – Tom murmurou. A infinidade de câmeras de

celular estava tornando sua vida miserável. Ele constantemente reclamava que “não podia nem

ir ao banheiro sem parar no site de fofocas no dia seguinte”.

– Você vai ficar comigo o tempo inteiro, certo? – ela perguntou, inclinando-se para ligar o

rádio e estremecendo quando a bateria e o baixo explodiram dos alto-falantes. – Jesus, como

você aguenta ouvir esse lixo?

– Você preferiria que eu ouvisse um álbum do Fatal Limits? – Tom parecia divertido. –

Porque talvez eu tenha alguns no porta-luvas.

Hanna virou-se para ele, estreitando os olhos.

– O novo?

– Você quer dizer a versão recentemente gravada, não editada e inédita? – Tom ainda batia

os dedos na direção no ritmo da cacofonia emanada do estéreo do carro.

– Não – Hanna disse, sarcástica. – Só gosto de ouvir suas músicas velhas.

Dando um tapinha na perna dela, ele inclinou-se sobre ela e abriu o porta-luvas. Todos os CDs que havia enfiado lá desabaram sobre as pernas de Hanna, alguns caindo no chão, e ela

abaixou-se para pegá-los.

Ignorando as reclamações dela, Tom pegou um CD em branco e colocou-o no estéreo, e as

notas suaves de um piano tranquilizaram as orelhas de Hanna.

Ele conseguiu esperar uns dois minutos durante a primeira música antes de perguntar o que

ela achava.

Naquela altura, ela tinha enchido o porta-luvas de novo e fechado o compartimento, fazendo

uma nota mental para nunca deixar aquilo ser aberto em sua presença outra vez. Era pedir para

um acidente acontecer.

– É uma mudança do último álbum – ela sugeriu, a testa franzida enquanto se concentrava na

música, notando que a banda de guitarristas estava usando muitos recursos eletrônicos. Uma

base discordante parecia preencher todas as músicas.

– A gente queria experimentar algo novo – Tom tentou dar de ombros, indiferente. Em

seguida, notando a concentração de Hanna, ficou quieto e deixou-a escutar.

Eles permaneceram em silêncio durante a viagem de uma hora. Hanna estava tão focada em

ouvir o CD que mal notou quando Tom imbicou o carro na entrada e estacionou. Só quando

ergueu os olhos percebeu que já estavam no local, prontos para ver o filho Larsen mais velho

casar com sua noiva de um ano.

Ela exalou lentamente, encarando o painel enquanto se lembrava de que tinha renunciado ao

direito de se sentir daquele jeito três anos antes.

Richard tinha toda razão em continuar a vida. Ela tinha praticamente implorado a ele que o

fizesse. Tinha dito que não havia esperança para eles, e que não queria que ele ficasse

esperando por ela.

Então por que ela se sentia tão mal?

– Pronta? – Tom tirou a chave da ignição e inclinou-se para o espelho retrovisor, puxando

os lábios sobre os dentes e esfregando-os com o dedo, como se estivesse procurando pedaços

de comida no meio deles.

– Sim – Hanna abriu a porta e virou-se para sair, alisando o vestido azul ajustado sobre as

pernas. Os saltos dos sapatos enterraram-se no cascalho, e ela teve que fazer um esforço extra

para atravessar a entrada.

– Pode tirar esse sorriso da cara, McLean – ela rosnou, enquanto Tom assistia seus esforços

com diversão. – Senão vai ter que me carregar.

– Adoraria, mas tenho uma turnê mundial daqui a pouco. Não quero me machucar.

Eles foram guiados até o salão de baile principal, que tinha sido arrumado para a cerimônia

de casamento. Hanna e Tom sentaram na última fileira de cadeiras, ambos esperando não ser

notados – embora por motivos diferentes.

Os poucos minutos antes da cerimônia começar permitiram que Hanna examinasse o salão

sem ser olhada, e ela desfrutou do anonimato. Viu Steven e Claire sentados na primeira fileira,

junto com Ruby e a mãe de Claire, que ainda estava firme aos noventa e três anos.

Então o coração de Hanna começou a acelerar.

Na frente deles, Richard e Nathan estavam à direita do salão. Nenhum dos dois conseguia

ficar parado, e ela viu Nathan cutucar Richard, que rapidamente respondeu com um tapa no

braço. Claire inclinou-se e disse algo para eles e, o que quer que tenha sido, os dois

explodiram em gargalhadas. Hanna inspirou fundo quando Richard se virou e ela viu seu perfil, a luz do sol que entrava pela janela criando um halo atrás da cabeça dele.

Ele ainda era tão bonito quanto ela se lembrava. Ela traçou a linha do seu nariz reto até os

lábios e o maxilar forte. Não conseguia determinar daquela distância se ele estava barbeado –

embora imaginasse que sim –, mas em algum lugar da sua mente aflorou a lembrança de cafés

da manhã na cama, queixo com barba e roupas jogadas pelo quarto, fazendo seus olhos

arderem.

Richard inclinou-se e sussurrou alguma coisa para a mulher sentada ao lado de Lillian, e ela

alisou seu terno. Hanna prendeu a respiração enquanto Richard olhava para a mulher, seu

sorriso gentil e torto. Ruby já tinha falado a Hanna sobre Meredith, a noiva de Richard.

Antes que Hanna conseguisse reagir à cena à sua frente, a marcha de casamento começou, e

todos se voltaram para ver a noiva de Nathan, Lucy, atravessando o salão no braço do pai,

seguida por uma série de damas de honra. Quando se voltaram para ver a procissão nupcial,

os convidados também foram alertados da presença de Tom. Hanna observou indignada que

mais pessoas começaram a tirar fotos com as câmeras de celular, ignorando a noiva por

completo.

Ela se perguntou se levar um cantor famoso a um casamento Larsen tinha sido uma ideia tão

boa assim.

– Parece que o segredo escapou – ela sussurrou. Tom tentou parecer indiferente e ignorar os

flashes. – Desculpe.

– Acontece sempre – Tom respondeu, olhando por cima do ombro para um segurança

tentando permanecer invisível no fundo do salão. – Não se preocupe, Hanna. Estou aqui por

você.

Eles tinham passado dias discutindo se ela deveria ir ao casamento. Primeiro ela pensara

que o convite tinha sido enviado só por educação, na esperança de que ela o recusaria. Mas

tanto Claire como Nathan tinham ligado e insistido para que ela fosse, e prometido que não

haveria nenhuma estranheza entre ela e Richard. Claire até sugerira que Tom fosse o

acompanhante dela, sendo sem dúvida encorajada por Ruby, que mantinha uma devoção

impressionante ao cantor.

Depois da cerimônia, eles foram para a sala de jantar para o café da manhã de casamento.

Ela e Tom sentaram-se numa mesa no meio do salão cheia de jovens de vinte e poucos anos.

Hanna não conseguia parar de olhar para a mesa principal, os olhos buscando Richard e

pousando sobre o rosto dele.

– Você precisa parar de olhar para lá – Tom sussurrou para ela depois de um olhar

particularmente demorado. – Uma hora ele vai perceber.

Hanna corou e desviou os olhos de novo. Fixando-os no relógio, ela se perguntou como

aguentaria o resto do dia. Não tinha certeza se conseguiria passar outras oito horas sem fazer

um papelão.

– Lembre-me disso – ela respondeu, antes de se virar para o cara chamado “Mosh” que

sentava à sua esquerda. Ele estava tentando contar uma anedota extremamente bizarra

envolvendo Nathan, uma escova de dentes esquecida e uma escova sanitária. Hanna ficou

contente por ter terminado a comida antes de ele começar a história.

Os brindes seguiram-se à refeição, e quando Richard se levantou para fazer o discurso de

padrinho, ela sentiu Tom pôr o braço ao redor de seus ombros outra vez. Hanna encostou-se

nele, agradecida por ele estar lá para apoiá-la. Ouvir Richard falar sobre amor verdadeiro era como ter uma faca sendo enfiada no coração, por mais bem-humorado e alegre que fosse o

discurso. Seus lábios moviam-se suavemente enquanto falava, e de vez em quando suas

sobrancelhas se erguiam para acentuar uma piada, fazendo os convidados rirem junto com ele.

A parte preferida dela foi quando ele fez o brinde ao casal feliz. Ela assistiu-o levantar a taça

para tomar um gole, e pôde ver seu pomo de adão sob a pele esticada do pescoço.

À medida que o céu escurecia, os convidados voltaram ao salão de festas para o

entretenimento. Uma banda se instalou num canto, e eles começaram a tocar músicas modernas

e populares, o que divertiu tanto Hanna como Tom. Aos poucos, as pessoas foram para a pista

de dança, energizadas pelo álcool e pela comida, prontas para começar a dançar.

Tom foi ao banheiro, prometendo a Hanna que voltaria o mais rápido possível. Ela dirigiu-

se para o bar, pedindo uma cerveja, esperando que ela lhe desse um pouco daquela “coragem

holandesa” de que as pessoas sempre falavam.

– Oi.

Hanna virou-se e viu Richard ao seu lado. Meredith estava com ele, sua figura magra de

algum modo acentuando o peito largo dele. A mente de Hanna ficou momentaneamente vazia, e

ela podia sentir o pânico começando a crescer enquanto tentava pensar no que dizer.

– Oi – não era muito, mas a fez parecer menos idiota.

– Hanna, gostaria de apresentar Meredith Devries. Meredith, essa é Hanna Vincent – Hanna

automaticamente apertou a mão da garota, surpresa com sua pele macia e seu pulso flácido.

– É um prazer, Meredith – Hanna estava se surpreendendo com sua habilidade social. Era

uma ação quase reflexiva, tão enraizada que falar as palavras era automático.

– Você também. Você é amiga de Lucy?

Richard nunca falara com Meredith sobre ela? Hanna achou aquilo interessante, e pela

primeira vez voltou-se para ele. Seus olhos verdes encaravam-na diretamente, focados em seu

rosto, mas não em seus olhos. Era como se ele estivesse encarando seus lábios, e por algum

motivo ela os umedeceu com a ponta da língua.

– Não, sou amiga de Ruby – era uma explicação razoável.

– Ei, o que eu perdi? – a voz de Tom era como limonada gelada num dia quente, e Hanna

agarrou a mão dele.

– Richard estava me apresentando a Meredith – Hanna respondeu.

– Meu Deus, você é aquele cantor, não é? Minha irmã ama suas músicas! – o sorriso de

Meredith iluminou-se em seu rosto, e Hanna começou a listar todos os motivos pelos quais

odiava mulheres americanas bonitas.

– Ah, obrigado. Você gosta de música?

Meredith inclinou-se e sussurrou de modo conspiratório:

– Quase não ouço música, pra falar a verdade.

As sobrancelhas de Hanna ergueram-se como se estivessem tentando se fundir com seu

cabelo. Ela tentou não parecer sarcástica, mas falhou. Seus olhos automaticamente voltaram-se

para Richard. Assim que ele olhou para ela, abriu um sorriso, que Hanna se viu respondendo.

Nossa, aquilo era bom.

Apesar da mediocridade da banda, Hanna e Tom fizeram uma tentativa irônica de dançar.

Ela teve uma crise de riso quando ele começou a se lançar pela pista numa paródia de John

Travolta, fazendo mais do que algumas câmeras conseguissem gravar. Ela não podia deixar de

ficar grata a ele por acompanhá-la ao casamento, por se jogar na frente do ônibus só para fazê-la sorrir. Ele era um amigo de verdade.

Ruby juntou-se a eles depois de um tempo. Querendo lhe dar alguma coisa sobre o que falar

quando voltasse para a universidade, Hanna foi ao banheiro, deixando Tom e Ruby dançando

uma versão interessante de “Macarena”.

Estava ficando tarde, e os convidados tinham começado a ir embora. O banheiro estava

vazio quando Hanna entrou, elegantemente decorado com toalhas e sabonete Molton Brown –

nada de secador de mãos e sabonete comum para os convidados na Chalkley Manor.

Depois de espalhar um pouco de hidratante nas mãos, ela abriu a porta e encontrou Richard

lá fora, seu rosto sério e os lábios numa linha fina. Suas sobrancelhas estavam franzidas.

– Posso perguntar uma coisa? – ele gentilmente a empurrou de volta para o banheiro, e

Hanna sentiu o coração acelerar quando a mão dele agarrou seu pulso. Ambos tinham bebido a

noite inteira, e ela se perguntou se era ele ou a bebida falando.

– Sim – era a única resposta que veio à mente, e ela exalou-a como se sua vida dependesse

daquilo.

– Você está trepando com Tom?

As palavras fizeram seus olhos se arregalarem e o queixo cair. Por um momento, ela ficou

com raiva pela intrusão e pela expressão rude. Mas sua expressão suavizou quando ela

começou a se perguntar sobre as razões dele para lhe perguntar aquilo.

– Não, só somos amigos – ela viu a expressão dele relaxar em alívio, e de repente sentiu

raiva de novo, sabendo que ele tinha alguém novo e que ela estava sozinha.

Mesmo que fosse sua própria culpa.

– Na verdade, Richard, já que perguntou com tanta educação, não trepo com ninguém há três

anos – era óbvio: ele fora o último homem com quem ela dormira.

Ele aproximou-se até que seus corpos estivessem a centímetros de distância, e ela sentiu-se

tensa com a proximidade. Um passinho para a frente e os peitos se tocariam. Tudo que ela

tinha que fazer era inclinar a cabeça e deixar que ele abaixasse a dele, até que seus lábios se

encontrassem num beijo explosivo.

E ela tinha certeza que seria incrível. Pelo modo como estavam sem fôlego, eles estavam a

segundos de se renderem à tentação.

– Por que não? – a voz dele era tensa, e ela o viu fechar as mãos em punhos, como se

estivesse tentando se impedir de tocá-la.

Hanna hesitou. A resposta estava dançando nos seus lábios, brincando na sua língua, mas

dizê-la seria revelar exatamente como ela se sentia sobre ele. Estaria pronta para aquilo?

Ela se viu se inclinando para ele e, embora estivessem ambos vestidos, sentiu-se

completamente exposta. Os olhos dele buscaram os dela, e Hanna sentiu a necessidade de ser

honesta, de se jogar na frente dele e admitir o que fizera.

– Porque sempre foi você.

Ele enrubesceu, e a confusão em seu rosto deu lugar à completa raiva. Hanna deu um passo

para trás, temendo a resposta dele. Ele soltou um rosnado furioso antes de se virar e esmurrar

o espelho pendurado na parede do banheiro, quebrando-o em pedaços que caíram sobre a

privada e o chão de azulejos.

Os segundos que se passaram pareceram horas enquanto ambos ficaram congelados,

incapazes de se mexer após a revelação dela e a reação dele. Richard estava segurando o

pulso, e Hanna se moveu para tocá-lo, vendo sangue em seus dedos, querendo fazer algo para fazer sua dor ir embora.

A dor física, pelo menos.

– Você não pode fazer isso – o rosto de Richard ainda estava feroz. Ele puxou a mão e

ergueu-a até o queixo dela. – Não pode voltar pra minha vida e me dizer que sou o único

homem que já quis. Está mentindo, admita.

Hanna balançou a cabeça, incapaz de atender à demanda.

– Porra, Hanna! A mulher que eu pedi em casamento está sentada lá fora, e ela não tem a

mínima ideia do que está acontecendo. Você espera que eu parta o coração dela, como você

partiu o meu?

– Não – as lágrimas estavam caindo agora, e ela podia senti-las escorrendo pelo rosto. –

Sinto muito.

Ela sentia mesmo. Por tudo.

Richard estendeu a mão machucada e trêmula e passou-a pela bochecha dela, enxugando

suas lágrimas, até chegar à sua boca. Seu dedão pousou nos lábios dela, tocando-os tão de

leve que Hanna mal podia sentir. Sabendo que ele estava no limite, ela ficou congelada, sem

ousar se mover por medo do que ele poderia fazer.

– Vou sair agora, e vou tentar esquecer tudo que você disse pra mim – Richard inclinou-se

para ela e encostou os lábios no seu rosto úmido. Hanna precisou de toda sua força para não

se virar na direção do beijo e pressionar a boca na dele. – Por favor, não me siga nem tente

falar comigo. Não sei se conseguiria me controlar.

– Ok – a voz de Hanna era um sussurro, e ela ficou parada como uma estátua entre os cacos

de vidro espalhados pelo chão.

Richard afastou-se, sem desviar o olhar até chegar à porta. Depois de abri-la, ele se voltou

para ela uma última vez.

– Nunca vi você tão linda quanto hoje.