Sempre Foi Você
Capítulo 17
19 de fevereiro de 2009
Richard correu os olhos pela lista de novos aluguéis, mal ouvindo o chefe da divisão
imobiliária fazendo a revisão trimestral com o conselho diretor. Desde a crise das hipotecas
no ano anterior, a divisão estava sofrendo uma hemorragia de dólares, e ele tinha que manter
um olho muito mais atento no que costumavam ser transações regulares.
Novas regras tinham sido criadas, incluindo verificações de crédito mais severas, depósitos
maiores, e uma investigação profunda na conta das locatárias, para ter certeza de que eles
estavam alugando a empresas que tinham um futuro.
– Qual é essa? – Seth Brown apontou para uma pequena transação no pé da primeira página.
– Buzz Media parece uma escolha meio arriscada.
– É uma empresa on-line com base em Londres – Nick Martin, chefe da divisão, tirou o
cabelo escuro e fino da frente dos olhos. – Eles passaram por todas as verificações, e nosso
corretor se encontrou com a representante deles e me deu um balanço completo.
– Há quanto tempo eles estão em atividade? – Richard perguntou, virando as páginas à sua
frente até encontrar mais detalhes da transação.
– Quase três anos, não acabaram de abrir. Uma das sócias veio para Nova York montar o
escritório deles aqui. É com ela que nosso corretor vem falando.
A Maxwell Enterprises possuía imóveis por todo o país, e raramente lidava direto com os
locatários. Em vez disso, terceirizavam a administração dos aluguéis, e só recentemente
Richard começara a garantir que os negócios fossem feitos com empresas que não estavam
prestes a entrar em falência.
Era um sinal dos tempos.
Quando chegou ao pé da página, ele viu o nome dela, e teve que ler de novo. A última
pessoa que ele esperava ver alugando imóveis em Manhattan era Hanna Vincent.
– Tem certeza de que eles estão aqui a longo prazo? – ele encarou o nome de novo. Sua
boca ficou seca enquanto tentava assimilar a informação.
– Totalmente. Eles estão recrutando um diretor para ficar aqui. A representante de Londres
me garantiu que é um negócio de longo prazo.
Richard reclinou-se na cadeira e juntou os dedos, permitindo que o resto do conselho
continuasse discutindo enquanto ponderava o fato de que Hanna estava de volta a Nova York.
Depois de tudo que dissera sobre a cidade e todas as vezes que se recusara a se mudar quando
eles estavam juntos. Agora ela estava morando lá, e ele nem tinha ficado sabendo.
Ele riu baixinho, repreendendo-se por pensar nela. Na última vez em que a vira – no
casamento de Nathan –, ele deixara claro que não queria que ela o contatasse outra vez. Então
por que ela deveria ter contado algo a ele, depois que ele fora tão firme? Mesmo assim, o fato de ela estar vivendo a alguns quilômetros dele foi um choque e tanto.
A maior questão era por que seu pai não tinha contado as novidades, mas Richard tinha
quase certeza de que sabia a resposta. Steven tinha visto o estado em que ele ficara depois que
Hanna o deixara, e reparou no encontro deles no casamento de Nathan. Ele não medira
palavras ao expressar sua opinião sobre ele ter ido atrás de Hanna naquela noite.
A porta da sala de conferências se abriu, e Lisa enfiou a cabeça para dentro, apontando para
o telefone que tinha em mãos. Richard entendeu a mensagem e ergueu-se, indo até a porta e
sussurrando para a assistente.
– Quem é?
– Meredith, ela diz que é urgente. Está com sua mãe.
Richard fechou a porta e entrou no corredor, erguendo o aparelho à orelha.
– Meredith? – ele não pretendia soar tão severo, mas eles já tinham discutido a frequência
das ligações dela, e o que era urgente para ela nem sempre permitia que ele fosse perturbado
durante uma reunião.
– Richard, estamos no Westchester Country Club – ao fundo, ele podia ouvir a voz da mãe
enquanto ela dizia algo a Meredith. – É incrível, os casamentos deles são maravilhosos! E
eles recomendaram a planejadora mais fantástica. Ela não é barata, mas é a melhor e
realmente precisamos ligar pra ela.
– Isso não podia esperar até a noite?
– Mas vou viajar amanhã, e queria ligar pra marcar um horário pra gente. Se não fecharmos
logo, eles vão ficar completamente ocupados. Estão cheios até o verão de 2011 – ela estava
sem fôlego de animação, e Richard fechou os olhos, perguntando-se por que tinha que se
envolver com a organização do casamento.
– Ligue pra eles, então, e marque alguma coisa. Você vai ter que falar com Lisa sobre o
cronograma.
Meredith deu um gritinho no telefone, fazendo Richard afastar o aparelho do rosto. Um
sorriso ameaçou se abrir em seu rosto.
– Então verão de 2011 é o plano, certo? – ele se perguntou se conseguiria lidar com aquelas
ligações pelos próximos dois anos.
– É claro, vou levar todo esse tempo para planejar tudo.
***
Ele precisou fazer algumas ligações, mas conseguiu descobrir mais algumas coisas sobre a
Buzz Media e seu escritório em Nova York. A companhia vinha prosperando apesar da
recessão, principalmente devido à sua habilidade de criar um site interessante com um
orçamento limitado. A expansão nos Estados Unidos era vista, de modo geral, como uma boa
ideia para eles.
Esse era o tipo de coisa com o qual Richard nunca se envolvia. O valor transacional era
baixo demais para que ele demonstrasse mais do que um interesse passageiro, mas todas as
investigações revelavam que a empresa era sólida. Por isso, ele ficou quase chocado ao se ver
sentado no banco traseiro de um carro, a caminho da Torre 6, para ver por que Hanna Vincent
estava trabalhando em Manhattan.
Jack estacionou o carro fora do prédio de escritórios no centro da cidade, e Richard pediu-lhe que esperasse, não planejando demorar muito. Ele queria algumas respostas – sentia que
as merecia – antes que pudesse voltar para seu trabalho, noiva e planos para o futuro.
Seus planos tão cuidadosos.
O conjunto alugado para a Buzz Media ficava no terceiro andar e não tinha uma vista
inspiradora. Era um dos escritórios mais baratos, e Richard não ficou surpreso com a
decoração modesta e as cores alegres que encontrou ao sair do elevador.
A recepcionista recém-contratada levava seu trabalho a sério, e examinou longamente o
passe de segurança de Richard antes de deixá-lo entrar.
– A srta. Vincent está na segunda porta à esquerda. Vou ligar pra ela e avisar que você está
aqui – ela devolveu o passe dele e Richard o pôs no bolso.
– Não precisa, sou um velho amigo. Quero surpreendê-la, Amanda – ele usou uma voz baixa
e confiante. Tinha descoberto que usar o nome da recepcionista sempre funcionava.
Atravessou o corredor e abriu a porta, sorrindo quando ouviu música alta saindo de um
iPod. Hanna estava em pé, virada de costas, inclinando-se sobre um catálogo, o cabelo caindo
sobre os ombros.
Seus dedos formigaram com a memória tátil daqueles cachos aveludados em suas mãos.
Tentando ignorar a reação, ele limpou a garganta, fazendo Hanna erguer a cabeça e se virar
rapidamente.
Por um instante, ela ficou parada, encarando-o, e ele esperou que ela reagisse. Não tinha
certeza se estava esperando boas-vindas calorosas ou um discurso irritado, mas ficou surpreso
quando um enorme sorriso se abriu no rosto dela.
– Você me assustou – os olhos dela brilhavam, e ela pôs uma mão no peito, como que para
acalmar seu coração acelerado.
– Não era minha intenção – sua voz estava mais baixa do que ele pretendia, e ele limpou a
garganta outra vez. – Posso voltar mais tarde…
– Meu Deus, não – ela contornou a mesa e foi até ele, parando quando estava a alguns
passos. – É ótimo ver você.
– Você também – ele não conseguia acreditar em como ela ainda parecia a mesma, a pele
macia e cremosa destacada pelas maçãs do rosto coradas, os olhos castanho-escuros tão
vivos. Era a mesma garota que ele conhecera aqueles anos atrás. Ele desviou o olhar do rosto
dela e tentou se lembrar de que estava bravo com ela. Era difícil quando ela parecia tão
encantada em vê-lo.
– Então, o que a traz aqui? Claire disse que eu estava em Nova York?
– Não. Por acaso você está alugando um escritório da Maxwell Enterprises. Decidi vir dar
uma olhada em você – ele reprimiu um sorriso quando pensou no significado das palavras. –
Por “você” quero dizer Buzz Media, não você, Hanna Vincent.
Hanna riu, colocando o cabelo atrás da orelha, e sentou-se no canto da mesa.
– Vamos passar na inspeção?
– Não sei ainda. Por que não me diz por que está aqui? – o tom dele era indiferente, mas
Richard estava mais do que interessado em saber mais. Ele puxou uma cadeira e sentou-se,
inclinando-se para a frente, ávido para ouvir a resposta dela.
– Fui enganada – ela admitiu, dando de ombros. – Meu chefe me encheu até eu concordar
em organizar o escritório em Nova York. Ninguém mais estava disponível, estão todos tendo
filhos ou casando, e eu era a única com dupla nacionalidade. Antes que tivesse tempo de pensar, estava na esteira de bagagens, me perguntando como tinha vindo parar aqui.
Richard reprimiu um sorriso ao pensar em Hanna no meio do aeroporto, percebendo que, de
algum modo, tinha se mudado para Nova York apesar dos esforços para nunca fazer isso. Ele
não deixou de notar a ironia.
– Onde você está morando?
Hanna começou a balançar a perna, atraindo os olhos dele para sua saia curta e sua pele
macia das coxas.
– Estou ocupando o apartamento de Steven e Claire. Acho que estou abaixando o nível do
bairro.
– Muitas drogas e festas? – Richard perguntou, tentando olhar para qualquer outra coisa que
não as pernas dela.
– Não faço manicure e vou ao cabelereiro o suficiente – ambos olharam para as unhas
quebradas de Hanna antes de ela pôr as mãos atrás das costas, tentando escondê-las do
escrutínio dele. – E aparentemente usar tênis não é apropriado para uma mulher com mais de
vinte anos.
– Tem falado com Olivia? – ele perguntou, lembrando-se de como a madrasta de Hanna
costumava criticar tudo sobre ela.
Ela abanou a cabeça com um sorriso.
– Ah, que rude da minha parte, esqueci de perguntar sobre Meredith. Como ela vai?
– Está bem, ficando louca com os planos do casamento. Espero que não vire uma daquelas
noivas malucas – ele observou atentamente o rosto dela para perceber sua reação, mas ela
permaneceu plácida e aberta, os lábios curvados enquanto o encarava de volta.
– É o momento com o qual toda garota sonha, é direito dela ser uma prima donna – a voz de
Hanna estava mais baixa agora, e ele começou a se perguntar se aquela calma era fingimento.
Ou ele estava se enganando?
– Você sonha com isso? – assim que as palavras escaparam da sua boca, ele quis não ter
dito nada. O sorriso de Hanna se desfez e as sobrancelhas dela se franziram.
– Não me permito sonhar, Richard. Estou tentando pensar no aqui e agora.
A vontade de pegá-la nos braços e puxá-la contra si era tão forte que ele sentiu o estômago
se revirar. Ela era um misto da garota que ele conhecia antes com a que vira depois da morte
da mãe. Sua vulnerabilidade repentina deixava-o quase bravo e, como um homem das
cavernas, ele queria arrastá-la dali e escondê-la do mundo.
– Por quanto tempo você pretende ficar? – ele tentou manter o tom leve.
– Pelo menos cinco meses. Tenho tanta coisa pra fazer e ainda não encontrei a pessoa certa
pra administrar o lugar.
– Ligue pra minha chefe de RH. Ela pode passar algumas estratégias – Richard tirou o
celular do bolso e escreveu um número num pedaço de papel, estendendo-o para Hanna. Ela
sorriu antes de hesitantemente estender a mão e colocar os dedos sobre os dele.
No instante em que eles se tocaram, ela recuou como se tivesse sido queimada, deixando um
canto do papel rasgado nos dedos dele.
– Desculpe – mordendo o lábio, ela abaixou os olhos. – Estou um pouco agitada.
– Não tem problema. Acho melhor eu ir, de qualquer jeito. Foi ótimo ver você de novo.
– Você também. Obrigada pela visita.
– Gostaria de jantar comigo semana que vem? – ele não sabia de onde surgiram as palavras, mas não conseguia se arrepender de tê-las dito; todo seu corpo formigava com a ideia de que a
veria outra vez. – Podemos botar a conversa em dia.
– Parece legal.
– Deixo você escolher o restaurante – ele precisava sair dali agora, antes que fizesse algo
de que se arrependeria depois. Anotou o número do celular em outro papel, perguntando-se se
ela ainda se lembrava, já que era o mesmo há todos aqueles anos. Quando entregou o papel,
manteve os dedos bem longe dos dela, sabendo que nenhum dos dois queria o choque do
contato de novo.
Ele se despediu e saiu pelo corredor, agradecendo ao fato de o elevador só levar alguns
segundos para chegar. Quando entrou, encostou a cabeça febril contra o espelho fresco,
tentando não se olhar nos olhos enquanto se perguntava que merda ele estava fazendo.
Porque, para todos os efeitos, parecia que ele estava prestes a estragar sua vida.
De novo.
***
O café Cherry Blossom ficava a apenas alguns quarteirões do apartamento dela. Hanna o
tinha escolhido porque conhecia os donos, e adorava a atmosfera relaxada do lugar à noite. No
porão, havia apresentações todos os dias. Às vezes, uma banda tocava. Em outras noites,
havia recitais de poesia ou até pequenas peças curtas. Você nunca sabia o que veria; só
aparecia, pedia sua comida e torcia pelo melhor.
O fato de que eles teriam algo para distraí-los da necessidade de conversar também tinha
influenciado bastante a escolha. Ela temia a intimidade de um jantar sofisticado para dois, mas
estava igualmente desconfiada da adrenalina de um show. O café tinha o melhor dos dois
mundos, e haveria uma mesa entre eles, mas eles não se sentiriam a sós.
Hanna amou aquele lugar desde a primeira vez que pisou lá, alguns meses antes. Sozinha e
um pouco ansiosa, ela vagara pelas ruas próximas ao seu apartamento, e assim que empurrara
a porta do local, sentira-se em casa. As paredes azuis-escuras e o chão de madeira riscado
criavam um nível de despretensão que ela valorizava, e a recepção calorosa de Alonso e sua
mulher Elaine tinha reconfortado-a ainda mais.
Ela entrou e acenou para Elaine, que estava anotando os pedidos de um grupo grande num
canto, seu cabelo preto longo preso no topo da cabeça, e seu vestido estampado estilo anos
1960 complementando sua figura. Elaine apontou para uma mesa nos fundos, a alguns passos
do palco, e Hanna tentou não rir quando percebeu que eles teriam uma posição excelente para
assistir a uma apresentação de poesia. Ela esperava que Richard estivesse pronto.
A mesa estava vazia, e o fato de ter chegado antes dele a animou um pouco e reduziu seu
nervosismo. Eles eram dois amigos encontrando-se para jantar e conversar, e ela estava
totalmente bem.
Até que Hanna o viu.
O sangue pulsou como ácido em suas veias e o coração bateu contra a caixa torácica,
fazendo desejo e necessidade perfurarem seu corpo como estacas afiadas. Ela observou
enquanto ele se inclinava no bar, o rosto de perfil para ela. Seus olhos traçaram o rosto dele
da orelha ao queixo, apreciando o formato do maxilar e o modo como a barba não feita os
definia. Ele estava conversando com Alonso, que lhe deu uma garrafa de cerveja. Até daquela distância ela podia ver que Richard estava sorrindo, as linhas ao redor dos olhos indicando
que era um sorriso genuíno.
Quando pegou a cerveja, Richard se virou para ela. Ele estava usando uma calça preta com
uma camisa branca, e ela pensou que talvez tivesse vindo direto do escritório, tendo removido
a gravata e enrolado as mangas como uma concessão à casualidade do lugar. Ele tinha aberto
dois ou três botões da camisa, expondo alguns centímetros do peito, e ela viu alguns pelos
encaracolados sobre a pele.
– Está pronta para sentar, Hanna? – a voz de Elaine surpreendeu-a, e ela voltou ao presente.
Engolindo as lembranças, virou-se com um sorriso.
– Sim, parece que meu convidado chegou – ela indicou o bar. – Melhor eu ir cumprimentá-
lo.
– Sente-se e eu trago uma bebida. Sancerre?
– Ótimo.
Quando se aproximou do bar, Richard notou, erguendo-se do banco. Sua camisa estava
levemente amassada, e ela não pôde deixar de observar como os braços dele emergiam das
mangas enroladas, a pele quente e os pelos dourados, as linhas dos tendões firmes e nítidas.
Lembranças de mãos fortes e lábios macios assaltaram sua mente enquanto ela inspirava
profundamente. Mais um passo e seu rosto estaria contra o peito dele. Ela teve que raspar as
unhas curtas nas palmas das mãos para se impedir de fazer aquilo.
– Posso pagar uma bebida? – Richard perguntou, inclinando-se para beijá-la no rosto. Foi
menos de um segundo de contato, mas foi o suficiente para fazê-la se sentir em chamas.
Aquilo era uma péssima ideia.
Como ela tinha pensado que podia lidar com aquilo? Hanna vira a ocasião como uma
chance de se redimir, um modo de se desculpar por ter desaparecido. Queria desejar
felicidades para ele em seu futuro com Meredith, mas em vez disso foi transportada no tempo,
para aqueles meses dourados quando o tesão deles tinha explodido, antes que a doença da mãe
tivesse quebrado seu coração em dois.
– Elaine já está trazendo uma. Vamos sentar? – ela conseguiu manter a voz firme. Talvez, se
interpretasse o papel de amiga, sua mente uma hora aceitasse aquilo.
Hanna guiou Richard até a mesa e, sem olhar diretamente para ele, conseguiu recuperar um
pouco do equilíbrio. A caminhada durou uns dois segundos, e então eles se sentaram na
pequena mesa do bistrô, a luz morna da vela refletindo em seus rostos.
– Acho que nunca vim aqui antes – Richard disse, erguendo o menu da mesa e correndo os
olhos por ele. – Parece um lugar legal.
– Achei que você devia conhecer, já que fica perto do apartamento do seu pai.
Ele deu de ombros, bebendo um gole de cerveja antes de erguer os olhos do menu.
– Acho que perdemos esse lugar. Eles abrem pro café da manhã?
– Não sei. Não como antes do almoço, então nunca perguntei.
– Eu lembro – ele abriu um sorriso irônico, e ela achou que seu coração iria parar.
– Eu nunca pedi desculpas de verdade pra você – ela disse depressa, tentando preencher
aquela conversa vazia. – Pela carta. E por desaparecer.
O sorriso dele se desfez. Richard pôs o menu cuidadosamente sobre a mesa, alisando a
toalha com a mão. Quando olhou para ela outra vez, era a imagem da calma.
– Você realmente quer falar sobre isso?
Ela assentiu. Mesmo que nunca se vissem outra vez – e com sua estupidez e inabilidade era
uma possibilidade – ela queria oferecer a ele a única coisa que tinha. Seu arrependimento.
– Quero que você saiba que aprecio tudo o que fez por mim. Quando minha mãe estava
doente, você era a única coisa que me fazia levantar de manhã. Sei que dizem que a pessoa
que amamos é quem mais nos machuca, mas isso não é desculpa para eu simplesmente ter ido
embora – ela passou os dedos nervosamente pela taça de vinho, enxugando gotas de
condensação. – Se é algum consolo, e sei que não é, eu realmente me odeio pelo que fiz.
A risada que ele deu foi leve.
– Não sei se saio dessa com uma medalha de ouro. E, se é algum consolo, sinto muito pelo
modo como a tratei no casamento do Nathan. Não costumo ficar violento em banheiros.
Uma visão rápida de um chão de azulejos coberto de vidro tomou-a.
– Eu mereci aquilo.
– Você está sendo muito dura consigo mesma. Eu já superei tudo isso. O que aconteceu,
aconteceu, e quem sabe nós dois não saímos mais sábios da experiência?
A magnanimidade dele foi um choque. Ou ele tinha realmente superado, e nesse caso, ela
deveria estar feliz por ele, ou era um ótimo ator.
– Me conte sobre a Austrália.
Ela sorriu com sua tentativa de mudar de assunto, decidindo aceitar a oferta de paz.
– É uma época tão estranha. É como se lembrar de um Natal de quando você era criança.
Quando penso naquela viagem, é como se estivesse vendo outra pessoa, um eu diferente, que
controlou minha vida por algum tempo – ela deu de ombros. – Não sei, talvez eu tenha
transtorno de personalidade múltipla ou algo assim.
– Você manteve contato com alguém? – as palavras eram casuais, mas ela tentou ver se os
olhos dele revelavam alguma coisa. Não conseguiu.
– Ruby, é claro, e tive que manter contato com Jamie e Natalie por motivos de trabalho.
Encontrei Tom e a banda uma vez quando tocaram em Sydney, mas foi um desastre. Fiquei
bêbada e chorei a noite inteira, e eles ficaram com medo de me deixar ir pra casa. Acharam
que eu pudesse fazer algo estúpido.
Algo brilhou nos olhos de Richard. Ela tentou definir, duvidando se era um truque da luz da
vela. Tomando um gole do vinho que Elaine servira, Hanna continuou.
– Levei um tempo pra aprender que é impossível evitar a depressão pra sempre, e uma hora
entendi que precisava ir pra casa. Estava adiando o inevitável. Há um certo conforto em estar
com as pessoas que você ama.
Ela olhou para ele, nervosa e constrangida com as próprias palavras. Ele devia estar
pensando sobre aquilo tanto quanto ela, e manteve os olhos focados nela por um tempo um
tanto longo demais.
Sentindo o incômodo dele, Hanna mudou de assunto.
– Então, me fale sobre Meredith, ela parece uma mulher adorável.
– É mesmo – ele concordou, a tensão nos músculos faciais revelando seu desconforto. – A
gente se conheceu numa exposição de arte.
– Aposto que Caroline a ama – Hanna provocou, tentando tirar um sorriso dele.
Ele assentiu, inexpressivo.
– Elas parecem ter o mesmo gosto para salões de casamento, pelo menos.
– Vocês escolheram uma data?
Ele deu de ombros, o rosto ficando sério outra vez. Ela perguntou-se por que o sorriso tinha
desaparecido.
– Estamos pensando em 2011, só precisamos decidir com certeza.
Quando Elaine trouxe os pratos principais, ele mudou de assunto outra vez, explicando
como a crise econômica recente tinha impactado a Maxwell Enterprises e as tentativas deles
de escorar os rendimentos da companhia. Ela perguntou sobre Daniel e tentou não deixá-lo ver
lágrimas em seus olhos quando ele contou sobre a venda das ações e as dificuldades recentes
do meio-irmão.
Ela não sabia se era o efeito do álcool ou o alívio de confessar seus arrependimentos, mas
o clima entre eles tinha ficado mais leve quando a apresentação de poesia começou. Elaine
tirou os pratos, deixando as bebidas, e Richard moveu a cadeira para se sentar ao lado de
Hanna, para conseguir uma visão melhor do palco. O tecido da camisa dele roçou o braço nu
dela, e ela não sabia se ficava parada ou se era melhor se afastar.
A proximidade a deixou ansiosa.
– Se eles tentarem me puxar para recitar poesia, espero que você me salve, certo? – ele
sussurrou no ouvido dela, fazendo os lábios dela se curvarem para cima.
– Vou apontá-lo como voluntário – ela abriu um sorriso malicioso. – Mal posso esperar pra
ouvir seu poema sobre a crise financeira.
– Imagino que seria algo como… ó, fundo meu de investimento, que levou às hipotecas,
pensamos que eram derivativos, mas terminamos…
– Shhh – ela bateu de leve no braço dele e puxou a mão de volta, envergonhada. – Juro que
vou levá-lo pra uma sessão de microfone aberto se não se comportar.
– Você começou – a voz dele tornou-se um sussurro quando uma mulher pulou no palco, sua
saia esvoaçante escura alargando-se atrás dela e criando uma entrada lírica.
Eles ficaram em silêncio quando a mulher começou a recitar; as palavras dramáticas eram
acompanhadas por um tambor de metal entusiasmado. Ela não mostrava medo de palco ou
desconforto algum, e embora Hanna tivesse pouco interesse em poesia – apesar do seu
diploma em Literatura –, ela não podia não ficar impressionada pelo modo como a poeta se
entregava àquilo. Até Richard conseguiu ficar relativamente quieto, só tendo que esconder sua
diversão com uma tosse uma ou duas vezes. Hanna reprimiu o impulso de cutucá-lo nas
costelas.
Ele estava sentado perto dela, e não era natural que ela ficasse tão rígida. Como se ainda
estivessem juntos, o corpo de Hanna queria se inclinar para a direita, pôr a cabeça no ombro
dele e segurar sua mão. A coxa de Richard estava a alguns centímetros da perna dela, e de vez
em quando ela olhava a mão apoiada ali, desejando que se movesse para tocá-la.
Será que ele sentia aquela atração tanto quanto ela?
Hanna queria se bater por pensar aquilo. Ele estava noivo de outra pessoa, então ele não
era mais dela.
Mas isso não impedia seu corpo de desejar. Suas costas começaram a doer com o esforço
de manter a pose rígida. Em sua mente, ela podia ver exatamente como seria a sensação de ter
o rosto encostado no peito dele, absorvendo o calor do corpo dele através da camisa. Ansiava
por sentir o movimento rítmico do seu peito enquanto ele exalava, o som reconfortante do seu
coração batendo contra o dela.
Ela ficou aliviada quando a apresentação chegou ao fim.