Sempre Foi Você
Capítulo 11
30 de novembro de 2004
Joe Garfield reclinou-se na cadeira de couro e cruzou os braços. Seus olhos cor de
chocolate examinaram Richard com interesse. As rugas ao redor deles aprofundaram-se
quando ele falou.
– Você fez bem em tomar a decisão tão rápido, Richard. Ao se encontrar um câncer, deve-se
extraí-lo antes que ele tenha tempo de se espalhar. Richard estremeceu com a menção à doença
– ela parecia estar no centro da vida dele e de Hanna. Não que o câncer a que Joe se referia
fosse físico. Era, na verdade, uma metáfora para a descoberta de que o chefe da divisão
imobiliária vinha recebendo subornos de uma série de empresas de construção. Mesmo assim,
ouvir a palavra foi o bastante para enviar sua mente para o outro lado do Atlântico.
As coisas também não estavam fáceis do seu lado do oceano. Demitir metade da equipe
executiva da divisão imobiliária não tinha sido sua tarefa favorita, e procurar substitutos
estava se provando ainda mais difícil. Ele tinha marcado aquela reunião com Joe para discutir
os planos de curto prazo.
– Precisamos reconstruir a divisão com rapidez – Richard levantou-se e foi até a ampla
janela que dava para o distrito financeiro. – Vou nomear um chefe provisório enquanto
deixamos o RH fazer seu trabalho.
– Parece um bom plano – Joe assentiu, analisando a planilha que Richard deixara na mesa.
– Não podemos tirar os olhos de um mercado tão promissor.
Eles haviam tido aquela conversa dezenas de vezes. Estavam ambos chocados com os
preços dos imóveis aumentando exponencialmente, e a inflação excessiva dos valores dos
terrenos deixara-os desconfiados. A Maxwell Enterprises tinha concordado em perseguir uma
estratégia de investimentos a curto prazo, ao mesmo tempo que manteria um olho no mercado,
pronta para recuar rapidamente se houvesse a ameaça de uma queda.
O maior medo de Richard era que, quando isso ocorresse, fosse tarde demais. Ele estava
tentando diversificar os interesses da empresa o máximo possível, mas não era tolo o bastante
para acabar com uma parte tão lucrativa da empresa.
Era por isso que encontrar a pessoa certa para liderar a divisão era tão importante.
– Você teve notícias do Daniel? – Joe olhou para a foto da família Maxwell que Richard
deixava em sua mesa, apanhando-a e passando os dedos sobre a moldura dourada.
– Consegui encontrá-lo num resort perto de Miami. Ele se recusa absolutamente a voltar
para a reabilitação, e não temos como obrigá-lo a ir – Richard esfregou a testa, cansado. Tinha
sido um mês infernal, e não parecia que as coisas fossem melhorar.
– Ele está se tornando um grande risco para essa empresa – Joe comentou, pondo a moldura
de volta na mesa de carvalho de Richard. – Vamos precisar de uma estratégia para nos livrar dele; não é bom ficarmos à mercê dele para sempre – Joe entrelaçou os dedos, inclinando-se
para apoiar os cotovelos na mesa de Richard. – Ele é um viciado, Richard, e você sabe tanto
quanto eu que ele nunca vai mudar. Não quero que daqui a alguns meses estejamos numa
reunião de emergência porque ele vendeu suas ações para comprar drogas.
– Os advogados fizeram um contrato de direito de preferência de compra, então ele não
pode vender nada sem me dar a opção de comprar – Richard suspirou, esfregando os dedos
com mais força nas têmporas. – Consigo resolver a parte financeira sem problemas se ele
realmente quiser vender.
– Talvez você precise fazer uma oferta que ele não possa recusar.
Richard riu.
– Você está agindo como se estivéssemos em O poderoso chefão. Estamos falando de
Daniel, não de Sonny Corleone.
– Só precisamos estar preparados para o pior. Não existe lugar para sentimentalismo nos
negócios. Agora vou pra casa beijar minha mulher e me preparar para essa maldita gala.
– Você parece tão animado quanto eu.
– Acredite, Richard, provavelmente sou o único em Nova York que está menos animado
com isso que você.
– De qualquer modo, velho rabugento, vejo você no Astoria às oito. Serei o homem com
fantasia de macaco.
– E eu serei o homem com a mulher mais linda do mundo no braço, especialmente
considerando que você não conseguiu persuadir Hanna a acompanhá-lo hoje – Joe abriu-lhe
um sorriso, sabendo que os últimos meses tinham colocado muitas pressões no relacionamento
deles. – Só fico triste por não ter a chance de dançar com ela. Não se esqueça de mandar um
abraço meu e de Emily.
– Mandarei – Richard acompanhou Joe até a porta de carvalho, fechando-a suavemente
depois que o homem saiu. Tirando o celular do bolso enquanto voltava para a mesa, ele
verificou o relógio antes de apertar um número na discagem rápida.
– Ei – a voz suave de Hanna através do aparelho o fez sorrir. Ele sentou-se na cadeira de
couro, inclinando-a nas rodas até poder apoiar os pés na mesa.
– Oi, querida. Como vai Diana?
– Está tendo um dia bom, conseguiu tomar um pouco de sopa. Até caminhamos um pouco no
jardim – Hanna parecia melancólica e ele fechou a mão em punho, tendo que se esforçar para
não jogar o telefone no chão e correr para o aeroporto mais próximo. Como sentia saudades
dela…
– Parece promissor. Espero te encontrar nas próximas semanas, assim que decidirmos o
próximo chefe da divisão imobiliária – não querendo sobrecarregá-la com seus problemas,
mudou rapidamente de assunto. – Joe te mandou um abraço. Ele está inconsolável por você
não estar aqui para dançar com ele no baile.
– Ai, meu Deus, esqueci que era hoje, me desculpe – o tom dela ficou choroso, e Richard
mordeu o lábio. – Sinto muito por não estar aí com você.
– Ei, a gente tinha combinado que você não se sentiria culpada por isso – ele censurou. –
Você só ficaria entediada, de qualquer jeito. O plano é entrar correndo, fazer o discurso, e
então correr de volta pra casa.
– Richard, sabe que não pode fazer isso. O único motivo dos ingressos serem vendidos por aqueles preços é que as mulheres querem dançar com você.
– Só tem uma mulher com quem eu quero dançar hoje, querida. E como você não vem, vou
ficar de fora dessa.
– Eu te amo.
Ele quase podia ouvir o sorriso dela.
– Te amo também. Agora tente descansar.
***
O carro de Richard parou em frente ao Waldorf-Astoria. Ao passar por baixo do arco
dourado e entrar no saguão, ele viu sua assistente esperando por ele, com um vestido longo
prateado e o cabelo castanho preso, revelando um sorriso no rosto.
– Você está atrasado.
– Eu sei – ele ergueu as mãos em desculpa. – Só consegui sair do escritório uma hora atrás.
Perdi muita coisa?
– Sua mãe ficou muito decepcionada por não estar na mesa para o jantar, e tive que dar
desculpas a cerca de mil senhoras frustradas e desesperadas para pôr você no cartão de dança
delas.
– Isso ainda existe? – ele deu um sorriso irônico. Eles começaram a andar em direção ao
grande salão. Lisa ficou mexendo na gravata-borboleta e na jaqueta do terno dele, alisando-os
até que ele estivesse perfeitamente arrumado.
– Se existirem, então eu marquei, assim como todos seus outros cartões – ela respondeu,
seca. – Seu discurso está pronto na tela do pódio, e Jon Stewart fez um ótimo trabalho
aquecendo a plateia. Você só precisa ir lá e fazer seu discurso.
– Você faz parecer tão fácil – ele sorriu, afastando as mãos dela quando Lisa tentou alisar
seu cabelo. – E me deixe em paz, estou tentando aperfeiçoar um visual de mendigo.
– Está fazendo um ótimo trabalho – Lisa murmurou. – E não se preocupe com o discurso,
ninguém vai ouvir. Ou já estarão bêbados, ou planejando de quem se aproximar depois. Pense
em si mesmo como o equivalente de gala de um filme B.
Mais tarde, naquela noite, Richard viu-se no bar, com um copo de whisky na mão e cercado
por pessoas que ele mal conhecia. O 3º Jantar Anual da Fundação Memorial Leon J. Maxwell
estava angariando fundos para as famílias das vítimas do 11 de setembro. Richard só pisou no
Astoria naquela noite por ser uma causa tão nobre. Com quase mil convidados presentes, a
Fundação esperava angariar mais de 3 milhões de dólares durante a noite.
– Querido, aí está você. Procurei você em todo lugar! Por favor, não me diga que veio
sozinho hoje – Richard voltou-se e viu a mãe aproximando-se, resplandecente em um vestido
de noite verde-esmeralda, o cabelo assentado suavemente contra os ombros.
– Mãe – ele inclinou-se para beijá-la, os lábios tocando o rosto dela de leve. – E sim, vim
sozinho, você sabe que Hanna não pode sair da Inglaterra agora.
– Você realmente precisa encontrar uma parceira para momentos como esse – ela censurou,
ignorando o rosto cada vez mais vermelho de Richard. – Não é certo aparecer sem ninguém.
– Não me incomoda – ele virou o resto de whisky, colocando o copo vazio no bar.
– Por quanto tempo isso vai durar, querido? Não suporto vê-lo aparecer nesses eventos
sozinho. Você precisa do apoio de uma mulher. É ocupado demais para se preocupar com detalhes – Caroline tirou um fiapo da manga dele. – As pessoas estão começando a reparar.
– Eu não conseguiria me importar menos com o que as pessoas estão dizendo! – Richard
estava irritado, e sua voz saiu mais alto do que ele pretendia. – Diana está morrendo. O que
você espera que Hanna faça? Pegue um voo e deixe a mãe sozinha?
– Espero que ela apoie seu homem, como todas nós faríamos.
– Porque as aparências sempre vêm primeiro – ele disse, amargurado.
– Não, porque quando você está apaixonado por alguém, quer estar com essa pessoa.
Quando foi a última vez que você viu Hanna?
– Falei com ela hoje – as palavras saíram firmes e duras, e não convidavam uma resposta.
Caroline continuou, ignorando o aviso.
– Então pense nisso. Se Hanna não pode acompanhá-lo em ocasiões importantes como essa,
ter uma amiga com você seria uma opção melhor – como as palavras dele, as delas foram
ríspidas. Ela pegou outra taça de champanhe de um garçom que passava antes de apertar as
mãos de Richard. – Não quero enchê-lo, querido, mas me preocupo com você. Quando não
está trabalhando, está num avião ou visitando Hanna. Um homem na sua posição precisa de
alguém que fique a seu lado.
As palavras dela tocaram um ponto delicado. Sem Hanna, ele se sentia incompleto, e ir a
eventos como aquele sem ela ao seu lado era difícil. Não era o fato de que mulheres solteiras
de certa idade pareciam ir diretamente até ele, porque Richard conseguia recusar os avanços
com facilidade. Era mais o fato de ele sentir a ausência dela profundamente.
Eles tinham estado juntos – como um casal normal – por pouquíssimo tempo, antes de Diana
encontrar o caroço no peito. Nos nove meses desde então, ela tinha passado pelos altos e
baixos do tratamento: esperança, medo e, finalmente, desespero. Era compreensível que
Hanna não quisesse deixá-la por nenhum segundo, porque os médicos lhe tinham dado meses –
não anos – de vida. Ele não seria o filho da puta egoísta que a afastaria da mãe moribunda.
Richard sentiu um momento nauseante de culpa quando desejou que ela viesse visitá-lo, ou
que pudessem passar algum tempo em Londres, sem estar com Diana o tempo todo. Uma parte
dele ainda mais sombria – e que ele jamais admitiria – sentia falta do contato físico, do
romance, do amor, e especialmente, do sexo. Exceto com a própria mão, ele não tivera um
encontro satisfatório há um bom tempo.
– Vocês conversaram sobre o que vão fazer depois? – Caroline perguntou.
– Depois que Diana morrer? Não acho que Hanna consiga imaginar um mundo sem a mãe,
muito menos como vai se sentir ou onde vai querer morar.
– Ela vai se mudar para Manhattan algum dia?
– Não sei – Richard balançou a cabeça lentamente, não gostando do rumo daquela conversa.
– Há muitos “se” e “mas” para começar a pensar sobre o futuro. Só preciso me concentrar no
agora, e cuidar da minha garota.