Skyward: Conquiste as Estrelas

Brandon Sanderson · Capítulo 9 de 60

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Skyward: Conquiste as Estrelas

Capítulo 8

 

Dez cockpits falsos dominavam o centro da sala, posicionados em círculo, virados para dentro. Cada um dos volumosos dispositivos tinha um assento, um console de controle e uma parte da fuselagem – ainda que não tivesse dossel. Fora isso, pareciam ter sido arrancados diretamente de caças estelares.

Em vez do nariz em forma de cone das naves, cada um tinha uma caixa anexada na frente, talvez com um metro de altura por meio de largura. Kimmalyn e eu aparentemente éramos as primeiras da nossa turma a chegar, e olhei o relógio de parede. Marcava 0615. Pela primeira vez na vida, eu não só estava adiantada como era a primeira.

Bem, tecnicamente a segunda, já que Kimmalyn passou por mim para examinar os cockpits de simulação.

— Ah! Acho que somos as primeiras. Bem, a Santa sempre diz: “Se não pode chegar adiantada, pelo menos chegue antes de estar atrasada”.

Entrei na sala, coloquei a mochila no chão e fui olhar os cockpits. Reconheci o desenho do painel de controle – eram naves classe Poco, um modelo básico, embora rápido, da frota estelar da FDD. A porta se abriu, e mais dois cadetes entraram. O garoto mais baixo, na frente, com cabelo azul, parecia ser yeonguiano. A tripulação da Yeong-Gwang, da antiga frota, vinha em grande parte da China ou da Coreia.

O menino de cabelo azul sorriu enquanto olhava a sala, colocando sua mochila ao lado da minha.

— Uau. Nossa sala de aula!

A garota entrou atrás dele como se fosse dona do lugar. Era magra, atlética e tinha o cabelo loiro preso em um rabo de cavalo. Usava uma jaqueta da FDD sobre o macacão – aberta, como se estivesse passeando na cidade.

Os dois logo foram seguidos por uma menina com uma tatuagem na mandíbula inferior. Ela devia ser viciana, da Caverna Vici. Eu não sabia muito sobre eles, só que eram descendentes dos fuzileiros da antiga frota estelar. Os vicianos tinham sua própria cultura e a guardavam para si mesmos, embora tivessem a reputação de serem grandes guerreiros.

Sorri, mas ela afastou o olhar imediatamente e não respondeu quando Kimmalyn se apresentou, animada. Então, tá, pensei.

Kimmalyn conseguiu os nomes e as cavernas de origem dos outros dois. O garoto de cabelo azul se chamava Bim, e era realmente um yeonguiano. Seu clã fizera parte da equipe responsável pela hidroponia na velha nave e havia se estabelecido em uma caverna próxima que administrava diversas fazendas subterrâneas, iluminadas e mantidas pelo antigo maquinário. Eu nunca tinha comido nada que fosse produzido lá; esses alimentos eram reservados para aqueles que tinham muitos méritos, por realizações ou por diligência.

A garota atlética era Hudiya, de Ígneo. Eu não a conhecia, mas a caverna era um lugar grande, com uma vasta população. Conforme a hora da aula se aproximava, uma moça alta entrou e se apresentou como Freya. O nome vinha da antiga mitologia nórdica, o que eu aprovava. Ela meio que tinha um aspecto nórdico, também. Era magra, alta, talvez com quase um metro e oitenta e cinco, e tinha cabelos loiros, que mantinha bem curtos. Suas botas eram novas, polidas até brilharem, e contavam com fechos dourados.

Bem, com ela éramos seis. Ainda deviam chegar mais alguns. E, cerca de dez minutos antes do início da aula, três jovens entraram juntos. Eram claramente amigos, já que conversavam e brincavam em voz baixa. Não reconheci dois deles, mas o que estava à frente – de pele negra e cabelo encaracolado curto – chamou minha atenção, com seu jeito de menino bonito e rosto de bebê.

O cara do teste, percebi. O filho de um Primeiro Cidadão que tinha sido admitido sem precisar resolver a prova.

Ótimo. Estávamos presos a um aristocrata inútil, alguém que vivia na mais profunda – e segura – das cavernas Desafiadoras. Ele estava na escola de voo não por habilidade ou aptidão, mas porque queria exibir um broche de cadete e sentir-se importante. Julgando pelo jeito como os outros dois falavam, imediatamente os identifiquei como seus amigos íntimos. Eu apostaria qualquer coisa que os três tinham entrado sem fazer o teste, então nosso grupo de cadetes tinha pelo menos três pessoas que não mereciam estar ali.

O garoto alto, com rosto de bebê, caminhou até o centro do círculo de cockpits. Como um menino podia ter um rosto tão ideal para levar um soco? Ele limpou a garganta, depois bateu palmas com força.

— Atenção, cadetes! É assim que queremos nos apresentar ao nosso instrutor? Relaxados, de papinho furado? Em fila!

Kimmalyn, que as estrelas a abençoem, se levantou e assumiu uma posição de sentido desleixada. Os dois amigos do rapaz se aproximaram e também se perfilaram, conseguindo passar uma impressão muito melhor de soldados de verdade. Todos os demais apenas ficaram olhando para ele.

— O que lhe dá o direito de nos dar ordens? — Hudiya, a garota atlética da minha caverna, perguntou. Ela estava recostada em uma parede, com os braços cruzados.

— Quero causar uma boa primeira impressão ao instrutor, cadete — o Babaca falou. — Pense em como será inspirador quando ele entrar e encontrar todos nós esperando, atentos.

Hudiya bufou.

— Inspirador? Vamos parecer um bando de puxa-sacos.

O Babaca a ignorou e começou a inspecionar sua fila de três cadetes. Balançou a cabeça ao olhar para Kimmalyn, cuja versão de “sentido” envolvia ficar na ponta dos pés e prestar continência com as duas mãos. Era ridículo.

— Você está ridícula — disse o Babaca para ela.

A expressão da garota esmoreceu, e Kimmalyn se encolheu toda. Senti um ímpeto imediato de raiva protetora. Quero dizer... Ele estava certo, mas não precisava tratá-la daquele jeito.

— Quem ensinou você a ficar em posição de sentido? — o Babaca perguntou. — Você vai nos envergonhar. Não posso aceitar isso.

— Verdade — falei. — Ela estaria roubando seu posto, já que nos envergonhar é claramente a sua tarefa, Babaca.

Ele me olhou de cima a baixo – obviamente observando o estado remendado do meu macacão de piloto. Era um dos antigos macacões do meu pai e tinha exigido muitos ajustes para servir em mim.

— Eu conheço você, cadete? — ele perguntou. — Você me parece familiar.

— Eu estava sentada na fileira da frente quando fizemos o teste — falei. — Quando você entregou seu exame sem nenhuma questão respondida. Talvez tenha me visto ali quando olhou para o restante da sala, para ver qual a aparência das pessoas que realmente tinham que se esforçar para conseguir as coisas.

Ele apertou os lábios. Aparentemente eu tocara em um ponto fraco. Excelente. Primeiro golpe.

— Preferi não desperdiçar recursos — ele falou — fazendo alguém corrigir a minha prova, considerando que eu já tinha uma vaga garantida.

— Uma que você não merecia.

Ele olhou de soslaio para os outros cadetes na sala, que observavam com interesse. Então, abaixou a voz:

— Olhe. Você não precisa criar problemas. Entre na fila e...

— Entrar na fila? — perguntei. — Ainda está tentando nos dar ordens?

— É óbvio que eu serei o líder de voo. É melhor você começar a se acostumar a fazer o que eu digo.

Filho arrogante de uma supernova.

— Só porque você trapaceou para entrar...

— Eu não trapaceei!

— ... só porque você pagou para entrar na escola, não quer dizer que será o líder de voo. Você precisa se enxergar. Não me transforme em sua inimiga.

— E se eu fizer isso?

Caramba, já era irritante só ter que olhar para ele. Fiquei em pé no assento, a fim de conseguir uma vantagem de altura para a discussão. Isso pareceu surpreendê-lo.

Ele inclinou a cabeça.

— O que é que...

— Sempre ataque de uma posição de vantagem superior — falei. — Quando isso terminar, Babaca, vou guardar seu broche manchado e derretido como meu troféu, enquanto sua nave em chamas marca sua pira funerária e o lugar de descanso final de seu cadáver esmagado e destruído!

A sala ficou em silêncio.

— Tudo bem... — o Babaca disse. — Bem, isso foi... esclarecedor.

— Que as estrelas abençoem — Kimmalyn acrescentou. Hudiya me fez um sinal de positivo com o polegar e me ofereceu um sorriso, embora os outros da sala claramente não tivessem ideia do que fazer comigo.

E... Bom, talvez minha reação tenha sido exagerada. Eu estava acostumada a fazer esse tipo de cena; a vida me ensinou que ameaças agressivas faziam as pessoas recuarem. Mas eu precisava ter feito isso ali?

Percebi algo estranho naquele momento. Nenhuma daquelas pessoas parecia saber quem eu era. Elas não tinham crescido na minha vizinhança; não tinham frequentado a escola comigo. Podiam ter ouvido falar do meu pai, mas me viam apenas como qualquer outro cadete.

Ali eu não era a menina-rato ou a filha de um covarde.

Ali eu era livre.

A porta escolheu aquele instante para se abrir e nosso instrutor – Mongrel – parou na entrada, segurando uma caneca de café fumegante em uma das mãos e uma prancheta na outra. Na luz, eu o reconheci das imagens dos Primeiros Cidadãos, embora seu cabelo estivesse mais grisalho e aquele bigode o deixasse com a aparência de muito mais velho.

Devíamos parecer um belo bando de loucos. Eu ainda estava em pé no assento do cockpit, assomando-me sobre o Babaca. Vários dos outros estavam rindo da nossa conversa, enquanto Kimmalyn mais uma vez tentava prestar continência.

Mongrel olhou para o relógio, que acabara de marcar sete horas.

— Espero não estar interrompendo nada particular.

— Ah... — exclamei. Saltei do banco e tentei dar uma risadinha.

— Eu não estava brincando! — Mongrel replicou. — Eu não brinco! Todos em fila na parede do fundo!

Obedecemos na mesma hora. Enquanto nos alinhávamos, o Babaca ficou em posição de sentido, prestando continência, e permaneceu assim, em atenção perfeita.

Mongrel olhou para ele e disse:

— Não seja um puxa-saco, filho. Este não é o treinamento básico, e vocês não são recrutas das forças terrestres.

O Babaca fez uma expressão de decepção e abaixou o braço. Ainda assim, resolveu chamar atenção para si.

— Hum, sinto muito, senhor!

Mongrel revirou os olhos.

— Meu nome é capitão Cobb. Meu codinome é Mongrel, mas vocês podem me chamar de Cobb... Ou de senhor, se acharem que devem. — Ele caminhou pela fila, mancando acentuadamente, enquanto tomava um gole de seu café. — As regras desta aula são simples. Eu ensino. Vocês aprendem. Qualquer coisa que interfira nisso provavelmente levaria um de vocês à morte. — Ele parou perto de onde eu estava, ao lado do Babaca. — Isso inclui flertar.

Senti meu rosto gelar.

— Senhor, eu não estava...

— Também inclui retrucar o que eu digo! Agora vocês estão na escola de voo, que as estrelas os ajudem. Quatro meses de treinamento. Se conseguirem chegar ao fim sem serem expulsos ou abatidos, serão aprovados. É isso. Não há provas. Não há notas. Só cada um de vocês em um cockpit, tentando me convencer de que merece continuar aqui. Sou a única autoridade que importa para vocês agora.

Ele esperou, observando para ver como responderíamos. E, sabiamente, nenhum de nós falou nada.

— A maioria de vocês não vai conseguir — ele prosseguiu. — Quatro meses podem não parecer muito, mas para vocês será uma eternidade. Alguns vão sucumbir ao estresse, e os Krell matarão alguns outros. Em geral, uma classe com dez termina com um cadete se tornando piloto de verdade, talvez dois.

Ele parou no fim da fila, onde Kimmalyn estava parada, mordendo o lábio.

— Este grupo, no entanto... — Cobb acrescentou. — Ficarei surpreso se algum de vocês conseguir. — Ele saiu mancando para longe de nós, colocou o café em uma pequena mesa na frente da sala e folheou os papéis em sua prancheta. — Qual de vocês é Jorgen Weight?

— Sou eu, senhor! — o Babaca respondeu, endireitando o corpo.

— Ótimo. Você é o líder de voo.

Eu me sobressaltei.

Cobb me olhou, mas não disse nada.

— Jorgen, você precisará de dois líderes assistentes. Quero os nomes no fim do dia.

— Posso dar os nomes agora, senhor — ele falou, apontando para seus dois amigos, um garoto mais baixo e outro mais alto. — Arturo e Nedd.

Cobb marcou alguma coisa em sua prancheta.

— Ótimo. Todos vocês, escolham um assento. Vamos...

— Espere — eu falei. — É isso? É assim que você escolhe nosso líder de voo? Não vamos nem ver como nos saímos primeiro?

— Escolham um assento, cadetes — Cobb repetiu, ignorando o que eu tinha acabado de dizer.

— Mas... — eu insisti.

— Exceto a cadete Spensa — ele falou —, que em vez disso vai me esperar no corredor.

Mordi a língua e saí para o corredor. Provavelmente eu deveria ter contido a minha frustração, mas... sério? Ele escolheu o Babaca logo de cara? Simples assim?

Cobb me seguiu e fechou a porta com calma. Eu me preparei para um rompante, mas ele se virou e sibilou para mim.

— Está tentando estragar tudo, Spensa?

Engoli minha resposta, chocada com a súbita raiva que percebi emanar dele.

— Sabe o quanto arrisquei meu pescoço para colocar você nesta aula? — ele prosseguiu. — Argumentei que você ficou sentada naquela sala por horas, que terminou um maldito teste quase perfeito. Precisei de todo poder e reputação que conquistei em todos esses anos para conseguir levar isso adiante. Agora, na primeira chance que tem, você começa a fazer birra?

— Eu... Mas você não viu o que aquele cara estava fazendo na classe antes de o senhor chegar! Ele andava de um lado para o outro, afirmando que seria o líder de voo.

— Acontece que ele tinha um bom motivo para isso!

— Mas...

— Mas o quê? — Cobb exigiu saber.

Engoli as palavras que estava prestes a dizer e fiquei quieta.

Ele deu um suspiro profundo.

— Ótimo. Pelo menos você consegue se controlar um pouco. — Ele esfregou as sobrancelhas com o polegar e o indicador. — Você é como seu pai. Eu passava metade do tempo querendo estrangular o sujeito. Infelizmente, você não é ele... Mas tem que viver com o que ele fez. Tem que se controlar, Spensa. Se parecer que estou lhe concedendo algum privilégio, alguém pode me acusar de favorecimento indevido, e você será tirada da minha aula mais rápido do que consegue cuspir.

— Então não pode me conceder privilégios? — perguntei. — Mas todo mundo pode fazer isso com o filho de um aristocrata que sequer terminou a prova?

Cobb suspirou.

— Desculpa — falei.

— Não, eu mereci isso — ele disse. — Você sabe quem é aquele garoto?

— Filho de um Primeiro Cidadão?

— Filho de Jeshua Weight, uma heroína na Batalha de Alta. Ela voou sete anos na FDD e teve mais de cem mortes confirmadas. O marido dela é Algernon Weight, Líder da Assembleia Nacional e presidente da nossa maior empresa de remessas intercavernas. Eles estão entre as pessoas de maior mérito nas cavernas inferiores.

— Então o filho deles e seus amigos se tornam nossos líderes só por causa do que os pais fizeram?

— A família de Jorgen tem três caças estelares particulares, e ele vem treinando neles desde que tinha catorze anos. Já tem quase mil horas no cockpit. Quantas você tem?

Corei.

— Os “amigos” dele — Cobb prosseguiu — são Nedd Strong, que tem dois irmãos na FDD agora mesmo, e Arturo Mendez, filho de um piloto de cargas com dezesseis anos na FDD. Arturo vem atuando como copiloto do pai e é certificado com duzentas horas de voo. Mais uma vez, quantas horas você tem?

— Eu... — Respirei profundamente. — Desculpa por ter questionado as suas decisões, senhor. Essa é a parte em que eu faço flexões de braço, limpo um banheiro com uma escova de dentes ou algo assim?

— Eu já falei que isto não é treino de infantaria. As punições aqui não são essas idiotices servis. — Cobb abriu a porta da sala. — Force a barra comigo e a punição será simples: você não vai voar.

 

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