Skyward: Conquiste as Estrelas

Brandon Sanderson · Capítulo 21 de 60

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Skyward: Conquiste as Estrelas

Interlúdio

 

A almirante Judy “Ironsides” Ivans sempre fez questão de ler os relatórios de baixas.

Pessoas morriam por causa dela. Em cada batalha, Ironsides tomava decisões – algumas delas equivocadas – que acabavam com vidas. Talvez houvesse um gráfico de equilíbrio astral em algum lugar lá fora, mantido nas estrelas pelos antigos Santos, que colocava na balança as vidas dos Desafiadores que ela perdia contra as que salvava.

Se existisse, a balança teria desequilibrado muito com a batalha de hoje. Dois cadetes estavam mortos depois de pouco mais de um mês de treinamento no cockpit. Ela lera seus nomes, tentara recordar quem eram de memória, embora soubesse que não conseguiria. Eram muitos.

De maneira reverente, ela deixou a lista de nomes, acompanhada de biografias curtas, sobre a mesa. Dois outros pilotos tinham morrido também, e escrever cartas para a família deles deixaria um gosto amargo em sua noite, mas ela o faria. Para aquelas famílias, a perda deixaria um gosto amargo em suas vidas.

Já tinha feito quase metade – escrito a mão, em vez de usar uma máquina de escrever – quando Cobb por fim apareceu para gritar com ela. Ironsides o viu refletido no bronze polido da luneta que mantinha sobre a mesa. Uma relíquia de muito, muito tempo atrás. Ele parou na porta e não soltou o verbo imediatamente, mas deixou-a terminar a carta que estava escrevendo. Ela assinou na parte de baixo, fazendo um floreio com a caneta tinteiro – um gesto que, de alguma forma, parecia ao mesmo tempo necessário e pomposo em uma carta daquelas.

— Está contente, Judy? — ele perguntou, por fim. — Agora que conseguiu matar dois deles, está feliz?

— Não fico feliz há anos, Cobb. — Ela virou a cadeira, recostando-se e encontrando o olhar dele. Ela tinha antecipado, talvez até com certo prazer, a chegada inevitável dele. Era bom ainda ter alguém que a desafiasse. A maioria dos que já fizera isso alguma vez agora estava morta.

Ele atravessou mancando a pequena sala atulhada com papéis, recordações e livros – um escritório vergonhosamente bagunçado. Mesmo assim, era o único lugar no qual ela se sentia confortável.

— Você não pode continuar fazendo isso — Cobb disse. — Primeiro diminui a idade mínima para o teste, agora os manda para a batalha antes que saibam voar de verdade? Não dá para manter o tiroteio no máximo enquanto a munição é roubada do estoque. Em algum momento, você vai ficar sem balas.

— Preferia que eu deixasse Alta cair?

Ele olhou para o lado, na direção do velho mapa que ela ainda mantinha na parede. O vidro estava empoeirado com a idade, e o papel lá dentro começava a encurvar. Era uma planta da seção de desenvolvimento de Alta feita há quase uma década. Eles tinham imaginado uma cidade com imensos bairros e grandes fazendas.

Uma fantasia. Recuperar um mundo morto era um trabalho mais difícil do que previam.

Ela ficou em pé, e a velha cadeira de capitão rangeu.

— Eu vou usar a vida de cada um deles, Cobb. Colocarei todos da FDD em perigo, sem pensar duas vezes, se isso significar a proteção de Alta.

— Em algum momento as perdas deixam de valer a pena, Judy.

— Sim, e acontece que eu sei que ponto é esse. — Ela se aproximou dele, encarando-o. — É quando o último Desafiador soltar seu último suspiro. Até lá, vamos manter a base.

Se perdessem Alta, Ígneo poderia ser bombardeada de cima – destruindo o maquinário e a habilidade da humanidade de construir naves. Quando isso acontecesse, os Desafiadores teriam que voltar a se dividir em clãs, como ratos a serem caçados.

Ou mantinham aquela área, ou desistiam de tentar algum dia se tornar uma civilização de verdade novamente.

Por fim, Cobb cedeu e se virou para ir embora. Vinda dele, a falta de reclamação era concordância.

— Percebi — Judy comentou, antes que ele saísse — que a sua pequena covarde não chegou para a batalha até que a maior parte da luta já tivesse acontecido.

Ele deu meia-volta para encará-la, praticamente rosnando.

— Ela vive em uma caverna sem condições, Judy. Sozinha. Você já percebeu isso, não é? Um dos nossos pilotos vive em um acampamento improvisado além dos limites da cidade porque você se recusa a lhe dar uma cama.

Era satisfatório ver aquela raiva nele. Ela temia que ele fosse se reduzir a cinzas qualquer dia desses. Ele nunca mais fora o mesmo desde a Batalha de Alta.

— Você sabe o que as leituras estão dizendo? — Judy perguntou. — As análises do cérebro dela? Alguns dos nossos médicos têm certeza de que descobriram como localizar. Suponho que deveria agradecê-lo por isso. Ter a chance de estudar a filha de Chaser em voo pode finalmente me garantir provas. Ela tem o defeito.

Aquilo o fez parar.

— Nós mal compreendemos o que isso significa — ele falou, por fim. — E seus médicos são tendenciosos. Alguns acontecimentos confusos e algumas histórias do passado não são o suficiente para julgar a vida inteira de uma garota, em particular de uma garota tão talentosa.

— Esse é o problema — Judy comentou. Honestamente, estava surpresa em ouvir Cobb argumentar. Muitos políticos negavam a existência do defeito, mas Cobb? Ele vira seus efeitos pessoalmente. — Por mais úteis que esses dados sejam, não posso arriscar deixá-la ter um posto na FDD. Ela seria só uma distração e um golpe no estado de espírito.

— Uma distração para você, talvez. Um golpe no seu estado de espírito. O jeito como você está agindo é uma desgraça para a FDD.

— Para todos os efeitos, eu sou a FDD. Que as estrelas nos ajudem. Não sobra mais ninguém.

Ele a encarou.

— Vou dar um rádio pessoal para a garota. Não quero um dos meus cadetes fora de alcance. A menos que você reconsidere e lhe dê uma cama.

— Se eu tornar isso fácil demais, ela pode decidir ficar, em vez de fazer a coisa mais sensata e seguir em frente.

Cobb mancou em direção à porta – ele se recusava a usar bengala, mesmo depois de todos aqueles anos –, mas parou ali mais uma vez, com a mão no batente.

— Você já desejou que um dos outros tivesse sobrevivido? — ele perguntou. — Sousa. Nightingale. Strife. Almirante Heimline.

— Qualquer um menos eu? — Judy perguntou.

— Basicamente.

— Não tenho certeza se desejaria esse posto de comando para eles — ela falou. — Nem mesmo para aqueles que eu odiava.

Cobb grunhiu e desapareceu no corredor.

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