Skyward: Conquiste as Estrelas

Brandon Sanderson · Capítulo 42 de 60

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Skyward: Conquiste as Estrelas

Capítulo 39

 

Lad já tinha ido embora quando voltei para minha caverna, embora aparentemente tivesse feito um bom progresso com o propulsor. Doomslug estava sentada em uma rocha perto da asa, e cocei sua cabeça enquanto seguia até a nave e entrava no cockpit.

Eu tinha uma sensação estranha de... inevitabilidade. Eu levava no bolso segredos há muito guardados. As respostas, por fim, ao que acontecera com meu pai. Por que, de repente, eu estava tão relutante?

Fechei o cockpit.

— M-Bot, você sabe como rodar o holograma de uma coisa como essa? — Segurei o estojo de metal, mostrando os conectores do fundo.

— Sim — ele respondeu. — É um formato padrão. Vê a série de portas sob o painel, marcada como A-118? Você quer a porta que lê SSXB.

Segui as instruções, hesitando só um pouco antes de colocar o estojo.

M-Bot resmungou consigo mesmo.

— Ah. Curioso. Curioso.

— O quê?

— Estou estendendo o suspense para que você desfrute da surpresa.

— Não faça isso.

— Humanos preferem.

— Apenas me conte.

— Tudo bem, reclamona. Há uma grande quantidade de dados. Um mapa holográfico em 3D, mas também os dados originais do transponder da nave, sinais de rádio da batalha e até algumas gravações em vídeo de dentro dos alojamentos. Seria bem difícil de falsificar.

Falsificar. Eu não tinha pensado naquilo, mas agora descobria que estava ansiosa.

— Tem certeza?

— Eu notaria qualquer edição. Quer assistir?

— Sim.

Não.

— Então, desça.

— Descer?

— Meu projetor pode emitir uma pequena versão da batalha para que você assista.

Eu me levantei do cockpit, coçando a cabeça de Doomslug – ela se movera para o nariz da nave – e pulei no chão de pedra com um baque.

Uma batalha apareceu diante de mim. Quando Cobb nos via voar, tudo era pintado com cores vivas – naves vermelhas e azuis vibrantes. Em vez disso, M-Bot projetava as naves como miniaturas exatas. Elas voavam em ondas diante de mim, tão reais que eu não pude me impedir de estender a mão e tocá-las – o que as rompia em partículas granulares de algo que não era exatamente luz.

Os Krell apareceram na sequência, aparentando ser ainda mais inacabados do que hoje em dia. Menos regulares. Cabos pendurados em ângulos estranhos, asas com rasgos, criações remendadas de metal. Minha pequena caverna se transformou em um campo de batalha.

Eu me sentei e observei em silêncio. O projetor de M-Bot não emitia som. As naves subiam como labaredas de mortes silenciadas. Elas voavam como pernilongos sem asas ou zumbidos.

Eu conhecia a batalha. Tinha aprendido sobre ela, memorizado as táticas empregadas. Ao assistir, no entanto, eu podia senti-la. Antes, eu imaginava as grandes manobras enquanto, contra todas as perspectivas, quarenta combatentes humanos enfrentavam duas vezes e meia essa quantidade de inimigos. Eu imaginara uma defesa ousada. Beirando o desespero, mas sempre sob controle.

Agora que eu era piloto, contudo, podia sentir o caos. O ritmo aleatório da batalha. As táticas pareciam menos grandiosas – não menos heroicas, mas muito mais improvisadas. O que, na verdade, elevava a minha opinião sobre os pilotos.

Aquilo continuou por um bom tempo – mais tempo do que qualquer uma das escaramuças enfrentadas pela Esquadrilha Celeste –, e eu descobri quem ele era com facilidade. O melhor combatente em campo, aquele que liderava os ataques. Parecia arrogante pensar que eu podia reconhecer a nave do meu pai no meio daquela bagunça toda, mas havia algo no jeito como ele voava...

— Você pode identificar os pilotos? — perguntei.

Pequenos letreiros apareceram embaixo de cada nave, listando codinomes e designações.

ESPERANÇA SETE, o letreiro da nave mostrou. CODINOME: CHASER.

Arrogante ou não, eu identificara corretamente. Contra minha própria vontade, tentei mais uma vez tocar a nave e encontrei lágrimas em meus olhos. Garota tola. Sequei-as quando meu pai mergulhou com seu companheiro de voo. Codinome: Mongrel. Cobb.

Outra nave se juntou a eles. Codinome: Ironsides. Depois, mais duas que não reconheci. Codinomes: Rally e Antique. Essas cinco eram tudo o que restava da frota original de oito do meu pai. As baixas na batalha eram altas; o que começara com quarenta naves agora tinha apenas vinte e sete.

Eu me levantei e caminhei atrás da nave do meu pai enquanto ela voava pela caverna. Os Primeiros Cidadãos lutavam freneticamente, mas sua coragem rendeu frutos quando conseguiram afastar os Krell. Eu sabia que isso aconteceria – mesmo assim, descobri que assistia ao holograma sem fôlego. Naves explodiam em pequenos clarões. Vidas oferecidas para fundar o que se tornaria a primeira sociedade estável e o governo de Detritus desde que os Desafiadores caíram aqui.

Essa sociedade e esse governo falharam. FM estava certa sobre quão injusto era tudo aquilo, quão simplista e autoritário. Mas era alguma coisa. E existia por causa dessas pessoas, desses pilotos, que desafiaram os Krell.

Perto do fim da batalha, os Krell recuaram para se reagrupar. Segundo meus estudos, eu sabia que eles fariam mais um ataque antes de finalmente voltarem para o céu. As linhas de batalha humanas se reorganizaram, os caças se reagruparam e eu quase podia ouvi-los fazendo as confirmações verbais de status.

Eu conhecia aquele momento. O momento no qual...

Uma nave, a nave do meu pai, se separou do grupo. Meu coração quase parou. Minha respiração falhou.

Mas ele voou para cima.

Saltei em cima de uma rocha, depois na asa de M-Bot, tentando seguir meu pai, que voava cada vez mais alto no céu. Estendi a mão e podia imaginar o que ele vira. De algum modo eu sabia o que era – meu pai tinha visto um buraco entre os detritos, como aquele que aparecera para mim. Aquele que eu vi pela segunda vez voando em M-Bot, quando os detritos se alinharam do jeito certo.

Eu percebia algo nesse desaparecimento dele. Não era covardia, de jeito algum. Para mim, esse movimento – voar para cima – era óbvio. A batalha durara mais de uma hora. Depois dessa pausa desesperada, com os inimigos se reagrupando para outro ataque, meu pai estava preocupado com a possibilidade de perder a batalha.

Então, ele fizera algo desesperado. Ele fora ver de onde os Krell vinham. Para tentar detê-los. Senti um calafrio, observando-o voar para cima. Ele estava fazendo o que sempre me dissera.

Ele estava tentando mirar em algo mais alto.

Sua nave desapareceu.

— Ele não fugiu — falei. Sequei as lágrimas dos olhos mais uma vez. — Ele rompeu formação. Ele pode ter desobedecido ordens. Mas ele não fugiu.

— Bem — M-Bot observou —, isso...

— É isso que estão encobrindo! — eu disse, olhando para o cockpit de M-Bot. — Eles o rotularam de covarde porque ele voou para cima quando não deveria fazer isso.

— Você devia...

— Cobb sabia o tempo todo. Deve tê-lo quebrado por dentro. É por isso que ele não voa; sente culpa pelas mentiras que ajudou a perpetuar. Mas o que meu pai viu? O que aconteceu com ele? Ele...

— Spensa — M-Bot me interrompeu. — Vou avançar um pouco a gravação. Veja.

Uma fagulha de luz, como uma estrela, desceu do alto da caverna. A nave do meu pai voltando? Estendi o braço na direção dela e a nave holográfica passou direto, atravessando a minha mão. Quando meu pai alcançou as outras quatro naves de sua esquadrilha, ele acionou o PIM e derrubou seus escudos.

Espere. O quê?

Enquanto eu assistia, os Krell retornaram em um súbito ataque final. Meu pai fez uma volta perfeita e disparou seus incineradores, destruindo um de seus companheiros de esquadrilha.

Isso... não pode ser...

Codinome Rally morreu em um clarão de fogo. Meu pai deu a volta, juntando-se aos Krell, que não dispararam nele, mas o ajudaram, enquanto ele atacava outro membro da sua antiga esquadrilha.

— Não! — vociferei. — Não, é uma mentira!

Codinome Antique morreu tentando fugir do meu pai.

— M-Bot, esse não é ele! — eu gritei.

— Os sinais vitais são os mesmos. Não consegui ver o que aconteceu lá em cima, mas é a mesma nave, com o mesmo piloto. É ele.

Ele destruiu outra nave diante dos meus olhos. Ele era um terror no campo de batalha. Um desastre de aço e fogo.

— Não.

Ironsides e Mongrel se reuniram, seguindo meu pai. Ele abateu mais alguém. Era o quarto Primeiro Cidadão que ele matava.

— Eu... — Eu me sentia vazia. Caí sentada no chão.

Mongrel atirou. Meu pai desviou, mas Mongrel continuou atrás dele, caçando-o. Até que finalmente acertou um disparo.

A nave do meu pai explodiu em um pequeno inferno, os pedaços se espalhando diante de mim, caindo como detritos ardentes.

Eu mal assisti ao restante da batalha. Só fiquei encarando o lugar em que a nave do meu pai desaparecera. Depois de um tempo, os humanos venceram. O restante da frota Krell fugiu derrotada.

Catorze sobreviventes.

Vinte e cinco mortos.

Um traidor.

O holograma desapareceu.

— Spensa? — M-Bot falou. — Posso ler seu estado emocional como aturdida.

— Tem certeza de que os dados não podem ser falsificados?

— A plausibilidade dessa gravação ser falsificada sem minha capacidade de detectar? Considerando a tecnologia do seu povo? Altamente improvável. Em termos humanos, não, Spensa. Não há como isso ser falso. Eu... sinto muito.

— Por quê? — sussurrei. — Por que ele faria isso? Ele estava ao lado dos Krell o tempo todo? Ou... o que ele viu lá em cima?

— Não tenho dados que possam ajudar a responder a essas perguntas. Tenho gravações de voz da batalha, mas a minha análise considera como conversa normal de um conflito como esse... Pelo menos até que seu pai viu o buraco no céu.

— Toque — pedi. — Deixe-me ouvir.

— Consigo escutar as estrelas.

Eu tinha pedido, mas ouvir a voz do meu pai novamente – depois de todos aqueles anos – ainda me atingia com uma onda de emoção. Dor, amor. Naquele momento, eu era uma garotinha novamente.

— Consigo vê-las também, Cobb — meu pai disse. — Como vi hoje, mais cedo. Um buraco no campo de detritos. Posso passar por ele.

— Chaser! — Ironsides falou. — Permaneça em posição.

— Eu consigo atravessar, Judy. Tenho que tentar. Tenho que ver. — Ele fez uma pausa, e sua voz ficou mais suave. — Posso ouvir as estrelas.

A linha ficou em silêncio por um curto tempo. Em seguida, Ironsides disse:

— Vá. Confio em você.

O áudio foi interrompido.

— Depois disso — M-Bot comentou —, seu pai voou até o campo de detritos. Os sensores não gravaram o que aconteceu lá em cima. Então, aproximadamente cinco minutos e trinta e nove segundos depois, ele volta e ataca.

— Ele diz alguma coisa?

— Só tenho uma gravação curta — M-Bot confirmou. — Presumo que queira ouvi-la?

Eu não queria. Mas tinha que ouvir mesmo assim. Com lágrimas escorrendo pelo meu rosto, ouvi enquanto M-Bot reproduzia a gravação. O canal aberto, com muitas vozes falando no caos da batalha. Eu ouvi distintamente Cobb gritando com meu pai:

— Por quê? Por quê, Chaser?

Então, quase inaudível sobre a algazarra, a voz do meu pai. Baixa. Triste.

— Vou matar vocês — ele disse. — Vou matar todos vocês.

E a caverna ficou em silêncio novamente.

— É a única vez que o encontrei falando depois que ele retornou — M-Bot explicou.

Balancei a cabeça, tentando entender tudo aquilo.

— Por que a FDD não tornou isso público? Eles não tiveram problema em condená-lo como covarde. Por que esconder a verdade, quando ela era muito pior?

— Eu posso tentar imaginar. Mas temo que, sem mais informações, eu esteja simplesmente inventando coisas.

Fiquei em pé e subi no cockpit de M-Bot. Apertei o botão de fechar, travando o dossel, e depois apaguei as luzes.

— Spensa?

Eu me encolhi.

E fiquei deitada ali.

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