Skyward: Conquiste as Estrelas

Brandon Sanderson · Capítulo 19 de 60

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Skyward: Conquiste as Estrelas

Capítulo 18

 

Não dormi muito naquela noite.

Passei algumas horas ajudando Lad a examinar M-Bot, já que ele queria conferir cada centímetro do dano. Depois de um tempo, no entanto, comecei a dar umas pescadas. Lad ainda estava firme e forte, então me deitei sobre um tapete e usei Sangrador como travesseiro.

Cada vez que eu cochilava, acordava ouvindo Lad conversar com a nave.

— Então... você é uma máquina, mas pode pensar.

— Todas as máquinas “pensam”, pois executam respostas para uma entrada de dados. Eu sou apenas muito mais complexo nas respostas executadas e nas entradas que posso reconhecer...

Mais um cochilo.

— ... pode nos explicar o que está errado?

— Meus bancos de memória estão com defeito, por isso não posso oferecer mais do que explicações superficiais... Mas talvez elas sejam suficientes.

Eu virei de lado e mergulhei novamente no sono.

— ... não sei de onde sou, embora um fragmento de memória implique que fui criado por seres humanos. Não tenho certeza de que existem outras espécies de vida sapientes. Acredito que já pude responder isso...

Lá pelas seis da manhã, esfreguei os olhos e me sentei. Lad estava deitado sob um painel de acesso aberto, mexendo em alguma coisa embaixo da nave. Eu desabei ao lado dele, bocejando.

— E então?

— É incrível — ele disse. — Já falou para Cobb sobre isso?

— Ainda não.

— Por que a demora? Quero dizer, e se essa coisa puder fazer a diferença na luta contra os Krell?

— Teoricamente, os humanos tinham essa coisa quando lutaram pela primeira vez contra os Krell — comentei. — E não os ajudou.

— Vale ressaltar — M-Bot falou — que a “coisa” está escutando.

— E? — perguntei para a nave, bocejando mais uma vez.

— E, em geral, é considerado falta de educação entre os humanos falar de alguém que está presente como se não estivesse.

— Não entendo você, M-Bot — Lad comentou, sentando-se. — Você diz que não se importa com coisas como essa, certo?

— Obviamente que não. Sou uma máquina lógica, com apenas um fino verniz de emoções simuladas.

— Ok — Lad disse. — Isso faz sentido.

— Ainda assim é rude — M-Bot acrescentou.

Olhei para Lad e gesticulei na direção do cockpit.

— Então, nós temos uma nave estelar mágica falante com tecnologia misteriosa. Quer me ajudar a consertá-la?

— Por nossa conta? — Lad perguntou. — Por quê?

— Para que possamos ficar com ela. E voar nela.

— Você está na FDD agora, Spin! Não precisa de uma nave ultrapassada e quebrada.

— Ainda estou aqui — M-Bot observou. — Só estou dizendo.

Eu me inclinei para frente.

— Lad, não estou na FDD. Estou na classe de Cobb.

— E daí? Você vai se formar. Não importa se poucas pessoas costumam se graduar... Você será uma delas.

— E depois? — perguntei, sentindo frio... Expressava, ali, um medo que nunca tinha externalizado antes, mas que me assombrava desde o primeiro dia. — Cobb diz que pode deixar quem ele quiser na sua classe, mas se eu passar? A autoridade dele acaba ali, Lad.

Meu amigo olhou para a chave de fenda em sua mão.

— Tenho medo de que a almirante me negue uma nave — confessei. — Fico preocupada com a possibilidade de ela achar alguma razão minúscula para me chutar de lá, assim que Cobb não puder mais me proteger. Fico preocupada de perder isso, Lad. O céu. — Olhei para a nave, brilhando com as luzes acesas em sua lateral. — Ela é velha, sim, mas também é a minha liberdade.

Ele ainda parecia cético.

— Pense em como vai ser divertido — comentei. — Remexer dentro de uma nave antiga. Pense nos mistérios que vamos descobrir! Talvez M-Bot tenha uma tecnologia ultrapassada, mas talvez não. Não seria divertido pelo menos tentar consertá-lo nós mesmos? Se não funcionar, podemos entregar a nave depois.

— Tudo bem — Lad concordou. — Tudo bem, pare de querer me convencer. Vou tentar, Spin.

Sorri para ele.

Lad olhou para a nave.

— Me preocupa que isso esteja além do que podemos fazer. Esses propulsores estão destruídos. Não dá simplesmente para remendar algo assim. Tenho certeza de que há outras partes que precisariam ser substituídas ou consertadas com ferramentas que não temos. — Ele pensou por um instante. — Embora...

— O quê? — perguntei.

— Um dos trabalhos que me ofereceram — ele contou — é no Corpo de Engenharia, com as pessoas que supervisionam o conserto dos caças estelares. E as pessoas que desenvolvem novos projetos. Eles têm os melhores laboratórios, os melhores equipamentos...

Assenti, ansiosa.

— Isso parece perfeito.

— Eu estava pensando mesmo em aceitar a oferta deles — ele disse. — Eles me disseram que eu podia dar uma passada lá nesses dois meses, fazer um estágio, conhecer as oficinas... Ficaram muito impressionados com a minha pontuação no teste e com o meu conhecimento de esquemas e engenharia avançada.

— Lad. Isso. É. Maravilhoso.

— Não estou prometendo nada — ele prosseguiu. — Mas, bem, talvez se eu fizer as perguntas corretas para eles, possa conseguir que me mostrem como consertar algumas partes do M-Bot. Terei que fazer isso sem levantar suspeitas. Mesmo assim, ainda vamos precisar de peças sobressalentes. E de pelo menos um propulsor de tamanho padrão.

— Vou dar um jeito de encontrar um.

— Só não me conte como vai fazer isso — ele observou. — Talvez, quando essa coisa explodir na nossa cara, eu possa alegar que não sabia nada sobre os roubos que você aparentemente vai cometer.

— Um pequeno decalque na matriz de energia diz “propriedade da família Weight” — M-Bot disse, prestativo. — Parece ter sido arrancado, de modo bem grosseiro, de um pequeno chassi. Acabamento azul, a julgar pela pintura arranhada no canto.

Lad suspirou.

— O carro de Jorgen? Sério?

Forcei um sorriso.

— O estágio vai me tomar uma parte do dia — ele falou, coçando o queixo. — Mas devo conseguir dedicar o resto do tempo a isso, se for necessário. Terei que falar alguma coisa para os meus pais.

— Diga que o estágio é superexigente — sugeri. — E que vai ocupar a maior parte do seu tempo.

— Mas — M-Bot falou — isso não é verdade, é?

— Não — respondi. — Quem se importa?

— Eu me importo — a máquina afirmou. — Por que você diria algo que não é verdade?

— Você consegue simular emoções, mas não mentiras? — comentei.

— Parece que... perdi alguns códigos — M-Bot disse. — Curioso. Ah, que fungo interessante!

Franzi o cenho e então olhei para o lado, onde Doomslug estava sobre uma rocha.

— Caramba — Lad exclamou. — Tem umas coisas bem esquisitas aqui perto da superfície. — Ele estremeceu. — Você pode... dar um jeito nessa coisa?

— Essa “coisa” se chama Doomslug — falei. — E é minha mascote. Não a machuque enquanto eu estiver fora. — Me afastei, pegando a minha mochila. — Preciso ir para a aula. Você já vai lá para baixo?

— Não — Lad respondeu. — Eu suspeitava que ficaria fora por um tempo, então deixei um bilhete para os meus pais, dizendo que ia a uma entrevista de emprego. Vão supor que me levantei antes deles. Posso descer mais tarde... Quero dar uma olhada nessa fiação primeiro.

— Ótimo — comentei. — Se ainda estiver aqui quando eu voltar da aula hoje, eu o ajudarei nos reparos. Caso contrário, deixe algumas anotações, dizendo o que posso fazer para ajudar. — Hesitei. — Lembre-se, sou meio imbecil nessas coisas. Então, talvez você queira me deixar as tarefas fáceis, porém chatas.

Lad sorriu mais uma vez, acomodando-se em uma rocha enquanto olhava para M-Bot. Havia uma luz em seus olhos, a mesma que eu me lembrava de ver quando começamos com nossos planos de nos tornarmos pilotos. Naquele momento, ao ver Lad assim mais uma vez, tive a primeira impressão real de que aquilo poderia dar certo. De algum modo, esse plano poderia dar certo.

— Espere — M-Bot me chamou. — Você vai me deixar com ele?

— Eu volto à noite — prometi.

— Entendo. Será que você pode vir até o cockpit para que possamos falar em particular?

Olhei para a nave, franzindo o cenho.

— Eu não quero explicar em público por que gosto mais de você do que do engenheiro — M-Bot acrescentou. — Se me ouvisse elencar em detalhes suas falhas irrecuperáveis, ele poderia se sentir deprimido ou desanimado.

— Bem, essa parte vai ser adorável — Lad comentou, revirando os olhos. — Talvez possamos achar um jeito de desligar a sua personalidade.

Entrei no cockpit. O dossel desceu e foi trancado com um som de vácuo.

— Está tudo bem — falei para M-Bot. — Lad é gente boa. Ele vai cuidar de você.

— Eu estou, é claro, apenas emulando o modo como os humanos escolhem seus favoritos de maneira irracional. Mas você poderia não ir, por favor?

— Sinto muito. Tenho que aprender a lutar contra os Krell. — Eu hesitei, diante do tom de voz do robô. — Qual é o problema? Eu já falei, Lad é gente...

— Estou disposto a aceitar que ele seja, pelo menos até que as evidências provem o contrário. Isso é um problema: parece que perdi meu mestre.

— Eu posso ser a sua nova mestra.

— Não posso mudar de mestre sem os códigos de autenticação apropriados — ele explicou. — E acabo de perceber que não me lembro deles. O problema, no entanto, é maior do que esse simples fato. Eu não lembro da minha missão. Eu não sei nem de onde vim. Não sei meu propósito. Se eu fosse humano, estaria... assustado.

Como eu responderia a isso? Uma nave estelar assustada?

— Não se preocupe — disse. — Nós lhe daremos um novo propósito: destruir os Krell. Você é um caça, M-Bot. Tenho certeza de que seu nome vem de algo excitante. Mad-Bot... Mutilador-Bot, Massacre-Bot. Disso, tenho certeza. Você é uma nave mortal, assustadora e poderosa, projetada para fritar os Krell e salvar a humanidade.

— Eu não me sinto muito assustador — ele comentou. — Não me sinto uma nave mortal.

— Vamos cuidar disso — prometi. — Confie em mim.

— E posso ter certeza de que essas palavras não são... uma mentira? Como a que vai ser contada para os pais do engenheiro?

Bem. Aquilo se virou contra mim mais rápido do que eu esperava.

— Eu preciso pedir para você — M-Bot falou, agora com mais suavidade — não falar para mais ninguém sobre mim. Presumi que tinha entendido isso mais cedo, quando expliquei as minhas ordens. Suponho que “esconda-se” é um coloquialismo para manter-se discreto. Você não deveria ter falado sobre mim para o engenheiro.

— Se eu não tivesse feito isso, como poderíamos consertar você?

— Eu não sei. Spensa, sou uma inteligência artificial... Um computador. Preciso obedecer às minhas ordens. Por favor. Você não pode me entregar para sua FDD. Não deve falar de mim para mais ninguém.

Bem, aquilo seria um problema. Eu queria conseguir fazer aquela coisa voar e, assim que isso acontecesse, eu poderia ajudar na luta contra os Krell. E, se não pudéssemos consertá-lo... Bem, eu precisaria entregá-lo. Independentemente do que eu pensava de Ironsides, eu não deveria manter essa nave escondida para sempre. Não se ela pudesse significar a diferença entre a sobrevivência e a extinção da humanidade.

Eu estava prestes a abrir a boca para argumentar com M-Bot quando um conjunto de luzes começou a piscar no painel.

— Incursões múltiplas na atmosfera foram detectadas por meus sensores de alcance curto — M-Bot disse. — Detritos começaram a cair no planeta, com quarenta e três naves atrás deles.

— Quarenta e três? — perguntei, olhando para a leitura do sensor. Aparentemente, alcance curto para ele era algo bem longo para nossos padrões. — Uau! Você consegue localizá-los, mesmo com a queda dos detritos?

— Com facilidade.

Isso já provava que a FDD poderia usar sua tecnologia. Nossos scanners não eram tão precisos assim. Saber disso me deixou imediatamente desconfortável.

Mas quarenta e três Krell? O máximo que eles tinham era uma centena de naves, então essa era uma força impressionante. Apertei o botão para abrir o dossel e, saí do cockpit, pulando em uma rocha.

— Krell — falei para Lad. — Uma esquadrilha grande.

— Estamos em perigo aqui?

— Não, eles estão vindo de outra direção. Mas os cadetes estão treinando há tempo suficiente, agora que Ironsides começou a enviá-los como unidades de apoio real durante os combates. A Esquadrilha Tempestade foi mandada há dois dias.

— Então...

— Então é melhor eu ir. Só por garantia.

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