Skyward: Conquiste as Estrelas

Brandon Sanderson · Capítulo 44 de 60

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Skyward: Conquiste as Estrelas

Capítulo 41

 

 

Duas semanas mais tarde, eu estava me sentindo um pouco mais estável enquanto voava com meu Poco por uma sequência de vales, percorrendo a superfície do planeta.

— Não vejo nada — falei pelo canal da esquadrilha.

— Nem eu — FM disse. Ela estava voando ao meu lado.

— O truque é permanecer alerta ao longo da patrulha — uma voz feminina comentou em nossos capacetes. — Ser um bom batedor não tem a ver com ser capaz de ver bem; é ser capaz de manter a atenção em um trabalho monótono. É não deixar a sua mente vagar em devaneios.

Bem, estou encrencada, pensei.

— Se vocês terminarem em uma equipe de batedores — a mulher de codinome Blaze continuou —, vão receber uma nave classe Val, que em vez do incinerador 138 Stewart tem apenas um 131, com muito menos poder de fogo. Mas seu sistema de sensores é melhor, tem maior alcance e mais detalhes. Mesmo assim, é complicado pegar um inimigo Krell voando sob o radar... mas, felizmente, eles com frequência usam a mesma tática de tentar se esgueirar pela artilharia antiaérea. Uma vez que saibam o que eles vão fazer, podem prever seus movimentos.

A mesma velha máxima. Se soubesse o que o inimigo faria, você tinha vantagem. Eu tentei isso, na batalha em que Arrojada morreu. Salvei Kimmalyn, mas deixei a minha companheira de voo sozinha.

Ninguém me culpava; sair e proteger Kimmalyn fora o movimento certo. Mas eu ainda remoía aquilo.

E... eu já não estava prestando atenção. Tentei voltar meu foco para a busca pelos Krell, mas eu sabia que não era feita para esse tipo de trabalho. Eu precisava de algo que me envolvesse, que me consumisse, como um bom tiroteio.

Blaze continuava a nos dar dicas. Como identificar o rastro de uma nave voando baixo pelos padrões da poeira. Como os Krell se moviam pelos vales quando tentavam se esconder dos scanners. Como dizer se alguém ao longe era uma nave ou uma ilusão de ótica. Era uma coisa boa e importante. Mesmo se não fosse para mim, eu estava feliz por Cobb nos fazer experimentar os diversos papéis de combate. Isso expandia minha experiência, fazia-me transformar táticas como “voo flanqueado”, “naves reserva” e “equipes batedoras” em coisas reais.

Ouvi um estalo no céu. Nosso treinamento com os batedores estava acontecendo durante uma batalha de verdade.

— Como você lida com a emoção disso? — Arturo perguntou na linha. — De ficar explorando, quando... você sabe...

— Quando todos os outros estão lutando, talvez morrendo? — Blaze perguntou.

— Sim — Arturo confirmou. — Cada instinto que tenho diz que eu deveria voar em direção à batalha. Isso parece... covarde.

— Não somos covardes! — Blaze exclamou, erguendo a voz. — Voamos em naves com uma fração do armamento até de um Poco. E se interceptarmos um Krell, podemos ter que lutar e retardá-los nós mesmos para ganhar tempo e...

— Desculpe! — Arturo a interrompeu. — Eu não quis dizer isso!

Blaze suspirou.

— Não somos covardes. A FDD deixa muito claro que não somos. Mas você pode ter que lidar com... um olhar de vez em quando. É parte do sacrifício que todos fazemos para garantir que as Cavernas Desafiadoras permaneçam em segurança.

Fiz uma sequência cuidadosa de curvas, tentando usar o tempo para praticar minhas manobras em baixa elevação. Depois de um tempo, a queda de detritos atrás de nós parou, e Cobb nos chamou de volta.

Entramos em formação, fizemos as confirmações verbais, voamos de volta para a base e aterrissamos. Enquanto esperava a equipe de solo, acabei olhando para o refeitório, e um pequeno sorriso tomou meus lábios. Eu me lembrava de ter batido ali no holograma do primeiro dia.

Uma onda de culpa apagou meu sorriso. Só fazia três semanas que Arrojada morrera. Eu não devia sentir alegria.

Siv subiu na escada, então eu abri o cockpit e tirei o capacete, entregando-o em seguida para ela.

— Bela aterrissagem — ela disse. — Algo que devemos olhar na nave hoje?

— A esfera de controle parece estar pegando em algum lugar — comentei. — Ela tenta voltar para mim quando eu a movo.

— Daremos uma boa engraxada no mecanismo esta noite — ela garantiu. — Como está o botão de recepção? Ainda prendendo? Nós... — Ela se calou quando, em uma plataforma ali perto, um caça classe Camdon aterrissou com fumaça saindo do lado esquerdo de sua fuselagem. Siv xingou e deslizou pela lateral da escada, e saiu correndo com vários outros membros da equipe de solo.

Sentindo-me doente ao ver aquela pobre nave, eu desci e me juntei a Jorgen, que estava de pé à beira da nossa plataforma de lançamento. Encaramos o fogo. Vários outros caças aterrissaram ali perto e um parecia – incrivelmente – ainda pior. Caramba. Se esses eram os sobreviventes, quantos pilotos tínhamos perdido?

— Você estava ouvindo o canal de rádio dos líderes de voo? — perguntei.

— Sim — Jorgen respondeu. — Eles foram flanqueados e depois alvejados por uma esquadrilha dupla de naves inimigas. Como se os Krell estivessem tentando abater especificamente esses caças, ignorando todos os demais.

Soltei o ar enquanto Arturo e FM se juntavam a nós, todos observando em silêncio enquanto a equipe de solo tirava o piloto quase inconsciente da nave em chamas, salvando sua vida. Outros cobriam a nave com espuma.

— Spin, você estava certa no outro dia — Arturo comentou. — Quando disse que a FDD está perdendo essa guerra.

— Não estamos perdendo — Jorgen falou. — Não fale assim.

— Eles estão em número muito maior do que nós — Arturo disse. — E está piorando. Posso mostrar as estatísticas. Os Krell continuam reabastecendo sua frota e nós não conseguimos acompanhá-los.

— Sobrevivemos por anos — Jorgen afirmou. — Sempre pareceu que estivéssemos à beira da perdição. Nada mudou.

Arturo e eu trocamos olhares. Nenhum de nós acreditava naquilo.

Depois de um tempo, Jorgen nos chamou para participar do relatório pós-batalha com Cobb. Fomos até o edifício de treinamento e, estranhamente, encontramos Cobb parado do lado de fora. Ele conversava com algumas pessoas na entrada.

Arturo ficou onde estava.

— O que foi? — perguntei para ele.

— Aquela é a minha mãe — Arturo respondeu, apontando para a mulher que falava com Cobb. Ela usava um uniforme militar. — Caramba.

Ele apressou o passo, praticamente correndo, enquanto se aproximava de Cobb e de sua mãe. Eu corri para alcançá-lo, mas Jorgen me segurou pelo ombro e impediu.

— O que foi? — sussurrei. — O que está acontecendo?

Adiante, Cobb prestou continência quando Arturo chegou. Tipo, ele realmente prestou continência para Arturo. Olhei para Jorgen e os lábios dele estavam apertados. Dei um passo adiante, mas ele me puxou para trás de novo.

— Dê privacidade para eles — ele pediu. FM parou ao nosso lado, observando, sem falar nada. Ela também parecia saber o que estava acontecendo.

Cobb entregou algo para Arturo. Um broche?

Arturo olhou para o broche e estava prestes a jogá-lo no chão, mas sua mãe segurou seu braço. Gradualmente, Arturo relaxou. Relutante, prestou continência para Cobb. Arturo olhou para nós e prestou continência para nós também.

Sua mãe se afastou, e Arturo lentamente se virou e a seguiu, acompanhado por dois homens de terno.

Cobb veio mancando até nós.

— Alguém, por favor, pode me dizer o que acabou de acontecer? — exigi saber. — Vamos. Uma pista pelo menos? Eu deveria me preocupar com Arturo?

— Não — Jorgen respondeu. — Os pais dele o tiraram da FDD. Isso está sendo planejado há semanas, desde que ele quase foi abatido. Eles ficaram em pânico. Em off, é claro. Ninguém admitiria ter medo pelo filho.

— Alguns pauzinhos foram mexidos — Cobb contou. — A almirante se comprometeu. Arturo ganha um broche de piloto, mas não se forma.

— Como isso funciona? — FM perguntou.

— Não faz nenhum sentido — concordei. — Ele não se forma, mas se torna um piloto formado?

— Ele foi aposentado com honras do serviço — Cobb explicou. — Oficialmente, é porque ele precisa supervisionar os voos de carga para sua família. Quando temos necessidade de peças de ignição, precisamos desses carregamentos das outras cavernas. Vamos lá, vocês três. Vamos fazer nosso relatório.

Cobb saiu andando, Jorgen e FM o seguiram. Aqueles dois pareciam resignados, como se esse tipo de coisa fosse esperado.

Não os segui. Eu me sentia indignada por Arturo. Os pais dele simplesmente o arrancavam dali daquele jeito?

Jorgen espera que o mesmo aconteça com ele, lembrei. Talvez todos eles estivessem prontos para isso. Os que vêm de famílias com muitos méritos, pelo menos.

Parada ali, do lado de fora da escola, percebi pela primeira vez que eu era a única pessoa comum na esquadrilha que conseguira ir tão longe. Aquilo me deixou irracionalmente zangada. Como os pais dele ousavam protegê-lo, agora que estava ficando perigoso? Em particular contra a óbvia vontade dele?

Jorgen parou na porta, enquanto os outros continuaram para dentro.

— Ei — ele me chamou, olhando para trás. — Você não vem?

Eu me aproximei dele.

— Os pais de Arturo nunca iam deixá-lo voar de modo permanente — ele disse. — Estou honestamente surpreso que tenha levado tanto tempo para se assustarem.

— O mesmo vai acontecer com você? Seu pai virá buscá-lo amanhã?

— Ainda não. Arturo não vai entrar na política, mas eu vou. Precisarei ter algumas batalhas no currículo, como piloto de verdade, antes que meus pais me tirem.

— Então, um pouco de perigo, e depois você será protegido. Mimado. Mantido em segurança.

Ele estremeceu.

— Você percebe que os únicos que morreram na nossa equipe eram pessoas comuns? — falei. — Bim, Alvorecer, Arrojada. Nenhum morador das cavernas inferiores!

— Eles eram meus amigos também, Spin.

— Você, Arturo, Nedd, FM. — Coloquei o dedo no peito dele enquanto falava cada um dos nomes. — Vocês tiveram treinamento antes do tempo. Uma vantagem, para mantê-los vivos, até que suas famílias covardes consigam colocar algumas medalhas em vocês e exibi-los por aí como prova de que são muito melhores do que o resto de nós!

Ele segurou meus braços para me fazer parar de cutucá-lo, mas eu não estava zangada com ele. Na verdade, eu percebia em seu olhar que ele estava tão frustrado quanto eu. Ele odiava ser enquadrado assim.

Eu segurei a parte da frente do traje de voo dele com as duas mãos, apertando com força. Então, em silêncio, apoiei a testa contra seu peito. Frustrada e – sim – até com medo. Com medo de perder mais amigos.

Jorgen ficou tenso, depois soltou meus ombros. Provavelmente sem saber mais o que fazer, envolveu os braços ao meu redor. Devia ter sido constrangedor. Em vez disso, foi muito reconfortante. Ele entendia. Ele sentia a perda como eu.

— Eu mal consegui fazer parte de uma esquadrilha de verdade — sussurrei. — E ela está sendo desfeita. Um pedaço de mim está feliz por Arturo estar a salvo e por continuar a salvo, mas outro pedaço está zangado. Por que Arrojada não ficou a salvo, ou Bim?

Jorgen não respondeu.

— Cobb nos disse, naquele primeiro dia, que só um ou dois de nós conseguiria — prossegui. — Quem morre a seguir? Eu? Você? Por que, depois de décadas, não sabemos nem contra o que estamos lutando ou por que estamos fazendo isso?

— Nós sabemos o motivo, Spensa — ele disse, baixinho. — É por Ígneo, por Alta. Pela civilização. E você tem razão, o jeito como fazemos isso não é correto. Mas essas são as regras com as quais jogamos. As únicas regras que eu conheço.

— Por que tudo tem que ser baseado em regras para você? — perguntei, minha testa ainda apoiada no peito dele. — E quanto à emoção, e quanto aos sentimentos?

— Eu... eu não sei. Eu...

Apertei os olhos com força e fiquei assim. Eu pensava na FDD, em Alta e em Ígneo, e no fato de que eu não tinha mais nada para desafiar. Eu passara a vida lutando contra as coisas que diziam sobre meu pai.

Agora, o que eu faria?

— Eu sinto as coisas, Spin — ele disse, por fim. — Como agora, eu me sinto incrivelmente constrangido. Nunca pensei que você fosse o tipo que gostava de abraços.

Soltei a frente do traje dele, fazendo-o abaixar os braços.

— Você me agarrou primeiro — eu disse.

— Você estava me atacando!

— Batendo levemente com o dedo no seu peito, para enfatizar.

Ele revirou os olhos e o momento passou. Estranhamente, no entanto, enquanto nos juntávamos a FM e seguíamos para a nossa nova sala de aula, percebi uma coisa. Eu me sentia melhor. Só um pouco, mas considerando como minha vida andava ultimamente, eu estava disposta a pegar o que pudesse conseguir.

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