Skyward: Conquiste as Estrelas

Brandon Sanderson · Capítulo 59 de 60

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Skyward: Conquiste as Estrelas

Capítulo 55

 

Eu sabia que era estúpido.

A almirante estava certa. Eu deveria ter voltado para a base.

Mas eu não podia. Não só porque conseguia ouvir as estrelas me chamando, me atraindo. Não só por causa do que acontecera naquele lugar entre as batidas do coração.

Eu não estava sendo controlada por alguma coisa. Pelo menos, não achava que estivesse. Mas eu tinha que saber. Tinha que confrontar.

Eu tinha que ver o que meu pai vira.

Voamos cada vez mais alto, até onde a atmosfera desaparecia e podíamos ver a curvatura do planeta. E ainda mais alto, mirando naquele espaço entre o campo de detritos.

Eu cheguei mais perto do que jamais chegara antes, e desta vez fiquei impressionada com a aparência de tudo aquilo, organizado de forma deliberada. Nós chamávamos de campo de detritos, mas na verdade não eram detritos. Havia uma forma em tudo aquilo. Uma intenção.

Plataformas enormes, iluminadas na parte de baixo. Outras que pareciam os estaleiros. Juntas, formavam uma sequência de proteções quebradas ao redor do nosso planeta. E haviam sido alinhadas de modo a criar uma abertura através delas.

Eu passei pelo vão imenso. Se eu desviasse muito para os lados, provavelmente ficaria ao alcance dos canhões defensivos que Cobb mencionara. Mas ali, viajando por aquele corredor improvisado, eu estava segura.

Quando passei pela primeira camada de detritos, M-Bot disse que tínhamos entrado no espaço propriamente dito, embora ele também tenha informado que a linha entre a atmosfera e a não atmosfera era uma “distinção arbitrária, já que a exosfera não terminava, mas desaparecia”.

Perdi o fôlego de espanto quando passamos por enormes plataformas que eram mil vezes maiores do que Alta, ou ainda mais. Elas eram cobertas pelo que pareciam ser edifícios – todos silenciosos, escuros. Milhões e milhões deles.

As pessoas viveram aqui antigamente, pensei. Subimos por várias camadas. Agora íamos a uma velocidade incrível – Mag-55 –, mas, sem a resistência do vento, não fazia diferença. A velocidade era relativa no espaço.

Afastei o olhar das plataformas, na direção do fim do corredor. Ali estavam as luzes tranquilas e silenciosas.

— Spensa — M-Bot disse —, estou detectando comunicações de rádio em frente. Um desses pontos não é uma estrela.

Eu me inclinei para frente enquanto passávamos por outra camada de detritos. Sim, adiante eu podia ver um ponto brilhante que estava muito mais próximo do que as estrelas. Uma nave? Não, uma estação espacial. Em formato de pião, com luzes de todos os lados.

Pontos menores se moviam ao redor dela. Naves. Ajustei nosso curso, apontando na direção da estação. Embaixo de nós, uma plataforma girou em sua órbita, tirando minha visão da forma cada vez menor de Detritus. Eu conseguiria voltar? Por acaso me importava com isso?

Eu podia ouvi-las mais alto, as vozes das estrelas. Conversas que não vinham pelo rádio e não formavam palavras. O chamado das estrelas... era... era comunicação Krell. Eles usavam aqueles espaços entre as batidas do coração para conversar uns com os outros, para se comunicarem de maneira instantânea. E... as mentes das máquinas pensantes de algum modo se baseavam na mesma tecnologia de processamento.

Só era necessário acesso àquele não lugar, àquele nada.

Nós nos aproximamos da estação.

— Eles não sabem que é perigoso? — sussurrei. — Que alguma coisa vive no nada? Eles não sabem sobre os olhos?

Talvez seja por isso que só usamos o rádio, eu pensei. Por isso nossos ancestrais abandonaram essas tecnologias avançadas de comunicação. Nossos ancestrais tinham medo do que vivia no nada.

— Estou confuso com o que você quer dizer — M-Bot falou. — Embora os Krell estejam usando algum tipo de comunicação subluz normal, além das superlumínicas. As normais, eu posso interceptar e ouvir. Trabalhando para traduzi-las.

Diminuí a velocidade de M-Bot, passando por naves que se viravam em minha direção. Não pareciam ser caças; eram quadradas, com grandes aberturas para janelas na frente.

Naquele momento, alguma coisa me atingiu, como uma força física. Esgueirou-se por dentro do meu cérebro, fez a minha visão falhar. Eu gritei, soltando o corpo no cinto de segurança.

— Spensa! — M-Bot falou. — Qual é o problema? O que está acontecendo?

Eu só conseguia choramingar. A dor. E... impressões. Eles estavam enviando imagens. Estavam... estavam tentando sobrescrever... o que eu via...

— Acionando dispositivos furtivos e obstruindo! — M-Bot disse. — Spensa, estou lendo sinais incomuns. Spensa?

As vozes desapareceram. A dor evaporou. Soltei um suspiro longo e aliviado.

— Não morra, ok? — M-Bot pediu. — Se fizer isso, provavelmente terei que tornar Rodge meu piloto. Seria o movimento mais lógico, e tanto ele quanto eu odiaríamos muito isso.

— Não vou morrer — falei, recostando-me no assento e apoiando o capacete no descanso de cabeça. — Eu tenho realmente um defeito. Um buraco dentro de mim.

— Humanos têm muitos buracos neles. Quer que eu lhe providencie uma lista?

— Por favor, não.

— Rá, rá. Isso foi humor.

— Tenho um buraco no meu cérebro — expliquei. — Consigo ver dentro do nada, mas eles podem usar isso contra mim. Acho... Acho que meu pai viu algum tipo de holograma mental. Quando ele voou de volta para Detritus, viu o que o inimigo queria que ele visse.

Eu me lembrava do que ele disse. Vou matar vocês. Vou matar todos vocês... Ele parecia tão triste, tão derrotado. Ele achava que os humanos haviam perdido, que seus amigos já estavam mortos. O que ele via não era a realidade.

— Quando ele explodiu os amigos — sussurrei —, achava que estava abatendo os Krell.

Um pequeno número de naves quadradas se aproximou de M-Bot na escuridão. Pareciam mensageiros ou dispositivos de reboque. Pelos grandes vidros frontais, vi criaturas que pareciam vagamente com os desenhos que tínhamos dos Krell. Formas escuras em armaduras, com olhos vermelhos.

Só que ali eles tinham cores vivas – tons vermelhos e azuis alegres, nem um pouco sombrios. Eles me lembravam levemente as imagens de caranguejos que eu vira da Antiga Terra, durante meu curso de biologia. E a “armadura” que usavam parecia mais algum tipo de aparato vivo, com discos abertos na parte da “cabeça”, para que as criaturas pudessem ver.

As laterais das pequenas naves estavam estampadas com o que pareciam ser palavras em algum idioma estranho.

— Ketos redgor Earthen listro listrins — M-Bot disse, lendo as palavras. — De modo grosseiro, em seu idioma, quer dizer “Manutenção e contenção penitenciária de terráqueos”.

Caramba. Aquilo... soava sinistro.

— Pode me dizer o que estão falando?

— Há alguma conversa pelo rádio mais perto da estação — ele comentou —, mas suspeito que essas naves estão se comunicando usando dispositivos citônicos mais rápidos que a luz.

— Diminua o que quer que você esteja usando para nos blindar — pedi —, mas não desligue completamente. Se eu gritar de novo ou ficar louca, volte a acioná-lo.

— Ok... — M-Bot respondeu. — Você já parece louca para mim, mas acho que isso não é novidade.

A percepção retornou para mim, com as vozes na escuridão do espaço. Eu podia ouvir suas palavras, as que estavam enviando pelo nada. Eu as conhecia, sem a necessidade de tradução, porque naquele lugar todos os idiomas eram um só.

— Está olhando para mim! — Uma das criaturas dizia. — Acho que quer me comer. Não gosto nem um pouco disso!

— Ela deveria estar incapacitada agora — uma comunicação retornou da estação espacial. — E, se está olhando para você, não pode vê-lo. Estamos sobrescrevendo a visão dela. Traga a nave para cá, para estudo. Esse não é um modelo padrão da FDD. Estamos curiosos em saber como a construíram.

— Não quero chegar perto disso — outra das criaturas falou. — Você não sabe como essas coisas são perigosas?

Curiosa, olhei pelo meu dossel para uma nave que se aproximava e fiz uma cara de rosnado, mostrando os dentes. A criatura gritou e imediatamente deu meia-volta com sua nave e fugiu. As outras duas naves estilo rebocador se afastaram.

— Isso é trabalho para os caças drones — um disse. — Não para naves tripuladas.

Eles pareciam muito assustados. Não eram como os terríveis monstros que eu sempre imaginara.

Relaxei em meu assento.

— Você gostaria que eu tentasse hackear o sistema deles? — M-Bot perguntou.

— Você pode fazer isso?

— Não é tão fácil quanto pode parecer — ele disse. — Eu tenho que infiltrar um sinal de entrada, e então decifrar as senhas deles e criar um usuário falso, depois transferir os arquivos enquanto falsifico uma solicitação autorizada, ultrapassando linhas de defesa de dados locais. Tudo sem acionar nenhum de seus alarmes.

— Então, consegue fazer isso?

— Já fiz — ele falou. — Dei uma explicação muito longa. Começando transferência de dados... E... eles me pegaram. Fui interrompido, e o protocolo de segurança está impedindo a minha reentrada.

Luzes piscaram na estação, e no momento seguinte um esquadrão de pequenas naves saiu de uma das baias laterais. Eu conhecia aqueles padrões de voo. Interceptadores Krell.

— Hora de ir embora — eu disse, segurando os controles e dando meia-volta. — Acha que consegue navegar pelas camadas de detritos sem disparar nenhuma das plataformas de defesa?

— Supostamente, os Krell fazem isso cada vez que atacam o planeta — ele respondeu. — Então deve ser possível.

Acionei a aceleração máxima, lançando-nos em direção à camada superior de detritos. M-Bot colocou algumas direções no meu dossel, e eu as segui, tensa pela primeira vez. Passamos perto de algumas plataformas enquanto seguíamos em direção ao planeta, mas nenhuma delas disparou em nós.

Eu me sentia... estranhamente alerta. A sensação de fascinação que experimentara antes, a atração para descobrir o que fazia as estrelas cantarem, tudo isso havia desaparecido. Fora substituída por um senso de realidade decidido.

Ir até lá realmente havia sido uma loucura. Mesmo para mim. Mas, enquanto atravessávamos a outra camada de detritos, os interceptadores Krell recuaram. Parecia, cada vez mais, que eu conseguiria voltar ao planeta em segurança.

— Você conseguiu alguma coisa? — perguntei. — Dos computadores deles?

— Comecei com as ordens centrais da estação e trabalhei daí para fora — ele disse. — Não consegui muito, mas... uau... você vai gostar disso.

— O quê? — perguntei enquanto acionava a aceleração máxima, voando novamente para Detritus. — O que você descobriu?

— Respostas.

 

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