Skyward: Conquiste as Estrelas
Capítulo 7
As portas do elevador se abriram, e olhei para uma cidade que não deveria existir.
Antes de mais nada, Alta era uma base militar, então talvez cidade fosse um termo ambicioso. Mesmo assim, a estrutura do elevador se abriu a uns bons duzentos metros da base propriamente dita. Enfileiradas na beira da estrada entre a cidade e a base havia lojas e casas. Uma cidade de verdade, povoada pelos teimosos fazendeiros que trabalhavam nas áreas verdes do lado de fora.
Permaneci no imenso elevador enquanto as pessoas saíam. Aquilo representava um limiar para uma nova vida, uma vida com a qual eu sempre sonhara. Percebi que estava estranhamente hesitante, ali parada com um pacote de roupas sobre o ombro e ainda com a sensação do beijo de despedida da minha mãe na testa.
— Ah, não é a coisa mais linda que você já viu? — uma voz falou atrás de mim.
Olhei por sobre o ombro. Quem falava era uma garota da minha idade. Mais alta que eu, com a pele bronzeada e longos cabelos negros encaracolados. Eu já a vira no elevador e tinha notado seu broche de cadete. Ela falava com um leve sotaque que eu não reconheci.
— Ainda acho que não é real — ela prosseguiu. — Será que pode ser alguma pegadinha que pregaram em nós?
— Que vantagem tática eles teriam com isso? — perguntei.
A garota segurou meu braço com muita familiaridade.
— Nós vamos conseguir. É só respirar fundo. Erguer o braço. Arrancar uma estrela. É o que a Santa diz.
Eu não tinha ideia de como lidar com aquela atitude. Em geral, as pessoas me tratavam como pária; elas não me pegavam pelo braço. Eu estava tão perplexa que não ofereci resistência quando ela me arrastou para fora do elevador. Entramos na passarela larga que atravessava a cidade até a base.
Eu preferia ter feito o caminho ao lado de Rodge, mas ele tinha sido chamado tarde da noite no dia anterior para discutir algo sobre o teste, e até agora eu não tinha notícia do que se tratava. Só esperava que ele não estivesse encrencado.
Logo a garota e eu passamos por uma fonte. E era uma fonte de verdade, como as que a gente ouvia nas histórias. Ambas paramos para admirar o monumento, e só então eu soltei meu braço. Parte de mim queria ficar ofendida, mas ela parecia tão espontânea.
— Essa música que a água faz — ela disse —, não é o som mais maravilhoso de todos?
— O som mais maravilhoso de todos é o lamento dos meus inimigos gritando meu nome para os céus, com vozes agitadas e agonizantes.
A garota me olhou, inclinando a cabeça.
— Que as suas estrelas sejam abençoadas.
— Desculpe — falei. — É de uma história que eu escutei. — Estendi a mão para ela. Era melhor me dar bem com os outros cadetes. — Meu codinome: Spin.
— Kimmalyn — ela se apresentou, apertando a minha mão. — Hum... já devíamos ter codinomes?
— Sou perfeccionista. Em que sala você precisa se apresentar?
— Hum... — Ela enfiou a mão no bolso e pegou um papel. — C-14? Cadete da Esquadrilha B.
— Eu também.
— Codinome... Codinome... — Kimmalyn murmurou. — Qual devo escolher?
— Matadora? — sugeri. — Ardente? Não, isso pode ser mal interpretado... Estripadora?
— Não pode ser algo um pouco menos horrível?
— A ideia é você se tornar uma guerreira. Precisa de um nome de guerreira.
— Nem tudo está relacionado à guerra!
— Hum, meio que está. Em especial na escola de voo. — Franzi o cenho, notando mais uma vez o sotaque em sua voz. — De onde você é? Não é de Ígneo, imagino.
— Nascida e criada na Caverna Abundante! — Ela se inclinou. — Nós a chamamos assim, mas nada cresce por lá, na verdade.
— Abundante — repeti. Era uma caverna relativamente perto de Ígneo, também parte da Liga Desafiadora. — É onde os clãs da tripulação de Antióquia se instalaram, certo? — Antióquia tinha sido uma das naves da antiga frota, antes que fôssemos obrigados a nos esconder em Detritus.
— Sim. Minha bisavó era contramestre. — Ela me olhou. — Você diz que seu codinome é Spin? Não deveria ser algo como Lamentação ou Comedora de Olhos dos Inimigos?
Dei de ombros.
— Spin é como meu pai costumava me chamar.
Ela deu um sorriso animado ao ouvir isso. Caramba, eles haviam aceitado essa garota, mas me recusado? O que a FDD estava tentando fazer? Montar um clube de tricô?
Nós nos aproximamos da base, um grupo de edifícios altos e imponentes cercados por uma muralha. Do lado de fora, as fazendas deram lugar a um verdadeiro pomar. Parei de andar e me peguei assombrada de novo. Eu já tinha visto aquelas árvores ao longe, mas de perto elas pareciam enormes. Quase três metros de altura! Antes disso, a planta mais alta que eu já havia encontrado era um cogumelo que alcançava a minha cintura.
— Eles plantaram as árvores logo depois da Batalha de Alta — Kimmalyn comentou. — Foi preciso que pessoas corajosas se voluntariassem para o serviço aqui, tão expostas ao ar e aos ataques dos Krell. — Ela olhou para o céu, maravilhada, e eu me perguntei se aquela era a primeira vez que o via.
Paramos em um posto de controle na muralha, e estendi meu broche para o guarda, meio que esperando um tratamento rude – como eu sempre recebia de Aluko quando entrava em Ígneo. Contudo, o guarda entediado só assinalou nossos nomes em uma lista e acenou para que entrássemos. Nada de muita cerimônia na minha primeira entrada oficial em Alta. Bem, logo eu seria tão famosa que o guarda na porta bateria continência ao me ver.
Lá dentro, procuramos o edifício e nos juntamos a um punhado de outros cadetes. Pelo que eu tinha entendido, cerca de vinte e cinco de nós passaram no teste, sendo organizados em três treinos de voo. Só os melhores dos melhores realmente passariam e seriam designados para o cargo de piloto em tempo integral.
Kimmalyn e eu logo chegamos a uma grande estrutura térrea perto das plataformas de lançamento. A escola de voo. Eu quase não conseguia me conter de vontade de sair correndo direto para os caças estelares enfileirados. Já tinha ficado maravilhada demais por um dia.
Dentro do edifício, encontramos corredores largos, muitos dos quais pareciam estar cheios de salas de aula. Kimmalyn deu um gritinho, e em seguida correu para conversar com outro cadete, alguém que ela aparentemente conhecia. Então, parei perto de uma janela na parede externa e olhei para o céu, esperando por ela.
Percebi que estava... ansiosa. Não pelo treinamento, mas pelo lugar. Era tão grande, tão aberto. Os corredores eram no mínimo um metro mais largos do que os da maioria das construções de Ígneo, e os edifícios da base se espalhavam para fora em vez de estarem empilhados uns sobre os outros. O céu estava logo ali, sempre presente, agigantando-se. Mesmo com um campo de força entre ele e eu – do mesmo tipo invisível que os caças estelares usavam –, eu me sentia exposta.
Eu teria que dormir ali. Viver, comer, existir. Tudo ao ar livre. Embora eu gostasse do céu, isso não significava que eu queria espiá-lo durante todos os meus momentos mais íntimos.
Eu simplesmente terei que lidar com isso, falei para mim mesma. Uma guerreira não pode escolher a sua cama; ela deve agradecer às estrelas se puder escolher o campo de batalha. Uma citação de A conquista do espaço, de Junmi. Eu adorava as histórias da Vozinha sobre Junmi quase tanto quanto gostava das antigas histórias vikings, mesmo sem tantas decapitações.
Kimmalyn voltou, e encontramos nossa sala. Respirei fundo. Era hora de me tornar piloto. Abrimos as portas.
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