Skyward: Conquiste as Estrelas
Capítulo 23
— Tudo bem — a voz de Cobb disse em meus ouvidos enquanto nosso grupo pairava fora de um campo de batalha holográfico. — Estou quase convencido de que não vão voar direto para o primeiro pedaço de detrito que cair perto de vocês. Acho que talvez estejam prontos para aprender algumas técnicas avançadas com armas.
Ainda agora, duas semanas depois de perdê-lo, eu esperava que Bim ficasse ansioso e perguntasse pelos incineradores. Como ele não o fez, em vez disso eu disse, em sua memória:
— Incineradores?
— Não — Cobb respondeu. — Hoje vamos treinar com PIM.
Ah, certo. Passamos tanto tempo treinando com as lanças de luz que quase esqueci que tínhamos uma terceira arma, que podia derrubar os escudos dos inimigos.
Enquanto eu esperava que Cobb decidisse os parceiros de voo do dia, mudei o rádio para um canal privado e chamei Arrojada:
— Quase pensei que ele nos deixaria usar armas de verdade, hein, Arrojada?
Arrojada apenas grunhiu.
— Me fez pensar em Bim — prossegui. — Eu gostaria que pelo menos tivéssemos conseguido ajudá-lo a escolher um codinome, sabe?
— Estou com a Flácida hoje — Arrojada falou quando Cobb nos indicou os pares nos sensores das telas. — Arrojada, câmbio desligo. — E ela desligou o canal.
Senti meu rosto gelar e rangi os dentes, xingando o Babaca em silêncio por ter denunciado minha linhagem. Embora estivesse acostumada a esse tipo de coisa, eu gostava de Arrojada. A garota ansiosa e divertida quase parecia uma amiga.
Movi minha nave para perto de Nedd, meu parceiro de voo do dia. Na nossa frente, um grupo de naves Krell apareceu no céu e começou a voar em padrões de defesa. Detritos caíam, a maioria pedaços grandes e ardentes que despencavam rapidamente, deixando um rastro de fumaça.
— Tudo bem — Cobb disse. — Uso básico do escudo. Spin, faça um resumo do que já sabemos.
Ele fazia isso de tempos em tempos, testando nossos conhecimentos.
— Os escudos de bordo podem absorver cerca de oitenta kus de energia antes de ficarem sobrecarregados e caírem — falei. — Isso representa mais ou menos dois ou três disparos de um incinerador, um golpe de um detrito pequeno ou uma colisão de relance. Se seu escudo cai, você precisa reativá-lo, o que usa energia de seu propulsor. Isso significa perder impulso e manobrabilidade por quase meio minuto.
— Ótimo. Anfisbena, o que ela esqueceu de dizer?
Eu fiquei razoavelmente impressionada que ele conseguisse pronunciar o codinome de Arturo, o tal “dragão de duas cabeças”.
— Não muito — Arturo respondeu. — Sempre avise seus companheiros de voo se seu escudo cair, para que eles possam cobri-lo com seus incineradores enquanto você reativa. Não que saibamos muito sobre o uso de incineradores...
— Você aperta o gatilho, espertinho — Cobb disse. — Não é preciso um cérebro para usar um incinerador. Já com o PIM, a questão é outra. Pulso Invertido de Magalhães. Derruba qualquer escudo em um raio de cinquenta metros, incluindo o seu.
— Cinquenta metros — FM falou baixinho. — É um alcance bem próximo.
— Um alcance ridiculamente próximo — Cobb concordou. — Vocês precisam praticamente sentir o cheiro dos Krell antes de usar o PIM neles.
— Senhor — Jorgen disse. — Fico preocupado com a habilidade da esquadrilha para chegar tão perto assim.
— Se pelo menos tivéssemos acabado de passar um mês treinando manobras e arremessos de lanças de luz enquanto os outros cadetes brincavam de tiro ao alvo — Cobb replicou. — Olhe, os escudos dos Krell são fortes. Se vocês lutarem do meu jeito, vão anular completamente a vantagem deles. E, se não querem lutar do meu jeito, podem chupar rochas quentes e se tornar fazendeiros de algas.
Com isso, ele nos jogou no treino. E eu não reclamei. Depois de várias semanas praticando o que parecia ser um monte de curvas extravagantes, eu estava ansiosa para fazer alguma coisa que parecesse um pouco com um combate de verdade.
Cada um de nós recebeu uma nave Krell voando em um padrão simples. Nossa tarefa era nos aproximar em dupla, voando exatamente a cinquenta e cinco metros de distância. Devíamos interceptar o percurso da nave Krell, enquanto um de nós acionava o PIM. Então, parávamos e fazíamos um exercício de reativação rápida.
Não íamos abater os Krell. Apenas praticávamos o PIM no escudo deles, uma vez e mais outra. E mesmo com as naves Krell voando em padrões simples, era muito difícil. Tínhamos que chegar tão perto que parecia que íamos bater direto nelas. Acontece que cinquenta metros já estava no limiar de uma passagem confortável. As primeiras vinte vezes, mais ou menos, eu me afastei rápido demais e o PIM derrubou meu escudo, mas não o do inimigo.
Passar correndo. Ativar o PIM. Desviar. Reativar.
Repetir.
— Sabe — Nedd disse enquanto voávamos —, eu adoraria abater um desses malditos.
— Não extrapole, Nedder — Cobb falou em nossos ouvidos. — Hoje, o exercício é para derrubar os escudos deles. Só isso.
— Mas...
— Vamos destruí-los mais tarde. Nos próximos dias, vamos nos concentrar em estratégias básicas de PIM.
Nedd suspirou na linha do grupo.
— Alguns dias fazendo só isso? Mais alguém acha essa ideia um tédio?
Alguns dos outros concordaram, mas eu não. Cada momento voando, mesmo na simulação, era uma alegria. Essa explosão de velocidade, essa precisão... isso era liberdade.
Eu lembrava melhor do meu pai quando voava. A fagulha de ansiedade em seus olhos, a inclinação de sua cabeça olhando para o céu – e querendo voltar para lá. Cada vez que eu voava, eu partilhava algo novo com ele, algo pessoal.
Nedd e eu fizemos mais algumas vezes a manobra do PIM, e, estranhamente – na minha vez –, a nave Krell saiu do lugar e me obrigou a persegui-la com mais ímpeto. Esse não era um exercício normal, era um desafio. Quando por fim eu consegui usar o PIM, descobri que estava com a respiração pesada, mas sorrindo com a emoção daquilo.
— Me diga que não foi divertido — disse na linha particular para Nedd. Olhei para onde ele voava, ao meu lado, o holograma reproduzindo-o, com capacete e tudo. Ele era um pouco bruto, grandalhão, com um rosto que parecia grande demais para a cabeça. Eu não podia imaginar como era se espremer naquele cockpit quando se tinha cento e noventa e três centímetros, como ele.
— Divertido é sentar em casa — ele respondeu —, com os pés para cima, desfrutando de uma caneca com alguma coisa quente. Isso tudo é demais para a minha cabeça.
— Ah, por favor — eu disse. — Não me venha com essa, Nedd.
— O quê? — ele perguntou. — Sou só um cara normal.
— Que cresceu nas cavernas profundas?
— Na verdade, eu cresci aqui, em Alta.
— Sério? — perguntei, surpresa.
— Sim. Fui para a escola com Jorgen e Arturo lá embaixo, mas meus pais continuaram no pomar.
— Então você não é só um cara normal — comentei. — Você estudou com a elite e seus pais se voluntariaram para fazer o trabalho mais difícil em Detritus. Além disso, quantos irmãos você tem que são pilotos?
— Não sei — ele confessou. — Não consigo contar.
— Você faz a pior imitação de bobalhão que já vi.
— Nesse caso, nem isso consigo fazer direito — ele falou. — Uma prova extra, certo?
Revirei os olhos e nos preparamos para outra corrida. Nedd parecia determinado a fingir que era algum tipo de grande idiota. Mas ele exagerava, provavelmente de propósito. Nem as pedras eram tão estúpidas quanto Nedd algumas vezes.
No campo de batalha, Arrojada e Kimmalyn passaram rápido por uma nave Krell. Arrojada acionou seu PIM no momento certo, mas Kimmalyn não só estava voando perto demais – e foi pega na explosão também – como entrou em pânico quando seu escudo caiu e desviou de lado, o que a fez esmagar sua nave contra a nave Krell.
Eu estremeci. Já fazia um tempo desde que um de nós cometera um erro tão gritante. Nedd assobiou devagar e depois ligou o comunicador.
— Bela explosão, Flácida. Sete de dez. Tente rodar seus destroços um pouco mais, na próxima vez que cair.
— Que as estrelas o abençoem — ela murmurou, o que era praticamente um xingamento vindo de Kimmalyn.
— Ei! — Nedd exclamou.
— Você não deveria provocá-la — falei para ele na linha particular. — Ela está se esforçando muito.
— Todo mundo precisa de alguém com quem explodir, até ela. Especialmente ela. Ela é tão tensa de vez em quando. Acho que até fecha o cinto dois furos mais apertado do que deveria.
— É só que ela é de uma caverna diferente — comentei. — Sua cultura a faz mais educada.
— Ela está nervosa — ele insistiu. — Ela sabe que é a nossa pior piloto. Ignorar isso só a deixará mais nervosa. Acredite em mim.
Hum.
— E o que você acha de Arrojada?
— Ela é boa — ele afirmou. — Mas não tão boa quanto pensa que é. — Ele ficou em silêncio por um instante. — Ela costumava fingir que tudo isso era um jogo. Ela foi atleta, sabia?
— Tipo, atleta de verdade?
— Sim. Jogadora de digball. Na posição de carregadora, uma das melhores da liga estudantil. Parece que tudo é uma competição para ela, mas aí perdemos Bim e Alvorecer, e agora ela está bem quieta. Ela não sabe como reagir agora que viu que voar não é um jogo.
— Achei que você tinha dito que era estúpido.
— Estúpido como uma rocha gelada.
— E essa análise inspirada de seus companheiros?
— Estou só jogando conversa fora. Dizendo o que me vem à mente, sabe? Você tem sorte se alguma coisa do que falo fizer sentido. Em geral, são só grunhidos.
— Ah, por favor.
Fizemos mais alguns exercícios, durante os quais Nedd fez alguns barulhos como grunhidos. Sério, eu não sabia dizer se ele era infantil ou um brincalhão... ou, bem, certamente ele era um pouco dos dois. Ou talvez fosse outra coisa também?
Depois de um tempo, Cobb nos pediu para entrar em posição enfileirada, depois fazer corridas um de cada vez, para que ele pudesse analisar e nos dar instruções específicas sobre como melhorar. E, embora eu gostasse daquilo, fiquei feliz com a pausa – era um trabalho pesado.
Observei cada uma das corridas solo, e estávamos realmente começando a parecer pilotos de verdade. O jeito como Arrojada virou depois que desviou dos Krell era impressionante. E ainda que FM pudesse ser muito cuidadosa, seu voo tinha uma precisão inspiradora.
Kimmalyn fez seu voo solo na sequência e conseguiu acionar o PIM contra os Krell. Eu sorri e a chamei quando ela voltou.
— Ei — falei na linha particular. — Bom trabalho!
— Eu não bati em ninguém — ela comentou. — Então, foi novidade.
— Você quase nunca bate.
— Eu quase nunca me dou bem, tampouco.
— Todos temos talentos. O seu é girar a distância. O meu é xingar as pessoas.
— Xingar as pessoas? Você quase nunca...
— Cale a boca, panaca.
Ela deu uma risadinha, o que me fez sorrir. Talvez Nedd estivesse certo. Talvez ela precisasse de uma oportunidade de vez em quando de descarregar.
— Agora, querida — Kimmalyn disse —, longe de mim criticar alguém. Mas dificilmente isso foi um xingamento criativo. Tenho ouvido essa palavra, ah, todos os dias desde que deixei a Caverna Abundante! De onde eu vim, você precisa ser circunspecta.
— Qual é a vantagem nisso?
— Bem, você não pode deixar que as pessoas percebam que você as está depreciando. Isso seria vergonhoso!
— Então você insulta as pessoas sem insultá-las?
— É o nosso jeito. Mas não se preocupe se isso não faz sentido para você... pessoalmente. Eu acho inspirador que você fique confortável em ser como é. Deve ter lhe dado tantas chances de aprender lições de vida!
— Isso é... hã... — Sorri. — Gosto disso.
— Obrigada.
Nossa linha crepitou e a voz desagradável do Babaca surgiu.
— Flácida, Spin, vocês duas estão vendo a performance da Arrojada? Deviam estar prestando atenção.
— Estou vendo — repliquei.
— Ótimo. Porque do meu ponto de vista, parecia que estavam só batendo papo e dando risadinhas.
— Jorgen — Kimmalyn respondeu —, só quero que saiba como você é considerado como líder de voo. Como a Santa é boa e justa, tenho certeza de que você será recompensado com tudo o que merece na vida!
— Obrigado, Flácida. Fiquem atentas. Jorgen, câmbio, desligo.
Observei até que a luz indicando que ele estava na linha se apagou, então irrompi em uma gargalhada.
— Essa foi a coisa mais gloriosa que já ouvi em toda minha vida.
— Bem — Kimmalyn falou —, você é conhecida por ser um pouco dramática às vezes, mas suponho que eu posso aceitar o elogio. — Ela saiu voando para outra corrida, já que Cobb queria treinar o jeito como ela usava o propulsor.
— É quase como se ela não pertencesse a este lugar — sussurrei para mim mesma. — Como se ela fosse boa demais para nós, e não fosse boa o suficiente ao mesmo tempo...
— Isso é contraditório — a voz de M-Bot falou em meu ouvido. — Tão perfeitamente humano.
— Sim — respondi, e então endireitei o corpo. — M-Bot?
— Sim?
— M-BOT!
— Não que eu me importe que gritem comigo, já que as minhas emoções são sintéticas, mas você se importaria...
— Como? — perguntei. Eu me encolhi em meu assento, sussurrando baixinho. — Os outros podem ouvi-lo?
— Eu me infiltrei em suas linhas e enviei as minhas comunicações diretamente para o seu capacete — ele explicou. — Seus emissores de comunicação sem fio me dão um ponto focal para isolar você.
— Meus o quê?
— Na sua mochila. Acho que deixou perto do seu assento.
O rádio pessoal que Cobb havia me dado.
— Como você disse, os métodos de comunicação do seu povo são bem primitivos — M-Bot prosseguiu. — O que achei curioso, já que o resto de sua tecnologia, exceto pela falta de inteligências artificiais brilhantes, parece relativamente similar à minha. Bem, e vocês tampouco têm hiperdrives citônicos. E técnicas de documentação adequadas de fungos. Então, eu imagino que estão atrasados em todas as áreas importantes.
— Eu pensei que você estivesse preocupado em ser descoberto! — sussurrei. — Por que está falando comigo aqui?
— Sou uma nave furtiva, Spensa — ele lembrou. — Sou totalmente capaz de invadir linhas de comunicação sem me expor. Mas, devo avisá-la, eu não confio nessa sua FDD.
— E com razão — falei, com honestidade. — Mas confia em mim? Mesmo depois de ter mentido para você?
— Você me lembra de alguém que esqueci.
— Isso... é meio contraditório, M-Bot.
— Não, não é. Eu disse, e sou cem por cento racional.
Revirei os olhos.
— É chamado de lógica — ele aguardou um instante, e acrescentou baixinho. — Sou superbom nisso.
Adiante, Kimmalyn terminou sua corrida com a nave Krell escapando. Ela não chegou a disparar o PIM.
Mas ela podia ter atirado naquela coisa no ar, pensei, irritada, em sua defesa. Presumindo que o escudo tivesse caído.
Cobb continuava a dizer que precisávamos dos fundamentos e suponho que aquilo fazia sentido. Mesmo assim, não parecia justo. Tipo... não a estávamos usando em seu máximo.
— Spin — Cobb me chamou. — Você é a próxima.
— Próxima para quê? — M-Bot me perguntou. — O que estamos fazendo? Não tenho transmissão de vídeo. Só de áudio.
— Estamos voando — sussurrei. Em seguida, acionei meu propulsor e voei em direção aos detritos holográficos, constantemente renovados com novos detritos que caíam do céu acima de nós.
Meu alvo apareceu, uma nave Krell voando por entre pedaços de lixo. Eu me inclinei e saí em perseguição, em velocidade máxima, pelos destroços. Quase perto o bastante...
Uma luz começou a piscar em meu painel. Eu estava sendo seguida? Como? Supostamente esse deveria ser um exercício solo, um contra um. Aparentemente, Cobb pretendia tornar isso mais difícil para mim.
Que fosse.
Rodei a nave em uma evasiva giratória enquanto meu perseguidor começava a disparar seus incineradores. Minha manobra me salvou, mas permitiu que o alvo se afastasse de mim. Não, você não vai escapar, pensei, acionando velocidade máxima e correndo atrás dele, realizando uma curva bem rápida e ganhando terreno. O perseguidor colou em mim e continuou a disparar.
Levei um tiro que quase sobrecarregou meus escudos. Mas eu me concentrei na nave da frente, que mergulhou para baixo. Então, desliguei o anel de aclive e aumentei a velocidade, despencando em um mergulho de revirar as entranhas. Luzes piscavam no meu painel de controle para avisar que, sem o anel de aclive, nada me impediria de cair direto no chão.
— Não sei com quem está lutando — M-Bot comentou. — Mas esses bipes de alerta indicam que você não está indo muito bem.
Para acompanhar suas palavras, a linha no alto do meu dossel avisou que eu acabara de sobrecarregar minhas cápsulas de gravidade, e o indicador de força g começou a piscar vermelho. Em uma nave de verdade, eu seria atingida com todas aquelas forças g, o que – em um mergulho – empurraria o sangue para minha cabeça e me faria começar a desmaiar.
— Tente não morrer — M-Bot observou. — Eu não quero ficar sozinho com Rodge. Ele é chato.
Passei raspando por outro pedaço de metal que caía, ardente – fagulhas saíram do meu escudo, fazendo-o se iluminar e crepitar com a energia. Despistei a nave que me seguia, deixando-a bem para trás, mas não estava perto o bastante da que ia à minha frente.
Não dá para continuar mergulhando, pensei. Estamos nos aproximando do solo.
Rangi os dentes, depois prendi uma lança de luz a um pedaço de detrito bem quando meu alvo foi para o lado e voou para cima novamente. Girei a nave ao redor do detrito, em seguida reiniciei meu anel de aclive e acionei a velocidade máxima. A manobra me fez rodar em um círculo completo e disparar para cima, bem atrás da nave Krell.
Disparei meu PIM e a linha piscando no dossel ficou completamente vermelha.
— Rá! — falei pela linha do grupo. — Seus filhos vão chorar esta noite, seu bastardo holográfico Krell!
— Sério, Spin? — FM perguntou. — Está dizendo isso de maneira irônica, certo?
— A ironia é a arma de um covarde! — respondi. — Como veneno. Ou os incineradores na nave do Babaca.
— Um covarde não usaria, tipo, uma bomba bem grande? — FM perguntou. — Algo que desse para lançar de longe? Parece que você tem que chegar bem perto para usar o veneno.
— Como nosso especialista residente — Nedd comentou —, eu gostaria de destacar que a verdadeira arma do covarde é um sofá confortável e uma pilha de livros razoavelmente divertidos.
— Mesmo assim, você morreu, Spin — o Babaca disse, levando sua nave para perto da minha. — Entrou na linha vermelha, o que possivelmente causou danos permanentes em sua retina. Se estivesse em uma batalha de verdade, sem dúvida ficaria incapacitada... e sua nave trabalharia sem escudo. Você estaria morta em alguns instantes, graças ao Krell seguindo você.
— Não importa — respondi, curtindo ver como ele parecia ofendido. Será que ele estava realmente se sentindo ameaçado com a minha destreza? — Minha tarefa era derrubar o escudo do alvo, o que eu fiz. Meu perseguidor era irrelevante: as ordens de Cobb eram para usar o PIM naquele alvo.
— Você não pode ficar trapaceando nas simulações — o Babaca disse. — Vai ser inútil no campo de batalha.
— Não estou trapaceando nada. Estou ganhando.
— Como queira — ele desistiu. — Pelo menos você não jogou a nave contra a minha desta vez. Que as estrelas ajudem a pessoa que estiver entre Spin e suas tentativas de se exibir diante de todo mundo.
— O quê? — falei, quase rosnando de irritação. — Seu...
— Chega de conversa fiada — Cobb interrompeu. — Spin, foi um bom voo. Mas Jorgen está certo. No fim, você falhou por ter se deixado ser morta.
— Eu não disse? — o Babaca perguntou.
— Mas... — tentei falar.
— Se vocês têm tempo para discutir — Cobb interrompeu mais uma vez —, é óbvio que não estão trabalhando duro o bastante. Todos vocês, façam três séries de exercícios em formação gama-M antes do jantar. Jorgen, assegure-se de que isso aconteça.
— Espere — Kimmalyn disse —, você vai embora?
— Claro que sim — Cobb respondeu. — Eu não vou chegar atrasado ao jantar. Cobb, câmbio, desligo.
— Ótimo — Arrojada comentou. — Obrigada por nada, Spin.
Espere, ela não podia me culpar pelo trabalho extra, em vez de culpar o Babaca, podia? Ele nos organizou em formação gama-M, um tipo de exercício de voo monótono. Foram só dez minutos, mas eu passei o tempo todo agitada, ficando cada vez mais frustrada. Até ignorei M-Bot quando ele tentou falar comigo.
Assim que acabamos, tirei meu capacete, ignorando a ordem do Babaca para formação e confirmação vocal. Eu só... precisava de um tempo. Um momento para mim mesma. Limpei o suor do rosto, empurrando o cabelo que estava grudado na testa por causa do capacete.
Inspirar. Expirar.
Meu cockpit holográfico desapareceu.
— O que você está fazendo? — o Babaca exigiu saber, levantando-se ao lado do meu assento. — Você tirou o capacete? Eu mandei que todos se alinhassem.
— Eu só preciso de um minuto, ok? Deixe-me em paz.
— Você está desobedecendo ordens!
Ah, caramba. Eu não podia lidar com ele agora. Estava envergonhada, exausta e cada vez mais zangada. Fora uma longa sessão de treino.
— E aí? — o Babaca perguntou, assomando-se sobre mim. Ali perto, os outros desligaram seus hologramas e se levantaram, espichando-se.
Meu rosto gelou. E comecei a sentir que estava perdendo o controle.
Calma, Spensa. Você precisa ficar calma. Contive a raiva e me levantei. Precisava sair daquela sala.
— O que você tem a dizer? — o Babaca exigiu saber. — Por que continua negando a minha autoridade?
— Que autoridade? — repliquei, pegando a minha mochila e caminhando em direção à porta.
— Vai fugir? — o Babaca perguntou. — Que apropriado.
Parei no lugar.
— Acho que devemos esperar insubordinação da filha de Zeen Nightshade — ele comentou. — Sua família não tem exatamente uma reputação de obedecer às ordens, não é?
Meu rosto gelou. O calor ardia dentro de mim.
Já chega.
Dei meia-volta devagar, então voltei até onde o Babaca estava e soltei minha mochila.
Ele olhou para mim com desdém.
— Você...
Eu me apoiei sobre um joelho e dei um soco bem no joelho dele. Ele arfou e, quando se encolheu de dor, eu me ergui e acertei o cotovelo em seu estômago. O jeito como ele gemeu foi bom, atingindo algo primitivo dentro de mim.
Meu cotovelo tirou o fôlego dele, impedindo-o de gritar. Então, enquanto ele estava surpreso, enganchei meu tornozelo ao redor do dele e o fiz cair de costas no chão.
Ele era maior do que eu. Se conseguisse se recuperar, me dominaria, por isso saltei sobre ele e ergui o punho fechado, pronta para socar aquela cara estúpida.
Então parei, tremendo. Furiosa. Mas de certo modo também calma e fria, como eu ficava quando lutava contra os Krell. Tipo, eu estava no controle absoluto, mas, de algum modo, também completamente fora de controle.
O Babaca me encarou, imóvel, parecendo completamente chocado. Aquele rosto estúpido dele. Aquele desprezo. Era assim que todos eles falavam de mim. Era o que todos eles pensavam de mim!
— Opa! — Nedd gritou. — Caramba!
Fiquei ajoelhada em cima do Babaca, tremendo, com a minha mão levantada.
— É sério, uau! — Nedd exclamou, ajoelhando ao nosso lado. — Spin, isso foi incrível. Você pode me ensinar isso?
Olhei para ele.
— Não aprendemos combate corpo a corpo — ele disse, fazendo uns movimentos de socos. — Cobb diz que é inútil, mas e se um Krell tentar, você sabe, pular em mim em um beco ou algo do tipo?
— Ninguém jamais viu um Krell vivo, seu idiota — Arrojada comentou.
— Sim, mas e se for porque, tipo, eles sempre pulam em pessoas nos becos? Já pensou nisso?
Olhei novamente para o Babaca. De repente, consegui ouvir a minha própria respiração entrecortada.
— Spin — Nedd falou —, está tudo bem. Você estava só demonstrando alguns movimentos de luta corpo a corpo, certo? Como conseguiu fazer isso? Você é, tipo, metade do tamanho de Jorgen.
Calma. Respira.
— Metade do tamanho? — Arturo perguntou. — Devo observar que isso a deixaria com menos de um metro de altura? Sua matemática é suspeita.
Saí de cima do Babaca, que soltou um suspiro e ficou mole. FM parecia horrorizada, enquanto Nedd me fazia sinais de positivo com os polegares. Arturo balançava a cabeça. Kimmalyn estava parada, com a mão na boca, enquanto Arrojada... Eu não conseguia analisar Arrojada. Ela estava com os braços cruzados e me observava, pensativa.
Jorgen cambaleou até ficar em pé, com a mão no estômago.
— Ela bateu em um superior. Ela atacou outro membro da esquadrilha!
— Ela extrapolou um pouco, sim — Nedd observou. — Mas, quero dizer, você pediu por isso, Jorgen. Nenhum dano permanente, certo? Não podemos simplesmente esquecer tudo isso?
Jorgen me olhou e sua expressão endureceu.
Não. Aquilo não seria esquecido. Eu tinha me metido em uma encrenca séria desta vez. Encontrei seus olhos e, então, por fim, peguei minha mochila e fui embora.
OceanofPDF.com