Skyward: Conquiste as Estrelas

Brandon Sanderson · Capítulo 58 de 60

Páginas do PDF

Skyward: Conquiste as Estrelas

Capítulo 54

 

Naquele instante, entre duas batidas do coração, eu senti que entrava em algum lugar escuro. Não só um lugar negro, um lugar de não existência. Onde a matéria não existia, ou não poderia existir.

Naquele instante, entre duas batidas do coração, de algum modo eu deixei de ser, ainda que não deixasse de sentir. Um campo branco apareceu ao meu redor – um bilhão de estrelas. Como olhos que se abriam todos de uma vez, brilhando sobre mim.

Coisas antigas se agitavam. E, naquele instante, entre duas batidas do coração, eles não só me viram, mas me reconheceram.

Fui arrancada daquele lugar que não era um lugar e senti como se fosse arremessada em meu cinto de segurança, como se tivesse sido atirada fisicamente de volta ao cockpit. Engasguei, com o coração acelerado e o suor escorrendo pelo meu rosto.

Minha nave flutuava, tranquila e em silêncio, enquanto luzes piscavam no painel de controle.

— Hiperdrive citônico: inativo — M-Bot disse.

— O que... — eu disse, lutando pra recuperar o fôlego. — O que foi aquilo?

— Eu não sei! — ele respondeu. — Mas meus instrumentos nos colocam a... calculando... cem quilômetros do ponto de detonação. Uau. Meu cronômetro interno não indica discrepância entre nosso tempo e o tempo solar, então não experimentamos dilatação temporal, mas de alguma forma viajamos essa distância quase instantaneamente. Mais rápido do que a luz, certamente.

Eu me recostei em meu assento.

— Chame Alta. Estão em segurança?

O canal se abriu e ouvi exclamações e gritos – levei um momento para distinguir que eram de alegria, não de terror.

— Base Alta — M-Bot chamou. — Aqui é Celeste Onze. Vocês podem começar a nos agradecer por salvá-los da completa aniquilação.

— Obrigado! — Algumas vozes gritaram. — Obrigado!

— Cogumelos são a oferta preferida — M-Bot disse para eles. — O máximo de variedade que conseguirem coletar.

— Sério? — perguntei, tirando o capacete para secar a testa. — Ainda com a coisa dos cogumelos?

— Eu não apaguei essa parte da minha programação — ele me contou. — Gosto dela. Me dá algo para colecionar, do mesmo jeito que os humanos resolvem acumular itens inúteis de valor sentimental e temático.

Sorri, mas não conseguia me livrar da sensação assustadora daqueles olhos me observando. Aquelas... coisas sabiam o que eu tinha feito e não gostaram. Talvez houvesse uma razão para que as habilidades mais rápidas do que a luz de M-Bot estivessem desativadas.

Aquilo levantava uma questão, claro. Poderíamos fazer de novo? A Vozinha dissera que sua mãe era o motor da Desafiadora. Que ela fazia a nave funcionar.

A resposta é não temer a fagulha, mas aprender a controlá-la.

Olhei para cima, na direção do céu.

E ali, eu vi um buraco. Os detritos se movendo bem naquele momento para revelar as estrelas. Exatamente como naquele dia em que estive com meu pai. Minha primeira vez na superfície.

Parecia significativo demais para ser coincidência.

— Spensa — M-Bot disse. — A almirante está tentando contatá-la, mas você está sem o capacete.

Distraída, coloquei o capacete novamente, ainda encarando aquele buraco nos detritos. Aquele caminho para o infinito. Será que eu conseguiria... ouvir algo vindo de lá? Chamando-me?

— Spensa — a almirante falou. — Como você sobreviveu à explosão?

— Não tenho certeza — respondi com sinceridade.

— Suponho que terei que perdoar seu pai agora — ela disse.

— Você acaba de sobreviver a uma explosão de uma destruidora de vida por poucos metros — comentei —, e tudo em que consegue pensar é nesse ódio antigo?

A almirante ficou em silêncio.

Sim. Eu... eu podia ouvir as estrelas.

Venha até nós.

— Spensa — ela continuou. — Você precisa saber algo sobre seu pai. Sobre aquele dia. Nós mentimos, mas para seu próprio bem.

— Eu sei — respondi, acionando os controles e virando o anel de aclive da nave na articulação, de modo a apontá-lo para baixo. Minha nave virou e o nariz ficou apontado para cima. Na direção do céu.

— Retorne à base — a almirante mandou. — Volte para as honras e celebrações.

— Voltarei. Em algum momento.

Suas cabeças são cabeças de rocha, seus corações estão debaixo de pedra.

— Spensa. Há um defeito dentro de você. Por favor. Você precisa voltar. Cada instante que passa no céu é um perigo para você e para todos os demais.

Seja diferente. Concentre-se em algo maior.

— Minha nave não tem incineradores — comentei, distraída. — Se eu voltar louca, você deve ser capaz de me abater.

— Spin — Ironsides disse, com a voz aflita. — Não faça isso.

Algo mais grandioso.

— Adeus, almirante — eu disse, desligando o comunicador.

Então acionei a aceleração máxima, disparando para cima.

Conquiste as estrelas.

OceanofPDF.com