Skyward: Conquiste as Estrelas
Capítulo 32
Cheguei ao complexo da FDD suja, suada e sem fôlego. Felizmente, minhas caminhadas diárias indo e vindo da caverna foram boas substitutas para o treinamento físico, por isso eu estava razoavelmente em forma. Os guardas do portão acenaram para que eu entrasse, e me obriguei a correr novamente. Parei no vestiário perto da plataforma de lançamento e coloquei meu traje de voo.
Saí em disparada pela porta, correndo para minha nave. Meu Poco estava lá sozinho. Há muito a nave de Nedd fora designada para outra esquadrilha e todos os outros já estavam no ar. O som fraco da artilharia antiaérea pipocando a distância e as faixas ardentes de detritos caindo indicavam que o campo de batalha estava perigosamente perto do perímetro defensivo de Alta.
De repente minha fadiga foi sobrepujada por um pico de preocupação. Uma piloto estava subindo no cockpit da minha nave.
— Espere! — gritei. — O que está fazendo? Essa nave é a minha!
O piloto hesitou, olhando para a equipe de solo que havia preparado a nave. Um deles assentiu.
O piloto desceu lentamente da escada.
— Você está atrasada — Dorgo, um homem da equipe de solo, disse. — A almirante ordenou que todas as naves desocupadas fossem dadas aos reservas.
Meu coração martelava dentro do peito enquanto a mulher, relutante, descia e tirava o capacete. Tinha pouco mais de vinte anos e uma cicatriz proeminente na testa. Ela me fez sinal de positivo com o polegar, mas não disse mais nada enquanto seguia em direção aos alojamentos da tripulação.
— Quem é essa? — perguntei baixinho.
— Codinome: Vigor — Dorgo respondeu. — Ex-cadete que foi abatida um pouco antes de se formar. Era boa o bastante para que a almirante a admitisse na lista de reserva.
— Ela ejetou? — questionei.
Dorgo assentiu.
Subi a escada e peguei meu capacete de Dorgo, que subiu atrás de mim.
— Dirija-se para 110-75-1800 — ele falou, apontando na direção do campo de batalha. — A menos que alguém lhe diga outra coisa. É onde disseram para a sua esquadrilha manter posição. Avisarei ao Comando de Voo que você partiu.
— Obrigada — disse, colocando o capacete e prendendo o cinto de segurança.
Ele me fez sinal de positivo com o polegar, desceu e tirou a escada. Outro membro da equipe de solo acenou com uma bandeira azul assim que todos estavam afastados, em segurança.
Acionei o anel de aclive e ergui minha nave. Mil e oitocentos era uma altura baixa para a batalha – em geral treinávamos ao redor de trinta mil. Senti como se estivesse raspando no chão enquanto seguia na direção indicada.
— Celeste Dez — falei, apertando o botão para chamar Jorgen — reportando. Codinome: Spin.
— Você conseguiu? — Jorgen respondeu. — Nos disseram que iam mandar uma reservista.
— Foi uma convocação em cima da hora — comentei. — Mas eu os convenci de que era a única capaz de amolar você o suficiente. Estão lutando?
— Não — ele respondeu. — A almirante nos mandou manter posição perto de um dos canhões antiaéreos. 110-75-1800. Spin, é bom ter você conosco, com a amolação e tudo o mais.
Levei quase dez minutos para alcançar a posição, onde vi os outros cinco membros da minha esquadrilha pairando entre duas grandes colinas. Desacelerei com uma aceleração reversa e entrei em posição como companheira de voo de Arrojada. Atrás de nós, um imenso canhão antiaéreo, maior do que o edifício da escola de voo, esquadrinhava o ar em busca dos Krell se aproximando. Uma série de armas menores brotava da base, prontas para disparar em naves que estivesse voando baixo.
Uma rodada de saudações dos demais me acolheu. Eu mal conseguia distinguir alguns clarões no céu para marcar o campo de batalha. O canhão antiaéreo, no entanto, lançou um disparo ribombante atrás de nós, sacudindo meu Poco. Bem acima da minha cabeça, um pedaço maior de detrito explodiu em uma chuva de faíscas e poeira.
— Então — Arrojada falou em meu ouvido —, quantas mortes vai conseguir hoje, Spin?
— Bem... o recorde em uma única batalha é do codinome Dodger. Doze mortes diretas, nove assistências. Imagino que seria arrogante tentar bater isso. Então vou tentar igualá-lo.
Eu esperava uma risada em resposta, mas Arrojada pareceu séria quando disse:
— Doze, nove? Não parece tanto.
— Considerando que a maioria das forças de ataque dos Krell tem em torno de trinta naves?
— Hoje temos setenta e cinco — Arrojada destacou. — É fácil escolher, se a FDD realmente nos deixar lutar. — Ela avançou um pouco sua nave com os propulsores de manobra e eu a segui.
— Onde vocês duas pensam que vão? — Jorgen perguntou.
— Só estamos tentando conseguir uma visão melhor do campo de batalha — respondi.
— Sim, deixem disso. Voltem à formação. Nossas ordens são para manter posição.
Obedecemos, mas eu estava me coçando para entrar na batalha. Sentar e esperar ali fazia com que o cansaço distraísse a minha atenção.
— Vamos chamar Cobb — sugeri. — Ver se podemos mandar um par de caças para explorar a área.
— Tenho certeza que a FDD tem batedores atuando em campo — Jorgen disse. — Mantenha posição, Spin.
— Ei, Arturo — FM falou na linha. — A que distância você acha que está a batalha principal?
— Você está me perguntando? — ele questionou.
— Você é o esperto.
Houve silêncio na linha por um instante.
— E aí? — FM perguntou.
— Ah! — Arturo exclamou. — Desculpe. Eu estava apenas... bem, esperando que Nedd fizesse uma piada. Acho que ainda é meu instinto. Eu posso calcular a distância exata para você. — Uma luz piscou no nosso console de comunicação. — Ei, Cobb. A que distância está a luta?
— Cerca de cinquenta quilômetros — Cobb respondeu. — Fiquem atentos, cadetes. A Esquadrilha Vitória está quase fora das cavernas e eles vão liberar vocês assim que chegarem. — A luz apagou.
— Grande cálculo, Anfi — FM falou pra Arturo.
— Considero uma marca da verdadeira inteligência perceber quando outra pessoa já fez o trabalho por você — ele comentou. — Isso seria um bom ditado, certo, Flácida? Vai usar de vez em quando?
— Hum... que as estrelas os abençoem.
— Isso não é justo — Arrojada reclamou. — Devíamos estar lutando. Quase não somos mais cadetes e estou cansada de simulações. Certo, Spin?
Bem ao longe, clarões de luz marcavam onde homens e mulheres estavam morrendo. Amigos perdidos, como os que eu perdera.
Eu odiava essa preocupação rastejante, insidiosa que de algum modo se infiltrara em meu coração. Essa hesitação, esse medo. Estava mais forte hoje, provavelmente porque eu estava cansada. Talvez se eu pudesse entrar na luta, poderia me provar... provar para mim mesma.
— Sim, Arrojada está certa — respondi. — Devíamos estar matando Krell, não matando tempo.
— Fazemos o que nos foi ordenado — Jorgen disse. — E não discutimos com nossos comandantes. Acho notável afirmarem que quase já não são mais cadetes, quando têm dificuldade em entender algo tão fundamental quanto estrutura de comando.
Mordi o lábio e senti meu rosto ficar quente de vergonha. Ele estava certo. Babaca estúpido.
Eu me obriguei a aguardar nossos substitutos. Era uma das esquadrilhas reserva, que ficava acomodada – caças estelares e tudo o mais – nas cavernas profundas. Era um equilíbrio cuidadoso; não podíamos arriscar que uma explosão aniquilasse toda a FDD destruindo Alta. Mas qualquer nave com a qual não tivéssemos contato imediato levava um tempo para ser retirada pelos elevadores de veículos.
Depois de um tempo, a linha de Cobb se acendeu. Sufoquei um suspiro. Verdade seja dita, não estávamos em forma para lutar hoje – não depois do longo tempo de treinamento. Eu me preparei para dar meia-volta e ir embora.
— Esquadrão Krell — Cobb disse. — Oito naves.
O quê?
— Dirigindo-se para 125-111-1000 — Cobb continuou. — Um dos nossos pares de batedores os localizou esgueirando-se em baixa altitude. Líder de voo, seus reservas ainda estão de cinco a dez quilômetros de distância. Vocês terão que lutar.
Lutar.
— Entendido, Comando de Voo — Jorgen respondeu.
— São interceptadores-padrão Krell. É o máximo que os batedores puderam ver — Cobb informou. — As ordens da almirante são para que se aproximem, confirmem visualmente que não há um bombardeiro entre eles. Então, destruam ou afastem qualquer caça. Os canhões antiaéreos ficarão em stand-by; atirar em combate é uma boa maneira de matar nossos próprios pilotos. Mas se conseguirem atingir qualquer caça que escape de vocês com o PIM, as pequenas armas antiaéreas podem cuidar dele. E se puderem atrair qualquer inimigo suficientemente para o alto, a arma maior pode conseguir atingi-lo — Cobb fez uma pausa. — Estou ligando suas naves no comunicador geral da batalha. Boa sorte, cadetes. Ouçam o líder de voo; lembrem-se do treinamento. Isso é de verdade.
A luz se apagou.
— Finalmente! — Arrojada comemorou.
— Quero uma formação ampla de varredura — Jorgen disse. — Ouviram a direção. 125-111-1000. Isso vai ser bem perto do chão. Observem a sua elevação relativa. Vamos lá!
Entramos em formação ampla, segundo os pares de companheiros de voo. Arrojada e eu, Jorgen e Arturo, FM e Kimmalyn. Aceleramos pelo espaço entre os dois picos, dando a volta para leste, seguindo a direção indicada. Conseguimos visualizá-los quase imediatamente – oito naves Krell voando em forma de U.
— Estamos com você, líder de voo — uma voz de mulher falou no canal geral. — Classe Val. Ranger Sete, codinome: Capa.
— Ranger Oito, codinome: Sublinhado — uma voz masculina acrescentou.
Classe Val. Deviam ser as duas naves batedoras; eu ainda não conseguia vê-los, mas eles se juntaram à luta conosco.
Minha fadiga sumiu diante daquela excitação. Estava acontecendo. Uma batalha de verdade. Não uma luta acidental, mas ordens de verdade para derrubar um esquadrão inimigo.
— Obrigado pela ajuda, batedores — Jorgen disse, agradecendo. — Recebemos ordens para conseguir confirmação visual sobre a existência de um bombardeiro entre esses caras. Dupla Ranger, quero que coordenem isso com o Comando de Voo. Meus Pocos vão fazer uma formação de dispersão e tentar separar o inimigo em indivíduos. Concentre sua atenção em garantir que identifiquemos cada nave.
— Confirmado — Capa falou.
— Tudo bem, equipe — Jorgen prosseguiu. — Acelerem até Mag-3, e assim que os encararmos, reduzam para velocidade de combate aéreo. Todos livres, escolham o que puderem, e observem seu companheiro de voo — ele suspirou. — Que as estrelas protejam vocês.
— E você, líder de voo — Arturo respondeu.
Os dois pareciam preocupados. Minha determinação vacilou. O que eu odiava. Eu não me tornaria uma covarde.
— Vão! — Jorgen comandou.
— Eba! — Arrojada gritou e acionou a aceleração máxima.
Eu a segui, rasgando pelo céu em uma aceleração súbita em direção ao inimigo. Exatamente como nas simulações, os Krell se espalharam quando foram enfrentados diretamente. Eles não se preocupavam em cobrir os companheiros de voo; contavam com suas naves superiores para compensar a nossa coordenação superior.
Colei na traseira esquerda de Arrojada. Saímos da aceleração máxima quando alcançamos alta velocidade e viramos à direita, escolhendo uma nave Krell específica como alvo. Seguimos por uma queda de detritos, mas eram basicamente pedaços menores queimando sobre nossas cabeças. Um pedaço ocasional de tamanho médio caía ao nosso lado deixando um rastro de fumaça, mas nenhum deles era grande o bastante para manobras com lanças de luz.
Reduzimos para a velocidade de combate aéreo e começamos a seguir nosso alvo. Eu fiquei longe o bastante para me manter fora do alcance se Arrojada acionasse seu PIM. Os dois caças classe Val – projetados para varrer naves furtivas e rápidas – passaram sobre nossas cabeças. Eles não tinham muito em termos de poder de fogo.
— Capa — falei, apertando um botão. — Aqui é Celeste Dez, codinome: Spin. A nave que estou perseguindo é um interceptador Krell padrão.
— Confirmado — Capa respondeu. Eu não ouvi o restante da conversa; os outros deviam estar reportando individualmente. Por sorte, os dois batedores podiam rastrear o suficiente para identificar cada nave.
Arrojada e eu passamos perto do solo, desviando para a direita, depois para a esquerda quando alcançamos uma grande cratera. Arrojada acionou a aceleração máxima para tentar se aproximar o suficiente e ativar o PIM, mas ultrapassou o alvo quando o Krell virou para cima.
Eu continuei atrás dele, e Arrojada xingou baixinho, seguindo atrás de mim.
— Não temos ninguém nos seguindo, Spin. Vamos acabar com isso antes que essa coisa consiga ajuda.
— Confirmado — Mantive a minha atenção no inimigo. Sim... foco único.
Os sensores do meu capacete – que ultimamente eu costumava ignorar – ficaram quentes. Eu sentia como se pudesse antecipar as curvas do Krell quando ele desviou da cratera e seguiu à direita.
Concentração. Nada mais importava. Nenhuma preocupação. Nenhum medo. Só eu, minha nave e o alvo.
Mais perto.
Mais perto.
Quase.
— Pessoal! Socorro!
Kimmalyn.
Xinguei, perdendo a concentração. Ali estava ela, sendo seguida por três naves inimigas. Caramba! FM fez uma curva para trás, tentando entrar em posição para dar apoio.
Parei a perseguição e Arrojada me seguiu enquanto corríamos na direção de Kimmalyn.
— Fogo de cobertura — eu disse, e nós duas acionamos os incineradores, espalhando fogo o bastante para que os três perseguidores fizessem manobras defensivas e Kimmalyn pudesse escapar.
— Obrigada — FM falou, ficando ao lado de Kimmalyn. Aproveitei para ver Arturo e Jorgen em um combate aéreo com três Krell. Com tanta agitação próxima, eles não ousariam usar um PIM e ficarem expostos.
— Precisamos pegar alguns desgarrados — falei para Arrojada. — E virar as probabilidades ao nosso favor.
— Certo — ela disse. — Às três horas. Parece bom?
— Vamos nessa — respondi, seguindo-a quando ela acelerou em direção a outro Krell. Aparentava ser idêntico ao que estávamos perseguindo: o mesmo formato, com os cabos soltos na traseira. Não parecia que nenhum deles fosse um bombardeiro.
Passei pelo rádio o que vi, e então perseguimos uma nave para longe da batalha principal. Quando ela tentou cortar para a esquerda, para fazer uma curva para retornar, eu consegui acelerar ao máximo e impedi-la. Isolada, ela tentou simplesmente nos ultrapassar em linha reta, acelerando para Mag-3 e depois para Mag-4.
— Vou atrás! — Arrojada falou. Seu propulsor se acendeu com a aceleração máxima e ela saiu em disparada.
Eu já estava antecipando essa reação dela. Tínhamos feito isso juntas tantas vezes na última semana que eu sabia, por instinto, exatamente o que aconteceria. Em uma manobra perfeita, ela se aproximou o bastante para acionar o PIM. Com um clarão azul, seu escudo e o do Krell foram desativados.
Passei quando ela diminuiu a velocidade e disparei meus incineradores. Foi quase uma surpresa quando a nave Krell explodiu em partes derretidas. Aquilo realmente funcionava!
Arrojada gritou de alegria enquanto ambas diminuíamos a velocidade. Eu virei e voltei para dar cobertura enquanto ela reiniciava seu escudo. Um pedaço de detrito espacial passou por mim, estourando em uma explosão suave quando atingiu o solo não muito distante.
— Foi o primeiro sangue? — perguntei, apertando um botão. — Jorgen, conseguimos um!
— Parabéns — ele respondeu com a voz tensa.
Verifiquei o resto da batalha. Ele e Arturo ainda estavam lidando com três naves – e os batedores haviam conseguido espantar um para outra direção, tentando uma manobra similar à que Arrojada e eu fizéramos. Isso significava...
Três naves perseguindo Kimmalyn. De novo.
— Caramba — eu disse. — Arrojada?
— Vá. Já quase reiniciei.
Acionei a velocidade máxima, voltando para a batalha principal.
— Pessoal? — Kimmalyn chamou. — Pessoal?
— Estou com você — FM respondeu. — Estou com você...
FM conseguiu espantar as naves, mas uma deu uma volta e ficou atrás dela. Quando FM fez um desvio, uma das três naves originais voltou a perseguir Kimmalyn.
Kimmalyn desviava erraticamente, e eu podia imaginá-la em pânico. Ela não estava escolhendo uma estratégia para seguir; basicamente tentava todos os padrões de desvio, um após o outro.
Acelerei, mas o fogo do incinerador brilhou ao redor de Kimmalyn e seu escudo rachou ao ser atingido. Ela entrava e saía da aceleração máxima.
Não vou alcançá-la. Não a tempo.
— Flácida, aguente firme! — falei na linha geral. — Vou tentar uma coisa. FM, todo mundo, se puderem parar o que estão fazendo e me seguirem... tentem fazer isso. Vamos fazer uma formação em V, comigo na ponta.
Virei a minha nave na direção do inimigo que perseguia FM – que estava muito mais perto de mim do que aquele que estava atrás de Kimmalyn. Não atirei; em vez disso, fiz uma volta ao redor da nave, chegando a centímetros do chão, espalhando uma nuvem de poeira. Então segui para cima e usei minha lança de luz para pegar um pequeno pedaço de detrito espacial. Com uma curva fechada, girei e lancei o detrito na direção do perseguidor de Kimmalyn. Passou impressionantemente perto de um dos Krell.
Parei a curva e FM me seguiu. Jorgen e Arturo deixaram seu combate por um momento e fizeram o mesmo.
— Qual é o objetivo disso? — Jorgen perguntou pela linha. — O que estamos fazendo?
— Salvando Flácida — respondi. Com sorte.
Dependeria de minha teoria estar certa ou não. Tensa, virei para cima e acionei aceleração máxima. Por um breve momento, mantivemos a formação.
Lá em cima, o Krell perseguindo Kimmalyn parou de segui-la e se virou para baixo – na minha direção.
— Cobb avisou que os Krell tentam destruir nossa estrutura de comando — falei. — Vão atrás dos líderes de voo primeiro, se puderem identificá-los e...
Disparos de incineradores se espalharam ao meu redor.
Certo.
Comecei a fazer o mais complexo conjunto de curvas de esquiva que eu conhecia, a sequência Barrett. Um impressionante grupo de quatro Krell conseguiu me seguir. Aquilo protegeu Kimmalyn, mas quatro eram mais do que eu conseguia lidar. Cada vez que eu tentava subir ou sair de lado, uma nave ou duas conseguiam me interceptar. Meu Poco sacudia enquanto eu virava e desviava, e incineradores atingiam meus escudos.
Caramba! Caramba! Caramba!
— Estou indo, Spin — Arrojada falou. — Aguente firme.
Continuei me esquivando, enquanto os incineradores erravam o alvo por pouco. Uma parte do meu cérebro registrou Arturo abatendo uma nave Krell. Há quanto tempo estávamos lutando? Tínhamos realmente abatido só duas? Onde estavam os reforços?
— Mais naves — Jorgen falou.
— Finalmente — falei com um grunhido enquanto me protegia.
— Não nossas. Deles.
Minha curva me deixou de frente para eles – outra esquadrilha de seis interceptadores Krell. Passei por eles e, de algum modo, consegui não colidir com nenhum. No caos, por fim, consegui alguma altitude.
Meu pequeno truque devia tê-los convencido de que eu era importante, porque três deles me seguiram – com fogo máximo – enquanto eu disparava pelo ar. Meus sensores de proximidade soaram e meus escudos...
Um tiro me atingiu, fazendo meu escudo rachar e depois desativar. Luzes de advertência se acenderam em todo o meu painel de controle.
Continuei em frente, rodando meu anel de aclive para apontá-lo para baixo, por detrás da nave. Eu só tinha que ganhar altura suficiente...
Uma explosão brilhou atrás de mim. A onda de choque sacudiu meu Poco desprotegido. Fiz uma oração em silêncio para quem quer que fosse o atirador manobrando aquele canhão antiaéreo quando – em outro disparo imenso – uma segunda nave Krell desapareceu dos meus sensores de proximidade.
A última nave Krell se afastou, saindo do alcance. Eu me recostei no assento, suando, com a cabeça latejando e luzes brilhando no meu console. Viva. Eu estava viva.
— Arrojada! — FM falou pela linha. — O que você está fazendo?
— Estou bem — Arrojada respondeu com um grunhido. — Vou pegar esse aqui. Os escudos quase já caíram.
Rapidamente virei minha nave, inclinando-me para ver o campo de batalha vivo, cheio de ação, lá embaixo. Kimmalyn – eu tinha quase certeza de que era ela – havia subido atrás de mim para sair do alcance. O resto da batalha era uma confusão de naves Krell e disparos de incinerador.
Ali. Localizei Arrojada perseguindo um inimigo enquanto era seguida por um grupo de três Krell. Eu fora obrigada a deixá-la sem um companheiro de voo.
Ignorei a luz piscante do meu escudo – não tinha tempo para reiniciar – e desci na direção do campo de batalha. Disparei fogo do incinerador contra os perseguidores de Arrojada, mas estava longe demais, e os tiros se perderam. O inimigo não parou a perseguição.
Arrojada fez outro disparo. E mais um.
— Arrojada, saia daí! — falei.
— Eu quase o peguei. Nunca vamos quebrar nenhum recorde sendo covardes. — Ela disparou, acertando os escudos do Krell diante dela.
Acionei a velocidade máxima, correndo atrás deles. Mas mergulhos eram perigosos para o corpo e, assim que minhas cápsulas de gravidade pararam, senti as forças g em meus olhos, forçando o sangue para a cabeça.
Rangi os dentes, minha visão foi ficando vermelha enquanto eu alcançava o grupo de Krell. Acionei meu PIM com um toque. Eu não podia desativar meu escudo, no fim das contas. Ele já era.
Não vi quantos deles atingi. Estava perto demais de causar danos permanentes a mim mesma. Nivelei a nave, a cabeça latejando, os olhos ardendo. Quando minha visão retornou, comecei a reiniciar meu escudo e virei a cabeça, tentando procurar Arrojada. Será que ela estava em segurança?
— Estou sob fogo pesado! — Arturo falou. — Preciso de ajuda.
— Os reforços estão aqui! — Jorgen respondeu.
Tudo era um caos. Eu mal conseguia compreender a confusão, embora por um momento – incrível – ninguém parecesse mirar em mim.
Um clarão de explosão veio pela minha direita.
— Consegui! — Arrojada exclamou.
Ali. Arrojada tinha abatido seu alvo – mas duas naves Krell ainda a seguiam.
— Para cima, Arrojada! — gritei. — Você continua sendo seguida. Suba para o alcance dos canhões antiaéreos!
Ela virou para cima, me ouvindo – por fim. Duas naves a seguiram. Iniciei meu escudo e fui atrás dela, tentando ajudá-la, mas já estava bem para trás.
— Sem escudos — Arrojada falou com um grunhido.
— Flácida! — falei, desesperada, voando na direção da minha amiga, mas ainda longe demais. — Acerte um deles. Eu os atingi com o PIM. Os escudos deles também caíram. Atire!
— Eu... — Kimmalyn parecia abalada. — Eu...
— Você consegue, Flácida! É como na simulação. Vamos lá!
Um clarão de luz de um incinerador carregado cortou o ar sobre nós, disparando na direção das naves que perseguiam Arrojada.
E errou.
Arrojada levou um segundo tiro e sua asa explodiu, espalhando pedaços. O brilho azul sob sua nave começou a piscar, a luz falhando.
Não...
A nave de Arrojada despencou. Ao longe, ela era como outro pedaço de detrito.
— Arrojada! — gritei. — Ejete! Saia daí!
— Eu... — a voz dela era baixa; eu mal conseguia ouvi-la com os avisos que soavam de seu painel e do meu. — Eu posso controlar... eu consigo conduzir...
— Seu anel de aclive está danificado! — falei. — Você está perdendo altitude. Ejete!
— Não. Sou. Covarde — ela respondeu. — Corajosas até o...
Um clarão de luz.
Uma pequena explosão no solo, insignificante na tempestade de incineradores que era o campo de batalha.
— Recuem! — Jorgen falou. — Todo mundo, recue agora! Deixem a batalha para os pilotos formados. Temos ordens de recuar!
Arrojada...
No início, eu não consegui me mover. Só fiquei olhando o ponto em que ela atingira o solo.
— Spin — Jorgen me chamou. Quando ele tinha voado até meu lado? — Temos que ir. Estamos exaustos demais para esta batalha. Pode me ouvir?
Lutando contra as lágrimas, sussurrei:
— Sim.
Entrei em posição atrás dele, enquanto mergulhávamos e roçávamos a superfície para escapar do campo de batalha.
Chegamos perto de FM e Arturo, e eu quase engasguei de susto. A nave de Arturo estava enegrecida ao longo de toda a lateral e asa esquerda, e o dossel estava rachado. O anel de aclive ainda funcionava, então ele conseguia ficar no ar, mas... caramba. Ele sobrevivera a um tiro de incinerador depois que seu escudo fora desativado.
Quando ele falou, sua voz estava deprimida, confusa. Ele parecia saber a sorte que tinha de ainda estar vivo.
Arrojada, no entanto...
Kimmalyn finalmente desceu para se juntar a nós.
— ... Arrojada? — FM perguntou.
— Ela caiu — Kimmalyn respondeu. — Eu... eu estava vendo. Eu tentei, mas...
— Ela não ejetou — comentei baixinho. — Ela se recusou.
— Vamos voltar — Jorgen disse. Outra esquadrilha de reforços chegou ao campo de batalha. Enquanto eu os observava, qualquer confiança que eu tinha nas minhas habilidades evaporou. Aqueles caças atuavam com muito mais eficiência do que nós, desviando e voando como equipe, coordenando movimentos bruscos.
De repente, senti que precisava de centenas de horas mais de prática antes de estar pronta. Se é que algum dia eu ficaria pronta. Sequei as lágrimas quando a voz de Jorgen, suave, mas firme, ordenou que acelerássemos até Mag-3.
Enquanto voávamos, minhas mãos tremiam – revelando a covarde que eu era.
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