Skyward: Conquiste as Estrelas

Brandon Sanderson · Capítulo 6 de 60

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Skyward: Conquiste as Estrelas

Capítulo 5

 

 

Entrei correndo na sala de teste, como se fosse um caça com o propulsor no máximo.

Interrompi a fala de uma mulher mais velha, alta, que vestia um uniforme branco de almirante. Ela tinha o cabelo prateado na altura do queixo e franziu o cenho para mim quando parei na porta. Então, seus olhos imediatamente foram para o relógio pendurado na parede.

O segundo ponteiro andou mais um pouco. Dezoito horas em ponto.

Eu tinha conseguido. Estava toda suada, com o macacão rasgado e sujo de poeira pelo meu encontro com pedaços de detrito espacial. Mas tinha conseguido.

Ninguém dizia uma palavra na sala, localizada em um dos edifícios do governo no centro de Ígneo, perto dos elevadores que levavam à superfície. A sala estava cheia de carteiras; devia haver quase uma centena de garotos ali. Eu não sabia que havia tanta gente com dezessete anos nas cavernas dos Desafiadores, e aqueles ali eram só os que queriam fazer teste para piloto.

Naquele instante, cada um deles me encarava.

Mantive a cabeça erguida e tentei fingir que não havia nada fora do normal. Infelizmente, a única cadeira vaga que localizei estava bem na frente da mulher de cabelos prateados.

Eu a conhecia? Aquele rosto...

Caramba.

Não era uma contra-almirante qualquer. Era Judy Ivans, a própria Ironsides. Ela era uma Primeira Cidadã e a comandante da FDD, então eu já tinha visto seu rosto em centenas de pinturas e estátuas. Judy Ivans era simplesmente a pessoa mais importante do mundo.

Eu manquei um pouco enquanto me dirigia até meu assento diante dela, tentando não demonstrar meu constrangimento – ou minha dor. Fazer todo aquele caminho correndo envolvera várias descidas frenéticas com a minha linha de luz pelas cavernas e pelos túneis. Meus músculos protestavam pelo esforço, e senti uma câimbra na perna direita assim que consegui me sentar.

Estremecendo, larguei a mochila no chão, ao lado da carteira. Um ajudante a pegou e a levou para a lateral da sala, já que não era permitido nada na mesa além de um lápis.

Fechei os olhos, mas os abri novamente quando ouvi uma voz conhecida sussurrando ali perto:

— Ah, graças ao nosso planeta natal.

Lad? Olhei de relance e localizei-o algumas fileiras para trás. Ele provavelmente chegara três horas mais cedo e passara o tempo todo preocupado com o meu atraso. Sem nenhum motivo, claro. Eu tinha conseguido chegar pelo menos meio segundo adiantada. Pisquei para ele, e então virei para a frente, tentando não gritar de dor.

— Como eu estava dizendo — a almirante prosseguiu —, estamos orgulhosos de vocês. Seu trabalho e toda a preparação que fizeram até aqui provam que são a melhor e mais promissora geração que a FDD já conheceu. São a geração que herdará a superfície. Vocês nos levarão a uma nova era de coragem no combate aos Krell. Lembrem-se de que este teste não é para provar o valor de ninguém. Todos vocês têm muito valor. Para realizar um único voo, precisamos de centenas de técnicos, mecânicos e também do pessoal de apoio. Até mesmo o humilde trabalhador do depósito tem um papel importante na nossa grande busca pela sobrevivência. O propulsor ou a asa do caça não podem ficar sem o parafuso que os mantêm no lugar. Nem todos passarão no teste, mas só por escolherem estar aqui já atenderam às altas expectativas que tenho em relação a vocês. E, para aqueles que passarem: estou ansiosa para supervisionar seu treinamento. Tenho interesse pessoal pelos cadetes.

Franzi o cenho. Ironsides parecia tão reservada, tão indiferente. Com certeza ela não se importava comigo, independentemente do quão infame meu pai tivesse sido.

Enquanto os ajudantes corriam para distribuir as provas, Ironsides foi até a lateral da sala, perto de alguns capitães com uniformes reluzentes. Um homem baixo, de óculos, sussurrou alguma coisa para ela e apontou na minha direção. Ironsides se virou e me olhou novamente. Então, as laterais de seus lábios viraram rapidamente para baixo.

Ah, não.

Olhei para o outro lado da sala, onde alguns professores – incluindo a senhora Vmeer – nos observavam. Ela me viu, e aí balançou a cabeça como se estivesse desapontada. Mas... eu... achava que tinha entendido tudo. Eles estavam apenas me testando para ver se eu era uma verdadeira Desafiadora.

Certo?

De maneira deliberada, um ajudante pegou uma prova da parte de baixo da pilha e colocou-a na minha mesa. Hesitante, remexi meus bolsos à procura de um lápis, mas só encontrei o broche do meu pai. Ao ouvir um assobio ao meu lado, olhei na direção de Lad, que me jogou um lápis extra.

— Obrigada — disse, mexendo os lábios. Em seguida, abri o teste e olhei a primeira pergunta.

1. Explique, com exemplos do que é feito com elas, os catorze tipos de algas que crescem nos depósitos, explicitando o valor nutricional de cada uma.

Meu estômago revirou. Uma pergunta sobre algas? Sim, os testes incluíam perguntas aleatórias do nosso currículo escolar, mas... algas?

Olhei a página seguinte.

2. Explique as exatas condições exigidas para um ótimo desenvolvimento das algas, não se limitando – mas incluindo – a temperatura, pureza da água e profundidade do depósito.

A próxima pergunta era sobre como o esgoto era tratado, assim como a que vinha a seguir. Senti meu rosto gelar quando me dei conta de que todas as cinquenta páginas tinham questões sobre assuntos como depósito de algas, esgoto ou ventilação. Eram aulas que eu tinha perdido enquanto caçava. Eu aparecia nas aulas da tarde, como física e história, mas simplesmente não tinha tempo para estudar tudo.

Olhei mais uma vez para a senhora Vmeer, que desviou o olhar. Então, me inclinei e dei uma espiada na prova de Darla Mee-Bim. A dela tinha uma questão completamente diferente:

 

1. Diga cinco manobras aéreas que você usaria para se esquivar de uma nave Krell que o estivesse

perseguindo.

 

Uma curva fechada, uma tesoura dupla giratória, uma curva de Ahlstrom, um recuo reverso e uma manobra planadora. Dependendo de quão perto o inimigo se encontrasse, da natureza do campo de batalha e do que meu companheiro de voo estivesse fazendo. Eu me inclinei para o lado e verifiquei o teste de outro vizinho, onde localizei vários números com as palavras propulsor e acelerador. Uma pergunta sobre aceleração e força g.

Um ajudante falou em voz alta o bastante para que a maioria das pessoas na sala ouvisse.

— Fiquem avisados de que ninguém sentado ao lado de vocês terá o mesmo teste, por isso colar não só é punido com expulsão, mas também inútil.

Recostei-me em meu assento, fervendo de raiva. Isso era uma bobagem completa. Eles tinham preparado um teste especial para mim, abordando tópicos de aulas que sabiam que eu tinha sido obrigada a perder?

Enquanto eu me remoía, vários alunos se levantaram e seguiram até a frente da sala. Não era possível que já tivessem terminado, era? Um deles – um jovem alto, bem-constituído, com pele escura, cabelo negro encaracolado e um rosto insuportável – entregou o teste para a almirante. Do meu lugar, dava para ver que a sua prova estava em branco, exceto pelo nome. Ele mostrou um broche para ela – um broche especial, azul e dourado. O broche de um piloto que lutara na Batalha de Alta.

Filhos dos Primeiros Cidadãos, pensei. Eles só precisavam aparecer e preencher seus nomes para automaticamente serem admitidos na escola de voo. Havia seis deles hoje, cada um ocupando uma vaga que poderia ter sido preenchida por outros alunos esforçados.

Um a um, os seis partiram, e a almirante deixou os testes incompletos em uma mesa perto da parede da frente. A pontuação deles não importava. Assim como a minha também não importava.

As palavras de Dia retornaram para mim. Você não acha mesmo que vão deixar a filha de Chaser voar na FDD, acha?

Eu tentaria mesmo assim. Furiosa – segurei o lápis com tanta força que quebrei a ponta e tive que conseguir outro –, eu escrevia na minha prova idiota. Cada questão parecia ter sido feita para detonar a minha força de vontade. Depósitos de algas. Ventilação. Esgoto. Lugares aos quais supostamente eu pertencia.

A filha de um covarde. Tem mais é que agradecer por não a jogarmos nos depósitos.

Escrevi por horas, com as emoções batalhando dentro de mim. A raiva lutava contra a mais pura ansiedade. A frustração lutava contra a esperança. A consciência da realidade abatia o otimismo.

14. Explique o procedimento adequado a ser realizado se você acha que um depósito de alga foi contaminado por um colega de trabalho.

Tentei não deixar nenhuma pergunta em branco, mas em mais de dois terços da prova, minha resposta raivosa fora: “Não sei. Pergunte para quem sabe”. E doía responder assim, como se, ao fazer isso, estivesse provando que eu era incompetente.

Mas eu não desistiria. Por fim, a campainha soou, marcando o tempo limite de cinco horas. Afundei em meu assento quando uma ajudante pegou a prova da minha mão. Eu a observei se afastar.

Não.

Agora que o teste terminara, a almirante Ironsides tinha retornado e falava com um pequeno grupo de pessoas de terno e saia; Primeiros Cidadãos ou membros da Assembleia Nacional. Ironsides era conhecida por ser rígida, mas justa.

Eu me levantei e caminhei até ela, com a mão no bolso, segurando com força o broche do meu pai. Esperei, respeitosamente, enquanto os outros alunos se reuniam para a festa pós-prova, onde encontrariam aqueles que já haviam sido aceitos em outras carreiras e que tinham passado o dia se inscrevendo e sendo designados para outras posições. Os que fizeram o teste de piloto e não conseguissem passar poderiam procurar outras funções ao longo da semana.

Naquela noite, no entanto, todos celebrariam juntos, tanto o futuro piloto quanto o futuro zelador.

Foi aí que Ironsides olhou para mim.

Segurei o broche do meu pai.

— Senhora — eu falei. — Como filha de um piloto que lutou na Batalha de Alta, eu gostaria de peticionar minha aceitação na escola de voo.

Ela me olhou de cima a baixo, notando a manga rasgada do meu macacão, o rosto sujo e o sangue seco em meu braço. Depois, pegou o broche da minha mão e eu soltei a respiração.

— Você realmente acha — ela disse — que eu aceitaria o broche de um traidor?

Meu coração afundou no peito.

— Você nem devia ter isso, garota — a almirante prosseguiu. — Não foi destruído quando ele caiu? Você roubou esse broche de alguém?

— Senhora — respondi, com a voz tensa. — Não estava com ele na queda. Meu pai me deu este broche antes de voar pela última vez.

A almirante Ironsides se virou para ir embora.

— Senhora? — falei. — Por favor. Por favor, só me dê uma chance.

Ela hesitou e achei que estivesse reconsiderando. Mas então se inclinou para mim e sussurrou:

— Garota, você tem ideia do pesadelo de relações públicas que poderia nos causar? Se eu te deixar entrar, e você acabar virando uma covarde como ele... Bem, nada nem ninguém neste planeta me fará deixar você entrar em um cockpit. Fique satisfeita por poder entrar neste prédio.

Senti como se tivesse levado uma bofetada. Aquela mulher, uma das minhas heroínas, se virou para ir embora.

Eu a segurei pelo braço, e vários ajudantes nas proximidades arfaram baixinho. Mas eu continuei segurando.

— A senhora ainda está com o meu broche — eu disse. — Eles pertencem aos pilotos e suas famílias. A tradição...

— Os broches de pilotos de verdade pertencem às famílias — ela me corrigiu. — Não os dos covardes. — Ela se libertou da minha mão com um puxão firme.

Eu poderia tê-la atacado. Quase fiz isso; o calor aumentava dentro de mim, e meu rosto parecia gelado.

Braços me seguraram por trás antes que eu pudesse agir.

— Spin? — Lad falou. — Spensa! O que está fazendo?

— Ela roubou. Ela levou o broche do meu pai... — Eu me calei enquanto a almirante ia embora com seus auxiliares. Então, me libertei de Lad.

— Spensa? — Lad disse. — Vamos para a festa. Podemos conversar sobre isso lá. Como você acha que se saiu? Eu acho... Acho que me saí muito mal. Spensa?

Eu me afastei dele e voltei para minha mesa. De repente, me senti exausta demais para ficar em pé.

— Spin? — ele me chamou.

— Vá para a festa, Lad — sussurrei.

— Mas...

— Me deixe em paz. Por favor. Só... me deixe ficar sozinha.

Ele nunca soube como lidar comigo quando eu ficava assim, então ficou ali mais um tempo e depois foi embora.

E eu fiquei sentada sozinha na sala.

 

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