Skyward: Conquiste as Estrelas

Brandon Sanderson · Capítulo 36 de 60

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Skyward: Conquiste as Estrelas

Capítulo 33

 

 

Acordei em um quarto.

Um quarto? Não no cockpit de M-Bot?

Eu me sentei, meus músculos ardiam e minha cabeça latejava. Eu estava do lado de dentro. Em uma cama. O que tinha acontecido? Será que eu havia dormido em algum lugar da FDD? A almirante iria...

Você está na enfermaria, lembrei. Depois da batalha, Cobb mandou você para cá, para ser examinada. Eles a mandaram dormir e ficar sob observação.

Eu me lembrava vagamente de ter me oposto, mas a enfermeira me obrigara a vestir o avental do hospital e depois me mandara ir para a cama em um quarto pequeno e vazio. Eu estava aturdida demais para protestar. Nem me recordava de ter deitado; tudo era uma névoa.

Eu me lembrava com detalhes do clarão quando a nave de Arrojada bateu no chão. Deitei-me apoiada em um travesseiro macio demais, fechando os olhos com força. Arrojada se fora.

Depois de um tempo, eu me forcei a sair da cama. Achei minhas coisas em um banco: meu macacão, lavado, e meu bracelete da linha de luz em cima. Minha mochila estava no chão, ao lado do banco, e o rádio pendurado nela piscava. Caramba... e se alguém tivesse atendido? Será que M-Bot conseguiria ficar quieto?

De repente, meus segredos pareceram insignificantes. Diante do que estava acontecendo... o horror da nossa esquadrilha sendo lentamente consumida... Quem se importava? Quem se importava se descobrissem meus segredos?

Arrojada estava morta.

Verifiquei o relógio. 0545. Achei o banheiro e me limpei. Voltei para o quarto e me vesti, depois segui para a recepção do hospital. Uma enfermeira olhou para mim e me entregou um bilhete vermelho.

Licença médica para recuperação de danos. Ordens: uma semana. Estava impresso com meu nome, carimbado e assinado.

— Não posso — eu disse. — A almirante vai me expulsar...

— Toda sua esquadrilha recebeu licença médica obrigatória — a mulher comentou. — São ordens da doutora Thior, médica-chefe. Você não será expulsa de nada, cadete. Precisa descansar.

Encarei o bilhete.

— Vá para casa — a mulher ordenou. — Passe uma semana com a sua família e se recupere. Pelas estrelas... eles forçam demais vocês, cadetes.

Fiquei parada ali por um instante antes de dar meia-volta e ir embora, vagando sem perceber até o edifício de treinamento. Peguei o caminho que dava a volta e passei pelos nossos Pocos. Quatro em uma fila. A nave de Arturo estava separada, estacionada ao lado de um pequeno hangar de manutenção, com peças espalhadas pelo chão.

Ir para casa. Para onde? Viver na minha caverna? Voltar para a minha mãe, cuja desaprovação pela FDD poderia finalmente me fazer perder o que me restava de coragem?

Amassei o bilhete da licença no bolso e segui até a nossa sala de aula. Sentei-me sozinha em meu cockpit. Eu só queria pensar, falar com Cobb, resolver tudo aquilo. Arrojada dissera... corajosa até o fim. E ela fora.

Caramba. Arrojada se fora. Nas histórias da minha avó, eles faziam banquetes em homenagem aos caídos. Mas eu não queria festejar. Queria me arrastar até algum lugar escuro e me encolher ali.

Estranhamente, quando a hora da aula se aproximou, a porta se abriu e os outros – com exceção de Jorgen – chegaram em um grupo silencioso e solene. A enfermeira não dissera que todos tinham licença? Talvez eles, como eu, não tenham querido aceitar.

Kimmalyn parou ao lado do meu assento e me deu um abraço. Eu não queria um abraço, mas aceitei. Eu precisava daquilo.

Até Jorgen chegou, cerca de dez minutos depois do horário em que a aula começaria normalmente.

— Achei que pudesse encontrar todos vocês aqui — ele disse.

Eu me preparei para que ele nos dissesse para ir embora. Para que ele seguisse a ordem oficial e nos dissesse que a aula estava cancelada porque estavam nos obrigando a tirar uma licença.

Em vez disso, ele nos inspecionou, então assentiu de um jeito aprovador.

— Esquadrilha Celeste, alinhados — ele disse, com um tom de voz suave. Jorgen não tinha tentado fazer isso desde o primeiro dia, quando nós o ignoramos. Hoje, no entanto, parecia certo. Nós quatro nos levantamos e nos posicionamos um ao lado do outro.

Jorgen foi até o intercomunicador da classe e apertou um dos botões.

— Jax, pode mandar alguém até o Capitão Cobb para dizer que sua esquadrilha está esperando por ele, na sala de sempre? Obrigado.

Em seguida Jorgen afastou-se e juntou-se ao restante de nós. Unidos, esperamos. Quinze minutos. Vinte minutos. Já eram 0729 quando Cobb abriu a porta e entrou mancando.

Nós nos perfilamos e prestamos continência.

Ele olhou para nós e rosnou.

— SENTEM-SE!

Eu me surpreendi. Não era o que eu esperava. Mesmo assim, junto com os demais, corri para obedecer.

— Se estão em uma descida descontrolada — ele gritou para nós, o rosto vermelho —, vocês ejetam! Vocês me ouviram?! Vocês EJETAM!

Ele estava zangado. Tipo, zangado de verdade. De vez em quando ele fingia ficar zangado, mas não era nada assim: rosto vermelho, cuspindo enquanto gritava.

— Quantas vezes eu falei isso? — ele perguntou. — Quantas vezes eu dei essa ordem? E vocês ainda caem em conversa fiada? — Ele acenou com a mão na direção do grande edifício do alto-comando da FDD. — A única razão pela qual temos essa cultura estúpida de automartírio é porque alguém acha que precisa justificar nossas baixas. Fazê-los parecer honrados, corretos. Não é nada disso. E vocês são tolos em ouvi-los. Não joguem suas vidas fora. Não ousem ser como aquela idiota de ontem. Não...

— Não a chame de idiota — repliquei. — Ela estava tentando fazer uma queda controlada. Estava tentando salvar a nave.

— Ela estava com medo de ser chamada de covarde! — Cobb berrou. — Não tinha nada a ver com a nave!

— Arrojada, Hudiya, foi uma heroína. — Eu o encarei.

— Ela foi uma...

Eu me levantei.

— Simplesmente porque você quer justificar sua covardia em ejetar não quer dizer que nós temos que fazer o mesmo!

Cobb ficou imóvel. Então, ele meio que... desinflou. Sentou-se na cadeira ao lado de sua mesa. Não parecia sábio, nem mesmo grisalho. Apenas... velho, cansado e triste.

Imediatamente me senti envergonhada. Cobb não merecia aquilo; ele não fizera nada errado ao ejetar, e nem a FDD o culpava. E Arrojada, bem, eu mesma lhe dissera para ejetar. Eu praticamente implorara.

Mas ela não ejetara. E tínhamos que respeitar a sua escolha, não tínhamos?

— Vocês todos estão de licença médica por uma semana — Cobb disse. — A doutora Thior tem pressionado para que esquadrilhas que perderam membros tenham mais tempo de licença, e parece que ela começou a conseguir o que queria. — Ele se levantou e olhou direto para mim. — Espero que goste de ser uma heroína quando seu cadáver estiver apodrecendo como o da sua amiga, sozinha no meio do nada, esquecido e ignorado.

— Ela receberá um funeral de piloto — eu falei. — Seu nome será cantado por gerações.

Ele bufou.

— Se cantassem o nome de cada cadete tolo que morre antes de se tornar piloto, não teríamos tempo para mais nada. E o cadáver de Arrojada não será recuperado antes de várias semanas. Os batedores confirmaram que a queda destruiu o anel de aclive de uma maneira que ele não poderá ser recuperado. Não há nada naquele Poco que valha a prioridade no resgate, sem falar naquele grande destroço no qual ainda estamos trabalhando. Então, sua amiga heroica será deixada lá... outro piloto morto enterrado pelos restos de sua própria explosão. Caramba. Tenho que escrever uma carta para os pais dela e explicar o motivo. Não confio no que Ivans dirá.

Ele saiu mancando em direção à porta, mas parou e se virou para Kimmalyn. Eu não percebi que ela havia se levantado. Ela prestou continência, com lágrimas nos olhos. Depois, deixou algo em seu assento.

O broche de cadete.

Cobb assentiu.

— Fique com o broche, Flácida — ele disse. — Está dispensada com todas as honras que importam para você.

Ele deu meia-volta e foi embora.

Dispensada? Dispensada?

— Ele não pode fazer isso com você! — exclamei, virando-me para Kimmalyn.

Ela se encolheu.

— Eu pedi depois da batalha. Ele me disse para pensar no assunto durante a noite. E eu pensei.

— Mas... você não pode...

Jorgen parou ao meu lado, confrontando Kimmalyn.

— Spin está certa, Flácida. Você é um membro importante desta esquadrilha.

— O membro mais fraco — Kimmalyn respondeu. — Quantas vezes um de vocês teve que sair de um combate para me salvar? Estou colocando todos vocês em perigo. — Ao contrário do que Cobb dissera, ela deixou o broche no assento quando se dirigiu para a porta.

— Kimmalyn — falei, sentindo-me impotente. Corri atrás dela e segurei sua mão. — Por favor.

— Eu a fiz ser morta, Spin — ela sussurrou. — Você sabe disso tão bem quanto eu.

— Ela se fez ser morta.

— O único tiro que importava. Aquele que errei.

— Havia duas naves atrás dela. Um tiro, mesmo que tivesse acertado, não teria sido o suficiente.

Ela sorriu, apertou a minha mão e foi embora.

Senti meu mundo desmoronar. Primeiro Arrojada, agora Kimmalyn. Olhei para Jorgen. Certamente ele podia impedir aquilo. Não podia?

Ele ficou parado, rígido e alto, com aquele rosto bonito demais. Olhava para frente e pensei ver algo em sua expressão. Culpa? Dor?

Ele está vendo a sua esquadrilha se desfazer ao seu redor também.

Eu tinha que fazer alguma coisa. Encontrar algum tipo de sentido nesse desastre e na minha dor. Mas, não, eu não podia – não iria – deter Kimmalyn. Pelo menos... pelo menos ela ficaria segura dessa forma.

Arrojada, no entanto...

— Arturo — eu o chamei, pegando a minha mochila. — A que distância foi aquela batalha, você diria?

— Bem perto da nossa posição original, além da artilharia antiaérea. Uns oitenta quilômetros, eu diria.

Coloquei a mochila no ombro.

— Ótimo. Vejo vocês em uma semana.

— Aonde você vai? — FM perguntou.

— Vou encontrar Arrojada — respondi. — E dar a ela um enterro de piloto.

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