Skyward: Conquiste as Estrelas

Brandon Sanderson · Capítulo 22 de 60

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Skyward: Conquiste as Estrelas

Capítulo 20

 

 

No dia seguinte à morte de Alvorecer e Bim, cheguei tarde à aula de Cobb. Apenas cinco minutos depois do horário; ainda assim, era meu primeiro atraso.

Mas é que tudo parecia tão errado.

Eu me lembrava vagamente de me arrastar para a minha caverna no dia anterior, ignorando M-Bot – Lad já havia ido para casa –, e de me encolher na cama do cockpit. E depois fiquei largada ali. Sem dormir, mas desejando conseguir. Pensando, mas desejando poder parar. Sem chorar... mas, de algum modo, desejando ser capaz de fazer aquilo.

Hoje ninguém comentou sobre o meu atraso. Cobb ainda não estava ali, embora quase todos os cadetes restantes já estivessem reunidos. Todos exceto Kimmalyn, o que me preocupou. Será que ela estava bem?

Minhas botas rangeram no chão enquanto caminhei até meu cockpit e me sentei. Não queria olhar para os lugares notadamente vazios, mas aquilo fez com que eu me sentisse uma covarde, então me obriguei a olhar o assento de Alvorecer. Há dois dias apenas, eu estava parada ali, ajudando-a a entender...

Ela quase nunca dizia nada, mas, de alguma forma, a sala parecia muito mais quieta sem ela.

— Ei, Spin — Nedd disse por fim. — Você está sempre falando sobre “honra” e a “glória de morrer como guerreiros” e bobagens do tipo.

— Sim? E daí?

— Daí... — Nedd prosseguiu. — Talvez um pouco dessa bobagem pudesse ser útil agora.

Nedd sentou-se em seu lugar, quase sem caber em seu cockpit de treinamento. Ele era o mais alto da sala – e o mais encorpado também. Eu sempre pensara nele simplesmente como o maior dos dois companheiros do Babaca, mas havia algo mais nele. Um ar de ponderação.

— Bem? — ele perguntou.

— Eu... — respondi, lutando para encontrar as palavras. — Tudo aquilo parece estúpido agora.

Eu não conseguia recitar nenhuma citação sobre vingança. Não hoje. Fazer aquilo seria como participar de uma das histórias da Vozinha –, enquanto a perda que sentíamos era muito real. Mas... será que isso fazia das minhas convicções apenas bravatas? Será que eu era uma covarde me escondendo atrás de chavões agressivos?

Um guerreiro de verdade daria de ombros para tudo aquilo. Será que eu acreditava de verdade que aqueles seriam os últimos amigos que eu perderia?

FM desceu de seu assento e caminhou até mim. Ela apertou meu ombro, um gesto surpreendentemente íntimo vindo de uma garota que eu conhecia de maneira bem superficial, apesar do tempo que estávamos juntas na mesma esquadrilha. Qual era a história dela? Eu nunca havia encontrado um jeito de perguntar.

Olhei de relance para o lugar de Bim, pensando no modo desajeitado – ainda que maravilhoso – como ele tentara me paquerar.

— Você sabe onde está Kimmalyn? — Perguntei para FM.

— Ela levantou e comeu conosco — a garota alta sussurrou. — Mas parou no banheiro a caminho da classe. Talvez alguém devesse dar uma olhada nela.

Antes que eu pudesse me levantar, o Babaca ficou em pé, e limpou a garganta. Ele olhou para nós cinco. Para FM e para mim. Para Arrojada, sentada em seu cockpit. Ela não parecia mais considerar tudo aquilo um jogo. Arturo, sentado com as mãos entrelaçadas, batia um indicador no outro em ritmo rápido, como se fosse um tipo de tique nervoso. Nedd, sentado com as pernas para cima, apoiava os pés no projetor de holograma de valor incalculável diante de seu cockpit. Digno de nota, os cadarços de suas botas estavam desamarrados.

— Suponho que eu deva dizer alguma coisa — o Babaca começou.

— Claro que sim — FM sussurrou, revirando os olhos, mas voltou para seu lugar.

O Babaca começou a falar com a voz tensa:

— O manual de protocolos da FDD explica que morrer no cockpit, lutando para proteger nosso lar, é o maior e mais corajoso presente que alguém pode oferecer. Nossos amigos, embora levados cedo demais, foram modelos dos ideais Desafiadores.

Ele está lendo, percebi. Anotações escritas... na mão?

— Vamos lembrar deles como soldados — o Babaca prosseguiu, agora erguendo a mão diante de si. — Se precisarem de aconselhamento sobre essa perda ou por qualquer motivo, como seu líder de voo, estou aqui. Por favor, venham até mim para que eu possa fazer com que se sintam melhor. Ficarei feliz em carregar o fardo da dor de vocês para que possam se concentrar no treinamento. Obrigado.

Ele se sentou. E, bem, provavelmente aquele era o discurso mais idiota que eu já ouvira. Mais a respeito dele do que dos assentos vazios. Mas... pelo menos ele tinha tentado.

Por fim, Cobb entrou mancando pela porta, segurando um punhado de papéis e murmurando algo para si mesmo.

— Em posição de voo! — ele vociferou. — Hoje vamos cobrir manobras em conjunto... de novo. O jeito como vocês protegem uns aos outros é desleixado. Eu gostaria de vê-los carregando um prato de comida em um refeitório cheio de gente.

Nós meio que o encaramos.

— Mexam-se! — ele gritou.

Todo mundo começou a prender o cinto de segurança.

Em vez disso, eu fiquei em pé.

— O que é isso? — exigi saber. — Não vai falar nada sobre eles? Sobre Bim, sobre Alvorecer ou sobre o que a almirante fez...

— A almirante não fez nada com vocês — Cobb me interrompeu. — Os Krell mataram seus amigos.

— Isso é bobagem — repliquei. — Se você joga uma criança na jaula do leão, pode de verdade culpar o leão?

Ele me encarou, mas eu não recuaria dessa vez. Eu não tinha certeza de onde queria chegar, mas pelo menos essa emoção – sentir-me furiosa com ele, com a almirante, com a FDD – era melhor do que o vazio.

Olhamos fixamente um para o outro até que a porta rangeu e se abriu, e Kimmalyn entrou. Embora seus longos cabelos negros estivessem penteados – como sempre – em cachos perfeitos, seus olhos estavam inchados e vermelhos. Cobb olhou para ela e arregalou os olhos, como se estivesse surpreso em vê-la.

Ele achou que ela tivesse desistido, percebi.

Em vez disso, com os olhos inchados e tudo, Kimmalyn ergueu o queixo.

Cobb acenou com a cabeça na direção do assento dela, e ela marchou até lá – um modelo de atitude Desafiadora – e se sentou. Naquele momento, ela parecia mais guerreira do que eu jamais fora.

Travei a minha mandíbula, sentei novamente e prendi o cinto. Provocar Cobb não aliviaria a minha raiva contra a almirante. Eu precisava de uma esfera de controle na mão e de um gatilho de incinerador sob meu dedo. Provavelmente era por isso que Cobb queria trabalhar duro conosco hoje – para nos fazer suar, talvez até nos fazer esquecer de tudo por um tempo. E... sim. Sim, eu estava disposta àquilo.

Cobb, no entanto, não ligou nossos projetores. Em vez disso, pegou uma cadeira de dobrar e, lentamente, foi mancando até o centro da sala e a montou. Sentou-se, entrelaçando as mãos diante de si. Eu tinha que me inclinar na lateral do meu equipamento para vê-lo, assim como a maioria dos demais.

Ele parecia velho. Mais velho do que merecia estar.

— Eu sei como é — ele começou a falar. — É como se houvesse um buraco aberto bem no meio de vocês. Um pedaço de carne que não vai crescer de novo. Vocês podem agir normalmente, podem voar, mas deixarão um rastro de sangue por um tempo. Eu devia dizer alguma coisa hoje, algo sobre perdas. Alguma coisa sábia. A velha Mara, que me ensinou a voar, teria feito isso. Ela já morreu. — Cobb balançou a cabeça. — De vez em quando, eu não me sinto um professor. Me sinto como um dos caras da munição, recarregando a artilharia. Enfio vocês na câmara, disparo na direção do céu e depois pego outro grupo...

Ouvi-lo falar daquele jeito era desconfortável, não parecia natural. Como um pai que de repente admitia não saber como era o amor. Todos tínhamos ouvido histórias sobre instrutores de voo. Velhos, grisalhos, prontos para arrancar a sua cabeça, mas cheios de sabedoria.

Naquele momento, no entanto, eu via o homem, não o instrutor. O homem tinha medo e sentia-se perturbado – e com tanta dor por perder seus alunos quanto nós por perder amigos. Ele não era um desses veteranos grisalhos com todas as respostas. Era um homem que tinha, quase sem querer, sobrevivido tempo o bastante para se tornar professor. Ele tinha que nos ensinar tanto as coisas que sabia quanto as que claramente não tinha resolvido nem para si.

— Conquiste as estrelas — eu falei.

Ele ergueu os olhos para mim.

— Quando eu era uma garotinha — contei —, queria ser piloto para que fosse respeitada. E meu pai me disse para vislumbrar algo maior. Ele me disse para “conquistar as estrelas”.

Olhei para cima e tentei imaginar aquelas luzes brilhantes. Além do teto, bem alto no céu, perfurando o cinturão de detritos. Onde os Santos recebiam as almas dos caídos quando eles morriam.

— Dói — confessei. — Mais do que achei que doeria. Eu sabia tão pouco sobre Bim... Só que ele gostava de sorrir. Alvorecer mal conseguia nos entender, mas ela se recusou a desistir.

Por um instante, achei que conseguia me imaginar flutuando entre aquelas luzes lá em cima. Como a Vozinha me ensinara. Eu sentia tudo sumindo embaixo de mim, tornando-se distante. Tudo o que eu conseguia ver eram aqueles pontos de luz espalhando-se por todos os lados.

— Eles estão lá no céu agora — disse baixinho. — Para sempre entre as estrelas. Vou me juntar a eles. — Saí do transe e, de repente, estava novamente na sala com os demais. — Vou prender este cinto de segurança e vou lutar. Desse jeito, quando eu morrer, pelo menos morrerei em um cockpit. Buscando o céu.

Os outros ficaram imóveis, em um silêncio incerto, como o momento entre dois impactos de meteoros. Nedd estava sentado em seu assento, agora não mais descansando, e me fez um sinal animado de positivo com o polegar e com a cabeça. Do outro lado da sala, vi o Babaca me encarando com uma expressão inescrutável no rosto.

— Tudo bem — Cobb disse, levantando-se. — Chega de perder tempo. Coloquem os capacetes.

Peguei meu capacete e o coloquei, ignorando o olhar do Babaca. Mas imediatamente dei um pulo e tirei aquele negócio da cabeça.

— O que foi? — Cobb perguntou, mancando na minha direção.

— Os diodos aqui dentro estão mornos — respondi, sentindo-os. — O que isso quer dizer?

— Nada — Cobb respondeu. — Provavelmente.

— Isso não é muito animador, Cobb. O que está acontecendo?

Ele abaixou a voz.

— Uns tipos que se dizem médicos e se acham muito espertos acreditam que podem dizer a partir de um punhado de dados se você... vai fugir como o seu pai.

— Meu pai não...

— Acalme-se. Já provamos que estavam errados sobre você não ser boa em voo. É a sua melhor arma. Consegue usar isso? — Ele acenou com a cabeça na direção do capacete.

— Sim. Não estão quentes a ponto de me machucar... eu só fiquei surpresa.

— Coloque-o, então, e vamos trabalhar.

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