Skyward: Conquiste as Estrelas

Brandon Sanderson · Capítulo 23 de 60

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Skyward: Conquiste as Estrelas

Capítulo 21

 

Cobb manteve sua promessa: trabalhou duro conosco naquele dia.

Praticamos planagens coordenadas, formações e exercícios de proteção do companheiro de voo. Trabalhamos até que meus dedos parecessem duros como engrenagens, meus braços doessem como se eu tivesse levantado peso e meu cérebro basicamente se desmanchasse. Trabalhamos até durante o horário de almoço, o que obrigou uma ajudante a levar sanduíches para todos. Eu comi carne seca de rato e cogumelos, como sempre.

Os diodos no meu capacete esfriaram conforme eu trabalhava. A almirante podia dizer a partir de alguns dados se eu seria uma covarde? Que tipo de insanidade era aquela?

Mas não havia tempo para eu me preocupar com aquilo agora. Cobb nos fez desviar de escombros despencando, virar com lanças de luz e treinar reignição de escudo. Era exaustivo de um jeito bom, e a única vez em que pensei em Bim foi quando percebi que ninguém estava reclamando que, mais uma vez, não tínhamos permissão para usar nossas armas.

Quando Cobb por fim nos deixou ir, eu sentia como se pudesse me encolher em qualquer canto por ali e cochilar.

— Ei, Arturo — Nedd falou enquanto se levantava e esticava o corpo. — Esses projetores são muito bons. Acha que podem simular um mundo no qual você não é um piloto tão ruim?

— Tudo de que precisamos para isso — Arturo replicou —, é um botão de desligar no seu rádio. Tenho certeza de que vou melhorar imensamente se não tiver que ouvir você tagarelando o tempo todo. Além disso, se me lembro bem, foi você que bateu em mim mais cedo.

— Você estava no caminho!

— Garotos, garotos — Arrojada disse, passando entre eles. — Não podemos entrar em um acordo? Encontrar um denominador comum e concordar que os dois são péssimos pilotos?

— Rá! — Arturo exclamou. — Fique só observando... farei você engolir essas palavras um dia desses, Arrojada.

— Tenho tanta fome que seria capaz de engoli-las agora mesmo — ela comentou —, se fosse possível fazer um molho decente com elas. Acho bom o refeitório não estar fechado. Flácida, posso comer a sua sobremesa?

— O quê? — a garota disse, erguendo os olhos do cinto de segurança, que estava tentando fechar e deixar cuidadosamente dobrado no assento, como sempre fazia quando saía do cockpit.

— Você é gentil e fofa — Arrojada falou. — Eu imaginei que cederia se eu forçasse a barra. Então, posso ficar com a sua sobremesa?

— Que as estrelas a abençoem — Kimmalyn respondeu. — Mas se tocar na minha torta, vou arrancar seus dedos. — Ela corou ao dizer aquilo e colocou a mão na frente da boca.

— E ela vai mesmo, Arrojada — brinquei. — É sempre com as mais gentis que temos que nos preocupar.

— Sim — Arrojada concordou. — E não é que ela... — Ela parou o que estava dizendo quando percebeu que estava falando comigo. Então, se virou e saiu pela porta.

Eu conhecia aquela expressão nos olhos dela. Desde que Jorgen contara para todo mundo que eu era filha de Chaser, as coisas não tinham sido mais as mesmas entre mim e Arrojada.

Os outros saíram do aposento. Suspirei, pegando minhas coisas e me preparando para uma escalada exaustiva até a minha caverna. Quando coloquei a mochila no ombro, percebi que FM não tinha ido embora. Estava parada perto da parede, me observando. Era tão alta e tão bonita. Como cadetes, usávamos a roupa padrão dos pilotos da FDD. No trabalho cotidiano, podíamos escolher macacões ou uniformes padrão da FDD, se quiséssemos. Só tínhamos que estar prontos para vestir os trajes de voo se fôssemos convocados.

A maioria de nós usava os macacões, que eram mais confortáveis. Mas FM não. Juntamente com as botas polidas, ela costumava usar um uniforme feito sob medida com uma jaqueta que de algum modo parecia mais elegante nela do que nos demais. Ela era tão perfeita, que parecia mais uma estátua do que uma pessoa.

— Obrigada — ela disse para mim. — Pelo que você disse antes. Sobre Bim, Alvorecer e as estrelas.

— Não achou agressivo demais? — perguntei. FM sempre reclamava que o resto de nós era muito agressivo, o que não fazia sentido para mim. A agressão não era o centro da guerra?

— Bem, a maior parte do que você diz é um absurdo total — FM ponderou. — Bravata vazia usada como desculpa para divulgar mantras nacionalistas embutidos em você por uma vida de doutrinação Desafiadora. Mas o que disse hoje, mais cedo, aquilo veio do coração. Eu... eu precisava ouvir aquilo. Obrigada.

— Você é uma garota estranha, FM — comentei. Eu não tinha ideia do que significava a maioria das coisas que ela dizia.

Em sua mesa, Cobb bufou e olhou para mim por detrás de sua papelada. Você, entre todas as pessoas, está chamando alguém de estranha?, era o que seu olhar parecia dizer.

Acompanhei FM até o corredor vazio; os cadetes das outras esquadrilhas tinham terminado as aulas há horas.

— Quero deixar claro — FM prosseguiu, enquanto caminhávamos juntas — que não culpo você por suas atitudes. Você é produto de uma enorme pressão social, que força os jovens a terem posturas cada vez mais agressivas. Tenho certeza de que no fundo você é um doce.

— Na verdade, não sou — falei, sorrindo. — Mas não me importo que as pessoas me subestimem. Talvez os Krell façam o mesmo e aí poderei saborear o espanto em seus olhos quando arrancar seus crânios.

FM me olhou surpresa.

— Isso se eles tiverem olhos sob aquela armadura. Ou crânios. Bem... o que quer que tenham, vou arrancar. — Olhei para ela e sorri mais abertamente. — Estou brincando, FM. Mais ou menos. Digo coisas como essas porque são divertidas. Como as antigas histórias, sabe?

— Eu não li essas antigas histórias.

— Você provavelmente odiaria. Por que sempre fala do restante de nós como sendo muito agressivo? Você não é Desafiadora?

— Eu fui criada como Desafiadora — ela disse. — Mas agora escolhi ser o que as pessoas lá embaixo chamam de Contestadora. Levanto objeções sobre o modo como a guerra está sendo travada. Acho que devíamos arrancar o manto opressivo do governo militar.

Parei onde estava, chocada. Nunca tinha ouvido palavras como aquelas antes.

— Então... você é uma covarde?

FM corou, endireitando o corpo.

— Eu pensava que você, entre todas as pessoas, seria mais cuidadosa antes de usar esse termo por aí.

— Desculpe — falei, corando também. Ela estava certa. Mesmo assim, eu tinha dificuldade em entender o que ela me dizia. Eu entendia suas palavras, mas não o significado delas. Arrancar o governo militar? Quem ficaria a cargo da guerra, então?

— Ainda estou disposta a lutar — FM prosseguiu, de cabeça erguida, enquanto caminhávamos. — Só porque quero mudanças não quer dizer que vou deixar os Krell destruírem todos nós. Mas você percebe o que isso está fazendo com a nossa sociedade, treinando nossas crianças, praticamente desde o nascimento, para idealizar e glorificar a batalha? Venerar os Primeiros Cidadãos como santos? Devíamos ensinar nossas crianças a serem mais cuidadosas, mais curiosas... não só a destruir, mas a construir.

Dei de ombros. Esse tipo de coisa parecia fácil de dizer quando você vivia nas cavernas profundas, onde uma bomba não mataria a sua família. Mesmo assim, era bom ter algumas respostas sobre aquela garota – ela era tão equilibrada que era difícil pensar nela como uma “garota”, mesmo que ela tivesse a mesma idade que o restante de nós.

Se eu a acompanhasse até perto demais do refeitório, poderia me deparar com os policiais militares e ficar encrencada. Eles tinham parado de me acompanhar para fora da sala de aula todos os dias, mas eu não acreditava nem por um instante que isso significava que eu pudesse jantar ali. Então, me despedi de FM e ela se apressou para alcançar os demais.

Fui em direção à saída, remexendo na mochila em busca de água, mas lembrei que havia deixado meu último cantil cheio em meu assento na sala. Ótimo. Sentindo o cansaço do treino voltar, fui quase me arrastando até a classe.

Cobb tinha ativado o holograma no centro da sala, projetando uma pequena versão de um campo de batalha. Diante dele, naves do tamanho de rolamentos moviam-se rapidamente e desviavam dos detritos que deixavam um rastro de fogo e fumaça. Naves Krell, achatadas e não maiores do que medalhas, disparavam minúsculos incineradores.

Ele está vendo a batalha de ontem, percebi. Aquela em que Bim e Alvorecer morreram. Eu não tinha ideia de que as batalhas eram gravadas.

Localizei a minha nave se movendo rapidamente até a batalha. Senti o caos esmagador mais uma vez, a excitação por estar finalmente em um combate de verdade. Quase pude ouvir as explosões. A voz preocupada de Kimmalyn. O som da minha própria respiração, excitada, acelerada.

A ansiedade e até um pouco de medo aumentavam dentro de mim enquanto eu assistia – impotente. Alvorecer morreu de novo.

Meu estômago se apertou. Mas eu não me permiti afastar o olhar.

Na sala, minha nave correu pelo campo de batalha e comecei a ser seguida. Mergulhei em torno de um pedaço de detrito caindo – usando a minha lança de luz para girar com exatidão – e, em seguida, passei por entre duas outras naves Krell.

Cobb pausou a simulação com um gesto. Deu um passo adiante, concentrando-se na minha nave – congelada no ar entre um espetáculo de incineradores, faixas de luz e naves explodindo. Então, voltou um pouco a simulação e assistiu-a novamente, observando a minha manobra.

— Eu quase apaguei — observei da porta. — Não tive controle da velocidade e não parei a curva antes que as cápsulas de gravidade ficassem sobrecarregadas.

— Mesmo assim foi uma manobra e tanto — ele disse. — Em especial para um cadete. Notável, quase inacreditável.

— O Babaca é melhor do que eu.

— Jorgen é um piloto técnico excelente, mas não sente o voo como você faz. Você me lembra seu pai. — Ele pareceu... triste ao dizer aquilo.

De repente, eu me senti constrangida, então fui até meu simulador e peguei meu cantil. Cobb assistiu ao resto da batalha e eu me obriguei a ver quando a minha nave e a de Bim perseguiram o bombardeiro Krell. Cobb parou a simulação mais uma vez quando as quatro estranhas naves de escolta saíram do bombardeiro inimigo – aquelas que, no momento seguinte, derrubariam Bim.

— O que são essas coisas? — perguntei.

— Algo novo. Eles não alteraram sua tática por mais de uma década. O que mudou agora? — Ele estreitou os olhos. — Sobrevivemos por sermos capazes de antecipar o que os Krell vão fazer. Toda vez que você consegue adivinhar o que o inimigo planeja, você tem uma vantagem. Não importa o quão perigosos sejam, se você sabe qual será o movimento seguinte, você pode combatê-los.

Hum. Aquilo me surpreendeu e eu me peguei concordando.

Cobb apagou o holograma e voltou mancando até sua mesa.

— Tome — ele falou, pegando uma caixa e me entregando. — Esqueci de lhe dar isto mais cedo.

Um rádio pessoal?

— Em geral, só damos esses equipamentos para pilotos formados enquanto estão de folga em Ígneo. Mas já que você vive fora da base, achei melhor ficar com um. Mantenha-o ligado com você o tempo todo. Vai receber o alerta geral quando os Krell atacarem.

Peguei o dispositivo retangular, talvez do tamanho de um peso de treinamento pequeno. Meu pai carregava um desses consigo.

Cobb se despediu de mim com um aceno, então sentou-se e começou a olhar seus papéis.

Mas eu continuei ali, com uma pergunta em mente.

— Cobb?

— Sim?

— Por que você não voa conosco? Os outros instrutores de voo saem com seus cadetes.

Eu me preparei para uma explosão de raiva ou uma reprimenda, mas Cobb só deu um tapinha em sua perna.

— Ferimentos antigos, Spin. Ferimentos antigos. — Ele fora abatido logo depois da Batalha de Alta. Sua perna tinha acertado a lateral do dossel quando ele ejetou.

— Você não precisa da perna para voar.

— Algumas feridas — ele disse, com suavidade — não são tão óbvias quanto uma perna retorcida. Você teve dificuldade de entrar no cockpit hoje, depois de ver seus amigos morrerem? Tente fazer isso depois de você mesma ter abatido um deles.

Senti uma frieza súbita e impressionante passar por mim, como se eu tivesse sido ejetada em alta altitude. Ele estava dizendo...

Ele estava dizendo que fora ele quem abatera meu pai?

Cobb olhou para mim.

— Quem mais você acha que receberia a ordem para derrubá-lo, filha? Eu era o companheiro de voo dele. Eu o segui quando ele fugiu.

— Ele não fugiu.

— Eu estava lá. Ele fugiu, Spensa. Ele...

— Meu pai não era um covarde!

Encarei Cobb e, pela segunda vez naquele dia, ele afastou o olhar.

— O que aconteceu de verdade lá em cima, Cobb? — Apertei meus olhos na direção dele. — Por que eles acham que podem saber se eu vou fazer a mesma coisa, apenas monitorando meu cérebro? O que você não está me contando?

Embora eu nunca tivesse aceitado a história oficial, parte de mim sempre presumira que algum tipo de engano tinha causado a má reputação do meu pai. Que, na confusão, as pessoas haviam presumido que ele se transformara em um covarde, quando ele não fizera isso.

Mas agora eu tinha a chance de conversar com alguém que esteve lá. Alguém que... que havia puxado o gatilho...

— O que aconteceu? — perguntei, dando um passo adiante. Eu pretendia perguntar aquilo de modo autoritário, desafiador... mas saiu como uma súplica sussurrada. — Pode me contar? O que você viu?

— Você leu o relatório oficial — Cobb respondeu, ainda sem me olhar nos olhos. — Os Krell estavam vindo em um grupo grande, levando uma destruidora de vida. Era a maior força que já tínhamos encarado e o posicionamento deles indicava fortemente que haviam encontrado a Base Alta. Enfrentamos um ataque, mas eles se reagruparam. Enquanto se preparavam para nos enfrentar novamente, seu pai entrou em pânico. Ele gritava que a força inimiga era grande demais, que íamos todos morrer. Ele...

— Quem disse que ele falou isso? Toda a esquadrilha?

Cobb fez uma pausa.

— Sim. Nós quatro que ainda estávamos lá, pelo menos. Bem, ele gritou e gritou, e depois rompeu a formação e começou a fugir. Você tem que entender o quanto aquilo era perigoso para nós. Estávamos literalmente lutando pela sobrevivência da nossa espécie... se outras naves começassem a fugir, seria o caos. Não podíamos permitir...

— Você o seguiu — eu o interrompi. — Ele foi embora e você o seguiu. Então, você o abateu?

— A ordem veio quase que imediatamente do nosso líder de voo. Abatê-lo, para dar o exemplo e prevenir qualquer outra fuga. Eu estava bem no rastro dele, e o seu pai não respondia aos nossos apelos. Então eu lancei meu PIM, e derrubei o escudo dele... e depois... depois eu atirei. Sou um soldado. Obedeço a ordens.

A dor na voz dele era tão real, tão pessoal, que quase me deixou envergonhada por obrigá-lo a passar por aquilo. Pela primeira vez... minha certeza foi abalada. Seria verdade?

— Você jura? — perguntei. — Foi exatamente assim que aconteceu?

Cobb, por fim, me encarou. Manteve seus olhos fixos desta vez e não os desviou – mas não respondeu a minha pergunta. Eu o vi endurecer enquanto travava a mandíbula. E, naquele momento, eu soube que a falta de resposta era a resposta. Ele me dera a história oficial.

E era uma mentira.

— Já passou da hora de você ir para casa, cadete — Cobb disse. — Se quer uma anotação no registro oficial, posso conseguir uma para você.

— Mas é uma mentira. Não é? — Eu o olhei novamente, ele deu o mais leve aceno de cabeça, quase imperceptível.

Todo o meu mundo se iluminou. Eu deveria estar zangada. Eu deveria estar furiosa com Cobb por puxar o gatilho. Em vez disso, eu estava exultante.

Meu pai não fugira. Meu pai não era um covarde.

— Mas por quê? — perguntei. — O que você ganha ao fingir que um dos seus pilotos fugiu?

— Vá — Cobb falou, apontando para a porta. — É uma ordem, cadete.

— É por isso que Ironsides não me queria na FDD — observei. — Ela sabe que vou fazer perguntas. Porque... caramba, ela era a sua líder de voo, não era? Aquela que deu a ordem para derrubar o meu pai? O nome foi editado dos relatórios, mas ela é a única que se encaixa...

Olhei para Cobb e seu rosto estava começando a ficar vermelho de raiva. Ou talvez de vergonha. Ele acabara de me contar um segredo, um bem importante e... Bom, parecia estar arrependido. Eu não conseguiria mais nada dele naquele momento.

Peguei minha mochila e saí correndo. Meu coração estava partido pelos amigos que perdi e agora tinha que lidar com o fato de que meu instrutor também era o assassino do meu pai.

Mas, por enquanto... Bem, eu me sentia como um soldado que acabara de colocar a bandeira no alto de uma colina duramente disputada. Todos aqueles anos eu sonhara, estudara e acreditara que meu pai fora, na verdade, um herói.

E eu estava certa.

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