Skyward: Conquiste as Estrelas

Brandon Sanderson · Capítulo 29 de 60

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Skyward: Conquiste as Estrelas

Capítulo 27

 

Nedd não foi para a aula no dia seguinte.

Nem no outro. Ou naquela semana toda.

Cobb nos manteve ocupados com exercícios de perseguição. Nós atacávamos, desviávamos e mirávamos uns nos outros, como pilotos de verdade.

Mas nos momentos entre a ação, a voz de Nedd me assombrava.

Covarde.

Pensei naquilo mais uma vez, sentada no cockpit de mentira, na sala de aula, fazendo os exercícios. Eu tinha interrompido a perseguição e obrigado Nedd a abandonar seus irmãos. Era algo que um herói lendário teria feito?

— Projeções estatísticas indicam que, se tivessem permanecido na perseguição por mais sete segundos — M-Bot falou enquanto eu fazia um exercício de combate aéreo holográfico —, vocês teriam morrido na queda ou na explosão subsequente.

— Você poderia ter invadido o canal de rádio? — perguntei para ele sussurrando, pois estávamos na sala de treinamento. — E chamado os irmãos de Nedd?

— Sim, provavelmente poderia.

— Devíamos ter pensado nisso. Talvez, se estivéssemos coordenados, tivéssemos ajudado os dois a escaparem.

— E como você explicaria a sua capacidade súbita de hackear os sinais de comunicação da FDD?

Mergulhei em perseguição ao Krell holográfico e não o respondi. Se eu fosse uma patriota de verdade, há muito tempo teria entregue a nave para meus superiores. Mas eu não era uma patriota. A FDD traíra e matara meu pai e depois mentira sobre o fato. Eu os odiava por isso, mas, odiando-os ou não, eu ainda havia implorado para que me deixassem voar.

De repente, aquilo pareceu ser outro ato de covardia.

Rosnei baixinho, usando a minha lança de luz para virar ao redor de um pedaço de detrito flutuante e em seguida utilizar a velocidade máxima. Passei pela nave Krell e acionei meu PIM, derrubando nossos escudos, e girei no eixo. Aquilo apontou meu nariz para trás, enquanto eu ainda voava para frente, mas consegui disparar o incinerador no Krell atrás de mim, destruindo-o.

Era uma manobra perigosa da minha parte, pois me impedia de ver para onde estava indo. De fato, outra nave Krell imediatamente apareceu no meu flanco direito e me atingiu. Morri com a sirene de “escudo desativado” soando no meu ouvido.

— Muito acrobático — Cobb disse para mim, enquanto meu holograma reiniciava. — Uma bela maneira de morrer.

Soltei o cinto e me levantei, arrancando o capacete e jogando-o de lado. Ele quicou no meu assento e caiu no chão enquanto eu ia até o fundo da sala e começava a andar de um lado para o outro.

Cobb estava parado no meio do círculo de cockpits de mentira, com pequenas naves holográficas girando ao seu redor. Usava um fone de ouvido para falar conosco pelas linhas dos capacetes. Ele me olhou durante o tempo em que eu andava de um lado para o outro, mas me deixou em paz.

— Caramba, Flácida! — ele gritou para Kimmalyn. — Aquele caça ia obviamente fazer uma sequência S-4, tentando derrotar você! Preste atenção, garota!

— Desculpe! — ela exclamou de dentro do cockpit. — Ah, e desculpe por isso também!

— Senhor? — Arturo perguntou, envolto em seu holograma de treinamento. — Os Krell fazem muito isso, não fazem? Nos conduzir?

— Difícil dizer — Cobb respondeu, com um grunhido.

Continuei a caminhar, tentando lidar com a minha frustração – principalmente comigo mesma – enquanto ouvia. Embora eles estivessem sentados em círculo, suas vozes eram abafadas pelos capacetes e pelos compartimentos dos cockpits. Ouvir aquilo tudo me garantiu que os outros não conseguiam escutar quando eu sussurrava para M-Bot no meu cockpit, desde que eu me lembrasse de falar baixo.

A conversa da esquadrilha estava me acalmando. Eu lentamente parei com o vaivém e me aproximei de Cobb no holograma central.

— No outro dia — Arturo prosseguiu —, com aquele pedaço imenso de destroço, o ataque deles não era para nos derrotar, mas para destruir aquela coisa. E, presumivelmente, nos impedir de pegar os restos. Certo?

— Sim — Cobb respondeu. — Aonde quer chegar, Anfi?

— Só que, senhor, eles deviam saber que a coisa ia cair. Eles vivem lá no espaço. Então, provavelmente viram aquele pedaço de coisa lá em cima, todos esses anos. Podiam ter destruído a qualquer momento, mas esperaram até cair. Por quê?

Assenti. Tinha me perguntado a mesma coisa.

— Os motivos dos Krell são desconhecidos — Cobb disse. — Sem contar o desejo de nos exterminar, é claro.

— Por que eles nunca atacam com mais de uma centena de naves de uma vez? — Arturo continuou. — Por que continuam a se envolver em conflitos conosco, em vez de mandar um ataque fulminante?

— Por que deixam os detritos caírem, para começar? — acrescentei. — Sem isso, não seríamos capazes de ter anéis de aclive suficientes para manter a resistência. Por que nós não os atacamos no cinturão de detritos? Por que esperar que venham aqui para baixo e...

— Chega de treino — Cobb falou, caminhando até sua mesa e apertando os botões que desligavam todos os hologramas.

— Desculpe, senhor — disse.

— Não se desculpe, cadete — Cobb respondeu. — Nem você, Anfisbena. Vocês fizeram boas perguntas. Todos tirem os capacetes. Prestem atenção. Considerando o tempo que isso já dura, sabemos assustadoramente pouco sobre os Krell. Mas eu contarei para vocês o que já sabemos.

Senti que a minha ansiedade aumentava enquanto os outros tiravam os capacetes. Respostas? Por fim?

— Senhor — Jorgen falou, levantando-se. — Os detalhes sobre os Krell não são informações confidenciais, disponíveis apenas para pilotos formados?

Arturo gemeu baixinho e revirou os olhos. Sua expressão parecia dizer: Obrigado, Jorgen, por nunca permitir nenhum tipo de diversão.

— Ninguém gosta de um dedo-duro, Jorgen — Cobb advertiu. — Cale a boca e escute. Vocês precisam saber isso. Vocês merecem saber isso. Ser um Primeiro Cidadão me dá certa liberdade com relação ao que posso dizer.

Voltei para meu cockpit enquanto Cobb acionou algo em seu holograma: um planeta. Detritus? Tinha pedaços de metal flutuando ao redor, mas o cinturão de detritos se estendia até muito mais longe – e era mais espesso – do que eu esperava.

— Esta é uma representação aproximada do nosso planeta e do cinturão de detritos — ele explicou. — A verdade é que só temos uma vaga ideia do que há lá em cima. Perdemos muito do que sabíamos quando os Krell bombardearam o arquivo e nossa equipe de comando em DD-zero. Mas alguns dos nossos cientistas acreditam que, em algum momento, uma casca cercava todo o planeta, como um escudo de metal. O problema é que muitos desses antigos maquinários lá em cima ainda estão ativos... e têm armas.

Ele observou o planeta holográfico – que tinha um suave brilho azulado e era transparente – lançar um grupo de caças holográficos. Eles se aproximaram do cinturão de asteroides e foram abatidos por centenas de incineradores.

— É perigoso lá em cima — Cobb prosseguiu. — Até para os Krell. É por isso que a antiga frota veio para cá, para este velho cemitério em forma de planeta. O pouco de que os mais antigos se lembram indica que Detritus era conhecido naquela época, mas evitado. Sua blindagem interferia seriamente nas comunicações, e, quando encarou aquelas antigas plataformas de defesa orbital, nossa frota mal conseguiu alcançar a superfície. Os Krell não parecem explorar muito lá em cima. Eles deviam saber que o antigo estaleiro estava prestes a cair, mas chegar até ele no cinturão de detritos teria um custo elevado. Eles parecem ter encontrado alguns caminhos seguros para o planeta e usam essas passagens quase exclusivamente.

— Então... — falei, fascinada. Tudo aquilo era novidade para mim. — De algum modo, poderíamos usar essas antigas plataformas de defesa?

— Nós tentamos — Cobb confessou. — Mas é perigoso voar até lá. As plataformas disparam em nós também. Além disso, os Krell são mais letais no espaço. Lembra do jeito como esse planeta é blindado? Bem, os Krell têm habilidades de comunicação estranhas e avançadas. A blindagem do planeta interfere na capacidade deles de falar uns com os outros; achamos que é por isso que eles voam pior aqui embaixo. Há outra questão, menos importante — Cobb prosseguiu, parecendo hesitar em alguma coisa. — No espaço, além do planeta, os Krell podem... Bem, as antigas tripulações dizem que a tecnologia Krell lhes permite ler o que os humanos estão pensando. E algumas pessoas são mais suscetíveis a isso do que outras.

Troquei olhares com o resto da esquadrilha. Eu nunca tinha ouvido aquilo antes.

— Mas não digam para ninguém que contei isso para vocês — Cobb pediu.

— Então... — Arturo falou — essa interferência na comunicação e essas defesas orbitais são os motivos pelos quais os Krell não nos bombardeiam do espaço?

— Nos primeiros dias de Alta — Cobb contou —, eles tentaram mandar algumas naves maiores, mas elas foram destruídas pelas defesas orbitais. Os Krell só conseguem trazer naves menores e mais manobráveis, para nos atacar.

— Isso não explica por que eles mandam esquadrilhas relativamente pequenas — Arturo comentou. — A menos que eu esteja errado, eles nunca fizeram um ataque com mais do que cem naves. Certo?

Cobb assentiu.

— Por que não mandar duzentas? Trezentas?

— Não sabemos. Se você mergulhar nos relatórios secretos, não vai encontrar nada além de teorias malucas. Talvez uma centena de naves seja o máximo que conseguem coordenar de uma vez.

— Ok — Arturo concordou. — Mas por que eles parecem só ser capazes de preparar uma única destruidora de vida de cada vez? Por que não carregar cada nave com uma dessas e arremessá-las contra nós, em um ataque suicida? Por que...

— O que eles são? — interrompi. Arturo fazia boas perguntas, mas, na minha opinião, menos importantes do que essa.

Arturo me olhou e assentiu.

— O que sabemos, Cobb? — perguntei. — Nesses arquivos secretos, alguém sabe alguma coisa? Alguma vez já vimos um Krell?

Cobb mudou o holograma para uma imagem de um capacete queimado e alguns pedaços de armadura. Estremeci. Restos de Krell. Esse holograma era bem mais detalhado, uma versão muito mais real das interpretações artísticas que eu já vira. A foto mostrava alguns cientistas parados ao redor de uma mesa com a armadura, que era atarracada e volumosa. Meio quadradona.

— Isso é tudo o que já conseguimos recuperar — Cobb contou. — E só encontramos em algumas naves que abatemos. Uma em cada cem ou menos. Não são humanos, disso temos certeza. — Ele mostrou outra imagem, um holograma mais próximo de um capacete, queimado pela queda.

— Há teorias — Cobb prosseguiu. — Os mais antigos, que viveram na própria Desafiadora, falam de coisas impossíveis para nosso entendimento atual. Talvez o motivo pelo qual jamais encontramos nada na armadura seja porque não há nada para ser encontrado. Talvez os Krell sejam a própria armadura. No passado, havia lendas sobre coisas estranhas. Máquinas que podem pensar.

Máquinas que podem pensar.

Máquinas com tecnologia avançada de comunicação.

De repente, eu me senti gelar. A sala pareceu desaparecer, e fiquei parada ali, ao lado do meu cockpit, ouvindo os demais falarem como se estivessem muito distantes.

— Isso é loucura — Arrojada comentou. — Um pedaço de metal não pode pensar, não mais do que uma pedra. Ou aquela porta. Ou meu cantil.

— Mais louca do que a ideia de que eles podem ler mentes? — Arturo perguntou. — Nunca ouvi nada assim.

— Obviamente há maravilhas nesta galáxia que mal podemos compreender — Cobb afirmou. — Afinal, a Desafiadora e as demais naves podiam viajar entre as estrelas em um piscar de olhos. Máquinas que pensam poderiam explicar por que tantos cockpits dos Krell que investigamos estão vazios e por que as “armaduras” que recolhemos nunca parecem ter um corpo dentro.

Máquinas que podem pensar.

Cobb encerrou a aula e todos começamos a pegar nossas coisas para ir jantar. Kimmalyn e FM reclamaram que estavam ficando resfriadas – já havia alguns casos assim na base –, então Cobb sugeriu que voltassem para o quarto, para descansar. Ele falou que pediria para uma assistente levar o jantar delas até o dormitório.

Ouvi tudo aquilo, mas não prestei atenção de verdade. Em vez disso, fiquei sentada, aturdida. M-Bot. Uma nave que podia pensar e se infiltrar em nossas comunicações com aparente facilidade. E se... e se estivéssemos consertando um Krell? Por que eu não tinha sequer parado para pensar naquilo? Como eu podia ter sido tão cega para o que parecia ser uma possibilidade óbvia?

Ele tem um cockpit, pensei. Com escritas em nosso idioma. Instalações para um piloto. E diz que não pode pilotar a nave sozinho.

Mas podia ser um truque, certo? Ele dissera que não podia mentir, mas eu só tinha a palavra dele a esse respeito. Eu...

— Spin? — Cobb me chamou, parando perto do meu cockpit. — Não está ficando resfriada também, está?

Neguei com a cabeça.

— Isso é um pouco demais para absorver.

Cobb grunhiu.

— Bem, talvez seja tudo bobagem. A verdade é que, depois que perdemos o arquivo, a maioria das coisas sobre o passado se tornou boato.

— Você se importa se contarmos isso tudo para Nedd? — perguntei. — Quando ele volta?

— Ele não vai voltar — Cobb contou. — A almirante o retirou oficialmente do programa de cadetes nesta manhã.

— O quê? — exclamei, levantando-me, surpresa. — Ele pediu para ser retirado?

— Ele não se apresentou para o trabalho, Spin.

— Mas... os irmãos dele...

— Ser incapaz de controlar suas emoções, incluindo o luto, é sinal de que alguém é inadequado para o posto. Pelo menos é como Ironsides e os outros líderes da FDD veem isso. Eu diria que é bom que Nedd esteja fora. O garoto era inteligente demais para isso... — Ele mancou até a porta.

Eu me afundei em meu assento. Então, éramos apenas seis agora. E se ser incapaz de controlar as emoções tornava alguém inadequado para o posto... o que dizer de mim? Eu me sentia completamente sobrecarregada. A perda dos amigos, a preocupação com M-Bot, as vozes que sussurravam dentro de mim dizendo que eu era de fato uma covarde.

Toda minha vida eu lutara contra o ressentimento, vociferando que eu seria piloto e que seria boa o bastante. Onde estava aquela confiança agora?

Eu sempre presumira que, quando conseguisse – quando finalmente chegasse aqui –, pararia de me sentir tão sozinha.

Peguei o rádio na mochila.

— M-Bot, você está aí?

— Anel de aclive: funcional, mas sem energia. Propulsores: não funcionais. Hiperdrive citônico: não funcional — ele fez uma pausa. — Isso é um sim, caso você esteja confusa. Estou aqui, porque não posso ir a lugar algum.

— Estava ouvindo a nossa conversa?

— Sim.

— E?

— E, admito, estava rodando alguns cálculos sobre a probabilidade de cogumelos crescerem dentro desse edifício, já que sua conversa era, típica de humanos, levemente entediante. Mas não completamente! Então, você deve achar...

— M-Bot. Você é um Krell?

— O quê? Não! É claro que não sou um Krell. Por que você pensaria que eu sou? Como poderia pensar... Espere, calculando. Ah. Você acha que porque sou uma inteligência artificial e eles provavelmente são inteligências artificiais somos a mesma coisa?

— Você tem que admitir que é suspeito.

— Eu ficaria ofendido se pudesse ficar ofendido — ele disse. — Talvez eu devesse começar a chamar você de vaca, já que você tem quatro membros, é feita de carne e tem capacidades biológicas mentais rudimentares.

— Você saberia se fosse um Krell? — perguntei. — Talvez tenha esquecido.

— Eu saberia — ele garantiu.

— Você esqueceu por que veio a Detritus — observei. — Só tem uma imagem do seu piloto, se é que ele realmente foi seu piloto. Mal consegue se lembrar de alguma coisa sobre a minha espécie. Talvez você nunca tenha sabido. Talvez seus bancos de memória sejam preenchidos só com as partes que os Krell sabem sobre nós, e você tenha inventado toda essa história.

— Estou escrevendo uma nova sub-rotina agora — ele falou. — Para expressar adequadamente meu ultraje. Vai levar um tempo para ficar pronta. Me dê cinco minutos.

— M-Bot...

— Só um segundo. Paciência é uma virtude, Spensa.

Suspirei, mas comecei a pegar minhas coisas. Sentia-me oca. Vazia. Não assustada, claro. Eu me banhava nas chamas da destruição e revelava o grito dos derrotados. Eu não ficava assustada.

Mas talvez, bem no fundo, eu estivesse... preocupada. A expulsão de Nedd tinha me atingido mais duro do que deveria.

Coloquei a mochila sobre o ombro e pendurei o rádio na lateral. Eu o configurei para uma luz piscar se M-Bot ou alguém mais tentasse me contatar. Não queria que ele ficasse falando enquanto eu caminhava pelos corredores, embora não precisasse me preocupar com isso. O edifício estava vazio; Cobb tinha nos liberado tarde e as outras esquadrilhas já tinham ido jantar. Não vi nenhum policial militar ou alguém da equipe de apoio enquanto seguia lentamente para a saída, com meus pés parecendo que eram feitos de chumbo.

Eu não tinha certeza de que poderia continuar com aquilo. Levantar cedo, trabalhar a manhã toda em M-Bot. Sofrer com as aulas a cada dia, depois voltar para minha caverna à noite. Dormir mal, sonhando com as pessoas com as quais fracassei ou – pior – tendo pesadelos nos quais eu fugia...

— Psiu!

Parei e olhei para o rádio preso na lateral da mochila.

— Psssiiiiiiu! Spensa!

Levantei os olhos e analisei o corredor. À minha direita – era Kimmalyn parada ali, na porta, vestida de preto?

— Flácida?

Ela me acenou com urgência. Franzi o cenho, desconfiada.

Eu quis me dar um soco. Idiota. É Kimmalyn.

Fui até ela.

— O que você está...

— Psiu! — ela disse, depois saiu de fininho pelo corredor e espiou em uma esquina. Acenou para que eu a seguisse e, mais confusa do que qualquer outra coisa, fui atrás dela.

Isso continuou por mais alguns corredores vazios – até entrarmos no banheiro onde ela me fez esperá-la, sem explicar nada, até que por fim chegamos a um lugar repleto de portas. O dormitório das garotas. Duas jovens desconhecidas – usando trajes de voo com o brasão da Esquadrilha Dragão das Estrelas – estavam paradas conversando fora de um dos quartos.

Kimmalyn me manteve ali, agachada depois da curva, até que as duas garotas enfim seguiram em outra direção. Eu não deixei de notar que Kimmalyn e eu tínhamos vindo do fundo do prédio, o lado oposto ao refeitório. Então, ela estava doente ou não?

Depois que as duas garotas se foram, a cabeça de FM – o cabelo curto preso para trás com uma presilha brilhante – apareceu em uma das portas. Ela gesticulou com urgência. Kimmalyn saiu correndo em sua direção, e eu a segui, entrando no quarto.

FM fechou a porta e sorriu. O pequeno quarto era como eu me lembrava, embora uma das camas tivesse sido tirada quando Alvorecer morreu. Com aquilo, sobrou um beliche na parede esquerda e uma cama simples na direita. Uma pilha de cobertores estava colocada entre as camas, e a cômoda tinha duas bandejas de comida: sopa quente nas tigelas, com tofu de algas e fatias grossas de pão. Pão de verdade. Com uma imitação real de manteiga.

Minha boca se encheu de água.

— Pedimos comida extra — Kimmalyn falou —, mas eles mandaram sopa, porque achavam que estávamos doentes. Mesmo assim, como diz a Santa: “Não se pode pedir mais do que já se tem”.

— Eles tiraram a cama extra — FM contou —, então empilhamos alguns cobertores no chão. O truque será usar o banheiro, mas vamos ajudar você.

Eu finalmente entendi. Elas tinham fingido estar doentes para poder pedir comida do quarto – e dividir comigo. Tinham me levado para lá e feito uma “cama” para mim.

Pelas estrelas. A gratidão cresceu dentro de mim.

Eu ia chorar.

Guerreiros não choravam.

— Ah! Você parece brava — Kimmalyn disse. — Não fique brava! Não estamos insinuando que seja fraca demais para andar até a sua caverna! Nós só pensamos... você sabe...

— Que seria bom dar um tempo — FM completou. — Até uma grande guerreira pode dar um tempo de vez em quando, certo, Spin?

Assenti, sem confiar em mim mesma para falar qualquer coisa.

— Ótimo! — Kimmalyn comemorou. — Vamos nessa! Subterfúgios me deixam faminta.

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