A Alma Nova
Capítulo X
MISERIA SANTA
Entrando esta manhã n'um templo da cidade Aberto á multidão mas triste e quasi só,
O ver ao desamparo a velha magestade
N'um throno a desabar, meteu-me certo dó.
Restavam tão somente alguns dourados velhos Do passado esplendor, e foi-me facil ver
Que uma nuvem de pó cobria os evangelhos Como cousa esquecida e impropria de se ler!
A virgem, sobretudo; a mãe predestinada Que o Golgotha lavou nas lagrimas de fel Que sempre hade chorar toda a mulher amada, Ou seja a mãe de Christo, ou seja a de Rossel;
Achei-a desolada e triste lá n'um canto,
Sem pompas e sem luz, coberta d'ouropeis Tão velhos como o roto e desbotado manto Que ha muito, já, deveu á crença dos fieis!
Dizer-me póde alguem d'affectos bons e puros Que eu posso ainda encontrar as bellas cathedraes Aonde o simples Christo e os martyres obscuros Campeiam no fulgor de pompas theatraes.
Bem sei; mas como disse, o acaso ou o quer que fosse Levou-me a um templo pobre e foi n'elle que vi Que ha mendigos do céo, d'olhar sereno e doce, Proletarios do altar a quem ninguem sorri!
E ao ver esta humildade,—eu tenho d'isto ás vezes,— Pensei, não sei porque, nas morbidas vizões Que não passam de ser as filhas dos burguezes Mas de rendas de França enfeitam seus roupões!