A Alma Nova

Guilherme Avelino Chave de Azevedo · Capítulo 23 de 53

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A Alma Nova

Capítulo XXI

 

A UM CERTO HOMEM

 

Agora és todo nosso: a rude voz da historia Já póde hoje falar

E dar-te um balancete ás nodoas e á gloria Rei-sol de boulevard.

Que dias d'esplendor! Porém como começa A noite e a podridão!

Foi Deus que te mandou tambem para a Lambessa Da eterna punição!

Enfarda a tua gloria e leva-a que é vergonha Que vejam ámanhã,

Que até lhe depennou as aguias de Bolonha O abutre de Sedan!

E visto que em redor nenhuma estrella brilha E a noite é longa e má,

No caminho do opprobrio acende a cigarrilha E, cezar, ouve lá:

Que altiva e bella a França! aquella Gallia ardente Que de Valmy levou,

Descalça, quasi núa; a Marselheza em frente; Nossa alma até Moscow!

Seus filhos teem a fouce: envergam rudes clamydes Depois, caminham sós;

E em quanto ceifam reis acordam nas Pyramides A alma dos Pharaós!

E vão cheios de fé, bandeira solta ao vento, Na gleba das nações,

Convictos semeando o novo pensamento No sulco dos canhões!

Mas tu chegas um dia: afogas-lhe a grandeza E quando a tens aos pés,

Celebras a victoria aos hymnos de Thereza, A musa dos cafés!

Banquetes dás ao crime; e os teus heroes d'esquína Ainda a afrontam mais,

Tornando a Marselheza em torpe Messalina D'um circo de chacaes!

E sobre alguns montões de mortos ainda quentes, Emfim campeias, tu,

Que déste á sagração das cousas dissolventes Um Petroneo-Sardou!

Porém, quando ao colher ainda um beijo á Fama Um dia avanças mais, Teu carro triumphal trambolha-te na lama E então como tu saes!…

Revolves-te no horror das vis, infectas ondas De lodo e podridão,

E vaes de manto roto e vestes hediondas Buscar a escuridão!

Em vez de reclinar a fronte ao sol ardente Da luta que sorri,

Do fumo dos canhões fugiste, e de repente… Matou-te um bistori!…

Que entrada a tua, então, na funebre morada, Pizando, incerto, o pó,

Á luz d'uma lanterna, ao vir da encruzilhada, Sinistro, sujo e só!

Das cinzas levantou-se um brado entre os jazigos Dos bons e dos leaes,

Apenas descobriste a marca dos castigos Nas faces triviaes!

E quando te assustava o olhar altivo d'Hoche E o gesto de Danton,

Sorria-te na sombra o amor da Rigolboche Meu cezar-Benoiton!

73—Janeiro.