A Alma Nova
Capítulo XVI
FLOR DA MODA
Alice, o turbilhão das salas elegantes,
Começa a entristecer; ninguem sabe por quê! Aquella flôr doente amava muito d'antes
As festas, o ruido, as cousas deslumbrantes, Agora é desolada e penso que descrê.
Que tedio se abrigou na vaga transparencia D'um todo tão subtil, aerio, divinal.
—Moderna creação da santa decadencia, Que alia gentilmente ás pompas da regencia Os indecisos tons d'um ar sentimental?!
Archanjo por quem és! desvenda esse mysterio Das vagas oppressões da tua insomnia má, E diz-me o teu sonhar visão do baixo imperio, Vestal que amas o gaz e tens o fogo ethereo Na conta d'uma cousa um tanto usada já!
No idylio pastoril das noites venturosas
Não sonhas tu de certo, e raro o hão de sonhar N'um mundo todo nosso, as bellas desditosas Que em trinta annos de fogo as suas velhas rozas Nos grandes vendavaes sentiram desbotar!
E quando a augusta voz do mar ou das florestas Abala o coração dos justos e dos bons,
Bem sei que tu não vaes, fugindo ás grandes festas,
No amor das castelãs scismar entre as giestas Com medo que te acorde a bulha dos wagons!
Eu sei talvez teu mal! A febre que hoje sentes Abraza a geração de lyrios ideaes
Que passam, como tu, galantes e doentes, D'um amor desordenado ás cousas dissolventes, Ás vozes da guitarra e aos cantos sensuaes!…
E tem de os consumir a grande nostalgia D'um mundo mais á moda e menos trivial, Onde haja um grande caso, ao menos, cada dia E se possa esquecer a vil monotonia
De tudo que nos cerca:—Alice eis o teu mal mal!
No entanto eu sei que és boa: apenas das insomnias A febre, mãe cruel d'estranhas sensações, Na fria placidez do gaz e das bigonias
Construe na tua mente as grandes babylonias D'um mundo extraordinario e monstro de visões!
Tocou-te um mal galante: és tenue e caprichosa: És boa e fazes gala em que te julguem má. E sentes sobre tudo uns tedios côr de rosa E os extasis crueis d'uma mulher nervosa: —Se existe a mulher-flôr, tu és a flôr de chá!
E chame-te o bom Deus ao foco aonde brilha Aquella eterna luz, amor dos immortaes,
Que tu amortalhada em rendas e escumilha Achar deves, talvez, da moda, ó terna filha, O céo modesto um pouco e os anjos triviaes!