A Alma Nova
Capítulo XXX
Á NOITE
Eu gosto de velar a percorrer os mundos Ó noite dos bons canticos,
Aos lividos clarões dos astros vagabundos Nos extasis romanticos,
Emquanto a vil cidade, a cortesã devassa Dos falsos ouropeis,
Com seus famintos cães, a sua lua baça
E os seus negros bordeis,
Resona torpemente aos beijos deleterios D'alguns velhos amantes;
—Os longos hospitaes e os tristes cemiterios Que a afagam delirantes!
Comtudo eu tambem sei que existe muito instante De gelos, em que tu,
Feroz, cravas o dente agudo e penetrante No pobre seio nú!
Que ha horas em que vens, nas humidas cidades, Nas choças, nos esgotos,
Cuspir cynicamente as frias tempestades No seio vil dos rotos,
Sem ter pena, sequer, da pobre mãe que passa Um dia sem ter pão,
Nem d'essa esfarrapada e velha populaça Que rosna como um cão!…
Mas em breve deixando as tenebrosas vestes, O manto dos horrores,
E o gladio vingador das coleras celestes
Ó noite dos amores,
Retomas o tom puro e santo do mysterio
Da pallida mulher
Que vae colher, scismando, um lyrio ao cemiterio E ao campo um malmequer!
Em horas de tormenta és a mulher colerica! Até cospes na cruz!
E formam-te espiraes na coma athmospherica As viboras de luz!
Porém no teu regaço, altivo, casto, enorme, Em doce e plena paz,
É que a virtude sonha e que a desgraça dorme Depois das horas más,
E em lucidos cristaes, ha scintillantes vinhos; Os casos mais galantes;
As languidas canções; os bellos desalinhos E os gestos provocantes!…
Ó filha do silencio! Aos puros alabastros
Dos hombros ideaes,
Se Deus arremessasse a quantidade d'astros Que em ti brilham a mais,
As pallidas visões que passam doloridas, E um tanto contristadas,
Haviam de surgir d'estrellas revestidas
Em trajos d'alvoradas!
Em ti cuida escutar uns sons inexprimiveis De languidas canções,
O pobre sonhador de coisas impossiveis
Que adora as solidões!
E quando o resplendor de mundos luminosos Na tua fronte cinges,
Os gatos sensuaes, electricos, nervosos
Repouzam como esphinges;
Emquanto as combustões dos lividos comêtas, Errantes e fataes,
Comsomem lentamente as grandes borboletas Dos nossos ideaes!