A Alma Nova

Guilherme Avelino Chave de Azevedo · Capítulo 20 de 53

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A Alma Nova

Capítulo XVIII

 

A CHRISTO

 

Precisamos Jesus, se não te sentes velho, Que cinjas novamente o resplendor de luz E venhas explicar a letra do evangelho

A muitos que hoje vês prostrados ante a cruz!

Ainda não cessou, de todo, essa contenda Que um dia, ha muito já, tentaste debellar: E aquelles que são bons e adoram tua lenda Desejavam tambem ouvir-te hoje falar.

Apenas resoasse o teu verbo indignado,

O latego febril das grandes corrupções,

Iria atraz de ti um mundo revoltado

Que sente na consciencia a luz das redempções.

E embora não houvesse, aqui, outra alma gemea Da tua, e tão ungida em balsamos dos céos, Havias d'encontrar essa alma de bohemia Que sonha uma justiça e sente em si um Deus!

Mas não, não voltes cá: teu corpo combalido Não póde supportar os gelos da manhã.

Precisavas de pão, d'abrigo e de vestido

E a vida aqui é cara e longo o macadam!

Terias d'encontrar, de certo, mil estorvos

No mundo revolvido, e escuta-me Jesus: Se não fosses, em fim, comido pelos corvos Talvez te fuzilasse um cura Santa-Cruz!

Serias apontado a dêdo, muitas vezes,

Como um simples bandido, um agitador feroz, E haviam de esconder seus ouros os burguezes Apenas resoasse, ao longe, a tua voz!

Depois vinhas achar a par do proletario,

Ao pé do que se innunda em bagas de suor, Aquelle velho Pedro, agora millionario,

E triste por pensar que já esteve melhor!

E perto do ocio vil á sombra do qual medra O egoismo feroz que extingue o coração, Lutando todo o dia o britador de pedra

A quem á noite espera, em casa, um negro pão;

E uns pequenos sem côr; talvez cheios de fome, Com pouca luz no olhar; atrophiados, nús; Abrindo os olhos muito á codea que elle come E indo-se deitar sem roupas e sem luz!

Assim deixa-te estar. O teu cadaver triste Recende uma fragrancia etherea e divinal, Emquanto o mundo segue e vae de lança em riste Sem treguas combatendo as legiões do Mal!

Tu foste o paladino, o trovador sagrado,

Que falaste do amor, da paz e do perdão, E o ferro que varou teu corpo lado a lado Comtudo inda reluz altivo em muita mão!

Nós, hoje, quando em luta erguemos sobre a liça O gladio vingador das oppressões crueis, Soltamos, n'um sorriso, o nome da Justiça, E ha quem saiba morrer sem bençãos nem laureis!

Descansa pois Jesus! Bem basta que tu sintas, N'esse velho sepulchro, o immenso vozear Dos mineiros sem luz, das legiões famintas, Que nunca, um dia só, deixaram de lutar,

Mas que hão de em fim vencer, porque a suprema essencia A jorros cae do céo nas mãos dos Prometheus, E tanto vae subindo a vaga da consciencia Que um dia ha de abismar-se em nós o proprio Deus