A Alma Nova

Guilherme Avelino Chave de Azevedo · Capítulo 3 de 53

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A Alma Nova

Capítulo I

 

Eu poucas vezes canto os casos melancolicos, Os lethargos gentis, os extasis bucolicos

E as desditas crueis do proprio coração;

Mas não celebro o vicio e odeio o desalinho Da muza sem pudor que mostra no caminho A liga á multidão.

A sagrada poesia, a peregrina eterna,

Ouvi dizer que soffre uma affecção moderna, Uns fastios sem nome, uns tedios ideaes; Que ensaia, presumida, o gesto romanesco E, vaidosa de si, no collo eburneo e fresco, Põe crémes triviaes!

Oh, pensam mal de ti, da tua castidade!

Deslumbra-os o fulgor dos astros da cidade, Os falsos ouropeis das cortezãs gentis,

E julgam já tocar-te as roçagantes vestes Ó deusa virginal das coleras celestes,

Das graças juvenis!

Retine a cançoneta alegre das bachantes, Saudadas nos wagons, nos caes, nos restaurantes, Visões d'olhar travesso e provocantes pés, E julgam já escutar a voz do paraiso,

Amando o que ha de falso e torpe no sorriso Das musas dos cafés!

Oh, tu não és, de certo, a virgem quebradiça Estiolada e gentil, que vem depois da missa Mostrar pela cidade o seu fino desdem,

Nem a fada que sente um vaporoso tedio Emquanto vae sonhando um noivo rico e nédio Que a possa pagar bem!

Nem posso mesmo crêr, archanjo, que tu sejas A menina gentil que ás portas das egrejas Emquanto a multidão galante adora a cruz, A bem do pobre enfermo á turba pede esmola Nas pompas ideaes da moda, que a consola Das magoas do Jesus!

E nas horas de luta emquanto os povos choram E a guerra tudo mata e os reis tudo devoram, Não posso dizer bem se acaso tu serás

A senhora que espalha os languidos fastios Nos pomposos salões, sorrindo a fazer fios Á viva luz do gaz!

Tu és a apparição gentil, meia selvagem, D'olhar profundo e bom, de candida roupagem, De fronte immaculada e seios virginaes,

Que desenha no espaço o limpido contorno E cinge na cabeça o virginal adorno

De folhas naturaes.

Tens a linha ideal das candidas figuras;

As curvas divinaes; as tintas sãs e puras

Da austera virgindade; as bellas correcções; E segues magestosa em teu longo caminho Deixando fluctuar a tunica de linho

Ás frescas virações!

Quando trava batalha a tua irmã Justiça

Acodes ao combate e apontas sobre a liça Uma espada de luz ao Mal dominador:

E pensas na belleza harmonica das cousas Sentindo que se move um mundo sob as louzas No germen d'uma flôr!

N'um sorriso cruel, pungente d'ironia,

Tambem sabes vibrar, serena, altiva e fria, O latego febril das grandes punições;

E vendo-te sorrir, a geração doente,

Sentir cuida, talvez, a nota decadente,

Das morbidas canções!

Oh, vôa sem cessar traçando nos teus hombros O manto constellado, ó deusa dos assombros, Até chegar um dia ás regiões de luz,

Aonde, na poeira aurifera dos astros,

Contricto, Satanaz enxugará de rastos,

As chagas de Jesus!

Logar á minha fada ó languidas senhoras! E vós que amaes do circo as noites tentadoras, Os fluctuantes véos, os gestos divinaes,

Podeis vel-a passar n'um turbilhão fantastico, Voando no corcel febril, nervoso, elastico, Dos novos ideaes!