A Alma Nova
Capítulo I
Eu poucas vezes canto os casos melancolicos, Os lethargos gentis, os extasis bucolicos
E as desditas crueis do proprio coração;
Mas não celebro o vicio e odeio o desalinho Da muza sem pudor que mostra no caminho A liga á multidão.
A sagrada poesia, a peregrina eterna,
Ouvi dizer que soffre uma affecção moderna, Uns fastios sem nome, uns tedios ideaes; Que ensaia, presumida, o gesto romanesco E, vaidosa de si, no collo eburneo e fresco, Põe crémes triviaes!
Oh, pensam mal de ti, da tua castidade!
Deslumbra-os o fulgor dos astros da cidade, Os falsos ouropeis das cortezãs gentis,
E julgam já tocar-te as roçagantes vestes Ó deusa virginal das coleras celestes,
Das graças juvenis!
Retine a cançoneta alegre das bachantes, Saudadas nos wagons, nos caes, nos restaurantes, Visões d'olhar travesso e provocantes pés, E julgam já escutar a voz do paraiso,
Amando o que ha de falso e torpe no sorriso Das musas dos cafés!
Oh, tu não és, de certo, a virgem quebradiça Estiolada e gentil, que vem depois da missa Mostrar pela cidade o seu fino desdem,
Nem a fada que sente um vaporoso tedio Emquanto vae sonhando um noivo rico e nédio Que a possa pagar bem!
Nem posso mesmo crêr, archanjo, que tu sejas A menina gentil que ás portas das egrejas Emquanto a multidão galante adora a cruz, A bem do pobre enfermo á turba pede esmola Nas pompas ideaes da moda, que a consola Das magoas do Jesus!
E nas horas de luta emquanto os povos choram E a guerra tudo mata e os reis tudo devoram, Não posso dizer bem se acaso tu serás
A senhora que espalha os languidos fastios Nos pomposos salões, sorrindo a fazer fios Á viva luz do gaz!
Tu és a apparição gentil, meia selvagem, D'olhar profundo e bom, de candida roupagem, De fronte immaculada e seios virginaes,
Que desenha no espaço o limpido contorno E cinge na cabeça o virginal adorno
De folhas naturaes.
Tens a linha ideal das candidas figuras;
As curvas divinaes; as tintas sãs e puras
Da austera virgindade; as bellas correcções; E segues magestosa em teu longo caminho Deixando fluctuar a tunica de linho
Ás frescas virações!
Quando trava batalha a tua irmã Justiça
Acodes ao combate e apontas sobre a liça Uma espada de luz ao Mal dominador:
E pensas na belleza harmonica das cousas Sentindo que se move um mundo sob as louzas No germen d'uma flôr!
N'um sorriso cruel, pungente d'ironia,
Tambem sabes vibrar, serena, altiva e fria, O latego febril das grandes punições;
E vendo-te sorrir, a geração doente,
Sentir cuida, talvez, a nota decadente,
Das morbidas canções!
Oh, vôa sem cessar traçando nos teus hombros O manto constellado, ó deusa dos assombros, Até chegar um dia ás regiões de luz,
Aonde, na poeira aurifera dos astros,
Contricto, Satanaz enxugará de rastos,
As chagas de Jesus!
Logar á minha fada ó languidas senhoras! E vós que amaes do circo as noites tentadoras, Os fluctuantes véos, os gestos divinaes,
Podeis vel-a passar n'um turbilhão fantastico, Voando no corcel febril, nervoso, elastico, Dos novos ideaes!