A Alma Nova

Guilherme Avelino Chave de Azevedo · Capítulo 26 de 53

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A Alma Nova

Capítulo XXIV

 

O VELHO CÃO

 

Soltava hontem já tarde um velho cão felpudo Uns doloridos ais,

Em frente d'um palacio altivo, bello e mudo, Cerrado aos vendavaes.

Fazia pena ouvil-o, o misero mollosso

Em seu triste chorar!

Era quasi uma sombra: apenas pelle e osso E um vago, um doce olhar!…

Eis a sorte cruel do pobre que não come, Dos miseros sem pão!

Em paga ainda em cima os vae tragando a Fome, A negra apparição!

Latia o cão faminto. O frio era mordente,

Feroz, quasi voraz!

E o pobre não sabia, em fim, que ha muita gente Que adora a santa paz.

Ora perto vivia uma galante rosa,

Etherea, virginal,

Que tinha um lindo collo, amava, era nervosa E a quem fazia mal,

Aquelle uivar sinistro; a ponto de em desmaios Pender a fronte ao chão!

Saíram pois á rua impavidos lacaios

E foram dar no cão.

—Ha no mundo um rafeiro, um velho cão esfaimado, —O povo soffredor,

Que ás vezes vae ganir, com fome, o seu bocado Ás portas d'um senhor.

O resto é velha historia: ocioso é já dizer-vos O fim que ella ha de ter.

A Ordem, só d'ouvil-o, alteram-se-lhe os nervos E manda-lhe bater!