A Alma Nova
Capítulo XXIV
O VELHO CÃO
Soltava hontem já tarde um velho cão felpudo Uns doloridos ais,
Em frente d'um palacio altivo, bello e mudo, Cerrado aos vendavaes.
Fazia pena ouvil-o, o misero mollosso
Em seu triste chorar!
Era quasi uma sombra: apenas pelle e osso E um vago, um doce olhar!…
Eis a sorte cruel do pobre que não come, Dos miseros sem pão!
Em paga ainda em cima os vae tragando a Fome, A negra apparição!
Latia o cão faminto. O frio era mordente,
Feroz, quasi voraz!
E o pobre não sabia, em fim, que ha muita gente Que adora a santa paz.
Ora perto vivia uma galante rosa,
Etherea, virginal,
Que tinha um lindo collo, amava, era nervosa E a quem fazia mal,
Aquelle uivar sinistro; a ponto de em desmaios Pender a fronte ao chão!
Saíram pois á rua impavidos lacaios
E foram dar no cão.
—Ha no mundo um rafeiro, um velho cão esfaimado, —O povo soffredor,
Que ás vezes vae ganir, com fome, o seu bocado Ás portas d'um senhor.
O resto é velha historia: ocioso é já dizer-vos O fim que ella ha de ter.
A Ordem, só d'ouvil-o, alteram-se-lhe os nervos E manda-lhe bater!