A Alma Nova

Guilherme Avelino Chave de Azevedo · Capítulo 24 de 53

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A Alma Nova

Capítulo XXII

 

Á HORA DO SILENCIO

 

Eu quiz hontem sonhar, sentir como um romantico A doce embriaguez do pallido luar,

Ouvindo em pleno azul passar o immenso cantico Dos astros no seu giro e em sua luta o mar!

A cidade dormia o somno dos devassos;

Aquelle somno turvo, infecto e sensual:

E a lua, antiga fada, erguia nos espaços

Tranquilla e sempre ingenua a fronte de vestal!

E sobre a quietação das coisas vis e exoticas Sentiam-se as febrís, crueis respirações, Dos tristes hospitaes e das virgens clorothicas, Dos amantes fataes da febre e das paixões!

A noite era em silencio, a athmosphera doce E ria a natureza aos beijos d'um bom Deus. De subito escutei, ao longe, o quer que fosse D'um canto que suppuz então baixar dos céos!

Attento ao vago som, porém, a pouco e pouco Senti que era uma voz disforme e sensual, Soltando uma canção n'aquelle accento rouco Da triste inspiração alcoolica e brutal!…

Ó terna vagabunda, enamorada lua!

Emquanto ias assim, diaphana e sem véo, Uma triste mulher passava, então, na rua Cuspindo uma porção d'infamias para o céo!