A Alma Nova

Guilherme Avelino Chave de Azevedo · Capítulo 39 de 53

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A Alma Nova

Capítulo XXXVII

 

ANTIGO THEMA

 

Passae larvas gentis na rua da cidade

Aonde se atropella a turba folgazã;

A noite é um tanto agreste e cheia d'humidade Mas o tedio mortal precisa a claridade

Que em vosso olhar trazeis, vizões do macadam!

Estatuas sem calor! vós sois das grandes vazas D'um corrompido mar as Deusas menos vis! Se á noite abandonaes, voando, as pobres casas, E vindes pela rua enlamear as azas,

Quem sabe a fome occulta, as sedes que sentis!

A pallida Miseria em seu triste cortejo

Precisa as contracções de muitos hombros nús: E vós ides sorrindo ao lubrico desejo,

Do carro da desgraça arremessando um beijo Que apenas é de lama em vez de ser de luz!

Embora! caminhae deixando um grande rasto D'estranhas emoções, d'aromas sensuaes: E ao pobre que mendiga a pallidez d'um astro; Ao que sonha vizões e archanjos d'alabastro Fazei por despenhar nos longos tremedaes!

Do velho idyllio, a muza, ha muito já que dorme, E o arroio em vão suspira e chora a nossos pés! A grande multidão,—a vaga, a onda enorme, Que oscilla sem cessar, e gira multiforme Ás corridas, ao circo, ao templo e aos cafés,

Talvez ao presentir que tudo, emfim, declina, Adore a immensa luz, em vós, constellações, Que não baixaes do céo; que vindes d'uma esquina, Vagando no rumor da aérea musselina,

Em plena bacchanal fingindo de vizões?

Oh, sois do nosso tempo! A languida existencia De tedios se consome e sente febres más! Aspira ao que é bizarro: a uma exquisita essencia Que exhala aquella flôr que vem na decadencia E quando a toda a luz succede a luz do gaz!

Do seculo a voz rude apenas diz—trabalha!— Ao poste vil amarra o lubrico ideal

Que expira, emfim, talhando a funebre mortalha Na vossa trança gasta, ó muzas da canalha Que apenas revoaes do olimpo ao hospital!