A Alma Nova

Guilherme Avelino Chave de Azevedo · Capítulo 36 de 53

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A Alma Nova

Capítulo XXXIV

 

NOS CAMPOS

 

A fragrancia do trevo o das flôres selvagens Da noite embalsamava as tepidas bafagens: Ao longe os astros bons olhavam-nos dos céos. O mundo era um altar; as serras grandes aras; E os canticos da paz corriam nas searas

Em honra do bom Deus.

No solemne silencio immersa ia minha alma Em tranquilla mudez; n'aquella doce calma Que sente germinar os frescos vegetaes. De subito uma voz deixou-me um pouco extatico: Detive-me um momento; olhei:—era o viatico! De noite a horas taes,

Que andava Deus fazendo, assim, pela campina, Trazido pela mão d'um padre sem batina Roubado ás sensações d'um longo resonar? Fui seguindo o cortejo até que n'uma choça O Rei dos reis entrava: o padre, com voz grossa, Movia-se a rezar.

Nos restos d'uma enxerga, ali, no vil cazebre, Um pobre cavador, mordido pela febre,

Torcia as grossas mãos nas ancias do estertor; E os filhos semi-nus sentindo a pena ignota Tentavam-se esconder na velha saia rota Da mãe louca de dôr!

A voz do sacerdote a custo resoava.

A palavra d'amor que ali se precisava,

Não posso dizer bem se acaso elle a soltou. Falava o Deus severo e forte dos castigos, Ou esse bom Jesus que aos pés d'alguns mendigos Um dia ajoelhou?

Do padre tinham medo os tremulos pequenos. Os magros cães fieis erguendo-se dos fênos Latiam tristemente em volta do cazal:

E o levita lançava áquella noite escura

A benção derradeira, erguendo a mão segura, N'um gesto machinal!

Depois transpondo, á pressa, a porta da cabana, Sahia sem deixar da sãa verdade humana O balsamo suave, o dom consolador!

Oh, de certo o Jesus de que nos fallam tanto Não era o que deixava ali, n'aquelle canto Sósinha a mesma dôr!

Sorria Deus, no entanto, em toda a natureza! Nas florestas, no val, nas serras, na deveza, Nas moitas dos rozaes, no movediço mar! O constellado azul dir-se-ía um sanctuario! Havia aquelle albergue apenas solitario,

E frio o pobre lar!

E o rude agonisante, o triste moribundo

Que em breve ía partir; abandonar o mundo; Os seus deixando sós, na terra, sem ninguem, Talvez ao presentir o fim da insana lida

Soltasse maldicções, ainda, contra a vida E contra nós tambem!

E eu lembrei-me então d'aquelles bons valentes Que lutam todo o dia e vão morrer contentes Á noite, ao pé dos seus, depondo os vãos laureis; E d'aquelles, tambem, de frontes requeimadas Que pela causa santa, em pé, nas barricadas, Se batem contra os reis!

Lembraram-me os heroes, serenos, bons, austeros, Que sagram toda a vida aos ideaes severos Da justiça e do bem; caíndo com valor,

Sem que a dextra cruel dos despotas os dome Nas batalhas da idéa; oppressos pela fome, Varados pela dor!

Ó pobres multidões! as grandes noites frias Não cessam de morder, famintas e sombrias, N'um banquete nefando os vossos corpos nus! E o lyrio da justiça; a grande flôr sagrada, Nem sempre mostra, em vós, aberta e desdobrada, As petalas de luz!

Eu quando porem lanço as vistas ao futuro E vejo dia a dia a despontar mais puro

O grande sol da idéa, em rubidos clarões, Recordo-me que sois a productiva leiva

Aonde já circula uma opulenta seiva,

De grandes creações!