A Alma Nova
Capítulo V
HISTORIA SIMPLES
Havia um rapaz são, robusto, bom, valente, De espadua larga e rija; um ceifador gentil. Cavava todo o dia, andou sempre contente E a feria dava á mãe sem falta d'um ceitil.
Elle amava a campina e os ceus largos, serenos. Aos domingos a mãe deixava-lhe uns dez reis. Deitava-se ao luar, dormindo sobre os fênos, Na fragrancia do trêvo, ao pé dos cães fieis.
A mãe tinha de seu duas vaquitas mansas: N'um cerro agreste e vil alguns palmos de chão. E tinha ainda mais não sei quantas creanças Que andavam nuas sempre e sempre a pedir pão.
O pae mal se sustinha ás vezes sobre as pernas: Era bebado e mau, batia na mulher;
E á noite, ao scintillar dos vinhos nas tavernas, Cantava canções vis de a gente ensurdecer.
Um dia uma senhora honesta da cidade,
Esplendida, gentil, sabendo-se sorrir,
Reparou no rapaz; achou-lhe propria a idade E fez-lhe um certo gesto:—o moço não quiz ir.
Teve um assomo de raiva, então, sua excellencia. Ordenou-lhe que fosse: o moço disse,—irei! Despediu-se dos seus: devia obediencia
Á senhora gentil que se chamava… a Lei!
Pegou no velho alforge e no bordão nodozo E metteu-se a caminho. Os pobres dos irmãos Choravam á partida:—um quadro doloroso! A mãe louca de dôr torcia as magras mãos!
Chegando no outro dia ao ponto onde o chamaram Primeiro foi medido e todos a final,
Depois de bem revisto, á uma, concordaram Que ao serviço do rei convinha este animal!
Aquell'outra senhora, astuta, grave, terna, —A ordem—jubilava em doces pulsações! Contava mais um servo, um filho, na cazerna, Gastando pouco mais:—uns cobres e uns feijões!…
Agora quando passa o batalhão luzente
Na rua, podeis ver o pobre cavador
Com modos imbecis, marchar pesadamente —Heroe por conta alheia—ao rufo do tambor!
Não sabe onde caminha entre as guerreiras hostes! Perguntem-lhe o que é patria e liberdade e lei!
Caminha simplesmente ás ordens dos prebostes Que trazem no chicote a salvação do rei.
E na pobre cabana ainda se conserva
O mesmo quadro triste:—a lacrimosa mãe; Alguns pequenos nús rolando sobre a herva, E um ebrio que pragueja e não pensa em ninguem!—
Mulher não chores mais: a quadra é pura e bella: Emquanto na campina alouram os trigaes, Teu filho guarda o mundo e a Deus faz sentinella: Receiam que Deus faça andar o mundo mais.
Em breve elle virá de jubilo e d'assombro Encher tua alma, em fim, quando ámanhã voltar Com seu velho canudo, a trouxa posta ao hombro, Trazendo novamente a luz ao pobre lar.
E tu perguntarás: o que é meu filho, é ouro!! A quantas guerras foste? ó ceus, como tu vens! —Mãe tome essa lata! esconda o meu thesouro E deixe-me ir dormir no fêno ao pé dos cães!