A Alma Nova

Guilherme Avelino Chave de Azevedo · Capítulo 7 de 53

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A Alma Nova

Capítulo V

 

HISTORIA SIMPLES

 

Havia um rapaz são, robusto, bom, valente, De espadua larga e rija; um ceifador gentil. Cavava todo o dia, andou sempre contente E a feria dava á mãe sem falta d'um ceitil.

Elle amava a campina e os ceus largos, serenos. Aos domingos a mãe deixava-lhe uns dez reis. Deitava-se ao luar, dormindo sobre os fênos, Na fragrancia do trêvo, ao pé dos cães fieis.

A mãe tinha de seu duas vaquitas mansas: N'um cerro agreste e vil alguns palmos de chão. E tinha ainda mais não sei quantas creanças Que andavam nuas sempre e sempre a pedir pão.

O pae mal se sustinha ás vezes sobre as pernas: Era bebado e mau, batia na mulher;

E á noite, ao scintillar dos vinhos nas tavernas, Cantava canções vis de a gente ensurdecer.

Um dia uma senhora honesta da cidade,

Esplendida, gentil, sabendo-se sorrir,

Reparou no rapaz; achou-lhe propria a idade E fez-lhe um certo gesto:—o moço não quiz ir.

Teve um assomo de raiva, então, sua excellencia. Ordenou-lhe que fosse: o moço disse,—irei! Despediu-se dos seus: devia obediencia

Á senhora gentil que se chamava… a Lei!

Pegou no velho alforge e no bordão nodozo E metteu-se a caminho. Os pobres dos irmãos Choravam á partida:—um quadro doloroso! A mãe louca de dôr torcia as magras mãos!

Chegando no outro dia ao ponto onde o chamaram Primeiro foi medido e todos a final,

Depois de bem revisto, á uma, concordaram Que ao serviço do rei convinha este animal!

Aquell'outra senhora, astuta, grave, terna, —A ordem—jubilava em doces pulsações! Contava mais um servo, um filho, na cazerna, Gastando pouco mais:—uns cobres e uns feijões!…

Agora quando passa o batalhão luzente

Na rua, podeis ver o pobre cavador

Com modos imbecis, marchar pesadamente —Heroe por conta alheia—ao rufo do tambor!

Não sabe onde caminha entre as guerreiras hostes! Perguntem-lhe o que é patria e liberdade e lei!

Caminha simplesmente ás ordens dos prebostes Que trazem no chicote a salvação do rei.

E na pobre cabana ainda se conserva

O mesmo quadro triste:—a lacrimosa mãe; Alguns pequenos nús rolando sobre a herva, E um ebrio que pragueja e não pensa em ninguem!—

Mulher não chores mais: a quadra é pura e bella: Emquanto na campina alouram os trigaes, Teu filho guarda o mundo e a Deus faz sentinella: Receiam que Deus faça andar o mundo mais.

Em breve elle virá de jubilo e d'assombro Encher tua alma, em fim, quando ámanhã voltar Com seu velho canudo, a trouxa posta ao hombro, Trazendo novamente a luz ao pobre lar.

E tu perguntarás: o que é meu filho, é ouro!! A quantas guerras foste? ó ceus, como tu vens! —Mãe tome essa lata! esconda o meu thesouro E deixe-me ir dormir no fêno ao pé dos cães!