A Alma Nova
Capítulo XXXI
A VALLA
Trazei mortos á valla; a hydra está com fome E deve ser-lhe longa a hora em que não come! Olhae como ella mostra aquelles que a vão ver, Inerte, sem pudor, de fauce escancarada, A amargura cruel da bocca desdentada
Que pede de comer!
Lançae ao monstro informe algum repasto novo! Trazei-lhe carne humana; arremeçae-lhe o povo. Tranzido pelo frio ou morto pelo sol!
E visto haver na fera abysmos insondaveis Mandae-lhe as legiões dos grandes miseraveis Que morrem sem lençol!
Eu quero vel-a farta, a lugubre panthera,
Que, na sombra agachada, olhando em roda, espera A preza que lhe inveja a gula dos chacaes. Começa a ouvir-se ao longe a marcha vagarosa Da triste procissão cruel e dolorosa
Que vem dos hospitaes.
Um velho esquife chega: em duas taboas toscas Um pobre semi-nú coberto já de moscas, N'um riso deixa ver não sei que tons crueis! Emquanto nos sorria a luz das noites bellas, Talvez que elle varresse a lama das viellas E o lixo dos bordeis!…
E poude, em fim, dormir no seio bom da morte! Apoz, como se fôra a livida consorte
D'aquelle vil despojo, ás mesmas horas vem, Trazendo por sudario os seus vestidos rotos, Uma triste mulher caída nos esgotos
Sem bençãos de ninguem!
Devora-os ambos fera! Engole-os juntamente: Reune-os em consorcio e dá-os de presente Á larva que partilha as ancias do teu ser! Aguça o teu desejo!—A garra infecta lança Ao corpo tenro e nú d'uma gentil criança
Que a mãe te vem trazer!
Redobra d'appetite! Alonga-se a teu lado A fila tenebrosa! O espectro do soldado
A par do que vergou cançado de cavar:
E o mineiro sem luz, o martyr legendario; E amparando-se a custo ao velho proletario A flôr do lupanar!
Mastiga a turba vil e alonga essa guela!
Bem vês que vem chegando um corpo de donzella Que pela candidez recorda uma vestal!
Voou-lhe, n'um sorriso, o derradeiro arranco E traz viçoso ainda um grande lyrio branco No seio virginal!
Ó monstro sensual na sombra tripudia!
Celebra no silencio a tenebrosa orgia,
Que as Deusas vem chegando ao lubrico festim! N'um beijo os labios colla á frigida epiderme E o D. Juan da morte, o cavalheiro Verme, Que viva e gose emfim!
Eu quero ver-te farta, em halitos profundos, Dormindo o somno vil dos animaes imundos, De ventre para o ar; serpente infecta e má! E ámanhã, na estação dos candidos amores, Veremos rebentar n'um tapete de flôres
O lixo que em ti ha!
E a santa mocidade; as languidas mulheres; Virão depois colher os gratos malmequeres, Pizando-te sem medo e cheias de desdem, Em danças sensuaes; o fato em desalinho; Compondo-te canções; regando-te de vinho; Sem pena de ninguem!
E tu que és monstruosa, infame, vil, medonha; Que não mostras pudor; que não sentes vergonha; Que és a campa-monturo e não pódes ser mais; Cingida em fim, tambem, de rosas orvalhadas, Terás dado um perfume ás almas namoradas, E pasto aos animaes!