A Alma Nova

Guilherme Avelino Chave de Azevedo · Capítulo 27 de 53

Páginas do PDF

A Alma Nova

Capítulo XXV

 

AS VELHITAS

 

Eu não professo muito o culto das ruinas. Prefiro uma officina ás velhas barbacãs;

Das velhinhas, porém, mirradas, pequeninas, No entanto nunca insulto as prateadas cãns.

Deixal-as caminhar, curvadas, vagarosas, Com seu bento rozario, os seus fofos beitões, A rirem-se de nós, crueis, maliciosas,

Sagazes comentando as nossas illusões!

Ah, velhitas sem côr! cabeças regeladas, Vulcões de que só resta a cinza e nada mais: Já fostes as visões; talvez as brancas fadas; Prendestes vossos pés nos humidos rosaes;

Tivestes já no olhar os bons reflexos magicos Dos lagos ideaes cubertos de luar;

As curvas sensuaes, os bellos dedos tragicos; As rosas más do inferno, os lyrios bons do altar!

Pendestes já scismando as frontes melancolicas Nas varandas á noite, amantes dos Titães Do bello amor antigo! ó Marcias das bucolicas! E agora apenas sois as mães de nossas mães!

Segui vosso caminho: as graciosas fadas, As bellas da cidade, anémicas, gentis,

Sorriem-se, talvez, das fitas desbotadas,

Dos provectos chapéos, das gallas que vestis!

Oh! mostrando os trophéos das vossas velhas rosas, Dizei-lhes, a sorrir das futeis illusões,

Que fostes já, tambem, galantes e nervosas Mas destes isso tudo a varios corações!

Agora tendes pouco: apenas uns lamentos Sentidos contra nós; queixumes sem valor E ao mundo importam muito os vossos testamentos E importa muito pouco a vossa immensa dôr!

Batei á grande porta: os bellos dias vossos Velhitas, bem sabeis, não podem voltar mais! Á terra ide levar, em fim, n'uns tristes ossos O residuo fatal das cousas virginaes!