A Alma Nova

Guilherme Avelino Chave de Azevedo · Capítulo 16 de 53

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A Alma Nova

Capítulo XIV

 

EVOCAÇÃO

 

Levanta-te Romeu do tumulo em que dormes E vem sorrir de novo á boa, á eterna luz!

De noite, ouço dizer que ha sombras desconformes E as noites do passado, oh, devem ser enormes Na atonia fatal das larvas e da cruz!

Conchega gentilmente ao peito carcomido Os restos do teu manto:—assim, que bem que estás!

Na terra hão de julgar-te um grande Aborrecido Que busca desdenhoso o centro do ruido Nas horas vis do tedio e das insonias más.

O mundo transformou-se; aquelle fundo abysmo Do antigo amor fatal, fechou-se d'uma vez, E tu filho gentil do velho romantismo,

Tu vens achar dormindo o rude prozaismo No berço onde sonhava a doce candidez!

No entanto pódes crer; faz muito menos frio Á luz do novo sol; do gaz provocador;

E o seculo apezar de gasto e doentio,

Não pode já escutar o cantico sombrio

Que fala de edeaes e cousas sem valor!

Em paz deixa dormir a terna Julieta

Que aos ceos ainda por ti levanta as brancas mãos; E em quanto por mim corre a tetrica ampulheta, Da muza alegre e vil da torpe cançoneta

Saudemos a nudez a par dos bons pagãos!

Nas praças, tu bem vês; a turba prazenteira Innunda-se na luz de mil constellacões!

E os archanjos da rua assomam na poeira Que exhala o macadam, trazendo em cada olheira O astro creador das grandes sensações!

E quando a cotovia á estrella matutina

Mandar a saudação, lá fora, em pleno céo, Romeu tu beijarás, que é tua eterna sina, A trança da belleza anemica e franzina

Que entre os fumos da festa, a amar, adormeceu!