A Alma Nova

Guilherme Avelino Chave de Azevedo · Capítulo 21 de 53

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A Alma Nova

Capítulo XIX

 

Eu tive um sonho estranho: ouvi que vou dizel-o. Era em praia dezerta, em frente a um longo mar: Nos céos havia a nevoa, a mãe do Pezadêlo, E o vago, o incerto, o informe em tudo a oscillar!

De subito surgiu, na praia, uma criança

D'olhar profundo e bom, d'angelica expressão, E o mar contemplou com tanta confiança Que nem que visse n'elle o berço d'um irmão!

Mas a vaga subindo, em cada extremo arranco Levando ia comsigo aquella flôr dos céos! E em breve só boiava um tenue vulto branco No mar onde fluctua o espirito de Deus!

Mais tarde á beira-mar chegava a pura imagem Da mais casta mulher que em vida pude ver. Detinha-se distante:—a espuma da voragem Só meia extenuada aos pés lhe ia morrer!—

O immenso mar, porém, crescia a cada instante Mais turvo e mais veloz! depois… Não quiz vêr mais. Ergui-me e caminhei de val em val errante Pensando tristemente em coisas ideaes!—

Ao longe, muito além, na serra desviada

De subito encontrei—ó estranha apparição—! Uma pobre velhita enferma e desolada

Trazendo já no olhar a grande cerração!

Que idéa me assaltou não sei dizel-o agora. Aonde iria o espectro, aquella sombra vãa? Iria aonde vae o que hontem foi aurora

E aonde irão tambem as rosas d'ámanhãa?…

Dos meus instantes bons, ó lucida chimera, Bem vês que os sonhos maus são faceis d'esquecer! Que importa a grande noite em plena primavera, Que importa o que tu foste, o que és, e o que has de ser!!