A Alma Nova

Guilherme Avelino Chave de Azevedo · Capítulo 5 de 53

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A Alma Nova

Capítulo III

 

VELHA FARÇA

 

Rufa ao longe um tambor. Dir-se-ia ser o arranco D'um mundo que desaba; ahi vae tudo em tropel! Vão ver passar na rua um velho saltimbanco E uma féra que dansa atada a um cordel.

Ó funambulos vis, comediantes rotos,

O vosso riso alvar agrada á multidão!

E quando vós passaes o archanjo dos esgotos Atira-vos a flôr que mais encontra á mão!

Lá vae tudo a correr: são as grotescas dansas D'uns velhos animaes que já foram crueis E agora vão soffrendo os risos das creanças E os apupos da turba a troco de dez réis.

Conta um velho histrião, descabellado e pallido, Da féra sanguinaria o instincto vil e mau,

E vae chicoteando um urso meio invalido Que lambe as mãos ao povo e faz jogo de páu.

Depois inclina a face e obriga a que lh'a beije A fera legendaria olhada com pavor:

E uma deosa gentil, vestida de bareje,

Annuncia o prodigio a rufo de tambor!

E as mães erguem ao collo uns filhos enfezados Que nunca tinham visto a luz dos ouropeis: E accresce á multidão a turba dos soldados, —Ao ilota da cidade o escravo dos quarteis.

E o funambulo grita; impõe qual evangelho Á turba extasiada a grande narração.

E sobre um cão enfermo um ourangotango velho Passeia nobremente os gestos de truão.

Correi de toda a parte, aligeirae o passo, Deixae a grande lida e vinde á rua vêr

As prendas d'uma fera, as galas d'um palhaço, E um archanjo que sua e pede de beber!

A tua imagem tens ó povo legendario

No comico festim que mal podes pagar,

Pois tu ainda és no mundo o velho dromedario Que a vara do histrião nas praças faz dansar.