A Alma Nova
Capítulo XXXV
O ULTIMO D. JUAN
D'aquelle de quem falo, as socegadas lousas Podiam-vos contar as violações brutaes!
A gula com que morde as mais sagradas cousas D'horror faz recuar os trémulos chacaes.
Não descanta á viola, á noite, os seus enleios: Elle vive na sombra e eu sei também que vós, Gentis bellezas d'hoje, ó astros dos Passeios, Lhe não lançaes, a furto, a escada de retroz.
Mas sede muito embora as virgens sem desejos, As monjas virginaes, uns pudicos dragões; Fechae o niveo collo aos vendavaes dos beijos, E ás noites de luar os vossos corações;
Um dia hade chegar em que elle, informe, tosco, Sem garbo, sem pudor, grotesco, infame, vil; Nas grandes solidões irá dormir comvosco, Mordendo em cada seio o lyrio mais gentil!
E o que elle adora muito ó virgens romanescas Não é o que abrigaes d'ethereo e virginal: Adora os corpos nus; as bellas carnes frescas; Deixando o resto a vós damnados do ideal!
Não vive como nós de candidas mentiras: Não communga do amor esse illuzorio pão: Devora com fervor as pallidas Elviras
E em muitos seios bons dá pasto ao coração!
Tem palacios na sombra e fazem-lhe um thesouro Maior do que o dos reis; adora as solidões: Não uza d'espadim; não traz esporas d'ouro; Mas vive como os reis das grandes corrupções!
Flôres sentimentaes! tremei do paladino,
Do velho D. Juan, feroz conquistador,
A quem da vossa bocca um halito divino, Em vida, faz fugir talvez cheio d'horror;
Mas que um dia virá, na candida epiderme, Na sagrada nudez dos collos virginaes,
Em hymnos de triumpho—o grande Cezar-Verme!— Colher o que ficou de tantos ideaes!