A Alma Nova
Capítulo XLVI
VERSOS A *
Eu sou, mulher suave, aquelle antigo louco, O triste sonhador que o teu olhar cantou, E que hoje vae sentindo, o sonho, a pouco e pouco, Fugir como o luar d'um astro que expirou!
Que morra, porque, emfim, bem longo elle tem sido E tempo é já, talvez, da Morte desposar
O sonho que em minha alma entrou como um bandido E só da vida sae depois de me roubar!
Eu devera amarral-o á braga do forçado,
Como a Justiça faz aos despreziveis réos, E lançal-o depois á valla do passado
Aonde o fulminasse a colera dos céos.
Mas não; quero embalar-lhe os ultimos momentos Ao som d'uma canção das quadras juvenis, E amortalhar depois—em doces pensamentos— No manto da saudade, os seus restos gentis.
E quando elle seguir ás regiões saudosas, Aonde todos nós iremos repousar,
Ao esquife hei de atirar-lhe as derradeiras rosas Que dentro de minha alma houver por desfolhar!
Ninguem profanará seus restos adorados, Que em paz irão dormir n'um fundo mausoleo; E quando alguma vez já hirtos, regelados, Acordem, por ventura, á luz que vem do céo;
Em vão tu baterás, ó sonho, á fria porta
Que em breve has de sentir fechada sobre ti, Porque a tua Memoria, emfim, já estará morta, E não te escutarei… porque também morri!